Aspectos Psicomotores na Síndrome de Down

Autor:
Instituição:
Tema: Síndrome de Down

Aspectos Psicomotores nas Patologias Fonoaudiológicas

Síndrome de Down

Belo Horizonte, 15 de Setembro de 1998


AGRADECIMENTOS

Agradecemos à professora do curso de graduação Beth Siqueira pela oportunidade dada para a realização deste trabalho, proporcionando-nos um conhecimento mais amplo.

À supervisora da área de Atraso de Linguagem da Clínica Escola de Fonoaudiologia FAMIH, Celeste Cabral, pela disponibilidade e eficiência no esclarecimento das questões referentes ao tema abordado.

À estagiária do 4o ano, Adriana Von Sperling, pelo apoio. E, finalmente, ao paciente observado RMR, por permitir a realização deste trabalho.


Introdução

A Síndrome de Down está dentre as síndromes de mal formações congênitas mais freqüentes. É causada pela cromossopatia que afeta o par 21 (trissomia). Uma das principais manifestações desta síndrome é a hipotonia generalizada e o retardo mental, o que se reflete em um atraso sensório-motor e cognitivo. Portanto, é muito importante que os portadores da síndrome de Down sejam submetidos à uma intervenção e estimulação precoce e adequada para garantir-lhes o desenvolvimento mais próximo do normal.

Neste trabalho, será apresentado uma pesquisa bibliográfica da Síndrome de Down, a descrição de um caso clínico, tendo como objetivo: - estabelecer um paralelo entre ambos e identificar os aspectos psicomotores na síndrome de Down.

 

1.0 O que é Síndrome de Down

1.1 Definição e Etiologia

A Síndrome de Down é uma patologia genética caracterizada por um cromossomo a mais no par 21 (trissomia). O acidente biológico do qual resulta essa trissomia é chamado de não disjunção e ocorre mais freqüentemente na meiose materna.

Os fatores que produzem a não disjunção incluem: idade materna, tendência familiar, possíveis influências externas, como infecção viral e outros tipos de infecções e exposições à radiações. A não disjunção, teoricamente, poderia ser produzida por influência materna ou paterna, mas a relação com a idade materna leva a pensar que a não disjunção favorecida pelo envelhecimento dos oócitos é mais freqüente no curso da meiose materna que paterna. Os erros de distribuição dos cromossomos que resultam na instalação da Síndrome de Down ocorrem em maior freqüência nas gestantes idosas.

1.2 Diagnóstico

O diagnóstico da Síndrome de Down é confirmado pelo estudo do cariótipo. É possível determinar com grande precisão o cariótipo de um indivíduo, através de células fetais cultivadas em vilo corial e líquido amniótico. A detecção precoce da Síndrome de Down é fator importante para estimulação. O exame pré-natal é indicado quando há um fator predisponente à síndrome.

Ao nascimento, o bebê com Síndrome de Down apresenta baixo peso, apatia, reflexos neonatais embotados, dificuldades respiratórias freqüentes, icterícia fisiológica prolongada, tendência a policitemia, hérnia umbilical, e estenose duodenal, hiperreflexibilidade das articulações com hipotonia muscular generalizada e severa. O APGAR encontra-se diminuído.

Ao diagnosticar a Síndrome de Down, a impressão geral é mais importante do que as características isoladas. É um diagnóstico essencialmente clínico, baseado principalmente, no retardo mental, nas características físicas e confirmado pelo estudo genético.

1.3 Quadro Clínico

- Manifestações gerais: hipotonia muscular com tendência para manter a boca aberta e a língua protusa; diástese dos músculos retos abdominais. Flexibilidade exagerada das articulações. Estatura relativamente baixa com marcha peculiar. Tendência à obesidade. Discreta microcefalia.

- Aspectos Neurológicos: o cérebro apresenta-se com volume e peso reduzidos, comprometendo o lobo frontal, tronco cerebral e cerebelo; as circunvoluções cerebrais são mais simples e o giro temporal superior é bem estreito, justificando a dificuldade encontrada quanto à sua linguagem expressiva. Há comprometimento mental e o desenvolvimento neuropsicomotor é lento, mas segue as etapas de uma criança normal.

