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A Importância dos Moluscos na Saúde Pública

Autor:
Instituição: UCG
Tema: Moluscos

Moluscos

Goiânia, GO

Novembro de 2002



Introdução

O filo Mollusca compreende cerca de oitenta a cem mil espécies, que ocupam todos os habitates conhecidos. Possuem o corpo mole, não segmentando, consistindo tipicamente de uma cabeça anterior, um pé ventral e uma massa visceral dorsal. São animais que vivem caracteristicamente apoiados sobre o substrato; entretanto, alguns Gastrópodes e Cefalópodes têm vida pelágica. Diferem dos outros animais por apresentarem duas estruturas exclusivas: o manto e a rádula. O manto é uma dobra da parede do corpo que envolve a massa visceral e cuja porção mais externa tem células que secretam uma concha calcária. A concha está presente na maioria dos moluscos; em alguns grupos desaparece, e em outros se apresenta reduzida e recoberta por uma dobra do manto. A constituição da concha (carbonato de cálcio e uma substância orgânica chamada conchiolina) propicia grandes resistências aos choques mecânicos, devido a esse fato, o numero de fosseis de moluscos é grande, o que nos fornece importantes informações filogenéticas. A rádula, ausente nos bivalves, é uma fita de crescimento contínuo, provida de dentes dispostos em numerosas séries iguais; movimenta-se para diante e para trás raspando o alimento e reduzindo-o a finas partículas. O tipo de rádula varia entre os diversos grupos de moluscos, apresentando-se sob formas especializadas.

Os moluscos são o segundo maior grupo de animais em número de espécies, sendo suplantado apenas pelos artrópodes. Apresentam uma disparidade morfológica sem comparação dentre os demais filos de animais, reunindo os familiares caracóis (reptantes), ostras e mariscos (sésseis) e lulas e polvos (livre-natantes), assim como formas pouco conhecidas, como os quítons, conchas dente-de-elefante (Scaphopoda) e espécies vermiformes (Caudofoveata e Solenogastres). Essa extrema diversidade de formas produz uma primeira impressão de que se trata de um grupo não natural. Os moluscos invadiram quase todos os ambientes; costuma-se dizer que só não há moluscos voando. Ocorrem das fossas abissais até as mais altas montanhas; das geleiras da Antártica até desertos tórridos. Vários grupos de bivalves e gastrópodes saíram do mar e invadiram a água doce e, no caso dos gastrópodes, o ambiente terrestre. Existem moluscos predadores (até mesmo de vertebrados), herbívoros, ecto e endoparasitas, filtradores, comensais, sésseis, vágeis, pelágicos, neustônicos etc. Em certos ambientes representam grande biomassa e podem ser importantes na reciclagem de nutrientes. Provas do contato do homem com os moluscos remontam a épocas pré-históricas. Conchas de moluscos fazem parte de jazigos arqueológicos, incluindo, aqui no Brasil, os "sambaquis". Os moluscos serviam de alimento e suas conchas eram utilizadas como ornamento e para a confecção de utensílios de corte, abrasão etc. Há relatos de muitas culturas em que conchas eram usadas como moedas ou mesmo ostentação de poder e sabedoria.

Ainda hoje os moluscos são extremamente importantes na economia de muitos países, como fonte de alimento rico em proteínas, sendo coletados diretamente da natureza ou mesmo cultivados. Em muitos países, possibilitam até a existência de uma indústria de pérolas e de adornos de madrepérola. Apresentam interesse médico-sanitário, pois muitas espécies são vetores de doenças, enquanto outras, aparentemente, podem ser usadas no controle destas.

Em que pese toda a supracitada gama de interesse humano, dentre outras não mencionadas, a quantidade de pessoas que já se dedicaram ao estudo desses animais é proporcionalmente pequena, e muito conhecimento necessita ainda ser gerado para que este atinja um nível satisfatório. 


Morfologia

Os moluscos são animais triblásticos, celomados e protostômios. Apresentam o corpo mole, não segmentado, e com simetria bilateral. A cabeça ocupa posição anterior, onde se abre a boca, entrada do tubo digestivo. Muitas estruturas sensoriais também se localizam na cabeça, como os olhos. Sensores químicos também estão presentes nos moluscos e permitem pressentir a aproximação de inimigos naturais, quando o molusco rapidamente fecha sua concha, colocando-se protegido.

O pé é a estrutura muscular mais desenvolvida dos moluscos. Com ele, podem se deslocar, cavar, nadar ou capturar suas presas. O restante dos órgãos está na massa visceral.

