África Austral

Autor:
Instituição: Universidade Estácio de Sá
Tema: África

ÁFRICA AUSTRAL



Geografia: A África Austral é uma das regiões mais importante do continente africano, entende-se como África Austral a região do continente situada ao sul do paralelo 12, em ascensão, não só pela sua posição estratégica concernente à localização geográfica, sendo banhada por dois oceanos: o Atlântico Sul e o Índico, mas sobretudo pelo fato dos países que a compõem se relacionarem num contexto histórico e político muito específico

História: Sua formação histórica passou por um fenômeno de miscegenação entre os seus povos oriundos(Khoi/San) e os Bantu, cujas tradições estão patentes nas diferentes culturas da população da África Austral. Na origem, o ouro e diamante, descobertos no século XIX na região do Transvaal, foram responsáveis pelo surto econômico precoce da África Austral em relação as outras regiões. A mineração foi o pólo dinamizador e organizador da economia regional. Nessa região a experiência colonial britânica e portuguesa tinham como objetivo comum a manutenção de uma dominação branca nessa região, apoiada pelo poder Europeu.

Nesse sentido os ingleses criaram a Federação da Rodésia e da Niassilândia, que abrangia os atuais Malawi, Zâmbia e Zimbabwe, a União Sul Africana( fundada em 1910), e o império português contava com Angola e Moçambique, tentativas do poder europeu para estabelecer identidades políticas e ecônomicas na África Austral. Embora essas tentativas fracassassem devido, por um lado, ao fato de serem altamente racista e contra os interesses dos povos africanos, por outro lado, elas determinavam as estruturas políticas, ecônomicas e sócio-culturais que integravam toda a região no sistema econômico-social internacional. Enquanto que em quase todos os países a independência chegou nos primeiros anos da década de 60, na África Austral persistiram os resquícios do colonialismo e, mesmo depois da independência de Angola e Moçambique (1975), a situação política continuou extremamente tensa.

A complexidade desta região de ocupação precoce, descolonização tardia e incompleta, explica-se pela singularidades que caracterizaram a colonização: a ocorrência de grandes reservas naturais, os projetos de exploração dessas riquezas, a consequente migração branca européia e a importância da região no contexto geopolítico da região do período da guerra fria. África Austral tinha como característica até meados dos anos 70 de ser uma zona de enfrentamento entre o mundo capitalista e o socialista, não apenas com a presença das multinacionais, mas sobre tudo, por um duplo poder colonial.

A dinâmica da colonização na África Austral foi reflexo do seu potencial econômico, as riquezas minerais contribuiu para caracterizar a região como reserva de matéria prima essencial ao ocidente, com a dupla função de alimentar a indústria ocidental e negar acesso a esses recursos às nações socialistas. O desenvolvimento economico e social da África Austral durante os anos de 70 e 80 foi afectada em larga medidas por políticas e instituições que foram copiadas dos antigos governos coloniais. Estas políticas destinavam-se essencialmente a facilitar a administração das colônias e territórios, especialmente na extracção e exportação de minerais e outros produtos primários para mercados ultramarinos. O desenvolvimento econômico no contexto dos territórios coloniais, não tinha sido concebido como um sistema de melhorar as condições de vida das massas. Consequentemente, com a independência, houve a necessidade de mudar para conseguir desenvolver uma política que respondesse à situação da contínua e massiva pobreza, degradação rural e a mordenização de setor informal. Nos anos 80, apesar da implementação dos heróicos programas de ajustamentos estrutural, a atuação econômica e social da maior parte dos Estados da África Austral foi mista.

Enquanto que alguns deles atuaram relativamente bem, tais como o Zimbabwe, as Maurícias e o Botsuana, o resto continua a enfrentar graves problemas sociais e economicos evidenciados nas baixas e por vezes decrescentes taxas de crescimento. Fatores externos desempenharam um papel decisivo na estrutura do desenvolvimento econômico da África Austral. A combinação entre o nacionalismo e Pan-Africanismo por um lado, e o colonialismo e o imperialismo por outro, produziu um cenário que era exclusivamente característico da sub-região. Isto conduziu evidentemente ao jogo político das grandes potências manifesta em:

a) a desestabilização da sub-região pela África do Sul e o apoio de algumas grandes potências e elementos dissidentes na sub-região;
b) o surgimento de políticas das grandes potências no desenvolvimento da região;
c) o papel da companhias transnacionais na África Austral, algumas vezes agindo como procuradores do neo-colonialismo.

