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Enforcamento, Estrangulamento e Esganadura

Autor:
Instituição: UNIT-Estancia/Sergipe
Tema: Medicina Legal

ENFORCAMENTO, ESTRANGULAMENTO E ESGANADURA


ENFORCAMENTO

O Enforcamento é uma modalidade de asfixia mecânica que se caracteriza pela interrupção do ar atmosférico até as vias respiratórias, em decorrência do processo da constrição do pescoço por um laço fixo, agindo o peso do próprio corpo da vitima como força ativa. É mais comum nos suicídios, podendo, no entanto, ter como etiologia o acidente, o homicídio e a execução judicial.

MODO DE EXECUÇÃO

Há certas formas de enforcamento, como no suicídio e no suplício, devendo-se considerar: a natureza e disposição do laço, o ponto de inserção superior e o ponto de suspensão do corpo.

O laço que aperta o pescoço pode ser de várias naturezas. Sua consistência varia entre os chamados duros, e moles e semi-rígidos. Lençóis, cortinas e gravatas formam os laços moles: cordões, cordas, fios de arame ou duros: e cintos de couro, os semi-rígidos.

Sua disposição é sempre em torno do pescoço, sendo mais comum com uma única volta, embora possa haver várias voltas.

O nó pode faltar, tomando a forma de alças. Poderá ser corrediço, ou simplesmente fixo. Sua situação é sempre posterior ou lateral e, muito raramente, na porção anterior do pescoço.

Chama-se de suspensão típica ou completa aquela em que o corpo fica totalmente sem tocar em qualquer ponto de apoio: e suspensão atípica ou incompleta. Se é apoiado pelos pés, joelhos ou outra parte qualquer do corpo.

EVOLUÇÃO

A morte por enforcamento pode surgir rápida ou tardiamente, despendendo das lesões locais ou à distância.

Desenvolve-se o enforcamento em três períodos.

Período inicial - Começa quando o corpo, abandonado e sob a ação do sei próprio peso, leva pela constrição do pescoço, à sensação de calor, zumbidos, sensações luminosas na vista e perda da consciência produzida pela interrupção da circulação cerebral.

Segundo período - Caracteriza-se pelas convulsões e excitação do corpo proveniente dos fenômenos respiratórios, pela impossibilidade de entrada e saída de ar, diminuindo o oxigênio (hipoxemia) e aumentando o gás carbônico (hipercapnéia). Associa-se a esses fenômenos a pressão do feixe vásculo-nervoso do pescoço, comprimindo o nervo vago.

Terceiro período - Surge os sinais de morte aparente, ate o aparecimento da morte real, com cessação da respiração e da circulação.

Tempo necessário para a morte no enforcamento. Varia de acordo com certos aspectos pessoas e circunstanciais. A morte poderá ser rápida, por inibição, ou demorar cerca de 5 a 10 minutos, conforme observações em enforcamento judiciais.

LESÕES ANATOMOPARTOLOGICAS

Na morte por enforcamento, a ação do laço sobre o pescoço nos permite estudar:

Aspecto do cadáver - A posição da cabeça sempre se mostra voltada para o lado contrario do nó, fletida para diante, com o mento tocando no tórax.

A face Pode apresentar-se branca ou arroxeada, e as equimoses palpebrais e conjuntivas. Assinala-se a presença de liquido ou espuma sanguinolenta pela boca e narinas. A língua é cianótica e sempre está projetada além das arcadas dentarias. Olhos protusos e o pavilhão auricular violáceo, surgindo ocasionalmente otorragia.

No enforcamento completo, os membros inferiores estão suspensos e os superiores, colocados ao corpo, com os punhos cerrados mais ou menos fortemente. Na forma incompleta, os membros assumem posições as mais variadas.