Nela, estão os sistemas digestivo, excretor, nervoso e reprodutor. Ao redor da massa visceral, está o manto, responsável pela produção da concha. Entre a massa visceral e o manto, há uma câmara chamada cavidade do manto. Nos moluscos aquáticos, essa cavidade é ocupada pela água que banha as brânquias; nos terrestres, é cheia de ar e ricamente vascularizada, funcionando como órgão de trocas gasosas, análoga a um pulmão.

Uma característica marcante da maioria dos moluscos é a presença da concha. Trata-se de uma carapaça calcária, que garante boa proteção ao animal. Nas lesmas e nos polvos, ela está ausente; nas lulas, é pequena e interna. 

Os moluscos são enterozoários completos. A digestão dos alimentos se processa quase totalmente no interior do tubo digestivo (digestão extracelular). Algumas macromoléculas só completam a sua fragmentação no interior das células de revestimento do intestino (digestão extracelular).

A maioria dos moluscos apresenta sistema circulatório aberto ou lacunar, no qual o sangue é impulsionado pelo coração, passa pelo interior de alguns vasos e depois alcança lacunas dispostas entre os vários tecidos, nas quais circula lentamente, sob baixa pressão, deixando nutrientes e oxigênio, e recolhendo gás carbônico e outros resíduos metabólicos.

Essas lacunas são as hemoceles. Os cefalópodos constituem uma exceção, pois têm sistema circulatório fechado. Na cavidade celomática abrem-se os nefrídios, as estruturas excretoras. Pela abertura interna dos nefrídios (o nefróstoma), penetram substâncias presentes no sangue e no líquido celomático. Em alguns moluscos, como nos cefalópodos, os nefrídios encontram-se bastante agrupados, formando um "rim" primitivo.

Em quase todos os moluscos, a membrana do manto é vascularizada e permite a ocorrência de trocas gasosas entre o sangue e a água. Nos moluscos terrestres, como o caramujo-de-jardim (Helix sp.), a cavidade do manto é cheia de ar e comporta-se como um pulmão. Trata-se, portanto, de uma forma particular de respiração pulmonar. Nos moluscos aquáticos, existem lâminas ricamente irrigadas por vasos sangüíneos, no manto, e que formam as brânquias desses animais. Portanto, entre os moluscos podemos encontrar respiração pulmonar e respiração branquial.

O sistema nervoso dos moluscos é ganglionar, com três partes de gânglios nervosos de onde partem nervos para as diversas partes do corpo. Os cefalópodos possuem um grande gânglio cerebróide, semelhante ao encéfalo dos vertebrados.

A reprodução dos moluscos é sexuada e, na maioria dos representantes do grupo, a fecundação é interna e cruzada. O caramujo-de-jardim, por exemplo, é monóico. Na cópula, dois indivíduos aproximam-se e encostam seus poros genitais, pelos quais fecundam-se reciprocamente. Os ovos desenvolvem-se e, ao eclodirem, liberam novos indivíduos sem a passagem por fase larval (desenvolvimento direto).

Nas formas aquáticas, há espécies monóicas e espécies dióicas (como o mexilhão). A forma mais comum de desenvolvimento é o indireto. Os estágios larvais mais conhecidos dos moluscos são a véliger e a trocófora. 


Classificação

Classe Polyplacophora ou Amphineutra

(Chiton magnificus)

São moluscos de corpo elíptico, com superfície dorsal convexa contendo uma concha formada por oito placas calcárea que se encaixam entre si; essas placas são circundadas por uma cintura carnosa espessa contendo cerdas ou espinhos. A cabeça é reduzida, desprovida de olhos e tentáculos. São exclusivamente marinhos, vivendo sobre rochas, geralmente em águas rasas. Conhecidos como quítons.

Classe Scaphopoda

(Dentalium meridionale)

Os representantes desta classe têm corpo alongado envolvido por um manto que secreta uma concha ligeiramente recurvada que lembra as presas de um elefante, dai o nome Dentalium, espécie que vive enterradas nas areias marinhas. A concha representa duas aberturas, uma basal mais larga e a outra terminal bem mais estreita. O pé alongado, cilíndrico e pontiagudo é usado para cavar, fixando o molusco na areia. Da abertura basal da concha, junto do pé saem vários tentáculos denominados captaculos que funciona como órgãos tácteis e adesivos, para apreensão de alimentos. Não existe cabeça. São marinhos, e vivem parcialmente enterrados na areia.

Classe Gastropoda

(caramujos, caracóis, lesmas, etc.)