- Anomalias crânio-faciais: braquicefalia com relativo achatamento da região occipital e tendência para a localização parietal dos cabelos na linha mediana. Microcefalia discreta, rimas palpebrais oblíquas, em posição mongolóide. Paredes cranianas finas; atraso no fechamento das fontanelas. Hipoplasia ou aplasia dos seios frontais, palato duro de comprimento reduzido. Nariz pequeno com achatamento da base e tendência à presença de epicanto interno.

- Olhos: manchas da íris (manchas de Brushfield); hipoplasia da zona periférica da íris; olhos oblíquos, prega epicantal e problemas visuais.

- Orelhas: pequenas. Hélice superior angulosa, com excesso de pregas; orelhas em abano; em alguns casos; lóbulos das orelhas pequenas ou ausentes.

- Órgãos Fono-articulatórios: dentes pequenos, língua sulcada e protruída, palato elevado em ogiva, cavidade bucal e mandíbula reduzidas.

- Pescoço: curto e largo, podendo haver excesso de pele nas porções laterais e posteriores.

- Mãos: grossas e curtas, dedo mínimo arqueado, dobra palmar incluindo os quatro dedos.

- Pés: largos e curtos

- Pelve: Hipoplasia das asas do osso ilíaco, as quais se alargam para fora; ângulo acetabular raso.

- Coração: Aurícula e ventrículo comum, comunicação interventricular, persistência do conduto arterial, comunicação interauricular e artéria subclávia aberrante, por ordem decrescente de freqüência.

- Pele: Frouxa na região da nuca (durante a primeira infância). Cútis marmórea. Pele seca, tornando-se hiperqueratótica com o decorrer do tempo.

- Cabelos: Finos, sedosos e muitas vezes ralos; pêlos pubianos lisos, a partir da adolescência.

- Órgãos genitais: Sexo masculino: pênis relativamente pequeno. Hipogonadisno, tanto em relação à fertilidade como em relação à produção de testosterona. Os homens são estéreis, mas as mulheres, porém, podem ter filhos.

1.4 Aspectos Psicomotores

  • Dificuldade na coordenação motora;
  • Dificuldade na atenção, compreensão e elaboração cognitiva;
  • Dificuldade nas relações interpessoais e nos processos emocionais;
  • Dificuldade na fala e na memória;
  • Alteração na estruturação do esquema corporal, equilíbrio, tônus, geralmente hipotônico.
  • Lentidão motora em relação aos estímulos;
  • Sincinesias;
  • Habilidades motoras inferiores à criança normal
  • Alterações de postura e equilíbrio;
  • Dificuldade de elaborar e fixar imagens mentais;
  • Percepção imatura de si mesmo;
  • Memória e capacidade limitada para repetir e criar idéias, elaborar cálculos, etc.
  • Possuem pouca atenção e limitações para aprendizagem e abstração.

 

1.5 Tabelas de desenvolvimento

ATIVIDADE MOTORA

IDADE

Segurar bem a cabeça

5 meses

Rolar sobre o corpo, lentamente

7 meses

Passar um objeto de uma mão para outra

10 meses

Sentar-se sem apoio durante um minuto

11 meses

Arrastar-se ou girar em círculo no chão

13 meses

Sentar-se sozinha

17 meses

Engatinhar

17 meses

Andar apoiada em móveis

20 meses

Parar em pé sem apoio

23 meses

Andar sem apoio

24 meses

Sentar-se sozinha em uma cadeira

28 meses

Subir degraus apoiando-se em corrimão

30 meses

Subir e descer escada sozinha

48 meses

Rabiscar e imitar um círculo

48 meses

Vestir roupas simples sozinha

48 meses


Tabela 1: Referente à época de aparecimento das diversas atividades motoras nas crianças portadoras da síndrome de Down.

Idade Down Idade Normal

Linguagem

Média

Faixa

Média

Faixa

Primeira Palavra

23 meses

01-04 anos

12 meses

08-23 meses

Frase de 2 palav.

03 anos

01-07 anos

02 anos

15-32 meses

Pessoal/Social

       

Sorriso em resposta

03 meses

01-05 meses

01 mês

01- 03 meses

Comer com as mãos

18 meses

10-24 meses

13 meses

09-17 meses

Beber no copo

23 meses

12-32 meses

13 meses

09-17 meses

Controle do esfíncter anal

04 anos

02-07 anos

22 meses

16-42 meses


Tabela 2: Ritmo das aquisições das habilidades chaves nos primeiros anos de vida, comparando-se ao das crianças normais.