A rigidez cadavérica é mais tardia no enforcamento. As manchas de hipóstase se apresentam na metade inferior do corpo com maior intensidade nas extremidades dos membros, surgindo também às equimoses post mortem. Devido ao tempo de suspensão e à fluidez do sangue, pode-se observar nas áreas de manchas de hipóstase as chamadas porpuras hipoestáticas, as quais não podem ser confundidas com petéquias hemorrágicas.

Sinais externos - A sua maior importância está no sulco do pescoço, de capital valor do diagnostico do enforcamento.

Na maioria das vezes, o sulco é único. Podendo, no entanto, apresentar-se duplo, triplo ou múltiplo quando esse laço envolve várias vezes o pescoço.

O sulco situa-se na posição superior do pescoço, mais alta do que o ponto onde fixou primeiro o laço, para depois deslizar até o ponto de apoio da cabeça, dirigindo-se em sentido do nó obliquamente, de baixo para cima e de diante para trás.

A consistência do leito do sulco é mole, e a tonalidade é branca, nos produzidos por laços moles, e dura, apergaminhada e de tonalidade pardo-escura, resultante da desidratação da pela escoriada nos fenômenos post mortem, nos produzidos por laços duros.

Tanto mais delgado o laço, mais profundo o sulco, levando-se em consideração ainda o tempo de permanência do corpo sob a ação do laço. A largura do sulco também varia em função do laço. A permanência do sulco de proporcional a consistência do laço, podendo desaparecer num segundo exame, caso se trate de um laço mole.

Características diferenciais do sulco

ENFORCAMENTO

ESTRANGULAMENTO

Obliquo ascendente

Horizontal

Variável segundo a zona do pescoço

Uniforme em toda a periferia do pescoço

Interrompido ao nível do nó

Continuo

Em geral, único.

Freqüentemente Múltiplo

Por cima da cartilagem tireóidea

Por baixo da cartilagem tireóidea

Quase sempre apergaminhado

Excepcionalmente apergaminhado

De profundidade desigual

De profundidade uniforme


Sinais Internos.

A. Sinais Locais:

Lesões da parte profunda da pele e da tela subcutânea do pescoço. No enfoque, essas alterações são mais constantes e mais intensas do laço contrario ao nó.

Lesões dos vasos: incidem sobre as artérias e, excepcionalmente nas veias. São mais encontradas nos enforcamentos por laços da circunferência do vaso. O referido sinal é mais encontrado na artéria do lado oposto do nó.

Esses sinais sãos evidente, nos casos de enforcamento, no lado onde o laço sustenta o corpo, ou seja, no lado oposto ao vistos em ambos os lados, as lesões são mais pronunciadas e mais baixas no lado contrario ao do nó.

Lesões do aparelho laríngeo: fraturas das cartilagens tireóides e cricoide, e fratura do osso hióide.

Lesões da coluna vertebral: nos casos de enforcamento com queda brusca do corpo, podem surgir fraturas ou luxações de vértebras cervicais, como acontece em alguns dos enforcamentos por suplício.

Sinais planos profundos do pescoço. Os sinais comumente descritos médico-legal sobre enforcamento são:

Musculares, Cartilagens e ossos, ligamentos, vasculares, neurológicos, vertebrais, faríngeos, laríngeos.

B. Sinais à distância

São aqueles encontrados nas asfixias em geral, como congestão polivissceral, sangue fluido e escuro, pulmões distendidos equimoses viscerais e espuma sanguinolenta na traquéia e nos brônquios.

Mecanismo da morte por enforcamento. Hoffmann fundamenta a morte do enforcamento em três princípios.

Morte por asfixia mecânica. Naturalmente é se levado a pensar que a ação do laço no pescoço interrompe a passagem até os pulmões. Se o endividou morre por asfixia mecânica no enforcamento não pe precisamente por constrição da laringe e da traquéia, e sim por outro mecanismo de asfixia, como a obstrução das vias respiratórias, pelo rachamento da base da língua para cima e para trás, por ação do próprio laço sobre a parede posterior da laringe.

