O Multiplicador Econômico da Renda Turística dos Meios de Hospedagem do Município de Canavieiras - BA

Autor:
Instituição: UESC
Tema: Multiplicador Econômico do Turismo

O MULTIPLICADOR ECONÔMICO DA RENDA TURÍSTICA DOS MEIOS DE HOSPEDAGEM DO MUNICÍPIO DE CANAVIEIRAS-BA


1 INTRODUÇÃO

O turismo, desde a década de 50, tem crescido como uma forte atividade econômica, despertando a atenção de profissionais de diversas áreas de atuação, pelo fato de atrair pessoas de diferentes classes sociais. O Brasil está se tornando, ainda de forma tímida, porém lúdico, um mercado turístico competitivo e bastante atrativo.

O setor de meios de hospedagem caracteriza-se como o mais expressivo dentro da economia turística; logo, é fácil perceber o efeito multiplicador de renda gerado pelo setor hospedeiro. O Estado da Bahia, a partir de 1990, intensifica as estratégias para o desenvolvimento do turismo, com ênfase nos investimentos privados à implantação e expansão da rede hoteleira, com destaque para os hotéis de grande porte do tipo resort.

A Bahia possui localização geográfica estratégica, além de contar com uma vantagem natural: o clima. A diferenciação entre as estações é mínima, o clima apresenta-se ameno no decorrer do ano. Assim, apresenta todas as características propícias e necessárias ao turismo – sol, mar, cultura, tradição, igrejas, monumentos, culinárias, povo hospitaleiro, entre outros atrativos. É neste Estado, mais especificamente no litoral sul, que está inserido o município de Canavieiras, cidade alvo do trabalho proposto.

A colonização do território que hoje corresponde ao município de Canavieiras data da primeira década do ano de 1700, quando ainda estava integrado à capitania de São Jorge dos Ilhéus. Em 1718, seu pequeno povoado tornou-se "Freguesia de São Boaventura do Poxim"; dado seu crescente desenvolvimento, no reinado de D. João VI, a 13 de Dezembro do mesmo ano elevou-se à categoria de "Imperial Vila de Canavieiras". Com o fim da monarquia, a vila passou a cidade, em 25 de Maio de 1881. (site: http://www.costadocacau.com.br).

Nos primeiros dez anos após adquirir o Foro de cidade, Canavieiras apresentou extremo desenvolvimento, chegando a ser uma das mais importantes do Sul da Bahia, ficando conhecida como "Princesa do Sul". Na época colonial, a economia local era movimentada pelo cultivo da cana-de-açúcar. Hoje, o potencial econômico do município deve-se ao seu forte potencial turístico, e de forma menos expressiva, o cultivo do cacau, do dendê e a pesca. (site: http://www.costadocacau.com.br).

Embora tenha tido maior evidência após servir de palco para as gravações da novela da Rede Globo de Televisão "Porto dos Milagres" (livre adaptação do romance "Mar Morto", do ilustre escritor baiano, Jorge Amado), Canavieiras não é freqüentada pelo turismo de massa, tornando-se boa opção aos que buscam maior contato com a natureza. Neste contexto é notório a importância dos veículos de comunicação para o desenvolvimento da atividade turística, é através destes que o turista toma conhecimento das motivações de uma dada destinação dinamizando o turismo da mesma.

Entende-se o Turismo como um serviço que envolve o planejamento, a promoção e a execução de viagens, além da existência de infra-estrutura adequada para recepção, hospedagem, consumo e atendimento às pessoas procedentes de suas localidades residenciais. (IGNARRA, 1999).

Atualmente, reconhece-se a significativa importância do turismo, seja no âmbito econômico, seja no social, visto que, nas últimas décadas, observou-se relevante expansão do setor de serviços nos países mais industrializados. Ao se estudar a atividade turística, dois conceitos devem estar explicitados: turismo e turista. No entanto a definição de tais termos é

um aspecto que gera discussão e controvérsia entre os estudiosos do assunto, resultando numa certa dificuldade em defini-los com precisão.