Compreende moluscos com cabeça distinta sustentando olhos e tentáculos; pé ventral e achatado, concha formada por uma peça (univalve) geralmente espiralada, sendo que a maioria pode recolher-se completamente dentro de sua concha, e muitos tem uma placa permanente (opérculo) para fechar a abertura. Um gastrópodo comum é o caracol de jardim, pertencente ao gênero Bradybaena, que apresenta o corpo dividido em 3 partes : cabeça, pé e massa visceral.


1 - Pé
2 - Orifício Genital
3 - Rádula
4 - Boca
5 - Mandíbula
6 - Tentáculos
7 - Estômago
8 - Ânus
9 - Canal Excretor
10 -Pulmão
11 -Gônada Hermafrodita

Cabeça - é bem distinta, apresentando dois pares de tentáculos retracteis dos quais os posteriores, mais longos que os anteriores, apresentam na extremidade os pequenos olhos, Na face ventral da cabeça está situada a boca.

Pé - é o musculoso e apresenta a face inferior achatada, formando uma espécie de sola a qual o animal rasteja. Uma glândula mucosa designada por glândula pedal, situa-se anteriormente, abrindo-se logo abaixo da boca; seu conteúdo serve para facilitar o movimento do animal.

Massa Visceral - encontra-se quase que totalmente protegida pela concha, que secretada pelo manto é espiralada e cônica. No molusco perfeitamente distendido, notamos junto a abertura da concha, o pneumóstoma ou poro respiratório , o ânus e ainda o poro excretor. Corresponde ao maior grupo de moluscos, marinhos, de água doce e de ambientes terrestres. A concha, quando presente, tem formato helicoidal.

A classe Gastropoda pode ser dividida em 3 ordens:

Prosobrânchia - compreende espécies portadoras de conchas, geralmente bem desenvolvidas; possuem pé calcáreo que é empregado como opérculo para fechar a entrada da concha, quando recolhida no seu interior. Apresenta dois tentáculos e dois olhos. São portadores de branquias, colocadas diante do coração. Ex. Strombus e Ampullaria.

Opistbranchia - apresenta concha pouco desenvolvida e mesmo ausente, dois pares de tentáculos, olhos na base dos dois posteriores, coração colocado diante das brânquias. Ex. Aphysia.

Pulmonata- são encontrados na terra ou água doce. Caracterizam-se pela respiração através da cavidade palial transformada em pulmão. A concha é fraca, podendo algumas vezes faltar completamente. Possuem dois pares de tentáculos na cabeça. Ex. Limnea, Biomphalria, Bradybaena, Obeliscus, Strophocheilus, etc.


Classe Bivalvia ou Pelcypoda

(Lamellibranchiata)

Mexilhões, ostras, pecten, teredo, etc.

São animais compridos lateralmente, com o corpo consistindo em um pé musculoso e retractil, em forma de machado, um manto e massa visceral. Apresenta brânquias laminares (lamelibranquios). Não apresentam cabeça. A concha consiste de duas valvas simétricas (bivalve), que se unem dorsalmente através de uma chamada charneira. Sua abertura é determinada por um ligamento elástico que fica por cima da charneira. O fechamento é conseqüência da contração de músculos adutores, que passam de uma valva a outra através da massa visceral.

As margens do manto formam atrás, dois tubos curtos: um sifão ventral ou inalante e um sifão exalante. Através do primeiro penetra a água que banha as brânquias para a respiração ; o sifão exalante elimina a água, os excrementos, e os gametas. São animais filtradores.

Os bivalves são todos aquáticos principalmente marinhos, mas pode também ocorrer espécies de água doce vivendo em lagoas, lagos e rios. Geralmente estão enterrados na areia, no lodo ou entalados entre rochas com valvas ligeiramente abertas e os sifões expostos.

O mexilhão marinho (Mytilus) fixa-se a objetos sólidos com um bisso de fios secretados pelas glândulas do pé. Ostras comestíveis (Ostrea) fixam-se permanentemente as rochas por meio de uma secreção. Os teredos ( teredo e pholas) perfuram com a concha e madeiras de navios ou portos imersos na água, causando grandes prejuízos. Possui junto ao pé glândulas bissogênicas que segregam o bisso, uma espécie de visgo com o qual se prendem às rochas, mas pode libertar-se e nadar batendo as valvas.

Apresentam as brânquias recobertas por uma camada de muco; ao passar pelas brânquias, partículas alimentares ficam aderidas ao muco e são levadas para a boca.   

