Fusão AMBEV

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Instituição: Centro UNIFEO
Tema: Administração

FUSÃO DE ANTARTICA E BRAHMA


Brahma e Antartica põem fim a uma disputa histórica, anunciam megafusão e se armam para a disputa mundial

Nasceu um grupo privado dos mais poderosos que o brasil conheceu em sua História. A partir de agora, de cada dez latas de cerveja vendida nos bares e supermercados, sete terão sido produzidas pela recém-criada AmBEv, a empresa que é resultado da fusão de Brahma e Antartica.Em outros tempos, com as fronteiras do país fechadas, a notícia do surgimento de um conglomerado monstruoso desses seria assustadora para o consumidor brasileiro. Uma empresa tão grande, que concentra quase três quartos do mercado, poderia fazer um estrago e tanto. Poderia tabelar preços, esmagar a concorrência, controlar os pontos-de-venda e submetê-los a contratos leoninos e piorar a qualidade dos produtos qua fabrica. Tudo isso sem muito risco. Por que não agora?

Numa economia global, a fusão das cervejarias Brahma e antartica aparentemente não oferece esses perigos. De acordo com os especialistas, tudo conspira para que aconteça justamente o contrário. Fortalecida pelos números que a operação envolve, a AmBev estará em condições de baixar seus custos operacionais, o que pode ser ótimo par quem compra cerveja. Além disso, fica em condições de brigar de igual para igual nomercado internacional. "Se as companhias brasileiras não ganharem robustez acabarão sendo compradas pelas concorrentes estrangeiras", afirma Marcel Telles, de 49 anos, presidente do conselho de administração da AmBev, mesmo cargo que ocupava na antiga Brahma. A AmBev nasce como terceira maior indústria ceverjaria do mundo.

Diante da fusão, as duas maiores concorrentes do setor tiveram reações distintas. A Schincariol anunciou que não temem nova organização e que está pronta para enfrentá-la. Já a Kaiser se manifestou por meio de uma nota oficial, repudiando a possibilidade de restrição de concorrência. "a anunciada fusão entre Brahma e Antartica, se concretizada, concentrará em uma única empresa mais de 70% do setor, fato inaceitável em qualquer economia do mundo moderno." O curioso é que um dos donos da Kaiser é a Coca-Cola, que detém metade do mercado brasileira de refrigerantes.

O negócio marca a entrada do Brasil na era das super fusões de empresas, a característica mais significativa do capitalismo mundial. Só os maiores, mais fortes e mais eficientes sobrevivem.

A AmBev, companhia que vais surgir a fusão entre Brahma e Antartica, será:

  • a maior empresa privada do país. Em 1998, Brahma e Antartica venderam juntas 10,3 bilhões de reais
  • a terceira maior cervejaria do mundo. A produção de ambas no ano passado foi de 6,4 bilhões de litros
  • a maior contribuinte privado do país. As duas empresas pagaram 4,2 bilhões de reais em imposots no ano passado
  • o quinto maior fabricante de bebidas do mundo. em 1988. Brahma e antartica engarrafaram 9 bilhões de litros de refrigerantes, água, chás, isotônicos e cerveja
  • dona de 50 fábricas em todo o país


Como Aconteceu ...

Telles, da ex-Brahma, e De Marchi, da ex-Antartica: megafusão nasce em almoço de mandachuvas marcado para "choras as mágoas"

Foram exatamente Telles e De Marchi que deram os passos iniciais do meganegócio, num almoço realizado em meados de maio num restaurante em São Paulo.

Os executivos, embora de empresas concorrentes, cultivavam havia algum tempo o hábito de conversar. "para chorar as mágoas", segundo Telles. Logo no início do almoço, Telles expôs suas dificuldades para expandir as operações da Brahma. Contou a De Marchi que tentara fincar o pé na Colombia, comprando uma fábrica local. Mas o negócio havia gorado na fase final. De Marchi fez reclamações semelhantes. Chegaram à óbvia conclusão de que era preciso ocupar esses novos espaços. Com os pratos de sobremesa diante de ambos, Telles formulou uma proposta tão ousada quanto direta. " Por que não juntar as duas empresas?", perguntou. De Marchi não refutou a idéia. Pelo contrário, sinalizou que a Antartica não podia topar.

A proposta foi levada ao conselho de administração da Antartica. O sinal verde foi dado. Os acionistas da Brahma também deram o "sim" necessário para o andamento das conversas. Formou-se um grupo de trabalho.