Etimologicamente, a palavra tour deriva do latim tomare e do grego tomos, significando "uma volta ou um círculo; o movimento ao redor de um ponto central ou eixo". Esse significado mudou no inglês moderno, passando a indicar o "movimento em círculo de uma pessoa". O sufixo ismo é definido como "ação ou processo; comportamento ou qualidade típicos", enquanto o sufixo ista sugere a ação de um movimento em círculo. Pode-se argumentar que um círculo representa uma linha que partindo de um ponto retorna ao ponto inicial. Portanto, assim como um círculo, um tour representa uma viagem circular, ou seja, o ato de partir para posteriormente regressar ao ponto inicial, e quem empreende essa jornada pode ser definido como turista. (THEOBALD, 2002, p.31).

[...] do ponto de vista econômico, consideremos que o turismo abrange todas as deslocações de pessoas, quaisquer que sejam as suas motivações, que obriguem ao pagamento de prestações e serviços durante a sua deslocação e permanência temporária fora da sua residência habitual superior ao rendimento que, eventualmente, aufiram nos locais visitados. (CUNHA, 1997, p.8).

Considera-se turista, toda pessoa que se desloca a um lugar diferente do seu local habitual por uma duração inferior a doze meses, e que não seja objetivo principal da viagem exercer atividade remunerada no local visitado. (Site da Organização Mundial do Turismo – OMT).

Identifica-se o comércio como fator histórico responsável pela oferta hoteleira. As rotas comerciais exigiam a atividade hoteleira, uma vez que os viajantes necessitavam de locais para se hospedar. Nessa época, as hospedagens davam-se em mosteiros e abadias. Com a chegada das monarquias nacionais, o próprio Estado oferecia hospedagem nos palácios, ou nas instalações militares e administrativas. No entanto, nem todos os viajantes podiam contar com a oferta estatal e instalavam-se em precários albergues e estalagens.

A atividade hoteleira só passou a ser considerada econômica, explorada comercialmente, com a Revolução Industrial e a expansão do capitalismo, à medida que ocorreram transformações nos meios de transportes, trocando-se a carruagem pela locomotiva, facilitando as viagens, tornando-as mais tranqüilas, confortáveis e seguras. Diante de tais modificações, e devido à melhoria econômica das sociedades, as viagens passaram a ser uma prática comum. Logo, o sistema capitalista fez uso dessas oportunidades para tornar a atividade turística uma das maiores indústrias, quanto à geração de emprego e renda do mundo atual.

A hotelaria foi se aprimorando com o passar do tempo. Nas hospedarias primitivas não existiam o conforto e a privacidade encontrada nos meios de hospedagens atuais. Algumas dessas melhorias são devidas às leis de regulamentação de preços, qualidade dos serviços, na higiene e na alimentação. Outro importante fator de melhoria é a concorrência - os empresários buscam na diferenciação, a saída para atrair clientes.

A importância dos meios de hospedagem advém da necessidade que o turista tem de uma acomodação de qualidade, para que possa recarregar suas energias antes de continuar explorando o local visitado. Desta forma, os meios de hospedagem representam o alicerce de viagens turísticas, por qualquer que seja sua motivação.

1.1 Importância do problema

Os meios de hospedagem têm grande importância no desenvolvimento do turismo. A qualidade e a abrangência da hospedagem disponível refletirá no perfil dos turistas. Assim, segundo Castelli (2001, p.37):

A "indústria" hoteleira não pode mais ser considerada como uma atividade marginal, mas como um elemento de grande significado dentro de uma estratégia e de uma política do desenvolvimento turístico de uma região ou país. Efetivamente não existe, hoje em dia, desenvolvimento turístico, comercial ou industrial sem uma hotelaria forte, tanto em seus aspectos de confortabilidade como naqueles referentes à qualidade dos serviços, através de mão-de-obra especializada.

Neste contexto, o setor de hospedagem deve agir ora como uma extensão da residência do indivíduo, ora como o seu escritório ou ramificação de sua empresa, ora como um local de sonhos e fantasias.

O efeito multiplicador, é o efeito provocado pelo gasto dos turistas, em bens e serviços consumidos na localidade visitada, aumentando a geração de novos empregos e da renda. Ele pode ser avaliado pelo grau, por meio do qual o dinheiro gasto pelos turistas, permaneça na região, para ser reciclado por meio da economia local.

Em relação ao multiplicador econômico, Lage e Milone ressalta:

"É notório o efeito multiplicador de renda e emprego do setor hoteleiro". (LAGE E MILONE, 1991, p.208)

A proposta desta pesquisa está voltada à análise do impacto econômico dos meios de hospedagem na indústria turística de Canavieiras, quanto à geração de renda. Nesse sentido, a determinação do multiplicador de renda faz-se importante para o racional planejamento da atividade turística, permitindo a quantificação do impacto dos gastos turísticos com hospedagem na renda do município, uma vez que este tem a indústria turística como alternativa de desenvolvimento econômico local.

