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Expressionismos: Visão da Realidade: O poder expressionista da fotografia estética e em movimento

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Tema: Expressionismos: Visão da Realidade: O poder expressionista da fotografia estética e em movimento

TIDIR – Expressionismos: Visões da Realidade:
O poder expressionista da fotografia estática e em movimento

Belo Horizonte
2009

Proposta

Partiremos de duas proposições, sendo a primeira a de que, desde o início do cinema, a intensidade de imagens que diferenciam as formas de enxergar o mundo vem chocando as pessoas, considerando assim, que o expressionismo quase sempre esteve presente de algum modo no cinema. Como exemplo de choque causado pelo mesmo podemos citar a exibição do filme A chegada de um trem à estação, dos irmãos Auguste e Louis Lumière, no Grande Café de Paris em 1895, na qual muitos espectadores abandonaram a sessão correndo com medo do trem visto no telão atropelá-las. Esse dito estranhamento passou pelas deformações propostas pelo Expressionismo Alemão na década de 1920 e até hoje há cineastas que se utilizam de uma linguagem altamente expressionista, quer seja através do enredo de seus filmes, do figurino, da cenografia, da fotografia, da maquiagem, da direção de arte, bem como da própria mise en scène. Assim, produziremos uma instalação de modo a representar imagens que demonstrem as já citadas características presentes em vários filmes, desde os primórdios do cinema até os dias de hoje.
Além disso, procuraremos confirmar o quão o expressionismo está presente no dia-a-dia, entrando, assim, no tema geral do próprio TIDIR e procurando mostrar como cada pessoa vê a realidade à sua volta de formas distintas. Tal instalação foi proposta pelo professor orientador do TIDIR, além de, segundo a concepção de nosso grupo, ser uma forma bastante usual de demonstrar o conceito pelo qual estamos partindo, ou seja, o de que o expressionismo quase sempre esteve presente no cinema, quer seja como movimento, quer seja como estética e que, além de tudo, ele está presente na sociedade de forma subjetiva.

Conceituação

O TIDIR de nosso grupo consistirá em demonstrar, principalmente, que o expressionismo não foi apenas um movimento das artes que migrou para o cinema no início do século XX, mas que também pode ser entendido como uma forma particular de ver o mundo de cada um. Assim, nos próximos parágrafos, procuraremos estabelecer uma objetiva distinção entre o que foi o movimento Expressionista Alemão e o que é a estética expressionista.
Expressionismo, entendido como estética é, segundo o Dicionário Aurélio, “qualquer manifestação artística em que o conteúdo emocional e as reações subjetivas exercem forte domínio sobre o convencionalismo e a razão”. Cánepa (2006, p.56), diz que o expressionismo “pode se manifestar em qualquer momento, cultura ou parte do mundo”. Segundo esse propósito, o expressionismo já se revelava desde a origem do cinema, com filmes como Viagem à Lua, de Georges Méliès, filme de 1902, além dos filmes alemães e escandinavos feitos entre o início e a metade da década de 1910 e até mesmo os filmes vanguardistas, principalmente os experimentais de Dziga Vertov e Lev Kuleshov.
No cinema, o marco inicial do Expressionismo como movimento foi com O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Weine, lançado em 1919 na Alemanha. O filme causou impacto nos espectadores e nos realizadores alemães, devido a seus cenários tortuosos e à mise-en-scène exagerada e bastante teatralizada. Tudo isso levou a se constituir a partir daí uma nova escola cinematográfica, denominada “expressionista”. Esse termo provém de uma escola da arte moderna do período pós-Primeira Guerra Mundial, que surgiu como rompimento com a arte clássica, tendo como influências a filosofia de Nietzsche e a psicanálise de Freud.
Os filmes feitos depois de Caligari herdaram vários aspectos como a fotografia com o famoso claro-escuro, a mise-en-scène, a cenografia, a maquiagem, os figurinos e a narrativa moldura. Eisner (1985, p.67) discursa sobre essas características dos filmes alemães, já vistas antes do filme de Robert Wiene, mas que ganharam força pós-Caligari:

Esse método, que consiste em enfatizar e salientar, muitas vezes com exagero, o relevo e os contornos de um objeto ou detalhes de um cenário, se tornará uma característica do filme alemão. [...] Chegarão mesmo a recortar os contornos e as próprias superfícies para torná-los irracionais, exagerando as cavidades das sombras e dos jatos de luz; por outro lado, acentuarão alguns contornos, moldando as formas por meio de uma faixa luminosa para criar, assim, uma plástica artificial. (EISNER, 1985, p.67).

Cardinal (1988, p.34), citado por Cánepa (2006, p.56), diz que o Expressionismo “convida o espectador a experimentar o contato com o sentimento gerador da obra”. Nesse sentido, talvez se explique o fato de temas, como as lendas e os mitos populares estarem quase sempre presentes nos filmes alemães antes de Caligari e, principalmente, após o mesmo, mas também os temas fantasiosos ou escapistas presentes em muitos filmes durante grande parte da história do cinema. Dessa maneira, também nos utilizaremos dessa ideia proposta por Cardinal para montar nossa instalação, procurando trazer os espectadores que irão visitá-la para uma discussão acerca do expressionismo no decorrer da história do cinema, bem como da expressividade presente na realidade.
A decadência do Expressionismo Alemão veio com a ascensão do Terceiro Reich, o que causou a imigração dos principais cineastas, técnicos e atores desse movimento para outros países, em especial os EUA. Os cineastas, mais especificamente, levaram suas influências para lá, o que, na visão de Cánepa (2006, p.87), fez com que fossem difundidos “elementos de sua técnica e de seu estilo por diferentes estúdios e gêneros”. Como principais destaques podemos incluir Fritz Lang, que é considerado um dos pais do cinema noir americano, F.W. Murnau e Paul Leni, que mesmo com uma morte prematura em 1929 influenciou bastante o cinema dito fantástico, não apenas o americano, mas também o mundial.

