As Etapas do Pensamento Sociológico

Autor:
Instituição: CESD - Dracena
Tema: Sociologia Jurídica

AS ETAPAS DO PENSAMENTO SOCIOLÓGICO


1. Introdução

A sociologia do século XIX marca incontestavelmente um modelo da reflexão dos homens sobre si mesmos, momento em que o social enquanto tal é tematizado, com seu caráter equívoco, ora relação elementar entre indivíduos, ora entidade global.

Exprime uma intenção, não radicalmente nova, mas original em sua radicalidade, isto é, a de um conhecimento propriamente científico, segundo o modelo da ciência das naturezas, e com igual objetivo: o conhecimento científico deveria dar aos homens o controle de sua sociedade e da sua história, assim como a física e a química lhes deram o controle das forças naturais.


2. AUGUSTE COMTE

2.1 As Três Etapas do Pensamento de Comte

As três etapas da evolução filosófica de Comte representam as transformações pelas quais a tese da unidade humana é afirmada, explicada e justificada.

A primeira etapa, entre 1820 e 1826 é representada pelos "Opúsculos de filosofia social: apreciação sumária do conjunto do passado moderno" (1820), "Prospectos dos trabalhos científicos necessários para organizar a sociedade" (1822) e "Considerações filosóficas sobre as idéias e os cientistas" (1825).

Nos Opúsculos, descreve e interpreta o momento histórico vivido pela sociedade européia no princípio do século XIX. Segundo Comte desaparecia a sociedade fundamentada na fé transcendental interpretada pela Igreja Católica, e nascia uma nova sociedade cientifica e industrial.

Os cientistas assumem o lugar dos sacerdotes e os industriais, os dos militares.

Os homens pensam cientificamente e a atividade principal das coletividades deixa de ser a guerra de homens contra homens, transformando-se na luta dos homens contra a natureza, explorando de maneira racional os recursos humanos.

Comte conclui que para haver uma reforma social, a condição fundamental é a reforma intelectual. É necessário uma síntese da ciência e a criação de uma política positiva.

Para Comte, a crise da sociedade moderna encontra explicação na contradição entre uma ordem histórica teológica-militar que está desaparecendo e uma ordem social-científica-industrial prestes a nascer.

Essa interpretação se dá pelo fato de que Comte, como reformador, não é um doutrinário de revolução como Marx, nem doutrinário livre como Montesquieu ou Tocqueville; ele é um doutrinário da ciência positiva e da ciência social.

Na segunda etapa, a do Curso de filosofia positiva, ampliam-se às idéias diretrizes em sua perspectiva. Comte considera essencialmente as sociedades da época e seu passado: a história da Europa. Também revisa as diversas ciências, desenvolve e confirma as duas leis anunciadas nos opúsculos: a lei dos três estados e a classificação das ciências.

Na lei dos três estados, o espírito humano teria passado por três fases sucessivas: o espírito humano explica os fenômenos atribuídos aos seres ou forças comparáveis ao próprio homem; invoca entidades abstratas, como a natureza; o homem se limita a observar e fixar relações regulares que podem existir entre eles e renuncia a descobrir as causas dos fatos e se contenta em estabelecer as leis que os governam.

Essa passagem da idade teológica para a idade metafísica e, depois, para a idade positiva, não se opera simultaneamente em todas as disciplinas intelectuais. A maneira de pensar positiva se impôs mais cedo nas matemáticas e, na física, na química e, depois, na biologia.

A idéia da primazia do todo sobre os elementos deve ser transposta para a sociologia. Não se pode compreender o estado de um fenômeno social particular sem o recolocar no todo social.

Só se compreenderá o estado da sociedade francesa no princípio do século XIX se recolocarmos esse momento histórico na continuidade do devenir francês. O declínio do espírito teológico e militar só se explica pelas suas origens nos séculos passados.

Auguste Comte era homem lógico, formado nas disciplinas da Escola Politécnica. No Curso de filosofia positiva é criada a nova ciência, a sociologia, que tem por objeto a história da espécie humana. Comte considera na sociologia, a fórmula dos opúsculos: assim como não há liberdade de consciência na matemática ou na astronomia, não pode haver também em matéria de sociologia.

Para Comte, para que a história humana seja uma só, é preciso que o homem tenha uma certa natureza reconhecível e definível, através de todos os tempos e de todas as sociedades.

É preciso, em segundo lugar, que toda sociedade comporte uma ordem essencial que se possa reconhecer através da diversidade das organizações, e é preciso que essa natureza humana e essa natureza social sejam tais que possamos inferir delas as principais características do devenir histórico.

O ponto de partida do pensamento de Comte é, portanto, uma reflexão sobre a contradição interna da sociedade do seu tempo, entre o tipo teológico-militar e o tipo científico-industrial. O único meio de pôr fim à crise e acelerar o devenir, criando o sistema de idéias cientificas que presidirá a ordem social, como o sistema de idéias teológicas presidiu à ordem social do passado.

Auguste Comte deseja ser um cientista e um reformador e a ciência certa que ele concebe, é a que, partindo de leis mais gerais, das leis fundamentais de evolução humana, descobrisse um determinismo global que os homens pudessem utilizar segundo a expressão positivista, uma "fatalidade modificável".

A doutrina de Comte se baseia na idéia de que toda sociedade se mantém pelo acordo dos espíritos. Só há sociedade na medida em que seus membros têm as mesmas crenças.