1.2 Objetivos

1.2.1 Objetivo geral

Estimar e analisar o multiplicador econômico da renda turística com base nos meios de hospedagem do município de Canavieiras – BA.

1.2.2 Objetivos específicos

  • Observar a magnitude da renda turística, baseada no faturamento médio mensal dos meios de hospedagem.
  • Avaliar o volume dos gastos realizados em Canavieiras, pelos estabelecimentos de hospedagem.
  • Verificar o volume das importações feitas pelos estabelecimentos de hospedagem, para manter seu funcionamento.
  • Observar o quanto da renda dos meios de hospedagem é destinada ao pagamento de tributos e taxas.
  • Identificar os produtos adquiridos em outras cidades, representando vazamento de renda.
  • Identificar os determinantes para importação de bens e / ou serviços.


2 REVISÃO DE LITERATURA

No período feudal, quase 100% dos empregos eram gerados pela agricultura. O setor terciário (serviços) começou a se expandir com o advento da revolução industrial e hoje está maior que os demais setores. O impulso dos serviços deve-se à modernização, seja dos transportes, seja da informação. Na verdade, pode-se dizer que a velocidade destes funcionou como mola propulsora do desenvolvimento da economia.

O turismo é alvo de diversos estudiosos, em especial, dos economistas, dada a exeqüibilidade destes estudos. Como todo serviço, o turismo apresenta algumas características: intangibilidade ou imaterialidade (os serviços não são atividades, são processos), inseparabilidade (maior interação, fornecedor – cliente), variabilidade (são heterogêneos, um serviço não é igual ao outro), efemeridade (não podem ser estocados, existem no momento) e, é altamente dependente de recursos humanos. A diferença entre o turismo e um bem tangível qualquer está no fato do cliente (turista) ir de encontro ao produto e não o contrário, como ocorre como a maioria dos bens. (TEBOUL, 2002).

A importância do setor de serviços esta no fato do mesmo mover as modernas economias. Os serviços são os principais responsáveis na criação de novos empregos, qualificados ou não, em todo o mundo. Este setor chega a corresponder a mais da metade da economia na maioria dos países em desenvolvimento e mais de 70% em muitas economias altamente desenvolvidas. (LOVELOCK, WRIGHT, 2004).

Assim como em todo mercado os clientes (turistas) buscam maximizar suas satisfações e as empresas seus lucros. Os centros receptivos também desejam a maximização dos seus benefícios.

De acordo com Ignarra (1999, p.107), os impactos econômicos mais benéficos a uma localidade turística são: "aumento das receitas; aumento do recebimento de divisas; geração de empregos; estímulo aos investimentos; redistribuição da renda; e, geração de impostos.

Segundo Lage e Milone (1991, p.91), em qualquer parte onde houver uma atividade turística a mesma acarretará uma variedade de impactos econômicos, classificados como:

  • Impactos Diretosé o valor das despesas com turismo menos o valor gasto com as importações necessárias para manter estes serviços.
  • Impactos Indiretos os serviços prestados pelos hotéis, por exemplo, requer a aquisição de bens em outras localidades. Logo, esses novos gastos são definidos como impactos indiretos da atividade turística.
  • Impactos Induzidosà medida que os níveis de renda aumentam em toda a economia, resultantes dos impactos diretos e indiretos, parte dessa renda adicional será gasta em bens e serviços produzidos internamente.
  • Impactos Positivos - aumento da renda local, estimulação de investimentos e geração de empregos, turismo como meio de redistribuição de riquezas.
  • Impactos Negativos - pressão inflacionária; grande dependência em relação ao turismo; custos sociais e ambientais; prioridades de investimentos.

O surgimento dos meios de hospedagem se deu no momento em que o homem começou a empreender longas viagens e necessitava de um lugar para se proteger, descansar. A princípio surgiram os albergues (eram acomodações rústicas); no decorrer do tempo vieram as hospedarias (mais confortáveis que os albergues).

A designação hotel é moderna; do latim hospitale, surgiu no francês o termo hotel, significando um estabelecimento onde se aluga quartos mobiliados, com ou sem refeições.

