A Interferência do Calor em Fornos de Alta Temperatura na Saúde e na Produtividade do Trabalhador

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Tema: A Interferência do Calor em Fornos de Alta Temperatura na Saúde e na Produtividade do Trabalhador

A Interferência do Calor em Fornos de Alta Temperatura na Saúde e na Produtividade do Trabalhador

2010

 

 

 

1. INTRODUÇÃO

O tema em pauta intitulado “A interferência do calor em fornos de alta temperatura na saúde e na produtividade do trabalhador”, está vinculado à área de conhecimento da prática profissional do autor desse trabalho monográfico.

Sá (2007) afirma que em processo que envolve aplicação de calor sensível para transformação de produtos, como a gusa do aço, no caso das siderúrgicas, em metalúrgicas de forjarias, secagem industrial ou mesmo caldeiras de produção de vapor.

Odebrecht (2007) explica que a exposição também é encontrada nas indústrias de cristal com produção artesanal; nesse caso, o trabalhador está diretamente em contato com os fornos de onde retira a matéria-prima para a produção das peças.

Nas décadas de 50 e 60, quando foram implantadas no Brasil as indústrias de revestimento cerâmico, o processo produtivo, feito praticamente de forma artesanal, colocava o trabalhador em contato constante com o calor.

Lima (2007) aborda que o Estudo da Exposição Ocupacional à Sílica na Indústria de Revestimentos Cerâmicos mostrou que, na época, o processo nessas fábricas era realizado em fornos tipo garrafão com um grande número de pessoas envolvidas.

Nos processos de fabricação de lajotas, pelo uso dos fornos com queima de lenha, a exposição ao calor era intensa, tanto dos forneiros que mantinham as fornalhas, como dos trabalhadores que alimentavam e descarregavam os fornos.

Atualmente, os tempos são outros nas empresas que concentram essas funções, uma vez que os processos de fabricação de revestimentos cerâmicos esmaltados são automatizados, em fornos do tipo túnel com até 160 metros de comprimento, alimentados a gás.

Segundo Lima (2007) a exposição existente se dá principalmente na área de controle de qualidade e de embalagem das placas cerâmicas. As peças saem aquecidas dos fornos e têm de ser inspecionadas visualmente e classificadas. Em alguns processos isso é feito manualmente.

No Brasil, o calor nas indústrias constitui-se em uma realidade que atinge diretamente os trabalhadores. Empresas que, através de seus processos produtivos expõem os indivíduos a altas temperaturas, têm se deparado cada vez mais com as conseqüências desse cenário. Danos à saúde e manifestação de algumas doenças que se encontram em estado latente são um alerta para esta situação, que ainda coloca em risco, a segurança dos operários e conseqüentemente a produtividade das empresas.

Processos e ambientes laborais inadequados, falta de proteção coletiva e individual específica e um método ultrapassado de avaliação dos limites de tolerância para a exposição ao calor, são os principais pontos que precisam ser revistos, de acordo com quem circula por esses ambientes.

Algumas indústrias da área também já entenderam o recado e estão arregaçando as mangas através de ações, que muitas vezes, podem começar com pequenas mudanças.

Diversos são os ramos industriais e as atividades profissionais que colocam os trabalhadores frente a frente com o calor. De siderúrgicas e metalúrgicas, passando por empresas de papel e celulose, fundições, vidros, alumínio, cerâmica, química e petroquímica, em rotinas que exigem a operação de equipamentos como caldeiras e fornos.

Mas, se por um lado, no País, o tema ainda não recebe tanta atenção quanto, por exemplo, nos casos de exposição ao ruído e a agentes químicos, por outro, especialistas e instituições da área de Saúde e Segurança do Trabalho têm se esforçado para propor soluções e espaços laborais mais saudáveis.

Os motivos para a elaboração desse trabalho é chamar atenção aos profissionais envolvidos no processo de conforto térmico no interior das empresas que percebam que essa atenção ao grau de temperatura, constitui um indicador fundamental na qualidade de vida e produtividade do trabalhador, além de ser uma forma humanizada e continuada, determina também a busca da qualidade do serviço de segurança do trabalho da empresa.

Finalmente, as contribuições para a compreensão, intervenção ou solução que o trabalho apresenta são: despertar aos profissionais da área de saúde para a realização de uma pesquisa de campo com profissionais que trabalham em indústrias com fornos de alta temperatura, a qual depois de concluída poderá ter utilidades fundamentais para o curso, para a disciplina como também para o próprio aluno, referente à relação da interferência do calor em fornos de alta temperatura na saúde e na produtividade do trabalhador.

 

2 OBJETIVOS

 

2.1 Objetivo

Explicar a relação da interferência do calor em fornos de alta temperatura na saúde e na produtividade do trabalhador e o papel do enfermeiro do trabalho.

 

3 METODOLOGIA

No que refere aos procedimentos técnicos, no trabalho em pauta a pesquisa bibliográfica está presente, pois a teoria está desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos.

Na elaboração desse trabalho que abordou sobre a interferência do calor em fornos de alta temperatura na saúde e na produtividade do trabalhador, utilizou-se o método de procedimento monográfico, o qual constitui-se num estudo sobre um tema específico ou particular de suficiente valor representativo e que obedece a rigorosa metodologia.

A técnica de pesquisa utilizada para a coleta de dados foi a leitura em livros e revistas da área de Segurança do Trabalho e artigos em sites de caráter científico, cujo tipo de dados foi o secundário, cuja revisão literária já se encontra disponível, já foi objeto de estudo e análise; onde foram priorizadas as palavras chave como calor, fornos, alta temperatura e trabalhador, cujo período das publicações foi delimitado do ano de 2002 a 2009

 

4 DESENVOLVIMENTO

 

4.1 Abordagem sobre o calor

 

4.1.1 Definição de calor

Conforme Saliba, Corrêa e Amaral (2002) quando o trabalhador está exposto a uma ou várias fontes de calor, ocorrem as seguintes trocas térmicas entre o ambiente e o organismo:

• Condução: é o processo de transferência de calor que ocorre quando dois corpos sólidos ou fluídos que não estão em movimento, a diferentes temperaturas, são colocados em contato. O calor do corpo de maior temperatura se transfere para o de menor, até que haja um equilíbrio térmico, isto é, quando a temperatura dos corpos se igualar.
• Convecção: é o processo de transferência de calor idêntico ao anterior, só que, neste caso, a transferência de calor se realiza através de fluído em movimento.
• Radiação: quando há transferência de calor sem suporte material algum, o processo é denominado radiação. A energia radiante passa através do ar sem aquecê-lo apreciavelmente e aquecerá a superfície atingida. A energia radiante passa através do vácuo ou de outros meios a uma velocidade que depende do meio.
• Evaporação: é o processo de passagem de um líquido, a determinada temperatura, para a fase gasosa, passando, portando, para o meio ambiente. Não é necessária a diferença de temperatura para o desenvolvimento do processo. O calor transferido desta forma é chamado calor latente, diferenciando-se assim do que se transmite através de variação de temperatura, que é denominado calor sensível. No fenômeno de evaporação, o líquido retira calor do sólido para passar a vapor, podendo-se, portanto, afirmar que o sólido perderá calor para o meio ambiente por evaporação.