A filosofia de Comte pressupõe, portanto, três grandes temas.

  • O primeiro é que a sociedade industrial da Europa ocidental se tornará a sociedade de todos os homens.
  • O segundo é a dupla universalidade o pensamento científico.
  • O terceiro tema fundamental de Auguste Comte é o sistema de política positiva (Système de politique positive).

Portanto, a concepção comtista da unidade humana assume três formas nos três momentos principais de sua carreira:

  • A sociedade que se desenvolve no Ocidente é exemplar, e será seguida como modelo por toda a humanidade;
  • A história da humanidade é a história do espírito enquanto devenir de pensamento positivo ou esquema do aprendizado do positivismo pelo conjunto da humanidade;
  • A história da humanidade é o desenvolvimento da natureza humana.

2.2 A Sociedade Industrial

A industria é o fator novo que chama a atenção da sociedade no início do século XIX.

Os traços característicos da industria, observados pelos homens no começo do século XIX, são seis:

1°- Se baseia na organização cientifica do trabalho;

2°- A aplicação da ciência à organização do trabalho conduz a humanidade a desenvolver melhor os seus recursos;

3°- A produção industrial faz surgir o fenômeno das massas operarias;

4°- Concentrações de trabalhadores nos locais de trabalho determina oposição entre empregados e empregadores;

5°- Multiplicam-se as crises de superprodução criando a pobreza na abundância;

6°- O sistema econômico se caracteriza pela liberdade de trocas e pela busca do lucro por parte dos empresários e comerciantes.

No que se refere às características, Comte considera as três primeiras como decisivas. Para Comte, a versão da sociedade industrial não é nem liberal nem socialista, e acusa de metafísicos os economistas liberais que se interrogam sobre o valor e se esforçam por determinar o funcionamento do sistema.

Comte é hostil ao socialismo e acredita nas virtudes da propriedade privada e, até mesmo, nas virtudes da propriedade privada das riquezas concentradas.

Para ele, a civilização material só se pode desenvolver se cada geração produzir mais do que o necessário para a sua sobrevivência, transmitindo à geração seguinte um estoque de riqueza maior do que o recebido da geração precedente.

Comte assume, assim, uma posição intermediária entre o liberalismo e o socialismo, como um organizador que deseja manter a propriedade privada e transformar seu sentido para que tenha uma função social.

A interpretação de sociedade industrial feita por Comte, desempenhou um papel quase nulo no desenvolvimento das doutrinas econômicas e sociais da Europa.

A concepção de Auguste Comte permaneceu fora da grande corrente de idéias filosóficas da sociedade moderna porque suas idéias principais do positivismo se prestaram à ironia fácil, e a associação da afirmação de que as guerras seriam anacrônicas.

Também, porque a filosofia de Auguste Comte não se centrou realmente na interpretação da sociedade industrial. Tendia á reforma da organização temporal pelo poder espiritual, exercido pelos cientistas e filósofos que substituiriam os sacerdotes.

Comte pensava que a organização científica da sociedade industrial atribuiria a cada indivíduo um lugar proporcional a sua capacidade, realizando a justiça social.

2.3 A Sociologia, Ciência da Humanidade

Comte expõe sua concepção sobre sociologia apoiado em três autores, como Montesquieu, Condorcet e Bossuet.

Montesquieu atribui o mérito eminente de ter afirmado o determinismo dos fenômenos históricos e sociais – "As leis são as relações necessárias que derivam da natureza das coisas" -.

Nessa fórmula, Comte vê o princípio do determinismo, aplicado à diversidade dos fenômenos sociais e ao devenir das sociedades.

Em Condorcet, Comte encontra a idéia de que o progresso do espírito humano é o fundamento do devenir das sociedades humanas.

Ao combinar o determinismo de Montesquieu com as etapas necessárias da concepção de Condorcet, Comte tem sua concepção central: os fenômenos sociais estão sujeitos a um determinismo rigoroso, que se apresenta sob a forma de um devenir inevitável das sociedades humanas, comandadas pelos progressos do espírito humano.

Comte constata que o método positivo é, hoje, necessário nas ciências e conclui que esse método deve ser estendido aos domínios que são deixados à teologia e à metafísica.

O objetivo final de Comte é coerência de pensamento que jamais foi realizada plenamente no curso da história e, para ele, a incoerência do modo de pensar em cada etapa da história, tem sido uma das molas do movimento histórico.

A nova ciência proposta por Comte é o estudo das leis do desenvolvimento histórico que se fundamenta na observação e na comparação, como nos métodos análogos aos empregados por outras ciências, notadamente na biologia.

A estática e a dinâmica são as duas categorias centrais da sociologia de Comte.

A estática consiste no estudo do consenso social e a dinâmica, em seu ponto de partida, é apenas a descrição das etapas sucessivas percorridas pelas sociedades humanas.

A estática social trouxe à luz a ordem essencial de toda sociedade humana; a dinâmica está subordinada à estática, e ambas levam aos termos de ordem e progresso que figuram nas bandeiras do positivismo e do Brasil – "O progresso é o desenvolvimento da ordem"-.

2.4 Natureza Humana e Ordem Social

Segundo Comte, fundamentalmente só há uma história e, pelo estudo estático, é possível identificar as características de toda sociedade. No "Système de politique positive", esta concepção comtista da estática encontra seu desenvolvimento completo. A estática pode ser decomposta em duas partes como o estudo preliminar da estrutura da natureza humana, e o estudo propriamente dito da natureza social. Para Comte, pode-se considerar a natureza humana como dupla ou tripla, e pode-se dizer que o homem se compõe de um coração e de uma inteligência, ou dividir o coração em sentimento e atividade, considerando que o homem é ao mesmo tempo sentimento, atividade e inteligência. Para ele, ter coração é ter sentimento de coragem.