Metodologia

Faremos uma exposição dividida em duas partes utilizando-se de imagens que julgamos como verdadeiras representantes do poder expressionista da fotografia, quer seja estática ou em movimento.
Uma parte da instalação será composta por imagens em movimento de pequenos trechos de filmes potencialmente expressionistas e fotografias mostrando a crueldade expressionista da realidade, onde uns sofrem e outros gozam. Também usaremos palavras que expressam um pouco do que as imagens estarão mostrando. Tais palavras serão retiradas de um poema criado pelo próprio grupo e que contextualiza as fotos mostradas nessa edição. As imagens estáticas e as palavras serão exibidas em cortes secos intercaladamente às imagens em movimento, tal como mensagens subliminares, sendo que tudo isso, será exibido em um telão. Para a elaboração dessa parte nos baseamos no conceito de Eisenstein (1949, p.42 e 43) de que a montagem é uma colisão de dois fatores determinados, da qual surge um conceito e que ”o plano não é um elemento da montagem. O plano é uma célula da montagem”. No caso específico da edição apresentada pelo grupo, a “colisão” citada pelo autor será exatamente entre as fotografias que expressam o paradoxismo e o conflito entre as pessoas que sofrem e as que usufruem dos elementos pelos quais as primeiras sentem falta, chegando até mesmo a desperdiçá-los de alguma forma.
A outra parte da instalação será com imagens estáticas afixadas em um disco, dispostas em formato de pizza. Por sobre esse disco haverá outro disco que cobrirá as imagens e terá uma espécie de janela que revelará imagem por imagem à medida que o disco inferior for girado. Essas imagens serão retiradas de filmes que consideramos expressionistas e serão organizadas em ordem cronológica, desde o início do século XX até os dias de hoje. Haverá uma trilha, composta por fitas magnéticas, levando até essa parte da instalação como forma de complemento estético.
Todos os filmes pré-selecionados pelo grupo foram escolhidos segundo critérios como a subjetividade de seus temas, a fuga das convenções e da razão, além de temáticas fantásticas presentes na trama ou na estética, utilizadas por determinado cineasta e que revela uma fuga da realidade ou uma visão diferente de mundo do mesmo.
Já as imagens do expressionismo na vida real procuram alertar que podemos encontrar no dia-a-dia, situações que nos fazem refletir sobre o rumo da sociedade contemporânea, além dos contrastes no mundo entre as pessoas que padecem e as outras que pouco se importam com elas. Para isso, partimos da teoria semiótica de Metz, onde, segundo Andrew (2002, p.174), “a matéria-prima do cinema é sem dúvida a própria realidade ou um modo particular de significado, como as atrações da montagem”.

Objetivos

Através dessa instalação pretendemos demonstrar como a imagem fotográfica sozinha tem uma grande força expressionista para comprovar, de uma das formas mais instintivas, as visões da realidade de determinado autor, personagem, grupo ou indivíduo, atingindo por vezes, até mesmo, nosso inconsciente.
Também pretendemos através das imagens presentes tanto no disco, quanto nos trechos de filmes demonstrar como o expressionismo é intrínseco à história do cinema mundial.

Conclusões

A partir desse pequeno estudo específico sobre o cinema, percebemos que o expressionismo não foi apenas um movimento artístico que migrou para o cinema, mas que esse é também uma estética própria adotada por alguns poucos realizadores desde os primórdios do século XX, ganhando grande força após a imigração dos principais “criadores” do Expressionismo Alemão para os EUA, o que fez difundir a plástica de seus filmes ao redor do mundo, influenciando até os presentes dias cineastas e roteiristas. Também concluímos que a imagem cinematográfica se comunica através do expressionismo de várias formas, quer sejam técnicas (fotografia, figurino, maquiagem, cenografia, direção de arte, mise en scène) ou referentes às tramas dos filmes, de modo a criar mundos paralelos procurando fugir da realidade ou mostrar uma visão diferente de mundo dos roteiristas e realizadores e, ainda, levar o espectador a sair do seu lugar passivo fazendo-o pensar sobre o que ele está assistindo. Além disso, o expressionismo como forma de estranhamento esteve presente de algum modo específico em quase todo o momento da história do cinema.
Outra conclusão tirada pelo grupo é a de que o expressionismo está mais presente na vida das pessoas do que elas pensam, quer seja na forma de cada uma delas enxergar a realidade à sua volta, quer seja nos citados paradoxos entre as classes e os indivíduos da sociedade contemporânea.

Referências

ANDREW, J. Dudley. As Principais Teorias do Cinema: Uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

CANÉPA, Laura Loguercio. Expressionismo Alemão. In: MASCARELLO, Fernando (org.). História do Cinema Mundial. Campinas: Papirus, 2006.

EISENSTEIN, Sergei. Fora de Quadro. In: A Forma do Filme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

EISNER, Lotte H. O Fantástico Estilizado a “Féerie de Laboratoire”. In: A Tela Demoníaca. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Aurélio Século XXI: O dicionário da língua portuguesa. Rio de janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.

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