 

4.1.2 Fatores que influenciam nas trocas térmicas entre o ambiente e o organismo

A complexidade do estudo do calor reside no fato de haver diversos fatores variáveis que influenciam nas trocas térmica entre o corpo humano e o meio ambiente, definindo desta forma a severidade da exposição ao calor.

Saliba, Corrêa e Amaral (2002) apresentam entre os números fatores que atuam nas trocas térmicas cinco principais, que devem ser considerados na quantificação da sobrecarga térmica:

• Temperatura do ar: torna-se necessário que haja um gradiente de temperatura para que se viabilize os mecanismos de troca térmica: condução, convecção e radiação. Dessa maneira, o sentido de transmissão de calor dependerá da defasagem positiva ou negativa entre a temperatura do ar e a da pele. Se a temperatura do ar for maior que a da pele, o organismo ganhará calor por condução-convecção, e se for menor, o organismo perderá valor por condução-convecção. A quantidade de calor ganhando ou perdida é diretamente proporcional à defasagem entre as temperaturas.
• Umidade relativa do ar: este parâmetro influi na troca térmica entre o organismo e o ambiente pelo mecanismo de evaporação. Desse modo, a perda de calor no organismo por evaporação dependerá da umidade relativa do ar, isto é, da quantidade de água presente numa determinada quantidade de ar. Sabe-se que o organismo humano perde em média 600 kcal/h pela evaporação do suor, isto se a umidade relativa for 0%. Quanto maior a umidade relativa (maior saturação de água no ar), menor será a perda de calor por evaporação.
• Velocidade do ar: a velocidade do ar no ambiente pode alterar as trocas tanto na condução e convecção como na evaporação.

Quando há aumento da velocidade do ar no ambiente, ocorre aceleração da troca de camadas de ar mais próximas ao corpo, aumentando desse modo o fluxo de calor entre este e o ar. Se aumenta a velocidade do ar, dá-se a substituição mais rápida das camadas de ar mais saturadas com água e a substituição por outras menos saturadas, favorecendo então a evaporação.

É fundamental verificar o sentido de transmissão de calor, pois o aumento de velocidade do ar poderá favorecer ou desfavorecer o ganho de calor pelo organismo, independendo se o gradiente de temperatura é positivo ou negativo. Assim, se a temperatura do ar for menor que a do corpo, o aumento da velocidade do ar favorecerá o aumento da perda de calor do corpo para o meio. Do contrário, o corpo ganharia mais calor com o aumento da velocidade do ar.

No caso de evaporação, o aumento da velocidade do ar sempre fornecerá a evaporação.

• Calor radiante: quando um indivíduo se encontra em presença de fontes apreciáveis de calor radiante, o organismo ganha calor pelo mecanismo de radiação. Caso não haja fontes de calor radiante ou se as mesmas forem controladas, o organismo humano poderá perder calor pelo mesmo mecanismo.
• Tipo de atividade: quanto mais intensa for a atividade física exercida pelo indivíduo, tanto maior será o calor produzido pelo metabolismo, constituindo, portanto, parte do calor total ganho pelo organismo.

 

4.1.3 Equilíbrio homeotérmico, efeitos e medidas de controle do calor no organismo

Para Saliba, Corrêa e Amaral (2002) os mecanismos de termorregulação do organismo têm como finalidade manter a temperatura interna do corpo constante e é evidente que haja um equilíbrio entre a quantidade de calor gerado no corpo e sua transmissão para o meio ambiente. A equação que descreve o estado de equilíbrio se denomina balanço térmico: M+ C + R – E = S

Onde:

M – calor produzido pelo metabolismo
C – calor ganho ou perdido por condução-convecção
R – calor ganho ou perdido por radiação
E – calor perdido por evaporação
S – calor acumulado no organismo (sobrecarga térmica).

O organismo encontra-se-á em equilíbrio térmico quando “S” for igual a zero.

A exposição a calor excessivo pode acarretar riscos graves à saúde dos trabalhadores. Nesta condição, a sudorese (perda de líquidos pela pele) é um dos mecanismos fundamentais para a regulação da temperatura interna do corpo, que ocorre através da evaporação. Através da evaporação do suor o corpo perde calor para o meio ambiente. Caso a sudorese e a vasodilatação periférica não sejam suficientes para manter a temperatura interna do corpo em torno de 37ºC poderá haver conseqüências perigosas para o organismo, como a desidratação, câimbras de calor, desmaios e choque térmico (SALIBA, 2000).

Saliba, Corrêa e Amaral (2002) abordam que quando o calor cedido pelo organismo ao meio ambiente é inferior ao recebido ou produzido pelo metabolismo total (metabolismo basal + metabolismo de trabalho, o organismo tende a aumentar sua temperatura, e, para evitar esta hipertermia (aumento da temperatura interna do corpo), são colocados em ação alguns mecanismos de defesa, os quais estão descritos a seguir:

A. Vasodilatação periférica: com o aumento do calor ambiental, o organismo humano promove a vasodilatação periférica, no sentido de permitir maior troca de calor entre o organismo e o ambiente.

B. Ativação das glândulas sudoríparas: há aumento do intercâmbio de calor por mudança do suor do estado líquido para vapor. Caso a vasodilatação periférica e a sudorese não sejam suficientes para manter a temperatura do corpo em torno de 37,0 graus Celsius, há conseqüências para o organismo que podem se manifestar das seguintes formas:

C. Exaustão do calor: com a dilatação dos vasos sangüíneos em resposta ao calor, há uma insuficiência do suprimento de sangue do córtex cerebral, resultando baixa pressão arterial.

