Pós-Modernismo

Autor:
Instituição: Universidade de Brasília
Tema: Arquitetura

Pós-Modernidade


PASSAGEM DA MODERNIDADE À PÓS-MODERNIDADE NA CULTURA CONTEMPORÂNEA.

David Harvey, em sua tese sobre as origens da mudança cultural, tenta formular uma teoria sobre o surgimento do movimento pós-moderno, suas causas e suas conseqüências. Nessa primeira parte, Harvey usa o exemplo do que estava acontecendo naquela época um livro de Jonathan Raban, publicado em 1974 chamado Soft City. O livro, segundo David, faz uma crítica ao racionalismo urbano e define a cidade como sendo algo labiríntico, um teatro, o que mais adiante ele interpretará como sendo um espetáculo.

Dessa forma, ao contrário do que Harvey comenta sobre seu trabalho em um trecho do mesmo estudo: "... é um texto presciente que não deve ser lido como antimodernista...", Raban, asssume uma clara oposição ao pensamento modernista do começo do século e parte para uma nova fase na história das artes, que seria uma movimento que iria contra todos os princípios iluministas.

Harvey ainda ressalta que, em Soft City, a cidade seria algo indiciplinado, diferente de como queriam os planejadores modernistas, já que a cidade deve ser tratada como um objeto muito complexo.

Assim sendo, o que seria o pós-modernismo afinal? Para o autor, várias mudanças ocorreram na vida urbana a partir dos anos 70, e que algumas delas, mas não todas, fariam parte ou seriam a principal causa desse novo movimento cultural e artístico. Para uma definição, Harvey aceita a de Terry Eagleton que sugere que o pós-modernismo seja o fim das "metanarrativas" ,presentes no movimento moderno, que legitimava uma história universal, e o começo de algo mais modesto e heterogêneo.


MODERNIDADE E MODERNISMO
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Nesse capítulo, Harvey começa a discutir sobre o que é o modernismo, tendo em mente que é, a partir desse conceito, que pode-se identificar o pós-modernismo. Segundo Baudelaire, o moderno seria algo efêmero e fugidio. Mas o que seria isso exatamente? É isso que David vai tentar explicar.

A sensação de efêmero e fugidio retratam uma situação que o modernismo promoveu; o caos e a insegurança. E essa é a chave para a crítica que o autor faz ao movimento. Essa rapidez e a transitoriedade de acontecimentos dificulta a preservação da continuidade histórica.

A origem do pensamento moderno poderia dar alguma coerência ao movimento moderno que não é somente a negação de diversas coisas sem embasamento teórico. O autor destaca que os pensadores iluministas queriam desenvolver uma ciência objetiva e racional, buscando a ruptura com a tradição e viram na efemeridade e no fugidio termos essenciais para sua ideologia.

Esses fatores são de fundamental importância para o entendimento do modernismo, já que para um movimento que esteve ligado temporariamente com as duas Grandes Guerras Mundiais, como coloca Harvey, a imagem de destruição é importante. E logo depois ele completa: "... como poderia um novo mundo ser criado sem se destruir boa parte do que viera ante?". Para exemplifica o autor conta a reforma de Paris, por Haussmann e de Nova Iorque por Robert Moses.

Outra questão de que o capítulo trata é a questão da estética modernista. O que acontece é que uma vez que o movimento representava algo fragmentado e passageiro, essa definição dependia de como o artista se posicionava a respeito dessa efemeridade.

Dessa forma, o artista seria alguém capaz de compreender esses aspectos da vida urbana cotidiana e extrair dos momentos algo eterno contido neles. E como fazer para representar essa eternidade? O capitalismo forçava o aspecto da destruição no campo estético e a luta pela sobrevivência estava presente na arte também. A tentativa de buscar uma estética da vida diária levou grandes arquitetos a se inspirarem na mecanização e industrialização das cidades. Harvey cita Mies van der Rohe e seu silo de cereais transformados em elevadores. A casa modernista passou a ser vista como uma máquina, como podemos ver no filme Meu Tio.