Os bivalos são os responsáveis pela produção das pérolas de valor comercial, embora qualquer molusco dotado de concha possa fabricá-las. As pérolas são formadas pela deposição de nácar ao redor de uma partícula estranha que penetra entre o manto e a concha.


Classe Cephalopoda (polvos, lulas, nautilus)

Os cefalópodos não possuem concha, a não ser o Nautilus (uma espécie rara) e a fêmea do Argonauta (outra espécie também em extinção). As lulas e calamares possuem um rudimento de concha interna — a pena, siba ou gládio, de natureza calcária e rígida. São os moluscos mais evoluídos, possuem o corpo dividido em 3 partes : cabeça, tentáculos e massa visceral. A característica principal dessa classe, contudo, é a presença de pés transformados em tentáculos ligados diretamente à cabeça, explicando-se assim a origem do nome (do grego cephale, ‘cabeça’, pous, podos, ‘pés’). Os polvos (Octopus vulgaris) e as lulas (Loligo brasiliensis e Sepia officinalis) apresentam a cabeça com dois grandes olhos, situados lateralmente, boca central rodeada por tentáculos ou braços. Estes constituem 5 pares, sendo e menores mais grossos com numerosas ventosas no lado interno; os dois tentáculos restantes são bem mais longos, apresentando ventosas apenas nas extremidades dilatadas.

Logo após o pescoço há uma espécie de funil muscular chamado sifão; o resto é delgado, cônico, com uma nadadeira triangular ao longo de cada lado da extremidade afilada.

As lulas deslocam-se rastejando ou nadando. No primeiro caso utilizando os braços com suas ventosas, no segundo usando as nadadeiras que também servem como leme de altitude. A água utilizada para respiração penetra na cavidade paleal através de uma abertura situada entre o manto e o corpo na região do pescoço. Por contração enérgica do manto a água da cavidade paleal é expulsa em sentido oposto. O sifão pode curvar-se para trás, mudando a direção de deslocamento do animal.

Algumas espécies possuem a glândula de tinta que secreta uma substância escura quando atacados, obscurecendo o meio e dificultando a ação de predadores.

Os Cephalopodos apresentam como órgãos sensoriais mais evoluídos, os olhos cuja organização é semelhante ao dos vertebrados. Assim, encontramos no olho, a córnea, o cristalino, a íris com pupila, duas câmaras e a retina . Este olho é capaz de produzir imagens reais. A classe divide-se em duas ordens:

TETRABRANQUIA - com dois pares de brânquias, sem glândula de tinta, sem cristalino, numerosos tentáculos, porém não prenseis. Possuem conchas calcárea univalva plurilocular, externa. Exp. Nautilus .

 

DIBRANQUIA - A concha quando existe e interna, calcárea, não espiralada; corpo cilíndrico ou globoso, 8 a 10 tentáculos, olho com cristalino, existência de glândulas de tinta. Há duas subordens:

Decapoda - com 10 tentáculos, sendo 8 curtos e semelhantes, com muitas ventosas, os outros dois tentáculos são maiores com poucas ventosas e terminam em clavas (dilatação). Exp. Loligo peali (lula), Sepia officinalis .

Octopoda - Possuem 8 tentáculos, não há conchas (polvo), cujo principal gênero é o Octopus.

Posição Sistemática 

Reino: Animalia

Sub reino: Metazoa

Filo Mollusca

Número de espécies

No mundo: 100.000
No Brasil: 1.600

Latim: molluscus = mole


Importância econômica

O homem usou bivalves como alimentos, em muitas costas sambaquis (montes de conchas de moluscos e outros objetos), onde povos antigos durante muitas gerações comeram moluscos e jogaram suas conchas.

Botões de madrepérola para roupas, são feitos de conchas de bivalves de água doce, nenhum outro material suporta lavagens repetidas tão bem. As pérolas são formadas ao redor de objetos estranhos existentes entre o manto e a concha dos bivalves. Uma pequena porção do manto circunda o objeto e secreta camadas sucessivas de nácar sobre ele, da mesma forma como a concha é produzida .

Uma das principais espécies produtoras de pérola é a Meleagrina margaretifera existentes no Japão, oceano pacifico e Ceilão. No Brasil, ha bivalves capazes de formar pequenas pérolas de pouco valor comercial. São encontradas no rio Tocantins.