D. Desidratação: a desidratação provoca principalmente a redução do volume de sangue, promovendo a exaustão do calor. A perda de peso é uma referência importante do desgaste dos trabalhadores. A desidratação traz efeitos adversos que variam de modo gradativo, iniciando-se por sintomas de sede até distúrbios renais em casos mais críticos. Assim, os efeitos adversos da desidratação podem ser relacionados à porcentagem de perda de peso corpóreo. Para perda de peso de 0 a 1% o efeito causado será de sede, para perda de 2% de sede mais forte, desconforto vago e perda de apetite; para 3% diminuição do volume sanguíneo, enfraquecimento da performance física; para 4%, aumento do esforço para trabalho físico, náusea; para 5%, dificuldade na concentração; para 6%, deficiência na regularização de temperatura excessiva; para 8%, vertigem, respiração difícil com exercício, aumento da fraqueza; para 10%, espasmos musculares, delírio e insônia; e para 11%, incapacidade para diminuir o volume sanguíneo para a circulação normal, deficiência da função renal (MAHAN; KRAUSE, 1995).

Para Cohen (1990) as condições globais de saúde, como, por exemplo, o estado nutricional, pode interferir na reação corpórea à sobrecarga térmica. A obesidade pode atuar na produção do suor e/ou na evaporação, aumentando a susceptibilidade aos danos provocados pela sobrecarga térmica. Neste mesmo sentido, a condição de mal nutrição pode reduzir a efetividade do mecanismo de produção de suor e, por conseguinte, atuar na resposta circulatória à sobrecarga térmica. A medida utilizada para avaliação do estado nutricional entre adultos é o índice de massa corpórea (IMC), ou índice de Quetelet. Este índice define o nível de adiposidade e é calculado através da relação peso (kg)/ altura (metro).

E. Cãibras de calor: na sudorese há perda de água e sais minerais, principalmente o NaCl (cloreto de sódio). Com a redução desta substância no organismo poderão ocorrer espasmos musculares e cãibras.

F. Choque térmico: ocorre quando a temperatura do núcleo do corpo atinge determinado nível, colocando em risco algum tecido vital que permanece em contínuo funcionamento.

Quanto às medidas de controle relativas ao ambiente os autores Saliba, Corrêa e Amaral (2002) relatam que o calor como todo agente ambiental deve ser controlado primeiramente na fonte ou em sua trajetória, através de medidas relativas ao ambiente e ao homem. Deve-se procurar diminuir a quantidade de calor que o organismo produz ou recebe e aumentar sua possibilidade de dissipá-lo. É necessária, então, uma avaliação precisa de todos os fatores que atuam na sobrecarga térmica.

Esses mesmos autores ainda relatam que as medidas devem visar, de preferência, ao fator que mais contribui para a sobrecarga térmica, conforme a equação do equilíbrio homeotérmico: M+ C + R = E

1. Metabolismo: muitas vezes é difícil influir sobre o calor produzido pelo metabolismo. A mecanização (automatização) da operação, a fim de minimizar o esforço físico do trabalhador, acarreta a diminuição da sobrecarga térmica. Em determinadas situações a automatização completa das operações eliminará o problema.
2. Convecção: a redução da temperatura do ar diminui este fenômeno, e isso é conseguido por meio de insuflação de ar fresco, com velocidade adequada e, em certos casos, com exaustão de ar quente. Se a insuflação de ar fresco é inviável, o aumento da velocidade do ar pode ser obtido pelas simples circulação do ar feita por ventiladores, com velocidades apropriadas. Deve ser salientada a importância da localização adequada dos ventiladores, a fim de evitar que circule ar das zonas mais quentes para as zonas adjacentes mais frias.
3. Radiação: a redução deste fator é de grande importância para a diminuição da sobrecarga térmica. Para reduzir o calor radiante, a medida mais eficiente é a utilização de barreiras que reflitam os raios infravermelhos. O alumínio polido é muito eficiente para esta finalidade. Nos casos em que é necessária a visão através da barreira, existem vidros especiais que refletem os raios infravermelhos, bem como filmes especiais que podem ser aplicados sobre o vidro comum com a mesma finalidade. A manutenção contínua das barreiras é de suma importância, pois a ação de produtos químicos agressivos faz com que elas percam a propriedade de reflexão. Quando isso ocorre, elas passam a absorver a radiação incidente, tornando-se fontes emissoras de calor radiante e, conseqüentemente, reduzindo sua eficácia como medida de controle. As barreiras devem ser localizadas entre o trabalhador e a fonte de calor e nunca posicionadas atrás dele, mesmo que visem à proteção de outros indivíduos. Se o trabalhador permanecer entre a fonte de calor radiante e a barreira, a sobrecarga térmica a que está exposto podem em certos casos, sofrer aumentos significativos.
4. Evaporação: devem ser criadas condições que favoreçam a evaporação do suor e também auxiliem na manutenção do equilíbrio térmico, aumentando a Emáx.(máxima capacidade evaporativa da pele). Existem limitações fisiológicas (no máximo 1 litro de suor/hora ao que corresponde a uma perda por evaporação de 2400 BTU/h ˜ 605 kcal/h) além das ambientais para a perda de calor por este processo. As condições ambientais podem ser modificadas favorecendo o fenômeno da evaporação, por intermédio das seguintes medidas:

• Redução da umidade relativa do ar: nos casos de fontes localizadas de vapor d’água, recomenda-se ventilação local exaustora.
• Aumento na movimentação do ar: o aumento da velocidade do ar favorece a evaporação do suor, no entanto essa medida deverá ser estudada cuidadosamente quando a temperatura for superior a 35,0 graus Celsius, uma vez que o ganho de calor por convecção poderá contribuir para o aumento da sobrecarga térmica.

O quadro 1 relaciona algumas medidas que podem ser adotadas com os correspondentes fatores alterados.

Quadro 1 – Medidas que podem ser adotadas com os correspondentes fatores alterados

 

tabela

 

Fonte: SALIBA, T. M. ; CORRÊA, M. A. C.; AMARAL, L. S. Higiene do trabalho e programa de prevenção de riscos ambientais, 2002.

Quanto às medidas de controle relativas ao homem, Saliba, Corrêa e Amaral (2002) relatam que na solução de um problema de higiene industrial, devem ser consideradas em primeiro lugar as medidas relativas ao ambiente, sendo complementadas, às vezes, pelas medidas relativas ao pessoal. Em determinados casos, por razões de ordem técnica, as únicas medidas aplicáveis são as relativas ao pessoal, que podem ser bastante eficazes.