Os ideais de independência nacional baseada no nacionalismo africano e nos objetivos comuns de Liberdade e Unidade Africanas reforçaram o espírito da simbiose política e cultural, cuja a expressão mais marcante foi o surgimento do agrupamento político, denominado Países da Linha de Frente (PFL), em 1979, que contribuiu de forma decisiva para libertação dos países sob o jugo colonial da região. A região da África Austral constitui o maior acervo do continente em minerais estratégicos ou altamente valiosos, para além de oferecer uma variedade de clima, condições geológicas diferentes e potencial considerável hidroelétrico e agrícola.

A África do Sul: é o coração dessa África Austral, e de suma importância estratégica para o mundo ocidental, concentra em si um volume incomparavelmente maior de investimento de capital estrangeiro, não só na região, mas em toda África. Possui uma posição estratégica no controle dos dois oceanos e ainda é um dos maiores produtores de minérios do mundo, ela é a chave para o mundo ocidental e foi de extrema importância para a contenção do comunismo na região.

A África Austral depende do pólo mais desenvolvido do capitalismo neste continente, a África do Sul. A África Austral á altamente dependente a nível das suas infra-estruturas em transporte e comunicação, produtos manufaturados, bens e serviços, sistema financeiro, assistência técnica entre outros, da África do Sul, sendo também fornecedora de mão-de-obra barata, matérias-primas e recursos hidroelétricos.

Toda a economia regional se desenvolveu praticamente associada à dinâmica da economia sul-africana em função de seu tamanho, de sua importância e de suas necessidades de suprimento energético, mão-de-obra, transporte e segurança. O fato da África do Sul apresentar recursos econômicos e capacidade militar consideráveis, levou os povos da região a unirem-se no tocante a definição e desenvolvimento da Africa Austral. A economia regional se desenvolveu praticamente associada à dinâmica da economia sul-africana em função de seu tamanho, de sua importância e de suas necessidades de suprimento energético, mão-de-obra, transporte e segurança. Toma-se a interdependência como uma relação onde os dois lados apresentam entre si, concomitantemente, interesses e fragilidades.

A assimetria das relações entre a África do Sul e seus vizinhos dão uma características própria a esta interdependência que, neste caso pode-se definir como interdependência assimétrica. Todos esses fatores contribuíram para criação de uma personalidade e identidade distinta da África Austral que definiu, numa primeira instância, a solidariedade política e mais tarde a cooperação economica. Mas essas relações passaram por fases de amadurecimento, durante a crescente pressão da Comunidade Internacional contra o apartheid, os países da África Austral tentaram isolar a África do Sul, formando uma linha de frente para impedir a expansão de sua influência, além de lutar contra e a favor de diversas causas, lutavam principalmente contra o domínio branco sul-africano que impedia a cooperação entre os povos.

Rumo a integração: Em 1979, a linha de frente decidiu pela criação de um organismo regional visando a cooperação econômica, o combate à dependência em relação à África do Sul e a outros países, a promoção do desenvolvimento integrado dos países membros, a coordenação de projetos e a promoção da cooperação internacional. Desta forma, foi fundada, em Lusaka, a Conferência da Coordenação para o Desenvolvimento da África Austral (SADCC), em abril de 1980. Neste contexto, os chefes de Estado e de governo de nove estados da África (Angola, Botswana, Lesoto, Malawi, Moçambique, Suazilândia, Tanzânia, Zâmbia e Zimbabwe) adotaram a chamada Declaração de Lusaka intitulada: África Austral rumo à Libertação Econômica. Posteriormente aderiram a Organização, a Namíbia (1990), a África do Sul (1994) e às ilhas Mauricias em 1995, respectivamente.