Contra aqueles que imaginam que a razão poderia ser o determinante essencial do comportamento do homem, Comte afirma que os homens são sempre movidos pelos sentimentos. O verdadeiro objetivo consiste em fazer com que sejam movidos, cada vez mais, por sentimentos desinteressados e não por instintos egoístas, e que o órgão de controle que dirige a atividade humana possa realizar plenamente sua função, descobrindo as leis que comandam a realidade.

Comte, quanto à religião, diz que a análise desta tem por objetivo mostrar a função da religião em toda sociedade humana. A religião implica a divisão ternária característica da natureza humana, comportando um aspecto intelectual, o dogma; um aspecto afetivo, o amor; e um aspecto prático que Comte chama de regime.

A religião reproduz as diferenças da natureza humana: criando a unidade, precisa dirigir-se simultaneamente à inteligência, ao sentimento e à ação, isto é, todas as disposições do ser humano.

A teoria da família, de Comte, toma como modelo e considera como exemplar a família do tipo ocidental. O doutrinário do positivismo esforça-se por demonstrar que as relações existentes dentro da família eram características ou exemplares das diversas relações que podem existir entre as pessoas humanas, e também que a afetividade humana recebia educação e formação na família.

As idéias essenciais de Comte, sobre a divisão do trabalho, são as da diferenciação das atividades e da cooperação entre os homens, ou a da separação dos ofícios e a da combinação dos esforços.

2.5 Da Filosofia à Religião

Depois de considerar seus traços característicos, Auguste Comte considera a sociedade industrial como a forma universalizável da organização social.

Auguste Comte é filosofo, enquanto sociólogo, e sociólogo, enquanto filósofo.

Pode-se identificar as idéias filosóficas de Comte, referenciando o seu pensamento ás três intenções que encontramos em sua obra: a intenção do reformador social, a intenção do filosofo que sintetiza os métodos e os resultados das ciências e a intenção do homem que assume a posição de pontífice de uma nova religião, a religião da humanidade.

Reformador social, quer transformar a maneira de pensar dos homens, divulgar o pensamento positivista e estendê-lo ao domínio da sociedade, eliminando os resíduos da mentalidade feudal e teológica. Quer convencer que as guerras são anacrônicas, e as conquistas coloniais, absurdas. Sua tarefa é fazer com que todos se tornem positivistas; mostrar a todos que a organização positivista é racional para a ordem temporal, ensinar-lhes o altruísmo e o amor na ordem espiritual ou moral. O sociólogo é uma espécie de profeta pacifico, que instrui os espíritos, congrega as almas e, secundariamente, atua como grande sacerdote da religião sociológica.

Comte é o fundador de uma religião, e assim se considerava. Acreditava que a religião da nossa época pode e deve ter inspiração positivista. Não pode ser mais a religião do passado, que implica um modo de pensar ultrapassado. O homem de espírito científico não pode crer na revelação, no catecismo da \igreja, ou na divindade, de acordo com a concepção tradicional.

A religião que puder atender as necessidades constantes da humanidade, que busque o amor e a unidade, será a religião da humanidade. O Grande Ser que Comte nos convida a amar é o que os homens tiveram ou fizeram de melhor, aquilo que nos homens ultrapassa os homens, ou pelo menos o que a humanidade essencial realizou.

Comte quer que os homens estejam unidos por convicções comuns e um objetivo único de amor.


3. KARL MARX

Marx é o sociólogo e o economista do regime capitalista. Tinha uma teoria sobre esse regime, sobre a influência que exerce sobre os homens e sobre o devenir pelo qual passará.

3.1 A Análise Socioeconômica do Capitalismo

O pensamento de Marx é uma análise e uma compreensão da sociedade capitalista no seu funcionamento atual, na sua estrutura presente e no seu devenir necessário, bem como uma interpretação do caráter contraditório ou antagônico da sociedade capitalista.

A primeira idéia decisiva de Marx é que a história humana se caracteriza pela luta de grupos humanos chamados classes sociais. Marx escreveu que:

"A burguesia não pode existir sem transformar constantemente os instrumentos de produção, portanto as relações de produção, portanto o conjunto das condições sociais. Ao contrário, a primeira condição da existência, de todas as classes industriais anteriores, era a de conservar inalterado o antigo modo de produção...No curso do seu domínio de classe, que ainda não tem um século, a burguesia criou forças produtivas mais maciças e mais colossais do que as que haviam sido criadas por todas as gerações do passado em conjunto"-.

A ciência de Marx tem por fim demonstrar rigorosamente essas proposições: o caráter antagônico da sociedade capitalista, a autodestruição, inevitável dessa sociedade contraditória, a explosão revolucionaria que porá fim ao caráter antagônico da sociedade atual.

O centro do pensamento de Marx é a interpretação do regime capitalista enquanto contraditório, dominado pela luta de classes.

Segundo Max, a luta de classe tenderá a uma simplificação. Os diferentes grupos sociais se polarizarão em torno da burguesia e do proletariado, e é o desenvolvimento das forças produtivas que será o motor do movimento histórico, levando, pela proletarização e pela pauperização, à explosão revolucionaria e ao surgimento, pela primeira vez na história, de uma sociedade não-antagônica.