Esses mesmos autores abordam que existe uma série de medidas que podem ser aplicadas diretamente ao trabalhador, com o objetivo de minimizar a sobrecarga térmica. Entre elas destacam-se:

1. Aclimatização: a aclimatização do calor constitui uma adaptação fisiológica do organismo a um ambiente quente. Essa medida é de fundamental importância na prevenção dos riscos decorrentes da exposição ao calor intenso. A aclimatização será total em, aproximadamente, duas semanas. É importante mencionar que a perda de cloreto de sódio pela sudorese será menor no indivíduo aclimatizado, ou seja, ocorre o equilíbrio dos sais minerais nas células do corpo.
2. Limitação do tempo de exposição: esta medida consiste em adotar um período de descanso, visando a reduzir a sobrecarga térmica a níveis compatíveis com o organismo humano. Como se pode observar no índice analisado (IBUTG), a limitação do tempo de exposição é medida de controle sempre presente. Quando os tempos de exposição não forem compatíveis com as condições de trabalho observadas deve-se promover um reestudo dos procedimentos de trabalho, no sentido de determinar um regime de trabalho-descanso que atenda aos limites recomendados.
3. Exames médicos: recomenda-se a realização de exames médicos pré-admissionais com a finalidade de detectar possíveis problemas de saúde que possam ser agravados com a exposição ao calor, tais como: problemas cardiocirculatórios, deficiências glandulares (principalmente glândulas sudoríparas), problemas de pele, hipertensão etc. Tais exames permitem selecionar um grupo adequado de profissionais que reúna condições para executar tarefas sob o calor intenso. Exames periódicos também devem ser realizados com a finalidade de promover um contínuo acompanhamento de trabalhadores expostos ao calor, a fim de identificar estados patológicos em estágios iniciais.
4. Equipamentos de proteção individual: existe no mercado uma grande variedade de equipamentos de proteção individual (EPI) para os mais diversos usos e finalidades. Deve-se, portanto, fazer uma escolha adequada, objetivando o maior grau de eficiência e conforto. As vestimentas dos trabalhadores devem ser confeccionadas com tecido leve e de cor clara. Para situações de exposições críticas existem diversos tipos de vestimentas para o corpo inteiro, sendo que algumas possuem sistema de ventilação acoplado.
5. Educação e treinamento: são de fundamental importância a educação e o treinamento dos trabalhadores expostos ao calor intenso: a orientação quanto à prática correta de suas tarefas pode, por exemplo, evitar esforços físicos desnecessários ou longos tempos de permanência próximos à fonte. Deve-se conscientizar o trabalhador sobre o risco que representa a exposição ao calor intenso, educando-o quanto ao uso correto dos equipamentos de proteção individual, alertando-o sobre a importância de asseio pessoal e promovendo a utilização e manutenção correta das medidas de proteção no ambiente.

 

4.1.4 Instrumentos de medição

Saliba, Corrêa e Amaral (2002) citam e descrevem instrumentos de medição do calor:

a) Termômetro de globo (Tg): graduação de 0 a 150,0 graus Celsius, com subdivisão de 0,1 grau Celsius e bulbo de mercúrio. O termômetro de mercúrio deve ser fixado no interior do orifício da rolha e ambos inseridos no globo. A rolha deve ser fixada no globo com certa pressão, a fim de não se soltar durante o uso. A posição relativa entre termômetro e rolha deve ser tal que, após montado no globo, o bulbo do termômetro fique posicionado no centro da esfera.

b) Termômetro de bulbo úmido natural (Tbn): graduação de 0 a 60,0 graus Celsius, com subdivisão de 0,1 grau Celsius e bulbo de mercúrio. O termômetro de mercúrio deve ser montado na posição vertical, revestido com uma camisa de algodão branca que deverá envolver totalmente o bulbo de mercúrio. Na montagem, verificar que a distância entre a extremidade do bulbo (revestido pela camisa) e a lâmina d’água destilada contida no erlenmeyer deve ser de 25 mm ou 2,5 cm. No momento da utilização do sistema, umedecer o pano totalmente com água destilada e encher o erlenmeyer até a extremidade com água destilada.

c) Termômetro de bulbo seco (Tbs): graduação de 0 a 60 graus Celsius, com subdivisão de 0,1 grau Celsius e bulbo de mercúrio. Fazer sua montagem na forma vertical e é fundamental que na montagem do conjunto completo (Tg, Tbs, Tbn), verificar se todos os bulbos dos termômetros estão no mesmo plano horizontal. O tempo médio de estabilização geralmente é em torno de 30 minutos. Assim, é necessário fazer leituras de modo que, quando não haja variação significativa entre uma leitura e a anterior, o sistema esteja estabilizado.

d) Psicrômetro: mede a umidade relativa do ar e é constituído de dois termômetros idênticos colocados paralelamente. Um deles possui o bulbo revestido por tecido que deve ser umedecido com água destilada durante a medição. Após a estabilização, fazem-se duas leituras: temperatura de bulbo seco (temperatura do ar) e a temperatura de bulbo úmido. A circulação do nos bulbos do termômetro é fator importante e deve ser observado.

e) Anemômetro: mede a velocidade do ar. Existe uma variedade muito grande de anemômetros e os mais indicados para o levantamento de calor são aqueles mais sensíveis a pequenos fluxos de ar, que podem fazer leituras contínuas da movimentação de ar não-direcional.

 

4.1.5 Avaliação e índices de sobrecarga térmica do calor

Saliba, Corrêa e Amaral (2002) abordam que a avaliação do calor a que um indivíduo está submetido é assunto bastante complexo, por causa da quantidade de fatores a ser considerada. A medição de temperatura do corpo é inviável na monitoria de carga calorífica dos trabalhadores; desse modo será necessário medir os fatores ambientais que mais relacionados se encontrem com a temperatura profunda do corpo e com outras reações fisiológicas ao calor. Dessa forma, o objetivo da medição do calor é verificar se a temperatura do núcleo do corpo vai ultrapassar 37,0 graus Celsius. Torna-se necessário simular a situação de exposição do homem ao calor, medindo os fatores ambientais. Existem diversos índices que correlacionam as variáveis que influem nas trocas térmicas entre o indivíduo e o meio e, dessa forma, permitem quantificar a severidade de exposição ao calor. Entre esses índices os mais conhecidos estão dispostos no Quadro 2.