Morte por obstrução da circulação. A interrupção da circulação venosa pela constrição do laço do pescoço contribui apenas para alguns autores, no fenômeno da congestão da face. A obstrução da passagem do sangue anterial pelas caroticas acarretando pertubações cerebrais pela anoxia.

Morte por inibição devido à compreensão dos elementos nervosos do pescoço. O laço exerce pressão sobre o feixe vásculo-nervoso do pescoço, principalmente no nervo vago. Isso se demonstra basicamente nos casos de sobrevivência nos quais se manifestam sinais laríngeos cardíacos e respiratórios observadas pela compressão daquele nervo ou dos seios carotídeos.


ESTRANGULAMENTO

No estrangulamento, a morte se dá pela constrição do pescoço por um laço acionado por uma força estranha, obstruindo a passagem de ar aos pulmões, interrompendo a circulação do sangue ao encéfalo e comprimindo os nervos do pescoço.Nesse tipo de morte, ao contrario do enforcamento, o corpo da vítima atua passivamente e a força constrictiva do laço age de forma ativa.

O acidente e o suicídio nesta modalidade são raríssimos. Mais comum é o estrangulamento-homicídio, principalmente quando a vítima é inferior em forças ou é tomada de surpresa. Constitui uma forma, não muito rara, de infanticídio.

SINTOMATOGLOGIA

No estrangulamento os sintomas são variados conforme a sua maneira: lenta, violenta ou continua.

Normalmente, o estrangulamento passa por três períodos resistência, perda da consciência e convulsões, asfixia e morte aparente. Depois surge a morte real.

SINAIS EXTERNOS

Aspecto da face e do pescoço. A face no estrangulamento geralmente se mostra tumefeita e violácea devido a onstreção quase sempre completa da circulação venosa e arterial os lábios e as orelhas arroxeados, podendo surgir espuma rósea ou sanguinolenta das narinas e boca. A língua se projeta além das arcadas dentarias e é extremamente escura. Dos meatos acústicos externos, poderá fluir sangue. Equimoses de pequenas dimensões na face nas conjuntivas pescoços face anterior do tórax.

Sulco. Quanto mais constante e duro for o laço, mais constante é o sulco. Pode ser único, duplo ou múltiplo. A direção é diferente do enforcamento, pois se apresenta em sentido horizontal, podendo, no entanto, ser ascendente ou descendente, como nos casos de homicídio, em que o agente puxa o laço para trás e para cima. Sua profundidade é uniforme e não há descontinuidade, podendo verificar-se a superposição do sulco onde a parte do laço se cruza. As bordas são cianóticas e elevadas, e leito é deprimido e apergaminhado. Geralmente o sulco está situado por baixo da cartilagem tireóide.

SINAIS INTERNOS:

Lesões nos planos profundos do pescoço:

1. Infiltração hemorrágica dos tecidos moles do pescoço. A tela subcutânea e a musculatura subjacente ao sulco apresentam-se infiltradas por sangue. Essas lesões, quando se trata de estrangulamento pelo fato de o laço imprimir força de mesma intensidade em torno do pescoço e agir em sentido horizontal, apresentam a mesma distribuição e altura em todo o perímetro nos planos internos dos pescoços.

2. Lesões da laringe. Pode acarretar lesões nas cartilagens tireóides das artérias e no osso hióide.

3. Lesões das artérias carótidas. Pelas mesmas razoes alegadas para os tecidos moles do pescoço, essas lesões arteriais têm, em quase todas às vezes a mesma intensidade e se colocam numa mesma altura.

Lesões à distância. Estão representadas pelos sinais clássicos de asfixia vistos no estudo geral sobre o tema. Na morte por estrangulamento, três são os fatores que interferem.

Na morte por estrangulamento, a asfixia é mais decisiva que no enforcamento, principalmente devido À posição do laço.

Compreensão doa vasos do pescoço. Compromete mais intensamente as veias jugulares que artérias caróticas, e estas menos que as artérias vertebrais, fazendo com que o sangue do segmento cefálico fique bloqueado.