 

1.6 Tratamento por estimulação precoce nas diferentes especialidades

O tratamento requer o trabalho de uma equipe multidisciplinar afim de desenvolver um desenvolvimento global mais próximo da normalidade e promover a integração social do indivíduo.

1.6.1. Atuação da Psicologia

A criança já nasce com mecanismos prontos para auxiliá-la na inter-relação com o meio e as primeiras atividades de adaptação são imprescindíveis para a sobrevivência, e se dão através de reflexos inatos. A criança se comunica inicialmente através do corpo e esta atividade se desenvolve concomitamente ao desenvolvimento dos órgãos e à maturação fisiológica.

Gradativamente, a criança vai se tornando capaz de ater-se a objetos, assimilá-los e registrá-los internamente.

A criança amplia e diversifica o comportamento à medida que vai acumulando experiências e adquirindo vivências. Ela adquire capacidade de ir ajustando suas habilidades às exigências do meio. Com aquisição da linguagem a criança é capaz simbolizar uma ação, ou antecedê-la, lançando mão do desenvolvimento do pensamento.

As imagens formadas na representação mental têm cunho físico-sensorial, emocionais. A palavra tem conteúdo adjetivo.

A criança adquire capacidade de reflexão. Por isso o conteúdo da aprendizagem, os sentimentos vivenciados interferem no estabelecimento de relações com o mundo.

A construção da bagagem de experiência da criança tem início desde os primeiros contatos com a pessoa que cuida e a alimenta (geralmente é a mãe). As manifestações afetivas da mãe são captadas através dos sentidos do bebê e vice-versa. Por isso a importância deste período para o estabelecimento de um relacionamento com o mundo e um desenvolvimento físico e psicológico do bebê satisfatório. O vínculo afetivo deve ser estável para que isso ocorra.

Ao nascer uma criança anormal, a relação materna é afetada pelo sentimento de perda da criança normal. A criança é vista como impostora ou como desconhecida.

Os pais passam por várias emoções desde o nascimento de uma criança deficiente. Será mais fácil a caminhada deles se houver apoio profissional e dos mais próximos.

É importante que o profissional localize os pais, tendo em vista o potencial da criança para a aprendizagem, ajustando as expectativas dos pais às possibilidades da criança.

O resultado da avaliação deve ser dado depois de muitas observações, envolvendo vários profissionais e após várias entrevistas periódicas com os pais. Isto, para que o resultado seja o mais fiel possível. As provas lúdicas são usadas para identificar o estágio onde se encontra uma criança de 4 anos.

1.6.2. Atuação da Terapia Ocupacional

A criança com síndrome de Down apresenta atraso no seu desenvolvimento neuropsicomotor, tendo como conseqüência, alteração psíquica, motora, de fala. Ou seja, a aprendizagem será mais lenta do que em uma criança normal. Tudo isso levará a criança a ter dificuldade em se relacionar no meio em que vive.

O papel da terapia ocupacional é estimular a criança a ter possibilidade em adquirir as atividades da vida diária, ou seja, atividades rotineiras e atividades da vida prática que estão ligadas ao mundo sócio domiciliar. Para isso é necessário que a criança conheça as partes do seu corpo com suas respectivas funções, deve receber estímulos estereoceptivos, quer dizer, a relação do indivíduo com o seu meio. Além disso, o terapeuta atuará no sentido de fazer com que a criança possua mais equilíbrio (isto leva a criança a adquirir uma boa postura) e normalização do tono muscular.

O terapeuta poderá favorecer o desenvolvimento neuropsicomotor da criança através de vários modos como, massas para modelar, brinquedos, tinta, atividades da vida diária, confecções mobiliárias, técnicas corporais, etc.

É muito importante para o progresso da criança com síndrome de Down , um bom relacionamento mãe-filho, pois assim, a vivência do dia-a-dia da criança será melhor e proveitosa. Além disso, a criança deve se sentir segura e amada por todas as pessoas com quem ela se relaciona.

1.6.3. Atuação do serviço social

O serviço social visa oferecer um atendimento global propiciando a interligação entre família-criança-comunidade e um equilíbrio da dinâmica familiar com o assistente social à família da criança deficiente.

