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A Relação da Inflação e Desemprego

Autor:
Instituição: UNICEUB
Tema: Economia do Trabalho

A RELAÇÃO DA INFLAÇÃO E DESEMPREGO BASEADOS NA CURVA DE PHILLIPS


RESUMO

O objetivo deste artigo foi a análise da relação entre inflação e desemprego amparados na Curva de Phillips. Para tanto realizou uma revisão teórica sobre o tema. A partir disso demonstrou-se a especificação teórica do modelo da Curva de Phillips.


1. INTRODUÇÃO

Uma discussão muito relevante atualmente no país é aquela relacionada com os problemas da inflação e do desemprego. São assuntos complexos que envolvem uma série de possibilidades na busca por soluções, que podem levantar algumas questões, como por exemplo: uma redução dos índices de inflação pode trazer alguma interferência nos níveis de emprego? A resposta a esta questão se encontra em um artigo escrito pelo economista inglês chamado A. W. Phillips em 1958. Sua análise empírica das relações entre índices de inflação salarial e índices de desemprego no Reino Unido demonstrou que havia uma relação de Trade-off entre a inflação e o desemprego, e que estavam associadas às políticas contracionistas sobre a demanda agregada que eram implementadas para reduzir os níveis de inflação. Essa relação de causalidade da inflação para com o desemprego foi o que de novo se encontrou como resultado de sua pesquisa.

Este trabalho ficou amplamente conhecido como a "Curva de Phillips", que "rapidamente tornou-se uma pedra angular da análise política macroeconômica", Dornbusch e Fischer (1991). Com o avanço da ciência econômica e posteriores estudos, ficou demonstrado que a verificação empírica em períodos de maior linearidade nos índices de inflação (que também não mais se relacionava somente a inflação salarial e sim a inflação de preços) e das taxas de desemprego indicam que este modelo não se aplica em todos os momentos históricos. Uma das explicações foi descrita por Milton Friedman, o qual apontava para o fato de que o fator realmente determinante para os trabalhadores não era o salário nominal (da forma como foi utilizado por Phillips) e sim o salário real.

A realização deste trabalho se propõe a verificar, em nível introdutório, a adequação da Curva de Phillips para a realidade brasileira. O trabalho está organizado da seguinte forma: a) Revisão teórica; b) Aplicação da Curva de Phillips com as devidas análises e conclusões.


2. INFLAÇÃO

A inflação: é o processo de aumento generalizado dos preços dos bens e serviços transacionados na economia, resultado de uma continua perda do poder aquisitivo da moeda.

A inflação é causa de sérios distúrbios econômico-sociais que prejudicam certas classes de pessoas na medida em que beneficiam outras. O principal e mais doloroso efeito da inflação é o da redistribuição da renda das pessoas que recebem formas fixas de remuneração (trabalhadores assalariados, aposentados e pensionistas) cujos rendimentos são corroídos diariamente pela inflação por aqueles que recebem rendas variáveis ou ajustáveis às alterações dos preços (empresários, rendeiros, profissionais liberais e trabalhadores autônomos) que com isso acabam provocando ou realimentando a inflação.

Quando a inflação atinge altas taxas (caso das inflações no Brasil e em outros países latinos americanos) as remarcações de preços ocorrem com tal freqüência que as pessoas perdem a noção exata dos preços dos bens e serviços e, especialmente, dos preços relativos prevalecentes nos mercados.

A inflação normalmente pode resultar de fatores estruturais (inflação de custos), monetários (inflação de demanda) ou de uma combinação de fatores. Além de ser tradicional na teoria econômica, esta classificação de inflação, baseada no modelo de oferta e procura agregada é a mais adequada a analise da complexa inflação brasileira.

De acordo com o pensamento ortodoxo, a inflação é decorrente do processo de emissão monetária devido aos défices públicos, o que eleva a demanda e força a alta de preços. Sendo assim, para combater a inflação, deve-se estancar a emissão de moeda, o que só pode ser conseguido com a retração da demanda, quer no setor privado, através da elevação dos impostos, quer no setor público, através da queda dos gastos públicos. Assim, o combate inflacionário é conseguido através de uma política recessiva.