Quadro 2 - Correlação dos índices e variáveis que influenciam nas trocas térmicas entre o indivíduo e o meio

 

tabela

 

Fonte: SALIBA, T. M. ; CORRÊA, M. A. C.; AMARAL, L. S. Higiene do trabalho e programa de prevenção de riscos ambientais, 2002.

Verifica-se pelo Quadro 2 que os índices Temperatura Efetiva e Temperatura Efetiva Corrigida não consideram todos os fatores tidos como fundamentais para a correta avaliação da sobrecarga térmica, e, portanto, são os menos recomendados para um adequado estudo da exposição ao calor. Esses índices são conhecidos como índices de conforto térmico. Os demais índices consideram todos os fatores que influenciam as condições de exposição ao calor, e, portanto, são denominados índices de sobrecarga térmica (SALIBA, CORRÊA; AMARAL, 2002):

a) Temperatura efetiva (TE): a Portaria n. 491, de 16.9.65, considerava insalubres os locais onde a temperatura era superior a 28,0 graus Celsius. Atualmente tal índice é usado para determinação do conforto térmico, conforme NR-17 da Portaria n. 3.214, de 08.06.1978. A temperatura efetiva combina a temperatura do ar, a umidade relativa do ar e o movimento do ar num único índice. Não pode ser medida diretamente, devendo ser computadas leituras das temperaturas de bulbo úmido e temperatura de bulbo seco, medidas com psicrômetro.

b) Temperatura efetiva corrigida (TEC): a temperatura efetiva corrigida torna-se medida um pouco mais precisa, pois considera o calor radiante. Utiliza-se temperatura de bulbo seco (Tbs), temperatura de bulbo úmido (Tbu), temperatura de globo (Tg) e a velocidade do ar. Para cálculo de temperatura efetiva corrigida, devem-se seguir os seguintes passos:

- No ábaco da temperatura efetiva substituir o valor de temperatura do ar (Tbs) pela temperatura de globo, e a temperatura do bulbo úmido, pelo seu valor corrigido, que se obtém da seguinte maneira:

• Numa carta psicrométrica, determinar o valor da umidade relativa do ar, utilizando-se o valor do Tbs e Tbu.
• A seguir, mantém-se a umidade relativa constante e, entrando com o novo valor de temperatura do ar dada pela Tg, obtém-se o valor corrigido (Tbu), que deverá, então, ser utilizado no ábaco de temperatura efetiva.
• Com os valores de Tg. Tbu corrigida e velocidade do ar determina-se a temperatura efetiva corrigida.

Os parâmetros de comparação para temperatura efetiva e efetiva corrigida são os estabelecidos pela NR-17, Portaria n. 3.214/78, para efeito de conforto térmico.

c) Índice de sobrecarga térmica (IST) - Critério de Belding-Hatch: este índice, além das condições ambientais, considera o tipo de atividade exercida pelo indivíduo. É expresso pela seguinte relação percentual: IST = Ereq/Emáx x 100, onde:

Ereq: quantidade de calor que o organismo necessita dissipar por evaporação, que é a soma dos fatores M, C e R.

Emáx.: quantidade máxima que o organismo pode dissipar por evaporação, quando o corpo estiver completamente molhado e à temperatura de 35 graus Celsius.

IST = 100: corresponde à máxima sobrecarga térmica permissível diariamente, para homens jovens, adaptados e aclimatizados ao trabalho.

ST>100: significa que o balanço térmico não é mantido e a sudorese é exigida em excesso, não podendo o trabalhador ficar exposto ao calor durante 8 horas diárias de trabalho sem efeitos adversos à saúde.

Nesse caso, é necessário estabelecer os períodos de trabalho e descanso, que podem ser calculados a partir das equações:

Tempo máximo de trabalho (horas) = 250/EReq – EMáx.

Tempo mínimo de descanso (horas) = 250/Emáx – EReq (descanso)

Onde:

EReq (descanso): quantidade de calor que o organismo necessita dissipar no período e no local de descanso.

Assim, para se calcular EReq. (descanso) são necessárias, portanto, avaliações dos fatores ambientais, no local de descanso dos trabalhadores, que deverá sempre que possível ser afastado das fontes de calor radiante e possuir temperatura mais amena. Logicamente, quando mais favoráveis forem as condições ambientais no local de descanso menor será o tempo de descanso requerido.

Se IST < 100 significa que o ambiente de trabalho não prejudica a saúde do trabalhador.

Os valores de EReq. e EMáx. podem ser obtidos graficamente ou matematicamente. Na prática utilizam-se os ábacos de Belding e Hatch, nos quais se obtêm os valores de IST a partir de Tg, velocidade do ar, Tbs, Tbu e metabolismo.

Para calcular o IST, devem-se seguir as seguintes etapas:

1) Na interseção do valor de Tg e velocidade do ar, traçar uma linha vertical, obtendo-se a carga térmica devido ao calor radiante e à convecção (R + C).
2) Prolonga-se esta linha, entrando no 2º. gráfico , até interseção com a linha horizontal e obtém-se a carga térmica total (R + C + M).
3) Prolonga-se esta linha, entrando no 3º. gráfico.
4) Entra-se agora com o valor de Tbs e Tbu no 4º. Gráfico, e na interseção dos pontos traça-se a linha horizontal, obtendo-se a diferença de pressão de vapor entre a pele completamente molhada a 95º F e o ar ambiente, em mmHg.
5) Prolonga-se esta linha até a interseção com a linha de velocidade do ar. A partir daí traça-se linha vertical e obtém-se a evaporação máxima da pele úmida a 95º F.
6) Prolonga-se esta linha vertical e entra-se no 3º. Gráfico. No ponto de interseção da linha horizontal do 2º. Gráfico com a linha vertical do 5º. Gráfico, obtém-se o índice de sobrecarga térmica (IST).

Para a interpretação do valor do IST, verificar no quadro 3 a seguir:

Quadro 3 – Interpretação do valor do IST

 

tabela

 

Fonte: SALIBA, T. M. ; CORRÊA, M. A. C.; AMARAL, L. S. Higiene do trabalho e programa de prevenção de riscos ambientais, 2002.

d) Termômetro de globo úmido: O índice termômetro de globo úmido é obtido com o termômetro de globo úmido (botsball). Este método foi recentemente desenvolvido nos Estados Unidos e apresenta a grande vantagem de utilizar o aparelho que através de uma única leitura fornece o índice de sobrecarga térmica.