Para que o atendimento seja adequado, o assistente social tem que estar a par de tudo: desde o momento em que houve a confirmação da síndrome na criança até as relações e comportamento da família e da comunidade diante desta situação.

Deve-se orientar a comunidade quanto a influência que esta tem sobre a criança e as conseqüências que ela pode causar no desenvolvimento físico e psicológico da criança com síndrome de Down.

O serviço social pode intervir de várias maneiras de acordo com a necessidade, sendo elas: atendimento individual, onde é realizado junto ao pai e/ou mãe da criança deficiente, buscando vencer bloqueios que existem quanto à doença levando em conta a posição individual de cada um. O atendimento ao casal é feito ao nível de problemas no vínculo conjugal, procurando, o assistente social, facilitar o diálogo, e assim, um clima familiar mais adequado p/ a criança com síndrome. O atendimento ao grupo familiar oferece um melhor relacionamento através da comunicação entre as pessoas que compõem esta família.

O atendimento ao grupo de pais possibilitará a identificação por problemas semelhantes, apoio mútuo, troca de experiências de vida familiar e extra familiar, bem como a quebra do isolamento social que geralmente ocorre em função do nascimento de uma criança deficiente.

A atuação em comunidade se faz por meio de realização de palestras, informativos e o assistente deve ter conhecimento dos recursos que a comunidade oferece na saúde (postos), educação, trabalho e lazer.

A CERSAM (Centro de referência à saúde mental) é um trabalho realizado por assistentes sociais que visam todos esses aspectos mencionados.

1.6.4. Atuação da fisioterapia

A atuação da fisioterapia baseia-se no desenvolvimento normal. Visam estimular o desenvolvimento neuropsicomotor, conseguidos através de estímulo à normalização do tono muscular global, inibição dos padrões anormais de desenvolvimento e postura, indução dos movimentos normais, aumento do limiar da sensibilidade tátil e cinestésico, condicionar estímulos proprioceptivos nas diversas posturas, desenvolvimento de reações de proteção, retificação, equilíbrio estático e dinâmico, percepção corporal, coordenação dinâmica global e visomotora, aquisição de um relacionamento sócio-emocional positivo e desenvolvimento da atenção, concentração e compreensão.

Para tanto é preciso ter a consciência de que antes do aprendizado de um movimento, faz-se necessário experiências anteriores. Deve-se respeitar o estágio em que se encontra a criança e saber que o desenvolvimento é gradativo.

O método de Bobath aproveita a maior plasticidade cerebral, possibilitando um desenvolvimento da integração motora em níveis superiores. É preciso fazer uma adaptação para cada criança.

Alguns materiais específicos são usados para que o trabalho seja facilitado, como Bola de Bobath- para estimular as reações de proteção, equilíbrio, normalização do tono; "Jump-up"- para normalização do tono, propriocepção; Rolo de Bobath- para reações de proteção e controle de cabeça; escada- para trabalhar coordenação e equilíbrio; etc.

Deve-se trabalhar dando ênfase a exercícios que estimulem a normalização do tono.

Quando o bebê não engatinha, passando logo a andar, geralmente possui dificuldades de flexo-estensão de joelhos e base alongada, rotação externa de membros inferiores mais acentuadas em marcha.

Como o desenvolvimento se dá de maneira integral, o desenvolvimento físico é importante para o desenvolvimento global. A participação da mãe é importante, na continuidade dos exercícios em casa.

As avaliações são feitas para a observação do desenvolvimento conquistado pelo trabalho.

1.6.5. Atuação da Fonoaudiologia

Os objetivos principais da atuação fonoaudiológica são os de adequação das funções reflexo-vegetativas, do tônus muscular, bem como propiciar à criança possibilidades de se comunicar, oferecendo-lhe um ambiente rico em estímulos para que sua linguagem e seu desenvolvimento psicomotor seja o melhor e o mais próximo do normal possível.

A fonoaudiologia visa desenvolver a comunicação da criança "problema" através de orientações aos pais, que possibilitarão um local lingüisticamente estimulador levando em consideração a situação sócio-econômica-cultural dos responsáveis pela criança com a síndrome de Down.

A dificuldade de linguagem de linguagem no deficiente pode ser justificada pela anatomia cerebral alterada, bem como o aspecto hipotônico da musculatura , mau posicionamento dos dentes, deformação do palato que ocasiona problemas de respiração e otites repetitivas.