Importância na saúde pública

Os primeiros estudos sobre moluscos de importância médica e veterinária realizados no Brasil foram conduzidos por Adolpho Lutz, no Instituto Oswaldo Cruz. Suas pesquisas sobre a esquistossomose e seus transmissores foram feitos independentemente dos de Leiper no Egito, cujas publicações, iniciadas em 1915, tinham sua circulação dificultada pela 1ª Guerra Mundial. Também se deve a ele o primeiro levantamento, embora parcial, dos moluscos planorbídeos e da esquistossomose no Brasil, do Rio Grande do Norte até à Bahia (FIOCRUZ).

Os Planorbidae habitam águas rasas, paradas ou de fluxo lento, com qualidades moderadas de matéria orgânica e de penetração de luz; pequena turbidez, substrato lodoso. Permanecem em condições secas durante longos períodos, desde que as condições sejam convenientes. Em condições adequadas se reproduzem durante o ano todo, são hermafroditas, a cópula se dá com um indivíduo atuando como macho e outro como fêmea. São ovíparos.

Biomphalaria glabra (Say, 1818), nome vulgar: corondó, importante vetor do Schistosoma mansoni no nordeste do Brasil. Biomphalaria straminea (Dunker, 1848), nome vulgar corondó, esta espécie é o mais importante hospedeiro intermediário de Schistosoma mansoni nas Américas.

Schistossoma mansoni. Na foto, o mais fino é a fêmea e o mais grosso, o macho.

A esquistossomíase (forma adotada pela Nomeclatura Internacional de Doenças) também é conhecida como bilharziose ou esquistossomose. É causada por vermes do gênero Schistosoma, que parasitam as veias do homem e de outros animais, onde se fixam por meio de ventosas. Dentre as diversas espécies, destacam-se o S. haematobium (mais comum na África e no Mediterrâneo), o S. japonicum (mais presente no sudeste asiático) e o S. mansoni (presente, sobretudo, em países americanos, como o Brasil), que será a espécie descrita aqui.

O verme apresenta sexo separado, pertence à família dos trematódeos e pode chegar a medir um centímetro de comprimento.

O ciclo

A água é o meio que o S. mansoni utiliza para infectar o homem (hospedeiro principal) e o caramujo do gênero Biomphalaria (hospedeiro intermediário). O ciclo de evolução da esquistossomíase começa quando fezes de algum enfermo infectadas com ovos entram em contato com a água. Os ovos germinam e liberam a primeira forma larval do S. mansoni, conhecida como miracídio. A larva precisa de condições ambientais apropriadas para sobreviver, o que acaba com o mito de que a esquistossomíase ocorre apenas em águas poluídas.

O ciclo da esquistossomíase: os ovos (foto à esquerda), lançados na água junto com as fezes de algum doente, eclodem e originam o miracídio (foto à direita).

Assim que sai do ovo, o miracídio busca e penetra o caramujo, onde, durante 20 ou 30 dias, multiplica-se e transforma-se em outra larva, conhecida como cercária. Um caramujo é capaz de liberar milhares de cercárias em um só dia, dando início à segunda fase do ciclo. Normalmente as cercárias são libertas entre 11 e 17 horas, raramente à noite e são capazes de sobreviver só durante algumas horas. Uma vez na água, a cercária nada em busca de seu hospedeiro definitivo.

O miriacídeo penetra o caramujo do gênero Biomphalaria (foto à esquerda), onde multiplca-se e transforma-se na segunda forma larval do S. mansoni: a cercária (foto à direita).

Após penetrar o corpo humano, a cercária migra para a corrente sangüínea ou linfática. Com um dia de infecção, é possível encontrar larvas nos pulmões e nove dias depois as mesmas rumam para o fígado, onde se alimentam de sangue e iniciam sua maturação. No vigésimo dia, os vermes, já adultos, começam a se acasalar e sete dias depois a fêmea já libera os primeiros ovos. Em média, apenas após o quadragésimo dia de infecção será possível encontrar ovos de S. mansoni nas fezes do enfermo.

Os sintomas

Febre, dor de cabeça, calafrios, sudorese, fraqueza, falta de apetite, dor muscular, tosse e diarréia, esse os sintomas da esquistossomíase em sua fase aguda. O fígado e o baço também aumentam devido às inflamações causadas pela presença do verme e de seus ovos. Se não for tratada, a doença pode evoluir para sua forma crônica, onde a diarréia fica cada vez mais constante alternando-se com prisão de ventre e as fezes podem aparecer com sangue. O doente sente tonturas, coceira no ânus, palpitações, impotência, emagrecimento e o fígado endurece e aumenta ainda mais. Nesse estágio, a aparência do enfermo torna-se característica: fraco, mas com uma enorme barriga, o que dá a doença seu nome popular de barriga d'água.