Compõe-se de uma esfera oca de 6cm de diâmetro, pintada de preto fosco, recoberta por uma camada dupla de tecido negro continuamente umedecido com água destilada proveniente de tubo reservatório de alumínio ligado a esfera. Pelo interior do tubo passa a haste do termômetro mostrador, cuja extremidade fica no centro da esfera. As leituras são efetuadas diretamente na escala do mostrador cinco minutos após a estabilização.

A correlação do TGU com os demais índices de sobrecarga térmica é bastante razoável, o que torna sua indicação, graças à sua simplicidade, excelente para avaliação do calor intenso.

Interpretação do índice: deve ser comparado com os limites máximos a que pode estar exposto um trabalhador em função dos diferentes regimes de trabalho e tipos de atividade.

e) Índice de bulbo úmido – Termômetro de globo (IBUTG): o índice de temperatura de bulbo úmido, termômetro de globo (IBUTG) foi desenvolvido inicialmente como um método simples para avaliar a sobrecarga térmica em contingentes militares. Esse índice também permite o cálculo de períodos adequados de trabalho-descanso, no caso em que o índice ultrapasse os limites estabelecidos.

A legislação brasileira, por meio da Portaria n. 3.214/78, estabelece que a exposição ao calor deve ser avaliada através de IBUTG.

Consiste em um índice de sobrecarga térmica definido por uma equação matemática que correlaciona alguns parâmetros medidos no ambiente de trabalho.

A equação para o cálculo do índice varia em função da presença ou não de carga solar no ambiente de trabalho no momento da medição, conforme apresentado a seguir:

- Ambientes internos ou externos sem carga solar

IBUTG = 0,7 Tbn + 0,3 Tg

- Ambientes externos com carga solar

IBUTG = 0,7 Tbn + 0,2 Tg + 0,1 Tbs

Onde:

Tbn = temperatura de bulbo úmido natural (Grau Celsius)
Tg = temperatura de globo (Grau Celsius)
Tbs = temperatura de bulbo seco (Grau Celsius)

Equipamento de medição

- Termômetro de bulbo úmido natural.
- Termômetro de globo.
- Termômetro de bulbo seco.
- Tripé.
- Garras de fixação.

Uma grande vantagem deste método é a eliminação é a eliminação o uso de anemômetros e do problema de obter velocidades médias do ar.

Posicionamento do Equipamento: os equipamentos deverão sempre ser posicionados no local da medição de forma que os bulbos dos termômetros fiquem todos alinhados segundo um plano horizontal.

Quando houver uma fonte principal de calor, os termômetros deverão estar contidos num mesmo plano vertical e serem colocados próximos uns dos outros sem, no entanto, tocarem-se.

A altura de montagem dos equipamentos deve coincidir com a região mais atingida do corpo. Quando essa não for definida, o conjunto deve ser montado à altura do tórax do trabalhador exposto.

Pode-se substituir este conjunto por um constituído de termômetros eletrônicos com a mesma técnica de posicionamento e com a mesma precisão de leitura requerida.

f) Medições: a avaliação de exposição ao calor é feita através de análise de exposição de cada trabalhador, cobrindo-se todo o seu ciclo de trabalho. Portanto, devem ser feitas medições em cada situação térmica a que fica submetido o trabalhador. Ressaltamos que o número de situações térmicas poderá ser superior ao número de pontos de trabalho, já que no mesmo ponto poderão ocorrer duas ou mais situações térmicas distintas.

As leituras das temperaturas devem ser iniciadas após a estabilização do conjunto, na situação térmica que está sendo avaliada, e repetida a cada minuto. Deverão ser feitas no mínimo três leituras ou tantas quantas forem necessárias para se observar uma oscilação não superior a 0,1º C entre as três últimas leituras, sendo considerada a leitura final a média destas. Quando a situação térmica avaliada não envolver carga solar a medição de temperatura de bulbo seco não será necessária, pois não entra na fórmula para cálculo do IBUTG.

Outro parâmetro a ser medido é o tempo de permanência do trabalhador na situação térmica analisada, em cada ciclo de trabalho. Este parâmetro é determinado através da média aritmética de no mínimo três cronometragens, feitas durante a observação do trabalhador, na execução do seu trabalho.

Analogicamente à determinação das diversas situações térmicas devemos igualmente identificar as distintas atividades físicas atividades físicas exercidas pelo trabalhador em estudo e estimar o calor produzido pelo metabolismo em cada uma delas, por meio do quadro 4 do Anexo 3 da Portaria n. 3.214.

 

4.1.6 Limites de tolerância

Segundo Saliba, Corrêa e Amaral (2002) o Anexo 3 da NR-15, Portaria n. 3.214/78, estabelece os limites de tolerância para exposição ao calor para o índice de bulbo térmico, termômetro de globo conforme transcrição que segue:

Limites de tolerância para exposição ao calor, em regime de trabalho intermitente com períodos de descanso no próprio local de prestação de serviço.

Em função do índice obtido, o regime de trabalho intermitente será definido no Quadro 4.

Quadro 4 – Limites de tolerância para exposição ao calor para o índice de bulbo úmido

 

tabela

 

Fonte: SALIBA, T. M. ; CORRÊA, M. A. C.; AMARAL, L. S. Higiene do trabalho e programa de prevenção de riscos ambientais, 2002.

Os períodos de descanso serão considerados tempo de serviço para todos os efeitos legais.

A determinação do tipo de atividade (Leve, Moderada ou Pesada) é feita consultando-se no Quadro 6.

Limites de tolerância para exposição ao calor, em regime de trabalho intermitente com período de descanso em outro local (local de descanso).

Para os fins deste item, considerada-se como local de descanso ambiente termicamente mais ameno, com o trabalhador em repouso ou exercendo atividade leve.

Os limites de tolerância são dados segundo o Quadro 5.

Quadro 5 – Limites de tolerância

 

tabela

 

Fonte: SALIBA, T. M. ; CORRÊA, M. A. C.; AMARAL, L. S. Higiene do trabalho e programa de prevenção de riscos ambientais, 2002.

Onde: M é a taxa de metabolismo média ponderada para uma hora, determinada pela seguinte fórmula: M = Mt x Tt + Md x Td/60.