Cabe ao fonoaudiólogo desenvolver as funções do palato, dentes e outros órgãos fono-articulatórios; desenvolver a linguagem receptiva e expressiva da criança com síndrome de Down. Esta deve vivenciar e explorar situações que a levam à formação de conceitos e acumulação de informações, adquirir experiências no dia-a-dia.

Quanto mais cedo os fonoaudiólogos atuarem, melhores serão os resultados obtidos, tanto das atividades pré-lingüísticas (sucção da língua, ranger dos dentes, sucção de dedos, mobilidade dos órgãos fonoarticulatórios) quanto das atividades lingüísticas (Um ambiente cultural elevado que o estimule, o próprio potencial do indivíduo, e o estímulo recebido por este.

1.6.6. Atuação da Pedagogia

A meta principal da pedagogia é orientar os pais quanto ao desenvolvimento de sua criança, e em especial o da criança deficiente para que ela tenha uma vida como a de qualquer outro ser: com bons relacionamentos familiares e na comunidade.

O profissional incentiva aos pais a criarem uma rotina para a criança deficiente, fazendo-a desenvolver os comportamentos adequados e normas educacionais para que esta venha a ter, mais tarde, um melhor entrosamento com os outros seres que vão fazer parte de sua vida.

A pedagogia não só orienta somente no aspecto psicológico, como também orienta os pais a desenvolverem o aspecto físico de suas crianças com materiais terapêuticos, por exemplo, sucata, a fim de incentivar o desenvolvimento motor, atenção e coordenação adequados.

O trabalho da pedagogia quanto ao atendimento das crianças deficientes é feito em grupos pequenos e separados de acordo com a faixa de desenvolvimento em que a criança se encontra.

 

2.0 Apresentação do Caso Clínico

2.1 Histórico do paciente - Síntese

O paciente, RMR, de 7 anos, é portador de Síndrome de Down. É uma criança alegre, participativa, que interage bem com a terapeuta durante as sessões. Possui um atraso de linguagem, mas é capaz de se expressar, mesmo com limitações. Algumas palavras são pronunciadas com correção (ex.: vaquinha, cavalo...), entretanto, a maioria é distorcida, algumas incompreensíveis.

O pr. tem uma boa compreensão, apesar de não aceitar de imediato as propostas ou regras das atividades durante as seções.

Apresenta uma boa coordenação motora ampla (correr, jogar bola, dar cambalhotas, esta a princípio de modo desajeitado, apresentando uma evolução nesta atividade). A coordenação motora fina é comprometida, tendo dificuldade em executar movimento de pinça para segurar o lápis. Não corta usando a tesoura, sempre rasgando o papel.

Tem dificuldade em se relacionar com outras crianças. Quando em grupo, gosta de ter a atenção voltada para si, não interagindo com os colegas.

Apesar de normalmente ser uma criança alegre, às vezes R. chega para o atendimento com o comportamento alterado: dá tapas em seu rosto, bate a cabeça na mesa ou parede, pede colo. À medida que ele percebe que está tendo atenção ele se tranqüiliza.

R. é uma criança que requer atenção e carinho, porém não se deve esquecer de dar limites a ele, uma vez que ele costuma ser manipulador.

R. tem mantido os lábios entreabertos quando está concentrado em uma atividade, esquecendo-se de deglutir a saliva. Há uma hipotonia labial e lingual

Durante os atendimentos, é um paciente que tem se mostrado bastante criativo, capaz de simbolização. Manipulando materiais concretos, é capaz de criar situações abstratas (inventa histórias, representa cenas, geralmente aniversário, e fala muito). Quanto a lateralidade, o paciente observado, não apresentou nenhuma alteração significativa, embora trabalhe com ambos os lados, usa preferencialmente a mão direita.

2.1.1 Histórico - Alguns dados da Anamnese.

Observação: Os dados desta anamnese foram colhidos em fevereiro de 1996.

