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O Mundo dos Valores

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Tema: Fichamento

O MUNDO DOS VALORES


Levar vantagem em tudo

O que intriga nessa história de dar um jeitinho é que, na maioria das vezes, as pessoas sabem que transguidem padrões de comportamento, mas raciocinam como se isso fosse normal, visto que é comum, e contestam: Só eu? Todo mundo age assim, quem não fizer o mesmo é trouxa, quem não gosta de levar vantagem em tudo?

Muitos até acham que se trata de virtude a complacência com qual as pessoas fecham os olhos para essas irregularidades e favorecimento... Ora são crimes (como o roubo do dinheiro público nas concorrências fraudulentas), ora desrespeito ao próximo (como furar fila). Em todo esses casos, o jeitinho surge como forma autoritária e individualista que desconsidera as normas da vivência em coletividade.

Além do famigerado jeitinho, cuja aceitação camufla seu caráter reprovável, no dia-a-dia deparamos com outros tipos de ações que costumamos condenar de forma mais explícita, tais como mentir, roubar, matar, explorar o trabalho alheio e assim por diante... E, em função dessas avaliações, são dignas de admiração ou de desprezo.

E o que é valorar? O que são valores?

O que é valor

Ao mesmo tempo em que formulamos juízos de realidades, são inevitáveis os juízos de valor... Há, portanto o mundo das coisas e o mundo dos valores. Não podemos, porém, dizer que os valores são da mesma maneira que as coisas são, porque não há valor em si tal como uma coisa existe. Ou seja, o valor é sempre uma relação entre o sujeito que valora e o objeto valorado.

Atribuir um valor a alguma coisa é não ficar indiferente a ela. Portanto, a não indiferença é a principal característica do valor.

Os valores existem na ordem da afetividade... Valorar é uma experiência fundamentalmente humana que se encontra no centro de toda escolha de vida. Fazer um plano de ação nada mais é do que dar prioridade a certos valores, ou seja, escolher o que é melhor (seja do modo de vista moral, utilitário etc.) e evitar o que é prejudicial para atingir os fins propostos...

Ética e Moral

... A MORAL é conjunto de regras de conduta assumidas pelos indivíduos de um grupo social com a finalidade de organizar as relações interpessoais segundo os valores do bem e do mal.

A ÉTICA, ou filosofia moral é mais abstrata, constituindo a parte da filosofia que se ocupa com a reflexão sobre as noções e princípios que fundamentam a vida moral. Por exemplo, são questões éticas indagar a respeito do que é o bem e o mal, o que são valores, qual a natureza do dever, em que consiste a moral autônoma, qual a finalidade da ação moral e assim por diante. As respostas a essas e outras questões caracterizam as diversas concepções de vida moral elaboradas pelos filósofos através dos tempos.

De onde vem os valores?

Vimos que os valores não são coisas, mas resultam das relações que os seres humanos estabelecem entre si e com o mundo em que vivem. Por isso os valores são em parte herdados da cultura e nossa primeira compreensão da realidade se funda no solo dos valores de comunidade a que pertencemos. Esse fato talvez nos faça concluir que tais experiências variam conforme o povo e a época. É o que nos sugere a diversidade de costumes entre os povos...A amizade é sem dúvida um valor universal, mas sua expressão varia conforme os costumes. Na sociedade patriarcal, em que a mulher se encontra confinado ao lar e subordinada ao homem, é impensável que ela tenha amigos do sexo masculino... Essas regras mudam nos núcleos urbanos, depois que ocorreu a liberação da mulher para o trabalho fora do lar.

Em tese, esses valores servem para que a sociedade subsista, mantenha a sua integridade e se desenvolva. Ou seja, a moral existe para vivermos melhor, para termos uma vida boa... Se considerarmos que as imposições morais muitas vezes são formas de repressão e, portanto, geradoras de infelicidade. Essa avaliação, porém, só é verdadeira quando ocorre uma deformação da moral autentica, quando as normas estão a serviço de exploração e manutenção de privilégios de grupos.

A moral dinâmica

Dizíamos que nem sempre as regras morais visam ao bem da comunidade como um todo. Por que haveria essa distorção da verdadeira finalidade positiva da moral?

Em toda a sociedade, por mais estável que seja, sempre ocorrem mudanças de comportamento na luta pela subsistência... Persiste a tendência de resistir às mudanças, mas quando as regras permanecem inflexíveis, sedimentadas acabam sendo esvaziadas de seu conteúdo vital, ficando caducas e sem sentido. A sociedade passa, então, por uma crise que exige inventividade e coragem para recriar uma moral verdadeiramente dinâmica e comprometida com a vida... Para manter de forma inalterada o status quo, isto é, a situação vigente, o que leva a intolerância. Por exemplo, o fanatismo religioso recusa herético todo o distanciamento da ortodoxia... A experiência efetiva da vida moral supõe, portanto, o confronto continuo entre a moral constituída (isto é, os valores herdados) e a moral constituinte, representada pela critica aos valores ultrapassados. O esforço de construção da vida moral exige a discussão constante dos valores vigentes, a fim de se verificar em que medida ela se orienta em favor da vida ou da alienação.