Para evitar que a movimentação de toda essa gente deixasse pista, forma tomadas algumas precauções. Os integrantes do grupo receberam crachás especiais, identificados apenas por números. Isso lhes permitia movimentar-se à vontade pelo prédio (os encontros aconteciam numa das salas do escritório da GP, empresa de propriedade dos controladores da Brahma, em São Paulo), sem ter de revelar seus nomes ou o das empresas para as quais trabalhavam. Combinou-se também que os crachás seriam mantidos sempre à mostra, para evitar que algum estranho fosse confundido com um membro da equipe.

Quanto perceberam que as ações da Antartica, estáveis há muito tempo, na bolsa de valores deram um salto de 8,1%, temeram que o sigilo estivesse em xeque. Resolveram então, agir rápido. Anteciparam o anúncio da megafusão.


Segunda Parte da Fusão

Uma fase tão delicada quanto a do acerto entre as partes: a AmBev entregou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica, CADE, os documentos relativos à união dos ex-concorrentes. Ao CADE cabe aprovar fusões de empresas que resultem em participações superiores a 20% do mercado. A AmBev controla 73% das vendas de cerveja do país. Isso que dizer que a empresa veio ao mundo em um dia, mas sua existência jurídica depende de autorização do governo. Ruy Coutinho, secretário de

Direito Econômico, a quem o CADE está subordinado, já deu sinais de que o negócio entre Brahma e Antartica deve ser aprovado. "A legislação não impede a posição dominante no mercado". analisa Coutinho. "E sim os abusos que possam surgir em função dessa situação."

A estratégia para obter o apoio do governo e a aprovação do CADE incluiu uma passagem pelos gabinetes do presidente Fernando Henrique Cardoso e de Ruy Coutinho.

A expectatica a AmBev é de que o processo de análise no CADE demore quatro meses. Mais rápido do que experiências anteriores que as empresas tiveram no mesmo terreno. a associação da Brahma com a Miller Brewing Company, na época a terceira maior cervejaria do mundo, ficou em análise naquele órgão de 1995 a maio de 1998. A Antartica com a AnheuserBusch, dona da marca Budweiser e primeira do ranking das cervejarias mundiais, demorou dois anos. Com a megafusão, o acordo da Antartica com a AnheuserBusch foi desfeito.

Algo semelhante ao que ocorreu quando a Colgate comprou a marca Kolynos, uma aquisição que lhe daria 75% do mercado de pastas de dente no Brasil. A Colgate ficou impedida de usar a marca Kolynos por quatro anos. Os executivos da AmBev já anunciaram a intenção de manter toda a linha de cervejas e refrigerantes que Brahma e antartica produzem. O teste do CADE será uma oportunidade de verificar que até ponto a visão sobre essa nova realidade da economia globalizada sensibiliza as autoridades e a sociedade. Em outros lugares. as fusões têm acontecido e Têm sido estimuladas. " Vamos testar a ue limites que em outros lugares já foram testados". diz Marcel Telles.

Enfim, a fusão das duas maiores cervejarias do país provocou alvoroço no mercado financeiro, nervosismo nos fabricantes de bebidas, receio entre os donos de supermercados, bares e restaurantes e alguma preocupação em Brasília, onde o governo promete estudar se o negócio representa ameaça à livre concorrência.


MEGAFUSÃO DE BRAHMA E ANTARTICA NO CAMPO COMERCIAL/LEGISLAÇÃO

Conforme o art. 223 da lei 6.404/76, a incorporação, fusão e cisão podem ser operadas entre sociedades de tipos iguais ou diferentes e deverão ser deliberadas na forma prevista para a alteração dos respectivos estatutos ou contratos sociais.

Os sócios ou acionistas das sociedades fundidas receberão, diretamente da companhia emissora, as ações que lhes couberam.

Se a incorporação, fusão ou cisão envolverem companhia aberta, as sociedades que a sucederam serão também abertas, devendo obter o respectivo registro e, se for o caso, promover admissão de negociação das novas ações no mercado secundário, no prazo máximo de 120 dias, contados da data da assembléia geral que aprovou a operação, observando as normas pertinentes baixadas pela Comissão de Valores Mobiliários.

O art. 225 fala da justificação onde as operações de fusão serão submetidas à deliberação da assembléia geral das companhias interessadas mediante justificação, na qual serão expostos:

I - os motivos ou fins da operação, e o interesse da companhia na sua realização;

II - as ações que os acionistas preferenciais receberão e as razões para a modificação dos seus direitos, se prevista;

III – a composição, após a operação, segundo espécies e classes das ações, do capital da companhias que deverão emitir ações em substituição às que se deverão extinguir;

IV – o valor de reembolso das ações a que terão direito os acionistas dissidentes.