Criança com Barriga d’água.

O Departamento de Malacologia da FIOCRUZ dedica-se a investigações sobre os moluscos pulmonados da Região Neotropical, com ênfase naqueles que funcionam como hospedeiros intermediários de parasitos de importância médica e veterinária. Essas investigações concentram-se principalmente em torno da família Planorbidae, na qual estão compreendidas as espécies transmissoras do Schistosoma mansoni, mas estende-se à família Lyminaeidae, que inclui os transmissores da Fasciola hepática (Lymnaea columella, hospedeiro intermediário).

Achatina fulica (Bowdich, 1822), é espécie pertencente ao grupo dos moluscos pulmonados terrestres, conhecida como caramujo gigante africano. Adultos dessa espécie possuem conchas com 15 a 20 cm de altura e 10 a 12 cm de comprimento. Chega a pesar 200 g.

A introdução de A. fulica no continente americano iniciou-se pelo Havaí, nos idos de 1939, tendo alcançado a Califórnia ao fim da Segunda Guerra Mundial; foi registrada na Flórida no início da década de 70. Nos inúmeros países em que se estabeleceu, A. fulica promoveu a devastação de plantações de banana, mamão, amendoim, café, cítricos e outras, bem como a destruição de grãos armazenados, de jardins e de hortas domésticas. Nos EUA e na Austrália foi considerada praga agrícola, exigindo grandes esforços para o seu controle e erradicação nas áreas invadidas. Em outros países, como Índia, Madagascar e do Sudeste asiático, a espécie permanece presente.

As duas espécies de Angiostrongylus de maior importância em saúde pública são:

Angiostrongylus cantonensis

Distribuição geográfica: encontrado principalmente no Sudeste Asiático e Bacia do Pacífico e ainda não notificado no Brasil.

Etiologia: comprometimento cerebral, geralmente benigno, determinando meningoencefalite eosinofílica. Pode eventualmente alojar-se no globo ocular, com risco de cegueira.

Angiostrongylus costaricensis

Distribuição geográfica: encontrado principalmente na Costa Rica ocorrendo no Brasil e demais países da América do Sul e Central.  

Etiologia: comprometimento de tecidos do trato intestinal, em especial as artérias mesentéricas da região íleo cecal, causando inflamações e oclusões intestinais e do apêndice cecal podendo evoluir para formas graves e por vezes fatais.

O encontro de A. fulica em vida livre é importante por se tratar de espécie envolvida na transmissão de Angiostrongylus cantonensis (Chen, 1935), nematodo causador da angiostrongilíase meningoencefálica no homem, doença também denominada meningite (ou meningoencefalite eosinofílica). O parasita aloja-se no sistema nervoso central com extrema gravidade e conquanto apenas conhecido há pouco mais de duas décadas, já foi reportado em diversas regiões geográficas. Do ciclo de A. cantonensis participam como hospedeiros intermediários, além de A. fulica, caramujos outros, como Bradybaena similaris (Ferrussac, 1821) e Subulina octona (Bruguière, 1789), além de lesmas dos gêneros Veronicella, Limax e Deroceras. Até mesmo o prosobrânquio dulcícola Ampullarius canaliculatus (Lamarck, 1822) é anotado como hospedeiro intermediário. Porém, a susceptibilidade de A. fulica ao parasita, bem como a produção de larvas do nematodo, é superior à dos demais moluscos. A angiostrongilíase meningoencefálica apresenta clínica muito variável. Embora poucas vezes fatal, os sintomas podem se arrastar por meses, e além disso ocorrem casos de lesões oculares permanentes. Parece ser contraída pelo homem através da ingestão de larvas de terceiro estádio de A. cantonensis, ou de moluscos infectados pelo verme. Como as larvas são encontradas no muco produzido pelo molusco, e porque eles são ávidos por verduras, legumes e frutas como fonte alimentar, é provável que o consumo humano desses vegetais seja a maneira mais comum de aquisição do parasita. O conhecimento do ciclo vital de Angiostrongylus, apesar de incompleto, mostra uma complexidade de situações nas quais o homem provavelmente aparece como hospedeiro eventual. O molusco é o hospedeiro intermediário e pequenos roedores urbanos e silvestres são experimentalmente susceptíveis à infecção pelo nematóide.