A hospedagem constitui-se num componente fundamental ao desenvolvimento do turismo dentro de qualquer destinação que tem como objetivo atender aos visitantes, como também os viajantes de um dia. A qualidade e a abrangência da hospedagem disponível reflete e influencia o tipo de visitantes de um local. A hospedagem também desempenha papel relevante na contribuição econômica geral que o turismo dá em níveis nacional e local. É difícil generalizar a respeito da proporção das despesas turísticas gerais que são alocadas para a hospedagem porque ela varia muito de acordo com o mercado, o tipo de hospedagem e a natureza do produto adquirido. (COOPER, 2001).

A qualidade dos serviços oferecidos é sem dúvida a base de uma rede hoteleira. Segundo Sam Walton (fundador da Wal-Mart, maior cadeia varejista do mundo), "clientes podem demitir todos de uma empresa, do alto executivo para baixo, simplesmente gastando seu dinheiro em outro lugar". Logo, o padrão de qualidade dos serviços oferecidos pelos estabelecimentos de hospedagem assim como em qualquer outro setor do ramo de serviços, deve estar de acordo com a concorrência, ou superior, promovendo a máxima satisfação do cliente. (CASTELLI,2001).

Castelli (2001), declara que a empresa hoteleira "ocupa pessoas para cobrir praticamente todas as atividades de todos os setores. Em virtude disso, qualquer escassez de mão – de- obra tem reflexos imediatos sobre si".

Já Cooper (2001), diz que, "Os hotéis são sem dúvida, o subsetor mais significativo e visível dentro da hospedagem ou da acomodação. (...) são o subsetor que fornece o maior emprego total".

A atividade turística tem como função estratégica, a geração de divisas, o que se torna fundamental nos países em processo de desenvolvimento ou também pode ser considerado um fator diversificador da atividade econômica local. Sabendo-se que cada tipo de serviço turístico possui características próprias, as quais são importantes na avaliação da sua oferta, o desenvolvimento do setor hoteleiro é proporcionado por seus aspectos individuais; tornando-se mais competitivos através de sua estrutura, das instalações e serviços complementares (salão de festas, áreas de eventos, entre outros) oferecidos, além da infra-estrutura básica de acomodação.

Pela ótica da economia, o turismo é uma atividade que envolve uma série de serviços e, assim, gera empregos diversos, sejam diretos ou indiretos. De acordo com Lage e Milone (2000), um dos impactos econômicos de maior importância, gerado pela atividade turística, é o efeito multiplicador (K) – refere-se ao impacto causado pelos gastos do turista no consumo dos variados serviços turísticos. Por exemplo, parte do que os turistas gastam em hotéis, é destinado entre outros gastos, para os salários dos empregados, que por sua vez pagam aluguéis, transporte, educação, compras; normalmente, esse valor agregado é bem maior que a soma inicialmente gasta pelos turistas – o efeito direto gera o indireto que leva ao induzido, caracterizando o efeito multiplicador que tem a atividade turística.

Os gastos turísticos geram uma variedade de impactos no sistema econômico de forma interativa e dinâmica de modo que, ao fim do processo, o gasto inicial gera um "efeito multiplicador" sobre o conjunto do sistema econômico. Assim, o problema desta pesquisa está fundamentado na teoria macroeconômica de Keynes acerca do seu multiplicador do investimento. KEYNES (2002, p.133) diz que "o emprego só pode aumentar pari passu com o investimento, a não ser que haja uma mudança na propensão a consumir"; segundo ele, o multiplicador expressa a proporção a ser aumentado o emprego para provocar acréscimo na renda real.

Os efeitos do turismo na produção / renda, diretos ou indiretos, são geralmente avaliados pelos multiplicadores de renda do turismo; sendo que, o conceito desse multiplicador baseia-se no modelo do multiplicador de investimento da Teoria Geral de Keynes. O multiplicador keynesiano da renda (M) é expresso pela seguinte fórmula:

(1)

Onde:

M = Multiplicador da renda

PMgC = propensão marginal a consumir

Rabahy (2003, p.65) apresenta as adaptações desse multiplicador para o turismo. A propensão marginal a consumir (PMgC) é substituída pelas variáveis relacionadas à atividade turística (b, m, r), resultando em uma expressão do seguinte tipo:

(2)