Para explicar essa característica, o autor divide etapas do modernismo: o antes da Primeira Grande Guerra, o entre guerras e o pós-guerras.

Esse primeiro momento do modernismo caracteriza-se pela reação às novas condições de produção e de consumo. A Bauhaus surge nesse período inspirada no Arts and Crafts, onde a máquina é o modelo de design. Era um modernismo, segundo Harvey, mais urbano, já que ocorria uma explosão demográfica e as cidades cresciam rapidamente. O Iluminismo, então, entrou em decadência, foi contestado por diversos movimentos, em especial, o socialista.

Simmel retratou as modificações no pensamento modernista do começo do século XX. Chamou de atitude Blasé a indiferença com que as pessoas aceitavam os estímulos, e de modismo o movimento moderno.

O segundo período – a fase heróica – caracteriza-se pela busca de um mito para a modernidade. Esse mito serviria para "fornecer um novo projeto de ação humana", dar um novo rumo àquela sociedade. Nesse período entre-guerras, o modernismo tornou-se algo positivista, adotaram a Carta de Atenas como regra de construção. As casas, agora, eram concebidas livremente como "máquinas de viver." E o principal problema dessa fase, para o autor, foi a de que o mito, tão procurado, agora poderia ser qualquer um.

A terceira fase – o modernismo alto ou universal - está situada no final da Segunda Guerra Mundial, época em que tudo precisava de reformas e reformulações de todos os níveis. O modernismo se viu positivista, tecnocêntrico e racionalista imposto por uma elite de artistas de vanguarda. Seu problema eram as raízes socialistas e propagandistas nos anos 30 que provocou uma despolitização do movimento.

A decadência definitiva do modernismo ocorre em algum ponto entre 1968 e 1972 com a implosão do Pruitt-Igoe, de Le Corbusier.


O PÓS-MODERNISMO

A hora agora era de construir para as pessoas, diziam Venturi, Scott Brown e Izenour em seus trabalhos. Era o fim de um falso individualismo e o começo da busca das pluralidades. A cidade é vista como uma colagem de diferenciados espaços e tendências e não mais aquele marasmo e tédio do modernismo e da máquina.

Essa mudança ocorreu em todas as áreas, como mostra Harvey. Na literatura, na filosofia, na teologia.

David mostra a tabela de oposições de Hassan entre o modernismo e o pós-modernismo e explica algumas de suas diferenças. Como exemplo, ele diz que uma cidade modernista seria aquela cujo os planejadores tenderiam a buscar o domínio da metrópole como totalidade, planejando uma forma fechada, enquanto numa cidade pós-moderna, os planejadores veriam o processo urbano como algo caótico no qual privilegiariam a anarquia das idéias e o acaso.

O movimento pós-moderno, então, seria uma mistura de várias coisas, o caos, o irracional, a diferença, além do efêmero e do fragmetário, conceitos relacionados ao modernismo. Para exemplificar seu conceito e alguns itens da tabela proposta por Hassan, Harvey expõe duas principais teorias sobre o pós-modernismo em duas áreas distintas: a linguagem e a política. A primeira representada pelas idéias de Lyotard e a segunda por Foucault.

O pós-moderno, entretanto, assumiria diveras áreas e diversos conceitos: a colagem proposta por Derrida, o pragmatismo de Rorty, a alteridade de Aronowitz, a esquizofrenia de Jameson.

O grande problema do pós-modernismo, destaca o autor, é a perda da profundidade da produção. Isso ocorre devido principalmente a essência do movimento que está relacionado diretamente com a aparência, a superfície e o impacto imediato. Para Jameson há uma "falta de profundidade planejada". E é aí que entra as novas tecnologias dessa época, a mídia, a televisão, a internet, que são tecnologias que apelam para a transitoriedade das coisas, da rápida mudança, do efêmero e do fragmentário. Para Harvey essa é a principal questão sobre o movimento pós-moderno: o relacionamento e sua interação com essa cultura cotidiana.