Sendo:

Mt = taxa de metabolismo no local de trabalho
Tt = soma dos tempos, em minutos, em que se permanece no local de trabalho.
Md = taxa de metabolismo no local de descanso.
Td = soma dos tempos, em minutos, em que se permanece no local de descanso.
IBUTG é o valor IBUTG médio ponderado para uma hora, determinado pela seguinte fórmula: IBUTG = IBUTGt x Tt + IBUTGd x Td/60

Sendo:

IBUTGt = valor do IBUTG no local de trabalho.
IBUTGd = valor do IBUTG no local de descanso.
Td e Td = como anteriormente definidos.

Os tempos Tt e Td devem ser tomados no períodos mais desfavorável do ciclo de trabalho, sendo Tt + Td = 60 minutos corridos.

Os períodos de descanso serão considerados tempo de serviço para todos os efeitos legais.

As taxas de metabolismo Mt e Md serão obtidas consultando-se o Quadro 6.

Quadro 6 - Taxas de metabolismo por tipo de atividade

 

tabela

 

Fonte: SALIBA, T. M. ; CORRÊA, M. A. C.; AMARAL, L. S. Higiene do trabalho e programa de prevenção de riscos ambientais, 2002.

Os autores Saliba, Corrêa e Amaral (2002) abordam um exemplo de um trabalhador que fica exposto continuamente a um forno (sem local de descanso) durante duas horas. Feita a avaliação do calor no local, obtiveram-se os seguintes dados:

- Temperatura de bulbo úmido natural (Tbn) = 25,0º C
- Temperatura de globo )Tg) = 45,0º C
- Ambiente interno sem carga solar
- Tipo de atividade: remoção com pá

a) IBUTG = 0,7 x 25 + 0,3 x 45 = 31,0º C

b) Tipo de atividade: Pesada (Quadro 6, Anexo 3, NR-15).

c) Segundo o Quadro 4, Anexo 3, da NR-15, para atividade Pesada e IBUTG = 31,0º C, não é permitido o trabalho sem adoção de medidas de controle.

No Quadro 5 são fixados limites de tolerância para descanso num local termicamente mais ameno, onde o empregado deverá permanecer em repouso ou exercendo atividades leves. Para a verificação da exposição ao calor, devem-se determinar para os locais de trabalho e descanso os seguintes parâmetros: IBUTG, tempos de exposição., a estimativa do metabolismo (conforme o Quadro 6) e as médias ponderadas determinadas pelo Anexo 3. Em seguida, deve-se comparar a taxa de metabolismo média ponderada (M) com o máximo IBUTG (média ponderada).

Saliba, Corrêa e Amaral (2002) relatam outro exemplo destacando o local de trabalho e local de descanso.

Local de Trabalho

Atividade: carregamento de forno, taxa de metabolismo de 440 kcal/h (Quadro 6).

IBUTGT = 31,0º C

Tempo de Trabalho (Tt ) = 20 minutos

Local de Descanso

Atividade: sentado fazendo anotações, taxa de metabolismo igual a 150 kcal/h (Quadro 6).

IBUTGd 23,0º C

Tempo de Descanso (Td) = 40 minutos.

a) Cálculo da taxa de metabolismo média ponderada para 1 hora.

b) Cálculo do IBUTG média ponderada para 1 hora.

IBUTG = 31 x 20 + 23 x 40/60 = 25,6º C

c) Segundo o Quadro 5, para M = 250 kcal/h, o máximo IBUTG permitido é de 28,5 º C.

Como o local apresentou IBUTG = 25,6º C, o limite de tolerância ao calor não foi ultrapassado.

Outro aspecto importante é que as medições de calor devem ser feitas no período mais desfavorável do ciclo de trabalho e no tempo de 60 (sessenta) minutos (alternância trabalho/descanso).

O calor, como todo agente ambiental, deve ser controlado primeiramente na fonte ou na trajetória, constituindo medidas aplicáveis ambiente. Não sendo possível esse tipo de controle por razões de ordem técnica ou econômica, devem ser adotadas medidas aplicáveis ao trabalhador.

A finalidade das medidas de controle é, obviamente, procurar diminuir a quantidade de calor que o organismo produz ou recebe e aumentar sua possibilidade de dissipá-lo.

 

4.1.7 Critério ACGIH

Os autores Saliba, Corrêa e Amaral (2002) afirmam que os limites de tolerância estabelecidos na American Conference of Governmental Industrial Hygienists são baseados na presunção de que a maioria dos trabalhadores aclimatizados, completamente vestidos com roupas leves e que estejam ingerindo quantidade adequada de água e sal, deveria ser capaz de realizar suas funções de maneira efetiva, sem exceder a temperatura do núcleo do corpo de 38,0º C.

A ACGIH estabelece também um fluxograma de tomada de decisões para avaliação do calor, levando-se em consideração a sobrecarga térmica (quantidade de carga térmica sobre o corpo, combinada com as contribuições do calor produzido pelo metabolismo e fatores ambientais externos, incluindo temperatura do ar e umidade relativa, trocas térmicas radiantes e movimentação do ar, e como estes são afetados pela vestimenta utilizada) e sobrecarga orgânica (quantidade de carga fisiológica resultante de uma sobrecarga térmica). O índice utilizado para a avaliação do calor é também o IBUTG, que deverá ter seu calor corrigido em função da vestimenta utilizada pelo trabalhador conforme o Quadro 7.

Quadro 7 – Fatores de correção para roupa dos limites de IBUTG em º C

 

tabela

 

Fonte: SALIBA, T. M. ; CORRÊA, M. A. C.; AMARAL, L. S. Higiene do trabalho e programa de prevenção de riscos ambientais, 2002.

* Valor de isolamento térmico da vestimenta.

Os valores do Quadro 7 não devem ser utilizados para trajes encapsulados ou outras vestimentas que sejam impermeáveis ao ar ou vapor d’água.

 

4.2 Causas e conseqüências do calor para o organismo humano: algumas medidas que podem minimizar o problema

 

4.2.1 A relação da temperatura e saúde do trabalhador no processo produtivo

Segundo Piza (2009) a grande preocupação em relação à exposição humana ao calor se dá devido a trocas térmicas entre o ambiente e o organismo, por meio de condução, convecção e radiação. Essas trocas aliadas ao metabolismo, resultado da atividade física do trabalhador, e à evaporação, como o suor após um exercício físico, podem trazer sérios problemas de saúde ao homem durante sua atividade profissional.

Dentre os fatores que influenciam as trocas térmicas entre o ambiente e o organismo, destacam-se a temperatura, a umidade e a velocidade; o calor radiante e o tipo de atividade exercida pelo trabalhador.