Onde,

(3)

Sendo:

Y = renda turística

b = propensão marginal a consumir

m = propensão a importar

r = propensão a arrecadar do governo

K = multiplicador da renda turística

T = Gasto dos hóspedes

O Quadro 1 representa o processo multiplicador, ou seja, demonstra todo o processo das despesas turísticas. Tem-se que as despesas turísticas vão, inicialmente, para os estabelecimentos turísticos que oferecem as mercadorias e os serviços aos turistas. Este dinheiro será gasto novamente pelas empresas que o recebem. Parte desse dinheiro será gasto com as importações (esse dinheiro não volta ao fluxo) e a quantidade restante será utilizado na aquisição de bens e serviços oferecidos internamente e para pagar impostos, licenças e taxas. O dinheiro flui de estabelecimentos turísticos para outras empresas locais, refletindo o efeito multiplicador gerado pela atividade turística.

Quadro 1 – O processo multiplicador

Fonte: COOPER, 1997, p.167


3 METODOLOGIA

3.1 Área de estudo

A área avaliada na pesquisa realizada foi a cidade de Canavieiras, município localizado ao sul do Estado da Bahia, e distante 104 Km da cidade de Ilhéus. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (2000), o município possui uma população de 35.322 habitantes; densidade demográfica de 23,91 hab/Km; área total de 1.375,63 Km2. A cidade possui 1 hospital (65 leitos); 5 unidades ambulatoriais; 3 agências bancárias; e 1.326 pessoas ocupadas.

O trabalho desenvolvido esteve voltado à renda gasta nos meios de hospedagem no município de Canavieiras.

3.2 População

Para efeito de produção desta pesquisa, foram considerados os estabelecimentos cadastrados nos órgãos relacionados aos estudos da atividade turística, como o Instituto Brasileiro de Turismo - EMBRATUR, e a Empresa Bahiana de Turismo - BAHIATURSA. De acordo com o mais recente sistema de classificação do EMBRATUR, os meios de hospedagem são classificados de acordo com o Quadro 2.

QUADRO 2 – OS MEIOS DE HOSPEDAGEM DE TURISMO E AS CARACTERÍSTICAS QUE OS DISTIGUEM

Tipo

Localização

Natureza da edificação

Clientela preferencial

Infra-estrutura

Hotel – H

Preferencialmente urbana.

Normalmente em edificação com vários pavimentos (partido arquitetônico vertical)

Mista, com executivos e turistas, predominando ora uns, ora outros.

Hospedagem e, dependendo da categoria, alguma infra-estrutura para lazer e negócios.

Hotel histórico – HH

Em prédios, locais ou cidades históricas (no meio urbano e rural).

Prédio tombado pelo IPHAN ou de significado histórico ou valor regional reconhecido.

Mista, com executivos e turistas, com predominância variável de uns, e outros.

Normalmente restrita à hospedagem.

Hotel de lazer – HL

Áreas rurais ou local turístico fora do centro urbano

Normalmente partido arquitetônico horizontal.

Turistas em viagens de recreação e lazer.

Áreas, instalações, equipamentos e serviços próprios para lazer e hóspede.

Pousada – P

Locais turísticos normalmente fora do centro urbano.

Predominantemente, partido arquitetônico horizontal.

Turistas em viagens de recreação e lazer.

Restrita à hospedagem.

Fonte: ANDRADE,N; BRITO, P.L. de; JORGE, W.E. Hotel: Planejamento e projeto. 3ed. São Paulo: SENAC, 2001. p. 45.

3.2.1 Tamanho da amostra e coleta de dados

A amostra para população finita com proporção teve sua dimensão determinada a partir de cálculo estatístico, de acordo com a fórmula:

(4)

Onde:

n = tamanho da amostra

N = tamanho da população

= proporção da população

= 1 -

Z = Nível de confiança estabelecido (desvio padrão da curva normal)

=margem de erro aceita pelo pesquisador

Foi verificado a existência de 22 (N) meios de hospedagem em funcionamento no município de Canavieiras. A proporção da população considerada foi de 50%, e margem de erro permitida de 10%.

Assim, o cálculo da amostra é:

(5)

Dada a exequibilidade, foram coletados dados de 19 estabelecimentos, dois a mais que o definido pelo tamanho amostral, de forma a aumentar a consistência da pesquisa.