No contexto epidemiológico atual, a angiostrongilíase meningoencefálica permanece ausente na área continental americana. Já a outra forma da doença, caracterizada pelo comprometimento de órgãos abdominais, causadas por Angiostrongylus costaricensis (Morena e Céspedes, 1971) é encontrada dos EUA ao norte da Argentina. No Brasil, a forma abdominal incide nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e no Distrito Federal, e tem por hospedeiro intermediário Phyllocaulis variegatus (Semper, 1885), lesma de dilatada distribuição geográfica no continente sul-americano e outros moluscos, como Limax maximus (Linnaeus, 1758), L. flavus (Linnaeus, 1758) e B. similaris.

A identificação do verme em amostras de tecidos é difícil, os ovos do verme não aparecem nas fezes dos pacientes e a própria zoonose é desconhecida da maioria dos médicos sanitaristas e patologistas. Os sintomas podem ser confundidos com os de outras doenças.

Sintomas da angiostrongilíase abdominal:

1. Dor abdominal, febre prolongada, anorexia e vômitos.
2. Exames físicos revelam a presença de massa intra-abdominal que pode ser confundida com tumores ou abscessos.
3. Exames de laboratório acusam leucocitose e eosinofilia.
4. Ocorrem dificuldade de preenchimento e irritação intestinais.
5. Lesões patológicas são encontradas no apêndice e intestino adjacente e em nódulos linfáticos.

A introdução de A. fulica no Brasil se deu visando ao cultivo e comercialização de "escargots", a partir de meados de 1988, conforme noticiado em diversas reportagens jornalísticas. Pelas razões apresentadas, a invasão ambiental pela espécie é preocupante, exigindo monitoramento, quer no sentido da preservação da saúde pública, como pelos possíveis prejuízos que o molusco possa impor à agricultura. Achatina fulica é espécie de molusco terrestre tropical, nativa no leste-nordeste da África, cuja classificação é a seguinte:

Trata-se de espécie parcialmente arborícola (pode se alimentar sobre árvores e escalar edificações e muros), extremamente prolífica (produz muitos ovos por ano), ativa no inverno, herbívora generalista (polífaga, ou seja, come folhas, flores e frutos de muitas espécies), resistente à seca, resistente ao frio hibernal e sobrevivente em muitos meios naturais e antrópicos (floresta, borda de floresta, brejos e outras áreas de vegetação nativa, áreas de cultura, plantações abandonadas, terrenos baldios urbanos).

Outros nomes populares pelos quais Achatina fulica é conhecida no Brasil são: acatina, caracol-africano, caracol-gigante, caracol-gigante-africano, caramujo-gigante, caramujo-gigante-africano e rainha-da-África. Os nomes caracol-chinês, caramujo-chinês e gigante-chinês são incorretos, pois a espécie não é oriunda da China. A denominação "escargot" aplicada por criadores e comerciantes de Achatina  fulica é imprópria por razões técnicas e científicas; deve restringir-se ao uso como nome popular e comercial  de diversas espécies européias de Helix  conhecidas na França e nos meios  gastronômicos por esse nome.  A utilização do nome "escargot" para comercializar a carne de Achatina  caracteriza fraude e má-fé.  

Achatina fulica tem sido também impensadamente criada como isca para pesca em pesqueiros comerciais ("pesque-pagues"), ao longo dos cursos-d’água. Indivíduos de Achatina tem escapado desses criadouros para a vida livre em diversos Estados brasileiros, e muitas vezes soltos por criadores que desistiram da criação (ao verificar o insucesso comercial da iniciativa). Caminho inverso realizam alguns criadores que coletam indivíduos ferais (asselvajados, em vida livre) de Achatina para levá-los aos criadouros experimentais e comerciais. Uma vez estabelecidos em dada região, os caramujos são dispersos involuntariamente por veículos (especialmente trens e caminhões) e em meio à carga. Deve-se lembrar que em muitos países os próprios "escargots" (Helix sp.) tiveram a criação e importação proibida pela possibilidade de se tornarem importante praga agrícola, especialmente em hortas (Canadá e Estados Unidos, por exemplo). Nas regiões sub-tropicais do Brasil (Estados do sul) o "escargot" Helix aspersa já é praga de hortas, sendo a intensidade de ataque maior nos últimos anos.

Achatina e Dengue

Segundo foi constatado que na Tanzânia conchas de Achatina fulica mortos, cheias por chuvas, hospedavam pequenas populações de larvas do mosquito Aedes aegypti, vetor da dengue no Brasil e outras espécies de mosquitos. Considerando-se que:

1.Acatinas morrem freqüentemente com a abertura voltada para cima;
2. Nas regiões brasileiras onde a Achatina já se encontra em altas densidades ocorre tanto a dengue quanto seus vetores Aedes aegypti e Aedes albopictus;
3. Essas regiões possuem estações com chuvas fortes e contínuas ou regime de chuvas mais ou menos contínuo;

Como controlar a praga?