  • Caso: RMR.
  • Idade: 7 anos
  • Data de Nascimento: 13/02/91
  • Naturalidade: BH
  • Início do tratamento na clínica escola de fonoaudiologia: fevereiro de 1996.
  • Motivo da consulta: Vontade de se expressar e não consegue.
  • Encaminhado à clínica pela "Família Down"
  • É o segundo filho do casal. Idade materna 29 anos, paterna 36.
  • Condições Psicológicas: A gravidez não foi desejada; trabalhou muito e ficou muito agitada e contrariada.
  • Fez pré natal e não houve intercorrência durante a gravidez.
  • RMR nasceu à termo (9 meses), parto: cesariana secundária.
  • Condições do bebê ao nascer: Não chorou, não tomou medicação; teve icterícia; não fez transfusão sangüínea, fez fototerapia.
  • Amamentou até os 2 meses. Fez uso de mamadeira até os 2 anos ( a mãe "cortava" o bico).
  • Alimentação normal, porém não mastiga bem. Engole com facilidade.
  • Antecedentes patológicos: diabetes: avós maternos. Alcoolismo: pai.
  • Outras enfermidades apresentada pela criança: amigdalite, sempre iniciavam com uma febre.
  • Costuma bater a cabeça na parede quando é contrariado.
  • Soniloqüismo
  • Hábitos especiais: uso de chupeta e dorme perto da mãe.
  • Apresenta enurese
  • Sucção digital, a mãe não tentou tirar, pois o hábito é noturno.
  • Baba
  • Controle dos esfíncteres: anal: 04 anos (apresentou dificuldade) . Vesical: ainda não
  • Come, veste-se e toma banho sozinho.
  • Desenvolvimento psicomotor: sustentou a cabeça com 2 anos, sentou-se com 3 anos, engatinhou rápido (arrastado), andou com quase 4 anos, não cai muito nem esbarra em obstáculos. Sem dominância manual.
  • Desenvolvimento da linguagem verbal: balbuciou. Primeiras palavras: mamãe, papai. Não forma frases direito.
  • Às vezes apresenta curiosidade sexual, porém a mãe considera-o pequeno para educação sexual.


2.2 Evolução do paciente

96-97

Trabalho de estimulação global, coordenação motora, esquema corporal, estimulação de linguagem através de música, treino fonoarticulatório (sucção, sopro, etc.)

Inicialmente o paciente era motivado e participativo, porém muito agitado e sem limites e não conseguia fixar atenção, o que dificultou a terapia.

No final do semestre houve uma melhora no comportamento (já consegue obedecer as regras e manter a atenção por mais tempo).

Apresenta uma hipotensão. Pouco aproveitamento do ritmo. Se mostra agitado com mudança de estagiária

Apresenta-se mais comunicativo. "Usa óculos", mas não os leva para a terapia.

98

Deixou o hábito de empilhar os blocos, não monta quebra cabeça, pouca coordenação dos movimentos (pintura). Consegue pintar o nariz sem se olhar no espelho, aprimora movimentos de rolar e dar cambalhota.

Inicialmente se mostrava agressivo ao fazer atividades no espelho, porém durante as últimas sessões observadas, RMR, tem conseguido realizá-las, porém "nega" sua imagem, sempre procurando algum personagem para ela (ex.: palhaço).

 

3.0 Hipóteses para as dificuldades do paciente relacionadas à psicomotricidade

  • A dificuldade em fixar a atenção e falta de disciplina motora pode estar relacionada ao atraso no desenvolvimento motor, podendo estar relacionado, também à agitação desta criança.
  • A dificuldade na coordenação motora possivelmente está relacionada à uma má estruturação do esquema corporal, uma vez que a criança precisa conhecer o seu corpo para planejar a ação de forma satisfatória. O planejamento, para a posterior execução da atividade pode depender também, da orientação temporo-espacial, como a criança portadora da síndrome de Down apresenta dificuldades na coordenação, sugere-se que ela tenha dificuldades de orientação temporo-espacial .
  • A dificuldade de aprendizagem também pode estar relacionada à má estruturação do esquema corporal, além de contar com o fato de apresentar um atraso no desenvolvimento neurológico.
  • A insegurança, o medo, provavelmente está relacionada à má estruturação do esquema corporal, pois o conhecimento do próprio corpo traz uma segurança, não só ao deficiente, mas também a qualquer pessoa.
  • A dificuldade na linguagem expressiva, possivelmente é devido a uma desaceleração no desenvolvimento do SNC, há uma redução no volume e no peso do cérebro nas zonas do lóbulo frontal, tronco cerebral e cerebelo. As circunvoluções cerebrais são mais simples que nas crianças normais e o giro temporal superior é bem estreito. Além disso, pode estar relacionada à alteração da noção temporo-espacial, percepção de seqüenciação e dificuldade de aprendizagem.
  • Tendência para manter a boca aberta e língua protrusa. Isso provavelmente, é devido à hipotonia muscular e à falta de percepção corporal (não percebe que a boca está aberta).
  • A dificuldade em jogos de encaixe, pode estar relacionada à uma má estruturação na organização temporo-espacial.
  • A alteração no ritmo respiratório, também pode estar ligada à alteração de noção temporal.
  • A falta de equilíbrio pode estar ligada à falta de coordenação motora.