As informações necessárias ao desenvolvimento da pesquisa compreenderam dados primários, coletados através da aplicação de questionários (Anexo 1), junto aos gestores dos estabelecimentos de hospedagem selecionados para amostra.; e secundários, baseando-se em dados já definidos pelos órgãos reguladores da atividade turística.

3.3 Variáveis

3.3.1 Renda turística (Y)

É resultante da soma dos gastos do turista. Segundo Beni (1998, p.65), a análise da renda turística se dá pela seguinte decomposição:

1 – Valor acumulado ou renda das atividades ou dos ramos produtivos que são plenamente de Turismo (hotelaria, equipamentos complementares de alimentação, agências de viagens e operadoras de turismo e outros.

2 – Valor acumulado ou renda das atividades ou dos ramos produtivos que prestam parcialmente, e não de maneira permanente, serviços turísticos (empresas de transportes, bancos, estabelecimentos comerciais, de espetáculos e outros).

3 – Valor acumulado ou renda de setores industriais, agrícolas ou de serviços, com repercussão direta ou indireta pela ação de crescimento do Turismo (construção, alimentação, comunicações, obras de infra-estrutura, indústria em geral e outros).

Utilizou-se como renda turística o gasto total dos hóspedes nos hotéis durante sua permanência. Com base no multiplicador encontrado, a renda turística é necessária para mensurar o seu impacto total.

3.3.2 Propensão marginal a consumir (b)

A propensão marginal a consumir nesta pesquisa refere-se a quanto da renda hoteleira é destinada à compra de bens e serviços em Canavieiras necessários à operacionalização do empreendimento.

Esta variável exerce forte influência na determinação do multiplicador; quanto maior for a propensão marginal a consumir, maior será o valor do multiplicador estimado. Mas, para aumentar a renda, a propensão marginal a consumir aumenta menos que proporcionalmente.

3.3.3 Propensão a importar (m)  

Esta variável serve para medir o quanto, em média, o responsável por uma hospedaria, gasta, recorrendo a mercados externos para suprir algumas necessidades que contribuem para a eficácia do mercado de turismo, uma vez que o mercado local não consegue oferecer todos os bens necessários ao funcionamento do estabelecimento. Está inversamente proporcional à magnitude do multiplicador estimado, ou seja, quanto maior for a propensão a importar, menor será o multiplicador encontrado.

3.3.4 Propensão a arrecadar do governo (r)

Destina a saber o quanto o estabelecimento paga em tributos. Esta variável relaciona-se de forma indireta ao valor mensurado do multiplicador, isto é, quanto maior for a propensão a arrecadar do governo, menor será o multiplicador estimado.

3.3.5 Gasto dos turistas (T) 

São os gastos realizados pelos turistas, nos estabelecimentos de hospedagem.

3.4 Método

O estudo estatístico engloba diversas etapas que devem ser desenvolvidas para se atingir o resultado esperado. Tais etapas são definidas como fases do trabalho estatístico, as quais, de âmbito da Estatística Descritiva, consistem na coleta, apuração, apresentação e interpretação dos dados. (Toledo & Ovalle, 1985).

Os dados coletados foram avaliados através da Estatística Descritiva, de forma que se pudesse interpretá-los com mais exatidão. Toledo & Ovalle (1985, p.15) define que:

A estatística descritiva é um número que sozinho descreve uma característica de um conjunto de dados. Trata-se, portanto, de um número resumo que possibilita reduzir os dados a proporções mais facilmente interpretáveis.

As variáveis necessárias ao cálculo do multiplicador foram obtidas através de médias ponderadas, a qual atribui importância relativa de cada quantidade.

(6) Onde:

- soma dos produtos de cada x pelo peso correspondente.

- soma dos pesos

Dadas as diferentes rendas faz-se necessário a atribuição de pesos (importância relativa), possibilitando o cálculo da média ponderada.


4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

De acordo com a pesquisa realizada, verificou-se a existência 22 estabelecimentos de hospedagem em funcionamento, dos quais 19 foram avaliados. (TABELA 1A).

A pesquisa mostrou que os meios de hospedagens pesquisados têm uma renda média mensal de R$ 150.989,47. Deste total, 58% (R$ 85.573,47) é gasto no próprio município; R$ 28.680,00 (19%), é destinado ao consumo de bens adquiridos fora do município de Canavieiras; e, 13% (R$ 19.628,63) destina-se ao pagamento de tributos.