Para Charles Newman, a estética pós-modernista é uma resposta ao surto inflacionário do capitalismo em seu estado avançado, ou seja, as freqüentes mudanças no mercado comercial, tais como a moda e a propaganda retratam o que seria a estética do período.

Esse é um aspecto interessante no desenvolvimento do pós-modenismo; é a ligação dele com aspectos econômicos (capitalismo), sociais e políticos.


O PÓS-MODERNISMO NA CIDADE: ARQUITETURA E PROJETO URBANO

Nesse capítulo, o autor considera o pós-modernismo em escala urbana, e trata diretamente do movimento relacionado a urbes. Para ele, o pós-modernismo não deve considerar a cidade em planos de larga dimensão, zoneamento e uma arquitetura desposjada e sim um conceito de tecido urbano fragmentado. O espaço também é tomado em uma outra perspectiva: sem relação com algum objetivo social abrangente. Ele justifica assinalando alguns aspectos do pós-modernismo que já mencionou anteriormente, como que a aparência da cidade e sua organização são conseqüências, não de um planejamento racional, mas de práticas sociais.

Leon Krier, arquiteto conselheiro do Príncipe Charles, é um crítico ardoroso de planos modernistas. Ele diz que o problema do planejamento urbano modernista está no zoneamento monofuncional que se traduz numa pobreza simbólica da arquitetura e da paisagem. Para ele, um bom projeto seria aquele em que a cidade fosse agradável de se percorrer a pé, constituída de comunidades urbanas completas e finitas. O que não corresponde às cidades modernistas como Brasília, por exemplo.

David Harvey assegura, entretanto, o mérito do movimento moderno que reconstruiu, mesmo que impondo algumas coisas, as cidades destruídas pelas guerras em pouco tempo. Ele escreve: "... teve razoável êxito na reconstituição do tecido urbano de modo a preservar o pleno emprego, a melhorar os equipamentos sociais, contribuindo para metas de bem-estar social e, de modo geral, facilitando a preservação de uma ordem social capitalista bastante ameaçada em 1945".

Em contrapartida, ele assume sua preferência enfatizando o discurso de Jane Jacobs que ataca ferozmente o movimento moderno e suas conseqüências.

O pós-modernismo contou, segundo Jencks, contou duas fortes transformações tecnológicas: a primeira relativa aos meios de comunicação e a segunda que separou a produção em massa de repetição em massa.

A seguir, o autor apresenta o lado populista do movimento. De acordo com o texto, o pós-modernismo pode atender a todos diferentemente por fazer parte de sua natureza a liberdade e a democracia, entretanto, as diferenças de gostos das pessoas ditam a heterogeneidade do mercado e, o mercado por sua vez despreza os pobres, enclausura a clásse média e enaltece os ricos e abastados alimentando o fetichismo.

É, portanto, uma característica do pós-modernismo essa preocupação com as diferenças existentes nas pessoas e conseqüêntemente dos projetos.

Outro aspecto interessante deste capítulo é a discussão acerca da importância dada a história. Isso se deve ao fato de que o pós-modernismo é uma colagem de diferentes estilos que fizeram parte da história da arquitetura e da humanidade em geral, buscando o resgate de uma memória coletiva. Para Aldo Rossi, a tarefa do arquiteto é exatamente essa: produzir monumentos que reflitam a memória coletiva. Ele, porém, teve muitos críticos. Retornamos, aqui, o conceito de "indústria de herança" de Hewison, que seriam todas aquelas produções e construções de museus, paisagens reconstruídas relembrando o passado, com fins lucrativos. Ele também acredita que preservar o passado é fundamental para a identidade individual e coletiva de uma sociedade.

Por fim, o autor desenvolve um tema em relação ao ecletismo do movimento que por sua vez nos leva a teoria do fascínio pelas superfícies, ou como queiram, pela falta de profundidade planejada que já falamos anteriormente. O pós-modernismo na cidade, enfim, seria como Harvey coloca "uma arquitetura do espetáculo, com sua sensação de brilho superficial e de prazer participativo transitório, de exibição e de efemeridade, de jouissance.."

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