 

4.0 Paralelo entre as Dificuldades da Criança e a Psicomotricidade

A "lei da Psicomotricidade", anunciada por Dupré, evidenciava o paralelismo entre o desenvolvimento das funções motoras de movimento e ação e o desenvolvimento das funções psíquicas. Desta forma, a existência de uma psicomotricidade fisiológica e suas correlações são igualmente constantes em perturbações psíquicas, mesmo quando a sintomatologia aparente é motora, intelectual ou afetiva.

O portador da Síndrome de Down possui uma deficiência mental de natureza congênita o que dificulta suas práticas ideomotoras. A deficiência mental refere-se ao funcionamento intelectual abaixo da média, que coexiste com falhas no comportamento adaptativo e se manifesta durante o período do desenvolvimento, como por exemplo, no nível psicomotor, refletindo em dificuldades de coordenação motora (principalmente a fina), de atenção, compreensão e elaboração cognitiva, nas relações interpessoais e nos processos emocionais, na fala, na memória, na estruturação do esquema corporal, equilíbrio e tônus, geralmente hipotônico. Essas alterações se devem ao atraso no desenvolvimento do Sistema Nervoso, caracterizado pela lentidão do processo estímulo-resposta e funcionamento neuropsicológico, principalmente na região cortical. Além disso, a forma como se dá o relacionamento entre a mãe e a criança, onde a mãe geralmente tem seu sonho destruído, é um fator importante para o desenvolvimento da criança "diferente", pois o grau de fusão entre mãe e filho, seu diálogo tônico, vão influenciar no desenvolvimento afetivo e psicomotor da criança.

O esquema corporal refere-se à integração das partes do próprio corpo, da consciência de suas partes e do todo, bem como das posturas e movimentos que são adquiridos através de experiências e dependem da integração neuro-psico-social. Este é necessário à formação da personalidade do indivíduo e de todos os outros aspectos psicomotores (coordenação global, tonicidade, equilíbrio, postura corporal, noção de tempo e espaço, lateralidade). Ainda no que se refere a este aspecto, o esquema corporal, o portador da Síndrome de Down apresenta dificuldades para elaborar e fixar imagens mentais devido à imaturidade neurológica. Em relação ao paciente observado na clínica, foi possível notar que o mesmo não se olha no espelho e quando o faz, pode reagir tanto com agressividade, quanto buscar personagens para a imagem refletida no espelho. Entretanto, ele reconhece as partes do corpo.

O desenvolvimento da tonicidade se inicia na relação da criança com a mãe, diálogo tônico, onde a comunicação é estabelecida pela variação tônica. O tônus do pescoço e da nuca, primeiro sinal de maturação tônica e desenvolvimento do controle postural, possibilita o desenvolvimento cognitivo, pois permite que a criança tenha maior exploração visual e sonora do ambiente. O desenvolvimento do tônus permite que a criança coordene seus movimentos. Isso mostra a estreita relação de estruturação espacial com o esquema corporal, uma vez que a partir do momento que o indivíduo tem consciência do seu corpo, ele o toma como centro de referência para seu ajustamento no espaço sendo este facilitado pela coordenação óculo-manual e adquirido a partir das ações do indivíduo no meio.

