Risco Sistemático e Risco Não Sistemático

Autor:
Instituição: Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Tema: Administração Financeira

Risco Sistemático e Risco não Sistemático

Porto Alegre, Julho de 2003


1. Introdução

A teoria de Finanças vem a muitos anos, estudando a relação entre risco e retorno de um ativo financeiro.

O termo risco, ou seja, a variabilidade ou dispersão em torno de um valor esperado, freqüentemente é usada como sinônimo de incerteza, existindo, entretanto, entre eles grande diferença. De acordo com [GIT 97] "O risco em seu sentido fundamental, pode ser definido como a possibilidade de prejuízo financeiro. (...)Mais formalmente, o termo risco é usado como incerteza, ao referir-se à variabilidade de retornos associada a um dado ativo."

O risco pode ser caracterizado como sendo o grau de incerteza da rentabilidade, ou seja, retorno de um investimento. Podemos exemplificar tal conceito dizendo que um investimento é de alto risco significa quando temos pouca chance de prever com precisão a rentabilidade deste investimento. Em contrapartida, esse investimento oferece possibilidade de retorno superior a um investimento conservador. No jargão financeiro, a palavra "risco" está sempre associada à probabilidade de ganhos ou perdas acima ou abaixo da média de mercado. O investidor deve estar atento a essa diferença, porque na linguagem cotidiana a palavra "risco" muitas vezes é usada para indicar a possibilidade de perda/diminuição ou manutenção do estado atual, excluindo a possibilidade de ganho/ retorno/crescimento.

O risco total de um ativo ou de uma carteira, desenvolvida por Markowitz em 1952, é o resultado da combinação do risco não-diversificável ou sistemático que é a parcela causada por eventos não controláveis pela empresa e o risco diversificável ou não sistemático, ou seja, uma parcela causada por eventos controláveis pela empresa.

Desta forma, "a classificação do risco em próprio ou sistemático é dependente do ponto de vista do observador" [SEC 95]. Como a geração futura de lucros da empresa, sendo determinante do retorno do ativo que aquela emitiu, está associada ao comportamento de suas receitas e de seus custos.

Existem diferenças importantes entre as várias fontes de risco, portanto ele é um componente importante em qualquer tomada de decisão empresarial, queremos com essa pesquisa definir o princípio do risco.


2. Risco Sistemático

Risco Sistemático, ou risco de mercado são mudanças inesperadas em fluxos de caixas gerados por flutuações que ocorrem em toda economia devidas taxas de juros, inflação e condições econômicas em geral [DAM 99]. O risco de Mercado depende do comportamento do preço do ativo diante das condições de mercado. Para entender e medir possíveis perdas devido às flutuações do mercado é importante identificar e quantificar o mais corretamente possível as volatilidades e correlações dos fatores que impactam a dinâmica do preço do ativo.

Risco de mercado, de acordo com [RIS 03], pode ser dividido em quatro grandes áreas: risco do mercado acionário, risco do mercado de câmbio, risco do mercado de juros e risco do mercado de commodities. É possível que alguns instrumentos tenham seus riscos considerados separadamente dentro das quatro áreas acima.

Risco de Taxas de Juros: Definido como o risco de perda no valor econômico de uma carteira decorrente dos efeitos de mudanças adversas das taxas de juros. Três exemplos são dados por: eventual perda do valor de mercado de títulos públicos ou privados, o encarecimento do custo de funding e a queda da taxa de reinvestimento.

Risco de Taxas de Câmbio: Definido como o risco de perdas devido a mudanças adversas nas taxas de câmbio. Dois exemplos são dados por: variação nos preços de NTN-Ds, NBC-Es, NBC-Fs, de ativos internacionais negociados em moeda estrangeira, devido à apreciação/depreciação relativa de moedas e descasamentos em uma carteira indexada a alguma moeda estrangeira.

Risco de Commodities: Pode ser definido como o risco de perdas devido a mudanças no valor de mercado de carteiras de commodities. Exemplos são dados por: variação nos preços de carteiras constituídas por ouro, prata, platina, soja, café, boi gordo, cacau, etc.