Compreensão dos vasos do pescoço. Tem influencia mais decisiva na morte por estrangulamento, cujo mecanismo mais bem explicado é a inibição.

O diagnóstico de morte por estrangulamento ou por enforcamento tem permanecido no plano macroscópico da necropsia através dos sinais gerais de asfixias e, em particular do estudo do pescoço. Daí a dificuldade de estabelecer com precisão pontos característicos diferenciais entre estas duas espécies de asfixia mecânica.

ESTRANGULAMENTO ANTIBRAQUIAL

A experiência demonstra que, embora em situações não tão raras, é possível o estrangulamento através da constricção do pescoço pela ação do braço e do antebraço conhecida como golpe de gravata.

Este procedimento pode ser criminoso ou mesmo acidental, quando nesta última hipótese um individuo tenta conter outro.

Em geral, a morte de dá por oclusão das vias aéreas ou da obstrução da circulação das carótidas, por ação da prega do cotovelo sobre a face lateral do pescoço. A morte pode ser também por inibição.

Em tais ocorrências, o difícil é precisar o diagnóstico, pois os sinais encontrados não são tão evidentes quanto os deixados pelo laço no estrangulamento e no enforcamento ou pelos dedos na esganadura.

Pode ainda ocorrer à morte pela pressão do pescoço através de um objeto duro, como um bastão ou cassetete, em que se verifica a obstrução principalmente da traquéia e da laringe. Nestes casos a perícia vai encontrar significativas lesões internas e externas neste segmento afetado.


ESGANADURA

Esganadura é um tipo de asfixia mecânica que se verifica pela constrição do pescoço pelas mãos, ao obstruir a passagem do ar atmosférico pelas vias respiratórias até os pulmões.

É sempre homicida, sendo impossível a forma suicida ou acidental.

SINTOMATOLOGIA.

Pela própria esganadura, é difícil precisar exatamente os períodos e o tempo decorrido nestes tipos de morte, que tanto pode ser por asfixia, como por inibição, devido à compressão dos elementos nervosos do pescoço. A esganadura vem sempre acompanhada de outras lesões, principalmente as traumáticas, provenientes de outras agressões como ferimentos na região posterior da cabeça, equimoses em redor da boca, escoriações nas mais e nos antebraços, todas elas decorrentes da luta e, por isso, chamadas de lesões de defesa.

SINAIS.

Sinais externos a distancia.

Sinais externos locais. Os mais importantes são os produzidos pelas unhas do agressor, teoricamente de forma semilunar, apergaminhados de tonalidade pardo amarelada, conhecidos com estigmas ou marcas ungueais. Podem também ter a forma de rastros escoriativos. Se o criminoso usou a mão direita, aparecem essas marcas em maior quantidade no lado esquerdo do pescoço da vítima.

Em alguns casos, podem surgir escoriações de várias dimensões e sentidos, devido as reações da vítima ao defender-se. Finalmente, as marcas ungueais podem não existir se o agente conduziu a constricção do pescoço, protegido por objetos.

Sinais locais profundos. São os seguintes:

a. Infiltração hemorrágica das estruturas profundas do pescoço. São mais acentuadas e mais constantes que no estrangulamento, apresentando-se de forma difusa ou localizada na tela subcutânea e na musculatura da região cervical.

b. Lesões do aparelho laríngeo por fraturas de cartilagens tireóide e cricóide e dos ossos estilóide e hióideo, mais freqüentes que nos estrangulamentos e no enforcamento.

c. Lesões dos vasos do pescoço, bem mais raras.

Sinais à distância. Apresentam as mesmas características das asfixias em geral.

Na esganadura interferem principalmente no mecanismo de morte, a asfixia e os fenômenos decorrentes da compreensão nervosa do pescoço. A obliteração vascular é de interesse insignificante. Aqui, tudo faz crer que a asfixia é o principal elemento responsável pelo êxito letal.

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