De acordo com o art. 226 as operações de fusão somente poderão ser efetivadas nas condições aprovadas se os peritos nomeados determinarem que o valor do patrimônio ou patrimônios líquidos a serem vertidos para a formação de capital social é, ao menos, igual ao montante do capital a realizar.

Definição legal de fusão.

O art. 228 diz que fusão é a operação pela qual se unem duas ou mais sociedades para formar sociedade nova, que lhes sucederá em todos os direitos e obrigações.

1º A assembléia geral de cada companhia, se aprovar o protocolo de fusão, deverá nomear os peritos que avaliarão os patrimônios líquidos das demais sociedades.

2º Apresentados os laudos, os administradores convocarão os sócios ou acionistas da sociedade para uma assembléia geral, que deles tomará conhecimento e resolverá sobre constituição definitiva da nova sociedade, vedado aos sócios ou acionistas votar o laudo de avaliação do patrimônio líquido da sociedade de que fazem parte.

3º Constituída a nova companhia, incumbirá aos primeiros administradores promover o arquivamento e a publicação dos atos da fusão.


MEGAFUSÃO DE BRAHMA E ANTARTICA TAMBÉM NO CAMPO ECONÔMICO

Percebemos então, que, esta megafusão de Brahma e Antartica envolve sim o campo Comercial, mas também o campo Econômico.

A revista Veja entrevistou um eminente economista para esclarecer alguns pontos econômicos que podem ocorrer com fusão de grandes empresas, tais pontos como monopólios, globalização e outros.

O professor Paul Romer é guru econômico. Aos 42 anos, professor da Universidade de stanford, na Califórnia, romer é autor da Nova Teoria do Crescimento, trabalho refinado e brilhante que explicou, pela primeira vez, como funciona a economia que vai gerar riqueza do século XXI. Peter Druker, pai da reengenharia, declara que Romer é o certo candidato ao Prêmio Nobel. Paul Krugmam, o sempre citado economista americano, considera Romer "o mais influente teórico" da atualidade. a revista TIME o listou entre os 25 pensadores de maior prestígio do país.

Segue trechos desta entrevista:

Parece que no futuro imediato do capitalismo problemas tradicionais como os monopólios tendem a persistir - e até a se agravar. É verdade?

R. Sim. Esses problemas não vão ser automaticamente resolvidos e alguns podem até mesmo piorar. A posição relativa entre pobres e ricos podem aumentar, embora, em termos absolutos, todos saiam ganhando. Na nova economia, o padrão geral de vida da população mundial deve continuar melhorando dramaticamente.

Por Que os monopólios tendem a continuar?

R. Tendem, na verdade, a se acentuar. em compensação, na nova economia os monopólio são bem mais inofensivos do que na tradicional. na economia feita física existe uma tendência ao equilíbrio. Nenhuma companhia consegue manter-se monopolisticamente no mundo globalizado por muito tempo, exatamente porque conquistar mais mercados exige dispêndio de recursos. Ou seja, o produto que ela fabrica tende a ficar mais caro por causa dos custos de transporte de matéria-prima, estocagem e distribuição para pontos distantes. Na economia da informação, o monopólio pode ser conseguido e mantido mais facilmente. Uma empresa como a Microsoft está numa posição em que pode vir a obter o monopólio da oferta de sistemas operacionais para computadores pessoais. Teoricamente, pode ficar monopolista para sempre, pois dificilmente outra empresa lançará um produto similar que supere a Microsoft. esse é o lado pessimista. O lado otimista mostra que mesmo dentro do domínio monopolístico pode haver competição. Uma empresa pode lançar um produto que derrotará a Microsoft não por ser mais barato mas por ser diferente, mais novo, mais adequado. Foi exatamente isso que aconteceu quando a própria Microsoft e a Intel arrancaram da IBM o domínio quase total do mercado de computadores. O mesmo processo ocorre agora com empresas como a Nestcape e a Sun Microsystems, que tentando um chega pra lá na Microsoft, oferencendo produtos mais modernos e adequados ao ambiente de internet.

Que mudança radical está ocorrendo no capitalismo, além da globalização?

R. A nova economia é baseada no conhecimento, e não em matérias-primas. Uma economia baseada no conhecimento não tem limite de conhecimento. Ela produz riqueza refinando idéias e conceitos preexistentes. A economia Clássica é baseada na escassez e no aumento dos custos. a segunda tonelada de cobre ou de prata arrancada de uma mina é obrigatoriamente mais cara que a primeira e mais barata que a terceira exatamente porque os recursos minerais são finitos. Com o conhecimento passa-se o contrário. Ou seja, o saber é uma turbina na economia ao mesmo tempo que joga os preços para baixo.

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