O método recomendado de controle de indivíduos livres (invasores) de Achatina fulica envolve:
1.Catação manual (com luvas descartáveis ou sacos plásticos);
2. Embalagem em sacos plásticos e
3. Incineração.

Esse é o único método de controle empregado em todo o mundo. Em locais sujeitos à infestação devem ser colocadas iscas das plantas preferidas por eles, umedecidas, ao lado de montes de palha grossa e de telhas emborcadas, nos quais os caramujos se refugiarão no fim da madrugada, e onde serão coletados de manhã. A catação deve ser repetida com freqüência, ao longo do ano, sem interrupção (dada a grande fecundidade da espécie e sua atividade no inverno em regiões úmidas) e deve incluir áreas urbanas, áreas agrícolas (especialmente hortas e roças), áreas agrícolas abandonadas, capoeiras e bordas de matas e de brejos.

Caso inexista incineração de lixo hospitalar, cerâmicas ou metalúrgicas na região, os animais coletados poderão ser enterrados em local apropriado, com cuidados devidos. Mas essa solução é desaconselhada. Sugere-se incineração parcial em tambores e/ ou adição de hipoclorito (cloro) antes do enterramento (com os cuidados devidos). De forma alguma devem ser utilizadas iscas moluscicidas (à base de metaldeído) ou outros venenos por seu elevado risco de envenenamento de animais domésticos ou crianças. Além disso espécies nativas de moluscos podem ser atingidas. O uso de sal de cozinha (cloreto de sódio) é desaconselhado, por ser ineficiente, impedir coletas futuras, atrair animais domésticos e selvagens e salinizar o solo. Medidas destinadas a desestimular a criação dessa praga devem ser tomadas, através de campanhas, folhetos, palestras, visitas a criadores, reportagens em jornais, etc., ressaltando seu caráter de praga e de potencial veiculo de doenças graves.

Moluscos tóxicos

Certos moluscos são responsáveis por grande número de casos fatais de envenenamento em seres humanos. Embora na maioria desses casos não sejam os agentes primários da produção de biotoxinas, são os principais vetores daquelas produzidas por protozoários, especialmente dinoflagelados, e que de outra forma dificilmente atingiriam o homem. Os Bivalvia por serem os mais utilizados na alimentação, são os principais vetores das biotoxinas produzidas por protozoários que fazem parte da dieta dos bivalves. Os Ostreidae e Veneridae são considerados agentes produtores de biotoxinas; entretanto as espécies perigoasa estão restritas ao Pacífico Oeste. As famílias Muricidae e Thaididae, e a superfamília Conoidea, são produtoras de biotoxinas e responsáveis por alguns casos fatais de envenenamento. Da mesma forma que a dos Muricidae, a glândula hipobranquial dos Thaididae produz uma secreção amarelada (murexina ou purpurina) que, exposta ao ar, adquire coloração púrpura. A utilidade desta substância para o animal, já que não possui aparelho inoculador, é até hoje desconhecida. A murexina é um éster de colina, que ingerido produz gastroenterite, convulsões e morte. Thais haemastoma é de uso comum como alimento por caiçaras brasileiros. Quando o animal é cozido sem que a glândula seja retirada, adquire um sabor amargo, conhecido como "fel de saquaritá".

Existe certa especificidade quanto ao veneno. O veneno de espécies predadoras de peixes pode paralisar outros vertebrados; o veneno de espécies predadoras de vermes é ativo nestes, mas inócua em moluscos e vertebrados. Glaucus atlanticus (opistobrânquio) quando entram em contato com a pele pode provocar lesões dérmicas graves. Estes animais se alimentam de águas-vivas (Physalia) e estocam os nematocistos da presa, usando-os posteriormente como defesa.

Outras pragas agrícolas

Martesia striata ( Linnaeus, 1758), é uma espécie destrutiva e que maior dano causam a cascos de barcos e pilares de cais.

Oxystyla pulchella (Spix, 1827) e O. phlogera (dÓrbigny,1835), são pragas de cafezais, atacam os cafeeiros raspando a casca do tronco.

Zonitoide arboreus (Say, 1816), praga de hortaliças e de flores ornamentais.

Limax maximus (Linnaeus, 1758), L. flavus (Linnaeus, 1758) e Deroceras reticulatum (Muller, 1774), são pragas de hortaliças, flores e cogumelos.


Bibliografia

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