Para os Heterodoxos, a inflação não decorre de excesso de demanda provocada pela emissão monetária. A emissão monetária é vista muito mais como uma decorrência da inflação do que como causa. Assim, a inflação poderia ser combatida sem o apelo ao controle da demanda, isto é, não haveria necessidade de uma política recessiva. O congelamento de preços e salários é um tipo de medida (política de rendas) característico desta corrente.

Historicamente, dentro do Estado brasileiro coexistem as correntes denominadas desenvolvimentistas ou heterodoxas, preocupadas com o crescimento econômico a qualquer custo, e as correntes ortodoxas ou pragmáticas, preocupadas tão-somente com o equilíbrio dos chamados fundamentos macroeconômicos, que uma vez alcançado, abriria caminho para o crescimento econômico.

A condução da política inflacionária da Nova República elegeu o combate inflacionário como meta principal, desde 1985 até o momento, isto tem sido tentado de diversas formas, com uma série de planos que visavam a quedas abruptas da inflação intercaladas por períodos de controles ortodoxos. Trata-se de uma fase marcada por grandes oscilações nas taxas de inflação e de crescimento econômico e de completa deterioração das contas públicas.


3. DESEMPREGO

A definição oficial de desempregado para fins de estatísticas governamentais (IBGE) inclui os que foram dispensados por seus empregadores, os que foram demitidos ou saíram e estão em busca de outro trabalho e os que acabam de entrar ou reentrar na força de trabalho, mas ainda não encontraram um emprego; enfim, desempregado é todo aquele que não está empregado em troca de pagamento, possui mais de dezesseis anos, mas está buscando trabalho ativamente ou aguardando para serem chamados de volta depois de dispensados, os que estão fora destas características não se incluem nas estatísticas sobre desemprego.

O desemprego e a precarização das condições e das relações de trabalho observado ao longo dos anos 90 – principalmente na primeira gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-1998) – são um fenômeno de amplitude nacional, de enorme intensidade e que não encontra precedentes na história do Brasil.

As causas básicas da deterioração do mercado de trabalho não podem ser atribuídas aos trabalhadores brasileiros, como se insiste em enfatizar: inaptidão, má vontade, preguiça ou baixa empregabilidade, ou mesmo a fatores externos, tecnológicos ou sazonais.

Na década de 80, apesar da abertura política e dos avanços democráticos coroados pela promulgação da Constituição Cidadã, em 1988, iniciou-se um processo de estagnação econômica marcado pela crise do endividamento, elevada inflação, surgimento do desemprego e ampliação da informalidade no mercado de trabalho. Entretanto, isto ocorria em níveis ainda baixos, fato que se pode atribuir à existência de uma estrutura industrial e produtiva ainda preservada. As causas do desemprego e da precarização relacionavam-se com a retração das atividades produtivas.

Já nos anos 90 a situação agravou-se, pois, além do baixo desempenho produtivo, desmontaram-se as estruturas econômicas preexistentes, fato determinante para culminar-se, em meados do ano de 1999, com taxas que ultrapassaram os vinte por cento da população economicamente ativa.

Além da intensa elevação da taxa de desemprego, na década de 1990, observou-se também alterações importantes na estrutura e no tempo de desemprego. O desemprego cresceu relativamente mais entre os homens, na faixa etária acima de 40 anos, entre os cônjuges e para os de escolaridade mais elevada. Tais dados contrariam frontalmente a tese do governo que tenta atribuir o desemprego à desqualificação da nossa mão-de-obra.