Sobre um texto celebre de Marx, pode-se resumir o conjunto de sua concepção sociológica, referente às idéias essenciais da interpretação econômica da história.

A primeira idéia essencial, os homens entram em relações determinadas, necessárias, que são independentes de sua vontade. Há relações sociais que impõem aos indivíduos, não se levando em conta suas preferências.

Em toda sociedade podemos distinguir a base econômica, ou infra-estrutura e a superestrutura. A primeira é constituída pelas forças e pelas relações de produção, na superestrutura figuram as instituições jurídicas e políticas, bem como os modos de pensar, as ideologias, as filosofias.

O motor do movimento histórico é a contradição, em cada momento da história, entre as forças e as relações de produção.

Nessa contradição entre forças e relações de produção, é fácil introduzir a luta de classes.

Dentro dessa visão histórica, as revoluções não são acidentais, mas sim a expressão de uma necessidade histórica.

3.2 O Capital

O capital tem sido objeto de dois tipos de interpretação e, segundo alguns, é essencialmente uma obra de economia científica, sem implicações filosóficas. Para outros, é uma espécie de análise fenomenológica ou existencial da economia. Marx assume como objetivo explicar o modo de funcionamento do regime capitalista, com base na sua estrutura social, e o desenvolvimento desse regime com base no seu modo de funcionamento, e isso ele se destina a explicar no capital, que é um empreendimento grandioso. O capital é um livro de economia que é, ao mesmo tempo, uma sociologia do capitalismo e uma história filosófica da humanidade, embaraçada nos seus próprios conflitos até o fm da pré-história.

O esquema fundamental do pensamento marxista é o de uma sociedade histórica que passa pela ação dos homens e, ao mesmo tempo, é superior à ação e cada um deles, o de um mecanismo histórico que tende a destruir o regime, pelo jogo das leis intrínsecas do seu funcionamento. O centro e a originalidade do pensamento marxista estão, na conjunção de uma análise do funcionamento e da análise de um devenir inevitável. Cada indivíduo, agindo racionalmente em função do seu interesse, contribui para destruir o interesse comum de todos os interessados em salvaguardar o regime.

Sobre o processo de proletarização e pauperização, Marx disse que, no processo de proletarização, à medida que se desenvolve o regime capitalista, as camadas intermediárias, entre capitalistas e proletários, serão desgastadas, corroídas, e um número crescente dos membros dessas camadas serão absorvidos pelo proletariado.

A pauperização é o processo pelo qual os proletários tendem a ser tornar cada vez mais miseráveis à medida que se desenvolvem as forças da produção. Segundo o próprio Marx, não é impossível elevar o nível de vida dos operários, sem modificar a taxa de exploração. O que impede a elevação dos salários é o excedente permanente de mão-de-obra não empregada, que pesa sobre o mercado de trabalho e modifica as relações de toca entre capitalistas e assalariados, em detrimento dos operários.

Na teoria de O Capital a pauperização não é um mecanismo estritamente econômico, mas uma teoria econômico-sociológica. O elemento sociológico é a idéia de que, uma vez que os salários tendem a se elevar, a taxa de natalidade aumenta, criando assim um excesso de mão-de-obra. O mecanismo propriamente econômico é o do desemprego tecnológico.

A permanente mecanização da produção tende a liberar uma parte dos operários empregados.

3.3 Os Equívocos da Filosofia Marxista

A concepção marxista da sociedade capitalista e das sociedades em geral é sociológica, mas sua sociologia está vinculada a uma filosofia. A sociologia marxista propriamente dita comporta interpretações diversas, de acordo com a definição mais ou menos dogmática que se dá a noções como forças de produção ou relações de produção, e conforme se considere que o conjunto da sociedade seja determinado ou condicionado pela infra-estrutura. As relações entre economia e sociologia levam a interpretações diversas e, segundo Marx, é a partir da ciência econômica que se pode compreender a sociedade global, mas as relações entre os fenômenos econômicos e o conjunto social são equivocas.

Uma primeira análise, que vamos encontrar na Crítica da filosofia do direito de Hegel, gira em torno da oposição entre o particular e o universal, a sociedade civil e o Estado, a escravidão do trabalhador e a liberdade fictícia do eleitor e do cidadão. Esse texto constitui a origem de uma das oposições clássicas do pensamento marxista, entre democracia formal e democracia real; mostra também uma certa forma de aproximação entre a inspiração filosófica e a crítica sociológica.

A inspiração filosófica se manifesta na rejeição de uma universalidade do individuo limitada à ordem política e se transpõe facilmente para uma análise sociológica. A idéia de Marx é a seguinte: o que significa o direito de votar a cada quatro ou cinco anos para os indivíduos que não têm outro meio de subsistência a não ser os salários que recebem dos patrões, em condições que esses estabelecem?

O segundo conceito em torno do qual gira o pensamento de juventude de Marx é o do homem total, provavelmente ainda mais equivoco do que o do homem universalizado. O homem total é o que não é mutilado pela divisão do trabalho. Para Marx, o homem da sociedade industrial moderna é, com efeito, um homem especializado.Adquiriu uma formação específica, para exercer uma profissão particular. Permanece encerrado a maior parte de sua vida nessa atividade setorial, deixando de utilizar muitas aptidões e faculdades que poderiam se desenvolver.