Todos esses aspectos foram encontrados com alteração no paciente observado, RMR, que apresenta uma incoordenação no controle da tonicidade, havendo às vezes, hipertensão muscular, quando fica nervoso; porém, muitas vezes, seus movimentos são muito amplos, sugerindo uma hipotonia. Essa hipotonia afeta tanto seu equilíbrio estático, quanto dinâmico. O equilíbrio, ou melhor, a alteração dele, está relacionada às alterações anatômicas da criança, isto é, a forma dos pés, e o tórax em cifose (características da síndrome). Além disso, o equilíbrio dificulta o desenvolvimento da noção espacial, por essa razão, o paciente, é "desajeitado", realiza movimentos muito amplos esbarrando em objetos e pessoas, não respeitar limites, não encaixar peças de quebra-cabeças.

Outro aspecto importante diz respeito à atenção. O portador da Síndrome de Down apresenta um déficit de atenção, onde aparece diretamente ligado aos fatores físicos e particularmente à respiração, incoordenada e insuficiente. Podem ser classificados como apáticos ou agitados, sendo que às vezes parecem oscilar entre os dois pólos. O que dificulta por demais a fixação da atenção.

A ansiedade, uma emoção comum na Síndrome de Down, está relacionada diretamente com os distúrbios profundos do equilíbrio e que se transforma rapidamente em angústia e medo, que tem papel primordial em todos os problemas de inadaptação, ligada a origem dos distúrbios do comportamento em geral.

Esse déficit de atenção, pode ser observado em RMR, que não se prende às atividades, não fixa a atenção, muito agitado, ansioso, e demonstra medo várias vezes, mesmo ele criando o personagem. Ex.: ele sugere que um objeto é o cavalo, manipula o objeto, e grita, às vezes, dizendo ter medo. Ou inventa de subir na cadeirinha, e fica com medo de cair, demonstrando um alto grau de ansiedade.

Quanto à organização temporal, pode-se dizer que ela influencia na respiração, uma vez que ela coordena o ritmo respiratório. No caso do paciente, foi encontrado uma incoordenação respiratória. O tempo também influencia a seqüenciação, o paciente observado, não tem muita noção de conseqüência.

Possíveis Áreas Psicomotoras a serem trabalhadas

  • Esquema e imagem corporal;
  • Organização temporo-espacial;
  • Controle do tônus e da postura corporal;
  • Atenção;
  • Equilíbrio
  • Coordenação motora.


Conclusão

Com este trabalho podemos concluir que, a criança portadora de Síndrome de Down, apresentaria grandes problemas motores se não fosse estimulada precoce e adequadamente. Apesar da criança poder se desenvolver espontaneamente, se ela não for estimulada, seu desenvolvimento será muito mais lento.

A criança vai se desenvolver se for dada a ela a capacidade de experimentar. Como o portador de deficiência recebe o estímulo de forma fragmentada devido a limitações perceptuais, os outros processos cognitivos, como retenção, elaboração serão prejudicados, isso se deve à falta de estímulos, para melhorar a capacidade desta criança, os pais ou responsáveis devem ser orientados a criarem situações de estimulação para seu filho.

Ao observarmos uma criança inadaptada, podemos perceber que ela apresenta uma dificuldade muito grande em realizar gestos elementares (movimento de dedos e marcha rítmica) e de reproduzir sem erros as percepções visuais e auditivas que são recebidas. Essa criança poderá não ter nenhum progresso se não for trabalhada, se não receber uma educação de base.

As crianças portadoras de Síndrome de Down brincam como crianças normais. Porém, têm necessidade de uma maior variedade pois, pelas dificuldades de abstração, precisam de experiências concretas para aprender.

A partir do momento que consideramos o indivíduo portador da Síndrome de Down como pessoa, a terapia acarretará um maior desenvolvimento da mesma.

Bibliografia:

BUENO, Josian H. - Psicomotricidade, Teoria e Prática, São Paulo: Lovise, 1998.

FLÓREZ, J. - Bases Neurobiológicas del Aprendizaje y la Memoria en el Sindrome de Down - Universidad de Cantabria, Fundacion Sindrome de Down de Cantabria

LEFERE, B.H. -Mongolismo: orientação para famílias- 2a edição, São Paulo: Almed, 1985.

------------------- Mongolismo: estudo psicológico e terapêutica multiprofissional daSíndrome de Down , São Paulo: Sarvier, 1981

LIMONGI, S.C.O e col. - Síndrome de Down, desenvolvimento cognitivo e de linguagem: um estudo de investigação - in: Temas sobre o desenvolvimento - Ano 5, No 25 - julho/agosto 1995, São Paulo

Comentários


Páginas relacionadas