A acentuada redução da capacidade de geração de empregos formais nos anos 90, sobretudo durante o período de 1995 a 1998, ocasionou um extenso processo de desestruturação do mercado de trabalho brasileiro. Após várias décadas de grande dinamismo econômico marcado pelo assalariamento, a economia nacional parou de gerar postos de trabalho. E isto não se restringiu à elevação da produtividade ou aos ingressos de novos trabalhadores no mercado, mas atingiu a massa de trabalhadores anteriormente empregada. Mesmo quando houve algum crescimento do PIB, no período apontado, a redução dos postos de trabalho ocorreu em todos os anos, atingindo especialmente a indústria de transformação e a construção civil. Cerca de 3,3 milhões de empregos formais foram dizimados nos anos 90, segundo dados do Ministério do Trabalho. A indústria de transformação reduziu seus empregos formais em 73% em relação ao ano de 1989. Na construção civil desapareceram cerca de 322 mil empregos e o comércio apresentou redução de 294 mil postos de trabalho formais. O setor financeiro reduziu sua mão-de-obra em 354 mil, apesar de ser aquele que mais faturou neste período de altas taxas de juros. Apenas o subsetor de serviços apresentou comportamento positivo: cerca de 160 mil empregos.

O desempenho econômico brasileiro na década de 1990 foi o pior do século, ficando na metade do ocorrido nos anos 80 (chamada "década perdida"). As promessas de distribuição de renda feitas na década de 70 foram frustradas no momento em que deveria ocorre a tão sonhada "divisão do bolo". A pobreza atinge níveis inéditos: 35% da população situa-se abaixo da linha de pobreza e cerca de 17 milhões de brasileiros vivem em condições de miséria absoluta. A violência assume níveis alarmantes.


4. VERIFICAÇÃO DA RELAÇÃO ENTRE INFLAÇÃO E DESEMPREGO BASEADO NA CURVA DE PHILLIPS
:

Entre as políticas de controle inflacionário, a mais clássica é aquela que faz um "choque sobre a demanda agregada". Tal medida prevê, entre outros mecanismos de retração da demanda agregada, o aumento dos juros e a elevação da carga tributária. Essas medidas têm impactos perversos sobre a geração de emprego e renda. Esta é uma condição de conflito, pelo menos do ponto de vista político, quando se colocam variáveis de grande repercussão social e se opta pela redução da inflação gerando para isso um aumento nas taxas de desemprego. Ou então a situação inversa, para aumentar o nível de emprego, políticas expansionistas, como a redução nas taxas de juros, podem acarretar uma elevação nos índices de inflação. Essa relação de causalidade foi demonstrada empiricamente pelo economista inglês A. W. Phillips, no artigo intitulado "The relation Between Unemploytment and the Rate of Change of Money Wages in the United Kingdom, 1861-1957", publicado no ano de 1958, Sachs e Larrain (1995).

O estudo de Phillips partiu da seguinte premissa: quando a demanda por bens sobe, isto tende a elevar os preços destes bens. O aumento na procura no mercado de trabalho irá aumentar a taxa de salários nominais? Usando do método de regressão da taxa de inflação salarial e a taxa de desemprego, chegou a seguinte equação: Silva (1998).

D w/w + a = bU

em que;

D w/w = variação salarial;

w = taxa nominal de salário;

U = taxa de desemprego;

b = indicativo do impacto da taxa de inflação em salário nominal sobre a taxa de desemprego;

a = parâmetro constante.

A curva de Phillips demonstra que a taxa de crescimento dos salários nominais (inflação de salário) tem uma relação inversamente proporcional quando relacionado com a taxa de desemprego. Embora não tivesse feito testes de significância e usado métodos estatísticos mais sofisticados, Phillips encontrou uma relação inversa e não-linear entre as variáveis. Richard Lipsey em 1960 repetiu o trabalho de Phillips utilizando para isso técnicas estatísticas mais sofisticadas com o intuito de eliminar as imperfeições econométricas encontradas no trabalho original, chegando ao mesmo resultado no tocante a relação inversa entre as variáveis, inclusive quanto a não-linearidade entre as variáveis. Isto, de certa forma, veio a ratificar uma constatação empírica, comprovando a validade do estudo. Conforme demonstração acima, pode-se verificar duas particularidades: a primeira é quanto a inclinação negativa da curva, e a segunda da sua não-linearidade.

D w/w = a [(d-s)/s]

em que:

d = oferta de trabalho,

s = demanda por trabalho,

a > 0 = parâmetro de ajustamento.