Nessa linha, o homem total seria aquele que não fosse especializado.Alguns textos de Marx sugerem uma formação politécnica, em que todos os indivíduos fossem preparados para o maior número possível de profissões. Com tal formação, não estariam condenados a fazer a mesma coisa, de manhã à noite.

Se o significado do homem total é o homem não amputado de algumas das suas aptidões pelas exigências da divisão do trabalho, esta noção é um protesto contra as condições impostas aos indivíduos pela sociedade industrial. Efetivamente, a divisão do trabalho tem como resultado fazer com que a maioria dos indivíduos no realizem tudo aquilo de que são capazes. Mas esse protesto um tanto romântico não me parece adequado ao espírito de um socialismo científico.

É difícil conceber como uma sociedade, capitalista ou não capitalista, poderia formar todos os seus membros em todas as profissões,; é difícil imaginar como funcionaria uma sociedade industrial em que os indivíduos não fossem especializados em seu trabalho.

É possível expor o pensamento de Marx como o de um puro economista e sociólogo; Marx, contudo, chegou à crítica econômico-social tomando como ponto de partida temas filosóficos.Aqui aparece a grandeza e o equívoco da sociologia marxista. Pretende ser uma filosofia. Ela é, essencialmente, uma sociologia. Mais além ou aquém dessas idéias, restam ainda, muitos pontos obscuros ou equívocos que explicam a variedade das interpretações dadas ao pensamento de Marx.

3.4 Os Equívocos da Sociologia Marxista

Mesmo que se abstraia a base filosófica, a sociologia marxista comporta alguns equívocos. A concepção do capitalismo e da história de Marx está associada á combinação dos conceitos de forças de produção, relações de produção, luta de classes, consciência de classe, infra-estrutura e superestrutura. Contudo, se nos limitarmos a utilizar dessa forma esses conceitos, não encontraremos uma filosofia da historia. Pode-se descobrir que a um mesmo grau de desenvolvimento das forças produtivas correspondem diferentes relações de produção. A propriedade privada não exclui um grande desenvolvimento das forças produtivas; por outro lado, já pode haver propriedade coletiva com um desenvolvimento mínimo das forças de produção. Em outras palavras, o emprego crítico das categorias marxistas não implica uma interpretação dogmática do curso da história.

Outro equívoco da sociologia marxista tem a ver com a análise e a discussão dos conceitos essenciais, notadamente os de infra-estrutura e superestrutura.Quais são os elementos da realidade social que pertencem à infra-estrutura? Quais os que pertencem à superestrutura?

De modo geral, parece que devemos chamar de infra-estrutura a economia, em particular as forças de produção, ou seja, o conjunto de equipamento técnico de uma sociedade, e também a organização do trabalho. Mas o equipamento técnico de uma civilização é inseparável dos conhecimentos científicos e esses pertencem ao domínio das idéias e do saber, e esses últimos deveriam estar ligados á superestrutura, pelo menos na medida em que o saber cientifico está, em muitas sociedades, intimamente ligado aos modos de pensar e á filosofia.

3.5 Sociologia e Economia

Em sua análise do capitalismo Marx considerou simultaneamente as características de toda economia e as características de uma economia moderna de tipo capitalista, porque não conhecia outros tipos.

A teoria do salário, a teoria da mais-valia, a teoria da acumulação deixam de ser plenamente satisfatórias em si mesmas. Em nenhum regime é possível dar aos trabalhadores todo o valor do que produzem, pois é preciso reservar uma parte desse valor para a acumulação coletiva.Com isso, demonstra-se que Marx, observando a fase inicial do regime capitalista, não podia distinguir com facilidade de um lado o que implica um regime de propriedade privada e, de outro, o que implica uma fase de desenvolvimento tal como a que a Inglaterra atravessava no momento em que ele estudava; e, por fim, o que constituía a essência de qualquer economia industrial. Hoje, a tarefa da análise sociológica de economia consiste justamente em traçar a distinção entre esses três tipos de elementos: as características de toda economia moderna, características ligadas a um regime particular de economia moderna e as características ligadas a uma fase de crescimento da economia.

A idéia central de Marx é a de que a sociedade capitalista é antagônica; como conseqüentemente, todas as características essenciais do regime capitalista têm origem nesse fenômeno.

A sociologia de Marx supõe a redução da ordem política à ordem econômica, isto é, a extinção do Estado a partir do momento em que forem impostas a propriedade coletiva dos meios de produção e planificação. Contudo, a ordem política é essencialmente irredutível á ordem econômica. Qualquer que seja o regime econômico e social, o problema político persistirá, porque ele consiste em determinar quem governa, como são recrutados os governantes, como o poder é exercido, ou qual a relação de consentimento ou de revolta entre os governantes e governados.A ordem política é tão essencial e autônoma quanto a ordem econômica.

A sociologia dos regimes políticos não pode ser reduzida a um simples apêndice da sociologia da economia ou das classes sociais.


4. ÉMILE DURKHEIM

4.1 Da Divisão do Trabalho Social

Da divisão do trabalho social (1893), tese de doutoramento de Durkheim é seu primeiro grande livro.

O tema deste primeiro livro é central no pensamento do autor: as relações entre os indivíduos e a coletividade. Como pode uma coleção de indivíduos constituir uma sociedade e como se chega a esta condição da existência social que é o consenso?

Para Durkheim, através da solidariedade em duas formas; mecânica e orgânica.