Risco de Ações: Definido como o risco de perdas devido a mudanças no valor de mercado de carteiras de ações. Exemplos são dados por: variação nos preços de carteiras constituídas por ações como Petrobás PN, Vale PN, Eletrobrás PNB, ADRs de Usiminas PN, etc.

Os modelos de risco e retornos utilizados nas finanças concordam a respeito de que o risco vem da distribuição de retornos reais em relação ao retorno esperado e que ele deve ser mensurado a partir da perspectiva de um investidor marginal que é bem diversificado. Contudo, de acordo com [DAM 99], divergem como mensurar o risco de mercado. Podemos apresentar quatro formas de mensuração:

  • Modelo de Precificação dos Ativos de Capital: A totalidade do risco de mercado é fornecida por um beta medido em relação a uma carteira de investimentos de mercado, que ao menos em teoria, deveria incluir todos os ativos negociados no mercado possuídos na proporção de seu valor de mercado.
  • Modelo de Precificação por Arbitragem: O risco de mercado é mensurado relativamente a múltiplos fatores macroeconômicos não especificados, com a sensibilidade do investimento relativa a cada fator sendo mensurada pelo fator beta. O número de fatores, os fatores betas e os fatores de prêmio de risco podem ser estimados utilizando-se a análise fatorial.
  • Modelos Multifatoriais para o Risco e Retorno: Esses modelos como o modelo por arbitragem pressupõe que o risco de mercado possa ser melhor identificado através de fatores macroeconômicos múltiplos e dos betas relativos a cada um. Diferentemente do modelo de precificação por arbitragem, modelos multifatoriais fazem uma tentativa de identificar os fatores macroeconômicos que orientam o risco de mercado.
  • Modelos de regressão: Mensuram o risco de mercado utilizando características da empresa como indicadores para o risco de mercado. As características da empresa são identificadas ao se observar as diferenças em retornos de investimentos por longos períodos de tempo e ao se correlacionar estes retornos com características identificáveis destes investimentos.


3. Risco não sistemático

É a parcela do risco total que é característica de um empreendimento ou de um setor de atividade. Este tipo de risco está associado às particularidades de um ativo ou o subsistema a que está ligado e não atingem os demais ativos e seus subsistemas. Exemplificando: a descoberta de ouro fará com que os preços do ouro recuem; este tipo de risco é intrínseco ao ativo ouro, mas não atinge ativos fora do subsistema ouro.

O risco sistemático é também chamado de risco não diversificável, enquanto que o risco não sistemático é o risco diversificável. O desmembramento do risco total entre risco sistemático e não sistemático é de grande interesse prático. Como, por exemplo, o princípio da diversificação, que é percebido de forma bastante clara através do gráfico abaixo.

Através de observação concluímos que o risco não sistemático foi eliminado através da diversificação. Aliado ao fato que a diversificação pode ser feita, em tese, sem custos. Isso nos remete a uma assertiva bastante conhecida que é: "o retorno esperado de um ativo com risco depende unicamente do risco sistemático desse ativo".

A diversificação reduz ou, no seu máximo, elimina o risco específico de uma empresa por duas razões, segundo [DAM 99]:

  • Cada investimento em uma carteira de investimentos diversificada é uma percentagem muito menor desta mesma carteira, portanto qualquer ação que aumenta ou reduz o valor apenas daquele investimento ou de um pequeno grupo de investimento terá apenas um pequeno impacto na carteira como um todo;
  • Efeitos de ações específicas da empresa sobre os preços de ativos específicos em uma carteira de investimentos podem ser positivos ou negativos para cada ativo por qualquer período, portanto, em grandes carteiras de investimento, pode ser argumentado de forma razoável que a média deste risco pode chegar a zero, e não causar impacto sobre o valor global da carteira.

Uma importante função é desempenhada pela administração neste tipo de risco, pois, em grande parte, as perdas provocadas podem ser atribuídas a erros de previsão dos executivos responsáveis pela condução do empreendimento. As principais fontes de risco não sistemático são: o risco financeiro que é o risco de faltar liquidez para saldar seus compromissos; o risco de administração que está ligado à incompetência dos administradores e o risco do setor que consiste no risco ao qual a empresa está sujeita por pertencer a um subsistema dentro da economia.