Um dos objetivos principais da constituição da SADCC e de seu primeiro modelo foi o da redução da dependência econômica, particurlamente, em relação à África do Sul. Porém, devido à vários condicionalismos e constrangimentos, este objetivo, esteve longe de ser alcançado, pois quase todos os países tornaram-se também dependentes da África do Sul, como fonte de produtos de consumo manufaturados, incluindo alimentação, maquinaria industrial, bens e equipamentos. As empresas sul-africanas dominam de um modo geral, o sistema de comércio na região. O único país que não depende realmente da África do sul é angola, quer pela sua localização geográfica, quer pelo sistema de comércio internacional, transportes, comunicações e infra-estruturas. Outro aspecto que reflete a dependência e a grande vunerabilidade para os Estados membros reside na área de emprego. Todos os anos, mais de 500.000 cidadãos da região encontram emprego na África do Sul, este nível de dependência deu origem a uma chantagem política por parte do Estado do apartheid.

Portanto, a África do Sul utilizou as suas vantagens econômicas ou pressões militares para tentar impor o seu desejo na região, pois sua estratégia visava a mobilização da sociedade sul-africana para apoiar o governo e preservar o apartheid.

O segundo modelo de integração Econômica a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral - a SADC que é uma continuação dos esforços da SADCC, que durou até 1992 e que teve como objetivo principal criar laços para a formação de uma integração regional equitativa. A SADCC se constituiu na organização de maior sucesso do continente. Tal sucesso se deve a eficiência da SADCC em:

a) captar recursos financeiros da comunidade internacional, a títulos de donativos e créditos bonificados e a longo prazo;
b) recuperar a infra-estrutura ferroviária e portuária e;
c) coordenar uma política de programas e projetos com vistas a resolução de problemas regionais.

Do ponto de vista político, a SADCC foi uma forma de convencer o Ocidente a respeito das suas intenções, vencendo as dificuldades ideológicas. A nova SADC possui treze anos de experiência de cooperação regional na qual se constituirá, a Comunidade. Durante o referido tempo, registraram-se sucessos e fracassos, tendo-se adquirido experiência bastante importantes. A consolidação da solidariedade e identidades regionais, bem como a implementação exitosa de grandes projetos em energia, alimentação e segurança alimentar, transportes e comunicações podem ser apontados como resultados significativos. Porém, a maior dificuldade da Organização residiu na incapacidade de mobilizar recursos próprios da região para o desenvolvimento dos seus programas.

Todos os países estão buscando agora com o fim do apartheid uma interdepedência equilibrada junto a África do Sul, agora já com uma estrutura institucionalizada para lidar com esse problema, a SADC.

Os atuais problemas da região são reflexo deste clima de tensão, hostilidade e desestabilização que se concretizam os esforços dos países da região por fazer a sua identidade, a sua independência e soberania. Estes esforços assumem uma dimensão política, econômica e cultural. No setor político se circunscrevem as ações desenvolvidas com vista a consolidar a unidade e coordenação políticas entre os países da região. Essas ações ajudaram a concretizar o fim do apartheid e a erradicação deste sistema, a abolição do apartheid e o estabelecimento de um Estado democrático na África Austral constituiu como a condição necessária para que a região pudesse sair definitivamente do ciclo de violência e de guerra, para formar um ambiente de paz, que não significa um ambiente isento de problemas, agora o objetivo desses esforços são de conseguir harmonizar e coordenar os movimento de lutas armadas constantes em vários países da região.

No plano econômico, os esforços da região são de cooperação, integração regional, assentes na interdependência, equidade e igualdade com a criação da SADCC. É também no âmbito da SADCC que ganham forma e substancia os passos tendentes a desenvolver o intercâmbio cultural e de informação entre os países da África Austral, com objetivo de forjar uma maior coesão e unidade dos povos da região.

Conclusão: A África Austral proporciona agora uma instável janela de oportunidades para se demonstrar que pode conseguir-se, em África, um desenvolvimento econômico sustentável. Cabe a África Austral apagar a sombra deste passado doloroso e fazer do futuro um continente muito mais igual e melhor para todos, melhorando as condições de vida das populações, acabando com as doenças que aniquilam os mais fracos, acabando com o analfabetismo e fazendo da educação seu lema para entrar no século XXI como uma região tão forte como qualquer outra baseada num povo solidário e integrado.

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