A primeira, uma solidariedade por semelhança, onde os indivíduos diferem pouco uns dos outros. A forma oposta de solidariedade, a orgânica, é aquela em que o consenso resulta de uma diferenciação, ou se exprime por seu intermédio. Os indivíduos não se assemelham, são diferentes.

Durkheim chama de orgânica a solidariedade baseada na diferenciação dos indivíduos, por analogia com os órgãos de um ser vivo, cada um exercendo uma função própria. Para Durkheim, as duas formas de solidariedade correspondem a duas formas extremas de organização social.

A oposição dessas duas formas de solidariedade se combina com a oposição entre sociedades segmentarias e aquelas em que aparece a moderna divisão de trabalho. A noção de estrutura segmentaria não se confunde com a solidariedade por semelhança. Sugere apenas o relativo isolamento, auto-suficiência dos vários elementos. Pode-se conceber uma sociedade global ocupando amplo espaço que não passasse da justaposição de segmentos, todos semelhantes e autárquicos.

A divisão do trabalho que Durkheim procura apreender e definir não se confunde com a que os economistas imaginam. A diferenciação das profissões e a multiplicação das atividades industriais exprimem a diferenciação social que Durkheim considera de modo prioritário. Essa diferenciação se origina na desintegração da solidariedade mecânica e da estrutura segmentaria. No estudo da divisão do trabalho, Durkheim descobriu duas idéias essenciais: a prioridade histórica das sociedades em que a consciência individual está inteiramente fora de si e a necessidade de explicar os fenômenos individuais pelo estudo da coletividade, e não o estado da coletividade pelos fenômenos individuais.

O fenômeno da divisão do trabalho que o sociólogo quer explicar é diferente, portanto, do que os economistas entendem pelo mesmo conceito. A divisão do trabalho é uma certa estrutura de toda a sociedade, de que a divisão técnica ou econômica do trabalho não passa de uma manifestação.

A diferenciação social, fenômeno característico das sociedades modernas, é a condição criadora da liberdade individual.Só numa sociedade em que a consciência coletiva perdeu uma parte de sua rigidez o indivíduo pode ter uma certa autonomia de julgamento e de ação.

Nessa sociedade individualista, o problema mais importante é manter o mínimo de consciência coletiva, á falta da qual a solidariedade orgânica provocaria a desintegração social.

4.2 O Suicídio (1897)

O livro que Dukheim escreveu sobre o problema do suicídio está estreitamente ligado ao estudo da divisão do trabalho. Ele observa que o homem não se sente necessariamente mais feliz com sua sorte nas sociedades modernas, e registra, de passagem, o aumento do número dos suicídios, expressão e prova de certos traços, talvez patológicos, da organização atual da vida coletiva. Durkheim fala da "anomia", ausência ou desintegração das normas sociais, conceito que vai te um papel predominante no estudo do suicídio. Passa em revista certos fenômenos, como as crises econômicas, a inadaptação dos trabalhadores as suas ocupações, a violência das reivindicações dos indivíduos com relação á coletividade.

O estudo do suicídio trata de um aspecto patológico das sociedades modernas, e revela do modo mais marcante a relação entre o indivíduo e a coletividade. Durkheim quer mostrar até que ponto os indivíduos são determinados pela realidade coletiva.

Durkheim define três tipos de suicídio: o egoísta, o altruísta e o anômico.

No suicídio egoísta é analisado graças á correlação entre a taxa de suicídio e os contextos sociais integradores, a religião e a família, esta última considerada sob o duplo aspecto de casamento e prole.

No suicídio altruísta que comporta dois exemplos principais: o primeiro, em sociedades arcaicas, a viúva indiana aceita ser colocada na fogueira que deve queimar o corpo do marido morto.

O segundo, é o suicídio no exército, praticado por militares.

No suicídio anômico, o mais característico da sociedade moderna, ocorre nos períodos de crises econômicas, como também nos períodos de grande prosperidade. Sua freqüência também aumenta paralelamente ao aumento do número de divórcios.

4.3 As Formas Elementares da Vida Religiosa

"As formas elementares da vida religiosa" representa a solução dada por Durkheim à antítese entre ciência e religião.Descobrindo a realidade profunda de todas as religiões, a ciência não recria uma religião, mas dá confiança na capacidade que têm as sociedades de produzir em cada época os deuses de que necessitam. "Os interesses religiosos não passam de forma simbólica de interesses sociais e morais".

Para Durkheim, a essência da religião é a divisão do mundo em fenômenos sagrados e profanos. Não é a crença numa divindade transcendente: há religiões superiores sem Deus. A maioria das escolas budistas não professa a fé num deus pessoal e transcendente.

A religião pressupõe o sagrado, em seguida a organização das crenças relativa ao sagrado e, por fim, ritos ou práticas derivados das crenças, de modo mais ou menos lógico.

O objetivo da teoria da religião de Durkheim é fundamentar a realidade do objeto da fé, sem admitir o conteúdo intelectual das religiões tradicionais, condenadas pelo desenvolvimento do racionalismo cientifico; este permite salvar o que parece destruir, demonstrando que os homens nunca adoraram senão sua própria sociedade.

4.4 As Regras do Método Sociológico

A concepção sociológica de Durkheim se baseia em uma teoria do fato social. Seu objetivo é demonstrar que pode e deve existir uma sociologia objetiva e científica, conforme o modelo das outras ciências, tendo por objeto o fato social.