Como o excesso de demanda (d-s) se relaciona positivamente com D w/w. Isto é, um maior nível de emprego está associado a um maior nível e inflação, e a demanda por trabalho (s) se relaciona negativamente com D w/w, então se tem a inclinação negativa da Curva de Phillips. E em relação ao segundo aspecto, a não-linearidade pode ocorrer devido a rigidez dos salários, pois não respondem imediatamente às condições de mercado, ou seja, as pressões sindicais impedem uma redução mais acentuada.

Milton Friedman e Edmund Phelps, na década de 1960, apontaram um problema na curva de Phillips. Segundo estes autores, o determinante para as reivindicações políticas, tanto para os trabalhadores quanto para as entidades patronais, não é a taxa de variação do salário nominal, e sim a taxa de variação do salário real, isto é, o salário nominal menos a taxa de inflação esperada (p c), de forma que a equação ficaria da seguinte forma:

D w/w - p c = - h(u-u*)

onde:

u = taxa corrente de desemprego,

u* = taxa natural de desemprego,

h = indicativo da variação da taxa de inflação salarial em função da variação (u-u*),

p c = taxa de inflação esperada.

Essa mudança metodológica implicou que a curva de Phillips se deslocará para cima e para a direita, quanto maior for a expectativa de inflação. É a curva de Phillips expandida por expectativa. Essa modificação faz com que "somente a inflação não antecipada é capaz de reduzir o desemprego. Uma taxa de inflação elevada não mais significa necessariamente uma taxa de desemprego baixa, nem uma taxa de inflação baixa implica necessariamente uma taxa de desemprego elevada", Hillbrecht (1999). Com isso, alterações no longo prazo, a taxa de inflação é completamente antecipada e a curva de Phillips torna-se uma curva vertical, por que D w/w - p e = - h(u-u*) = 0, ou seja, u = u*. A representação gráfica se encontra na figura 2.

Apesar de a curva de Phillips descrever a relação entre inflação de salários e taxa de desemprego, esta terminologia passou a ser adotada também na relação entre inflação de preços, isto porque os aumentos salariais elevam o custo de produção e estes são repassados aos preços, refletindo à estes os possíveis reajustes salariais. Durante alguns anos essa teoria foi adotada, tanto nos Estados Unidos quanto na Grã-Bretanha, como medida de política econômica dos Governos no intuito de combinar o controle inflacionário e a manutenção de um certo nível de desemprego, Dornbusch e Fischer (1991). Podia-se permutar um período com inflação alta e desemprego em baixa e outro período de desemprego mais elevado com um baixo índice de inflação. Mas como dito anteriormente, este mecanismo de controle não conseguiu permanecer sendo utilizado por muito mais tempo, entretanto teve sua parcela de contribuição às políticas econômicas de muitos países.


5. CONCLUSÃO:

A finalidade deste artigo foi o de proporcionar uma revisão teórica sobre o assunto, bem como realizar um esboço investigativo da relação entre inflação e desemprego. Os resultados permitiram demonstrar a constatação de que a relação inversa encontrada corroborou com as expectativas quanto à especificação teórica do modelo da Curva de Phillips.

A constatação de que o enfrentamento da inflação por meio de políticas de retração da demanda agregada causa sérios problemas na estrutura de trabalho da sociedade é uma realidade. A conseqüência da redução da inflação, pelo menos até onde esta pesquisa pôde mostrar, foi acompanhada pelo aumento significativo do desemprego, daí a necessidade da adoção de medidas compensatórias visando minimizar este problema econômico e social. Portanto, para que se combata eficazmente a inflação, deve-se levar em consideração que se as medidas antiinflacionárias adotadas em grande parte das políticas governamentais não contemplarem, ou pelo menos minimizarem o aumento de desemprego, mesmo ocorrendo uma redução significativa da inflação, de pouca valia terá para o trabalhador desempregado, uma vez que as conseqüências da elevação do desemprego são nefastas para a sociedade como um todo.


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