O sujeito moral

Seriam os valores, além de relativos ao lugar e ao tempo, também subjetivos, isto é, dependentes das avaliações de cada individuo?

Se cada um pudesse fazer o que bem entende, não haveria moral propriamente dita. Na verdade, o sujeito moral intui os valores como fruto da intersubjetividade, ou seja, da relação com os outros. Não é o sujeito solitário que se torna moral, pois a vida moral se funda na solidariedade: é pela descoberta e reconhecimento do outro que cada ser humano se descobre a si mesmo. Intuir o valor é descobrir aquele que convém a sobrevivência e felicidade do sujeito na medida em que pertence ao grupo. Ao responder a pergunta como devo viver?, o sujeito moral da uma resposta com pretensão de validade universal, porque o sujeito moral não é o eu empírico, individual, egoísta, mas é o eu capaz de reconhecer o outro como outro eu: o outro é tão importante quanto eu sou.

Em certas épocas, porém, as pessoas não percebem alguns valores... Nas grandes cidades o individualismo exacerbado torna as pessoas menos generosas e mais desconfiadas.

Portanto, ninguém nasce moral, mais torna-se moral... A fim de se superar o egocentrismo infantil e torna-se capaz de "conviver".

Da mesma forma, há sociedades mais morais e outras mais cínicas, dependendo da maneira pela qual facilitam ou dificultam o desenvolvimento da consciência ética dos sujeitos.

A virtude

Com certa freqüência, a da pessoa virtuosa é a de alguém amável, dócil, cordato, capaz de renuncia e sempre disposto a servir aos outros. Trata-se, porém, de uma representação inadequada e muitas vezes perigosa... Portanto, o virtuoso nada tem de frágil ou servil: ao contrário, virtude é capacidade de ação, é potencia. Para Kant a virtude é a força de resolução que o homem revela na realização do seu dever.

A virtude, como disposição para querer o bem, supõe a coragem de assumir os valores escolhidos e enfrentar os obstáculos que dificultam a ação. Por isso a noção de virtude não se restringe a um ato moral apenas, mas na repetição e continuidade do agir moral. Ao afirmar que "uma só andorinha não faz verão", Aristóteles queria dizer que a virtude não se resume ao ato ocasional e fortuito, mas resulta de um hábito.

Obrigação e liberdade

O ato moral é complexo e supõe contradições irreconciliáveis entre dois pólos, como o social e o pessoal, tradição e a inovação e assim por diante. Não há como optar por apenas um desses aspectos, mas há que se admitir que as contradições constituem o próprio "tecido" da moral.

Igualmente, não deixa de nos causar perplexidade o fato de que o ato moral exige obrigação e liberdade... Por serem os desejos muitas vezes antagônicos, atender a todos eles torna-se impossível, até porque a vida em comum seria inviável. Por isso surge a moral, para exercer, controle sobre o desejo. Evidentemente, não se trata de repressão: o que se busca não é anulação do desejo, mas dar condições para que o individuo escolha e decida o que fazer em determinada situação.

O ato voluntário resulta, da consciência de obrigação moral... Por isso, todo ato moral esta sujeito à sanção, ou seja, merece aprovação ou desaprovação, elogio ou censura.

Progresso moral

Nem sempre a mudança moral equivale a progresso moral.

Certos valores antigos não precisam ser considerados necessariamente ultrapassados, da mesma forma que valores dos "’novos tempos" algumas vezes não indicam progresso. Só existe progresso quando avanço na melhoria de qualidade do ato moral em proveito do "bem viver".

Então os critérios para avaliar o progresso moral:

É importante que na vida moral se estabeleça um equilíbrio entre os interesses comuns e os pessoais.


Conclusão

Não há receitas para o agir bem: o compromisso conosco, com os outros, com as gerações futuras (o destino do planeta!) exige um estado de alerta constante.

Viver moralmente não é simples e nem fácil... do reconhecimento da dignidade de si mesmo e dos outros.

Como, porém, participar da construção de um mundo moral? Os problemas decorrentes da decadência ética que presenciamos não podem ser resolvidos apenas a partir de tentativas isoladas de educação moral do individuo. É preciso também vontade política de alterar as condições patogênicas, geradoras da doença social, para tornar possível a superação da pobreza moral... o que repercute na moral individual de inúmeras maneiras: as exigências de competição para manter ou alcançar privilégios e a luta pela sobrevivência na sociedade desigual elevam a níveis intoleráveis o egoísmo e o individualismo, geradores de violência dos mais diversos tipos. É assim que se pode falar em falta de ética diante da malversação de verbas publicas, que provoca, por exemplo, o colapso da rede de hospitais (quem há de negar que se trata de violência?), como também da imoralidade do seqüestro ou do assalto e mão armada.

Dito de outra forma, não basta "reformar o individuo" para "reformar a sociedade". Um projeto moral desligado de um projeto político esta destinado ao fracasso. Os dois processos devem caminhar juntos, pois formar o ser humano plenamente moral só é possível na sociedade que também se esforça para ser justa.

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