Para que haja tal sociologia, duas coisas são necessárias: que seu objeto seja específico, distinguindo-se do objeto das outras ciências, e que possa ser observado e explicado de modo semelhante ao que acontece com os fatos observados e explicados pelas outras ciências. Esta dupla exigência leva as duas celebres fórmulas com que se costuma resumir o pensamento de Durkheim: é preciso considerar os fatos sociais como coisas; as características do fato social é que ele exerce uma coerção sobre os indivíduos. É conveniente chamar de coisa toda realidade observável do exterior, e cuja natureza não conhecemos imediatamente.

Esse método não deixa de apresentar alguns problemas. Durkheim parte da idéia de que convém definir os fatos sociais pelas características externas facilmente reconhecíveis, a fim de evitar os preconceitos ou pré-noções. O perigo desse método é duplo: substituir imperceptivelmente uma definição intrínseca, por outra, extrínseca, relacionada com sinais exteriores reconhecíveis, e pressupor arbitrariamente que todos os fatos classificados nessa categoria derivam necessariamente de uma mesma causa.

Esse é o centro do pensamento metodológico de Durkheim; para ele o fato social é especifico, provocado pela associação dos indivíduos, e diferente, pela sua natureza, do que se passa no nível das consciências individuais. Os fatos sociais podem ser objeto de uma ciência geral porque se distribuem em categorias, e os próprios conjuntos sociais podem ser classificados em gêneros e espécies.

4.5 Sociologia e Socialismo

O ponto de partida de Durkheim é o absoluto do pensamento científico, a única forma de pensamento válida na nossa época.Nenhuma doutrina moral ou religiosa, pelo menos em seu conteúdo intelectual, pode ser admitida, se não resiste à crítica da ciência. Durkheim admite que a ordem social se fundamenta num pensamento de tipo científico.

O problema social não é um problema econômico; é, sobretudo um problema de consenso, isto é, de sentimentos comuns aos indivíduos, graças aos quais os conflitos são atenuados, os egoísmos recalcados e a paz mantida. O problema social é um problema de socialização.

O curso que Durkheim dedicou ao socialismo é parte de um empreendimento mais amplo, que não chegou a concluir: um estudo histórico do conjunto das doutrinas socialistas, de que só pode estudar as origens.

Durkheim aborda este estudo com algumas idéias que esclarecem sua interpretação do socialismo. Opõe-se à doutrina marxista, não crê na fecundidade dos meios violentos e se recusa a considerar a luta de classes, em particular os conflitos entre os operários e empresários, como um elemento essencial da sociedade atual, e como mola do movimento histórico.

O sociólogo também não é socialista, na medida em que muitos socialistas se inclinam a crer que a solução dos problemas da sociedade moderna virá de uma organização econômica.

Para Durkheim, a sociologia pode trazer uma solução científica ao problema social, e compreende-se que ele possa ter tomado como ponto de partida de suas pesquisas uma questão filosófica que comandava o problema político, e que tenha encontrado na sociologia, tal como entendia, o substituto de uma doutrina socialista.

4.6 Sociologia e Filosofia

Durkheim insiste no fato de que as várias instituições, família, crime, educação, política, moral, religião, são consideradas pela organização da sociedade. Cada tipo social tem seu tipo de família, de educação, de Estado, de moral. Mas tende a tornar o meio social como uma realidade total, quando esta é uma categoria analítica, e não uma causa última.

Durkheim se exprime muitas vezes como se a sociedade fosse uma unidade fechada sobre si mesma exatamente definida. É preciso substituir a noção de sociedade, unidade completa e integral, pela noção de grupos sociais, que coexistem dentro de toda sociedade complexa. Desde que se admite a pluralidade dos grupos sociais e o conflito das idéias morais, percebe-se também que a ciência social será por muito tempo incapaz de dizer aos moralistas e aos educadores que é a moral que devem pregar em nome da ciência. Durkheim pensava ter encontrado o meio de separar os fenômenos fundamentais da estrutura ou da integração social, que pertencem ao campo da sociologia, dos outros fenômenos mais superficiais, como os regimes políticos que pertencem ao campo da ciência histórica, e não obedecem a leis estritas.

Essa classificação das sociedades, que leva á oposição do profundo e do superficial, do tipo social e dos fenômenos históricos, é provocada por uma ilusão, positivista ou realista, segundo a qual uma classificação das sociedades é válida, em termos absolutos.

Durkeheim dizia que entre Deus e a sociedade é preciso escolher. Isso mostra realmente o que ele pensava. Para ele, um ato só é moral se tem por objeto uma pessoa que não a do seu autor. Portanto, para que haja uma moralidade, é preciso haver uma realidade que valha mais do que qualquer pessoa. Esta realidade, superior em valor ao ator individual, só pode ser Deus ou a sociedade, e não há nenhuma diferença entre as duas hipóteses, já que a religião, de acordo com os estudos das formas elementares da vida religiosa, não passa de adoração da sociedade transfigurada.

Numa aproximação dos julgamentos de fato e de valor, encontramos sempre a convicção de Durkheim de que a autoridade dos conceitos que tendem a exprimir a realidade, ou dos ideais que tendem a informar a ação, provém da própria sociedade. Segundo as idéias de Durkheim, a sociologia justifica o individualismo racionalista e prega, ao mesmo tempo, o respeito pelas normas coletivas.

Esta é a conclusão de uma investigação em cuja origem se coloca a velha questão das relações entre o indivíduo e a sociedade, ou entre o individualismo e o socialismo.