Segundo o engenheiro Saliba (2009) em seu Manual prático de avaliação e controle de calor, quando o calor cedido pelo organismo ao meio ambiente é inferior ao recebido ou produzido pelo metabolismo total, o corpo tende a aumentar sua temperatura. Para evitar essa hipertermia, são colocados em ação alguns mecanismos de defesa, como a vasodilatação periférica e a ativação das glândulas sudoríparas.

Para Piza (2009) a incidência e a gravidade da sobrecarga orgânica podem ser diferentes em cada pessoa, mesmo sob condições idênticas de sobrecarga térmica. Dessa forma, devemos eliminar a sudorese prolongada e intensa para tarefas rotineiras em longo prazo. Ela pode produzir desidratação e perdas de eletrólitos do corpo, levando à exaustão ou câimbras. E também pode perturbar as funções cardiovasculares normais.

Piza (2009) ainda orienta sobre os perigos de se trabalhar com roupas ou uniformes apertados. Nesses casos, a evaporação de suor é prejudicada e pode causar rapidamente uma queda no fluxo sanguíneo para o sistema nervoso central, levando a uma redução de coordenação motora e desmaio, as empresas grandes mantêm um controle correto da temperatura dentro de seus sistemas de produção. Mas as pequenas e médias ainda deixam a desejar. Para evitar maiores problemas com a saúde do trabalhador devido ao mau controle da temperatura, recomenda-se ainda que os profissionais responsáveis pela manutenção dos medidores térmicos sejam bem treinados por especialistas em riscos ocupacionais.

Para Rodoval Filho (2009) a instalação incorreta de sensores e cabos e o mau dimensionamento dos sistemas de medição também são defeitos comuns verificados nos aparelhos de temperatura. Isso se deve à pouca difusão da cultura metrológica na área de temperatura, prejudicando a correta especificação dos equipamentos. Os fabricantes de máquinas e equipamentos, muitas vezes, não fazem uma calibração periódica, o que dificulta o acesso aos instrumentos. No caso de um termopar, podemos ter por volta de 20 fontes de incerteza de medição. Esse número já demonstra como a calibração de temperatura é bastante delicada e deve ter parâmetros bem controlados e conhecidos.

Theisen (2009) concorda com o diretor da Visomes, afirmando que os metrologistas ainda estão em constante processo de aprendizagem, visto que eles trabalham numa área de conhecimento específico e com muitos detalhes. Tudo isso colabora para as incertezas de medição e erros freqüentes no processo de calibração, ocasionando imprevistos e acidentes na produção. Mas algumas medidas de precaução são necessárias para evitar contratempos e até aumentar a eficiência dos medidores.

Rodoval Filho (2009) ressalta que um erro no controle da temperatura pode superaquecer ou não aquecer o suficiente um material, causando entupimentos, aumento de pressão e até explosões. Uma temperatura incorreta pode significar má esterilização ou produção indevida de um alimento, acarretando danos aos consumidores. São exemplos práticos da importância do controle correto da temperatura. Para se prevenir desses infortúnios, devemos ter nossos processos controlados por especialistas em temperatura. Além disso, é importante que os operadores estejam devidamente treinados e conheçam os procedimentos de emergência em caso de falhas.

Já Maciel (2009) acredita que se deve também isolar as áreas de alto risco, limitando, ao máximo, a circulação de pessoas, que devem trajar EPI compatíveis. Temos de manter as instalações elétricas sempre em boas condições, livres de umidade e outros produtos que possam causar corrosão e perda do contato das conexões elétricas; instalar sempre que possíveis instrumentos auxiliares para alarmar e proteger o processo em caso de falha do controlador ou sensor de controle.

 

4.2.2 Stress térmico, reações, adaptação e produtividade do trabalhador

Cardoso (2007) relata que como conseqüência do contato direto com o calor, o organismo do trabalhador passa a responder através de uma reação conhecida como stress térmico. O conceito é caracterizado pela união da produção interna de calor do corpo a partir da atividade física desempenhada aos aspectos ambientais do local de trabalho que permitem a troca de calor entre o corpo e a atmosfera.

Segundo o engenheiro industrial com especialização em Segurança do Trabalho Nielsen (2007) quando o sistema humano que regula a nossa temperatura interna, que deve ser por volta de 37º.C, sofre uma sobrecarga e passa a não ter condições de manter essa temperatura, ocorre um stress térmico.

Em indústrias onde o calor predomina, a ocorrência do stress está relacionada a algumas características do ambiente referentes temperatura do ar, temperatura média radiante, velocidade do ar e umidade absoluta do ar.

Uma das reações típicas do organismo ao stress térmico é a chamada síndrome de alerta ou síndrome de adaptação. Como em ambientes quentes a estabilidade do sistema de controle da temperatura do corpo está sob risco, ele passa a se proteger.

De acordo com o especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho e diretor técnico da Mashi Técnicas Ambientais de São Bernardo do Campo, Coimbra Filho (2007) o organismo tende a reduzir a carga de trabalho, sendo fisiológica e natural certa sonolência das pessoas em climas de temperatura alta.

Coimbra Filho (2007) ainda relata que são três os modos de perda de calor por parte do organismo: por condução, evaporação e irradiação. No primeiro caso, o organismo conduz o calor para as vestimentas que estão em contato com o corpo e para os objetos que estiverem juntos dele. Se o objeto estiver mais quente que a pele, o organismo ganhará calor.

O processo de evaporação consiste no aumento da taxa de sudorese, que depois de produzir a fase líquida, passa para a fase de vapor, retirando o calor da pele e resfriando o organismo.

Coimbra Filho (2007) explica que a evaporação é importante na adaptação do trabalhador ao ambiente quente por ser uma forma de interação em que não há ganho de calor, somente perda. Pessoas com maior capacidade de suor e aeróbica toleram melhor ambientes quentes. Os que suam pouco, com baixa capacidade aeróbica, obesos e hipertensos, raramente toleram o calor mais intenso. O terceiro modo refere-se à irradiação natural de calor que o ser humano faz através das ondas eletromagnéticas na faixa do infravermelho. Quando dois corpos trocam calor por irradiação, o que estiver mais frio absorverá mais calor e o mais quente perderá calor para o mais frio.

A questão da adaptação do trabalhador aos ambientes quentes foi destacada pelo engenheiro civil e supervisor do Laboratório de Eficiência Energética de Edificações da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Lamberts (2007) explica que isto se observa quando entra um operador novo da empresa, que geralmente responde ao calor de uma maneira diferente da pessoa que j&a

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