É evidente que a divisão do risco inesperado entre sistemático e específico é bastante dedutiva, apesar de parecer simples essa classificação é muito relativa, o que depende da ótica do observador. Exemplificando: uma multinacional, examinando a possibilidade de investimento em vários países, entenderá o sistema país como um risco próprio, e estará avaliando a conjuntura e sua variabilidade como características intrínsecas de cada país e do subsistema ao qual está ligado. Ela também não é tão exata quanto parece, isso pode ser percebido de forma bastante clara, se considerarmos que todas as empresas por menores que sejam, elas pertencem de alguma forma ao todo.


4. Considerações sobre risco na ótica do Investidor

Mudanças nas condições de mercado podem causar ganhos ou perdas de capital, alterando a rentabilidade dos ativos durante sua vigência.

O aspecto mais importante ao se lidar com o risco, sob a ótica do investidor, é a Diversificação, isto é, não colocar "todos os ovos na mesma cesta": tudo em fundos DI, só poupança, apenas CDB, etc. A seguir, vem a Informação, isto é, conhecer as características dos investimentos.

O investidor deve considerar o risco da carteira, a cada investimento / resgate, seja para adicionar um novo ativo ou elevar / reduzir outro já existente. Por exemplo: um ativo com alta volatilidade poderia ser considerado de alto risco quando analisado individualmente, porém, se este ativo apresenta tendência de valorização ou desvalorização contrárias às da carteira, isto é, correlação negativa, sua aquisição irá diminuir o risco da carteira.

A matéria prima dos modelos de administração de risco são os dados do passado. O passado, porém, raramente nos revela quando ocorrerá a ruptura no futuro. A surpresa é um combustível, sobretudo, no mundo das finanças. Portanto, a ciência da administração do risco nunca traça um quadro futuro perfeito; nas imperfeições que se esconde a turbulência.


5. Conclusão

O risco é uma constante em qualquer atividade. É um componente real que influi no retorno das empresas, devido a sua importância tem sido objeto de diversos estudos nesse sentido.

A avaliação do risco é um dos aspectos mais importantes no processo de tomada de decisão seja para investimento, seja para captação de recursos uma vez que no mercado é fundamental que o investidor não assuma riscos desnecessários. Assim, é necessário que se faça uma análise não só do risco, mas também do retorno que se espera tendo em vista a intensidade do risco de um negócio.

As instituições, por atuarem em um mercado altamente volátil e alvo de constantes ataques especulativos, têm se especializado nesse assunto.

Pode-se afirmar também que uma vantagem competitiva em administração será a qualidade no gerenciamento de riscos. As empresas que conhecerem, assumirem e gerenciarem seus riscos, certamente sairão em vantagem em relação àquelas que não agirem dessa forma.

Em última análise, a divisão entre os riscos contribui para organizarmos o raciocínio e passarmos, assim, a ter um referencial teórico que permita quantificarmos o retorno a ser exigido em determinado investimento de risco. Também é válido ressaltar a importância dessa classificação que servirá de alicerce para o modelo de precificação de ativos (CAPM – Capital Asset Pricing Model).


Bibliografia

[DAM 99] DAMODARAN, Aswath. Finanças Corporativas. Porto Alegre: Bookman: 1999

[SEC 95] SECURATO, J.R., Decisões Financeiras em Condições de Risco. São Paulo: Atlas: 1995. Ed. 1a.

[GIT 97] GITMAN, Lawrence J. Princípios de Administração Financeira. São Paulo: Habra, 1997.

[RIS 03] RISKTECH. Material referente a risco de mercado. Disponível em: http://www.risktech.com.br , capturado em 07.2003.

[ROS 02] ROSS, Stephen, Westerfield, RANDOLPH, Jordan Bradford. Princípios de Administração Financeira. São Paulo: Atlas, 2002.

Comentários