5. MAX WEBER

5.1 Teoria da Ciência

Weber parte da distinção entre quatro tipos de ação: a ação racional com relação um objetivo, a ação racional com relação a um valor, a ação afetiva ou emocional e a ação tradicional.

  • A ação racional com relação a um objetivo é definida pelo fato de que o autor concebe claramente seu objetivo e combina os meios disponíveis para atingi-lo.
  • Na ação racional com relação a um valor, o ator age racionalmente, aceitando todos os riscos, não para obter um resultado extrínseco, mas para permanecer fel à sua idéia de honra.
  • A ação que Weber chama de afetiva é a ação ditada imediatamente pelo estado de consciência ou humor do sujeito.
  • Já, a ação tradicional, é aquela ditada pelos hábitos, costumes e crenças, transformada numa segunda natureza.

A sociologia é uma ciência que procura compreender a ação social; a compreensão implica a percepção do sentido que o autor atribui à sua conduta. A compreensão dos sentidos subjetivos implica uma classificação dos tipos de conduta e leva á percepção da sua estrutura inteligível.

Tal como Weber entende, a ciência é um aspecto do processo de racionalização, característico das sociedades ocidentais modernas. Weber chegou mesmo a sugerir e a afirmar, que a ciência histórica e sociológica da nossa época representa um fenômeno historicamente singular, na medida em que não houve, em outras culturas, o equivalente a esta compreensão racionalizada do funcionamento e do desenvolvimento das sociedades.

A ciência positiva e racional valorizada por Max Weber faz parte do processo histórico de racionalização, e apresenta duas características que comandam o significado e o alcance da verdade científica. Esses dois traços específicos são o não-acabamento essencial e a objetividade, esta última sendo definida pela validade da ciência para todos os que procuram este tipo de verdade, e pela rejeição dos juízos de valor.

5.2 História e Sociologia

As ciências históricas e sociológicas são ciências causais, como também, interpretações compreensivas do sentido subjetivo das condutas.

Segundo Weber, a investigação causal pode se orientar em dois sentidos chamados de causalidade histórica e causalidade sociológica. A primeira determina as circunstancias únicas que provocaram um certo acontecimento; a segunda pressupõe a determinação de relação regular entre os dois fenômenos.

Há, no pensamento de Weber, uma solidariedade estreita entre causalidade histórica e causalidade sociológica, uma e outra expressas em termos de probabilidade. O grau de probabilidade desta relação varia de acordo com as circunstâncias.

De um modo geral, todo pensamento causal de Max Weber se exprime em termos de probabilidades ou de oportunidades.Não há, portanto, uma determinação unilateral do conjunto da sociedade por um elemento, seja ele o econômico, o político ou o religioso. Weber concebe as relações causais da sociologia como relações parciais e prováveis. São relações parciais no sentido de que um fragmento dado da realidade, torna provável ou improvável um outro fragmento.

5.3 As Antinomias da Condição Humana

As ciências da cultura são compreensíveis e causais. A relação de causalidade é, segundo o caso, histórica ou sociológica. O historiador visa pesar a eficácia causal dos diferentes antecedentes numa única conjuntura; o sociólogo procura estabelecer relações de sucessão que se repetiram ou que são susceptíveis de repetição.

Para Weber, as sociedades são efetivamente o meio ambiente onde os valores são criados, mas as sociedades reais são compostas de homens, isto é, por nós mesmos e pelos outros, e que em conseqüência não é a sociedade concreta, como tal, que nós adoramos ou devemos adorar.

O que apaixona Weber é a determinação da hierarquia dos valores adorados por uma época, ou uma comunidade. Os objetivos predominantes da curiosidade weberiana são os sistemas não-lógicos de interpretação do mundo e da sociedade.

A antinomia fundamental da ação, de acordo com Weber, é a da moral da responsabilidade e da moral da convicção. Para Weber, a teoria da justiça implica uma antinomia fundamental. Os homens são dotados do ponto de vista físico, intelectual e moral. Haveria muito a dizer sobre esta antinomia fundamental e é evidente que não há moral da responsabilidade que não se inspire em convicções, pois, em última análise, esta moral é uma procura de eficácia, e podemos questionar o objetivo de tal procura. A moral da convicção no pode ser, também, a moral do Estado, não pode ser a ética do homem que participa do jogo político, mesmo que seja pelo uso da palavra oral ou da escrita.

5.4 A Sociologia da Religião

No pensamento weberiano a moral da convicção aparece como uma das expressões possíveis da atitude religiosa. O pacifismo por convicção só se explica dentro de uma concepção global do mundo. Para ser compreendida, toda atitude exige a percepção da concepção global da existência que anima o ator e na qual ele vive. Esse é o ponto de partida do estudo weberiano no campo da sociologia da religião.

Weber procurou refutar o materialismo histórico e explicar o comportamento econômico pelas religiões, em vez de postular que estas são apenas a superestrutura de uma sociedade cuja infra-estrutura seria constituída pelas relações de produção. Ele quis demonstrar que a conduta dos homens nas diversas sociedades só pode ser compreendida dentro do quadro da concepção geral que esses homens têm da existência. Os dogmas religiosos, e sua interpretação, são partes integrantes dessa visão do mundo; é preciso entende-los para compreender a conduta dos indivíduos e dos grupos, notadamente seu comportamento econômico.

O essencial para Weber é a análise de uma concepção religiosa do mundo, de uma atitude com relação à existência por parte de homens que in

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