Dos estabelecimentos entrevistados, 75% optam por comprarem fora da cidade devido a ausência de oferta do bem / serviço procurado. Já 20% dos entrevistados compram em outras cidades devido a questão preço, dizem que os preços em Canavieiras são maiores. Os 5% restantes compram todos os seus bens /serviços na cidade. Quanto à qualidade dos produtos adquiridos em Canavieiras, não houve reclamações.

A maior parte dos bens adquiridos em outros municípios são artigos de cama, mesa e banho (28%); consertos especializados / assistência técnica (20%); equipamentos eletro – eletrônicos: frigobar, aparelho de ar-condiconado, televisores, ventiladores, entre outros (20%). E, em menor quantidade tem-se materiais de jardinagem (2%), produtos para piscina (2%), serviços de telefonia (2%), Internet (2%), e materiais de higiene pessoal (2%).

Do valor despendido à aquisição de bens / serviços dentro do município, maior parte dos entrevistados responderam que adquirem alimentos e bebidas em geral (63%) e material de limpeza (18,5%). Também, em menor proporção, foram citados os seguintes bens: colchões (3,7%), material de construção (3,7%) e combustível (7,4%).

Coletados e tabulados os dados, foram encontrados valores (através de médias ponderadas) para as seguintes variáveis:

  • Propensão a consumir em Canavieiras (b) = 0,58
  • Propensão a importar (m) = 0,19
  • Propensão a arrecadar do governo (r) = 0,13

Logo, com a determinação de tais valores, conforme a expressão (3) chegou-se ao seguinte multiplicador:

(7)

O multiplicador encontrado (k = 1,36790377) resulta num impacto de R$ 2.142.958.05 na economia local, por ano. Isto significa que cada R$ 100 gerado pela atividade representa na verdade, R$ 137,00.


5
CONSIDERAÇÕES FINAIS E SUGESTÕES

A coleta de dados primários foi bastante favorável, uma vez que o contato direto com os gestores dos estabelecimentos de hospedagem e o melhor conhecimento da cidade, em geral, possibilitou perceber que Canavieiras apresenta um potencial turístico em expansão. Seja pelas reformas percebidas em alguns meios de hospedagem visitados, seja pela percepção de vários estabelecimento em construção.

Com base no processo multiplicador da atividade turística (demonstrado no Quadro 1) percebe-se que, maior parte (58%) da renda proveniente dos meios de hospedagem é gasta no próprio município. Isso indica que o setor de hospedagem exerce considerável influência na indústria turística local, sendo considerado fator relevante no processo de dinamização da economia do município.

Considerando que maior parte dos meios de hospedagem são pousadas, justifica-se o fato de maior parte dos bens /serviços serem adquiridos dentro da própria cidade. E, assim quanto maior a propensão marginal a consumir, maior o valor do multiplicador estimado.

Tendo em vista que o principal motivo dos estabelecimentos adquirirem bens / serviços em outras localidades é a ausência de oferta, faz-se necessário que os empresários do setor de hospedagem se unam e busquem junto aos empresários do comércio local alternativas para suprir a ausência destes bens, fazendo com que diminua a importação de bens /serviços necessários, aumentando o multiplicador.

Em alguns dos estabelecimentos visitados, principalmente nas pousadas de menor porte, foram ouvidas reclamações dos gestores com relação à falta de infra-estrutura por parte da Prefeitura local. Logo, é preciso haver uma interação entre os empresários hoteleiros e os gestores municipais quanto à promoção de melhorias no município, como forma de desenvolver a atividade turística local.

Com sua forte receptividade, belezas naturais, Canavieiras tem todo o aparato necessário para se tornar um destino turístico de maior importância.


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REJOWSKI, Mirian. Turismo e Pesquisa Científica. 2ed. Campinas, SP: Papirus, 1998. 168p.

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________________________. Manual de Econometria. São Paulo: Atlas, 2000.

____________________. Manual de Macroeconomia. 2 ed São Paulo: Atlas, 2000.


Anexo

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS ECONÔMICAS

Este questionário é um instrmento de pesquisa para a Monografia "O Multiplicador econômico da renda turística baseado nos meios de hospedagem do município de Canavieiras – BA". Os questionários serão analisados de forma conjunta. Não haverá divulgação individual dos mesmos. Por isso não há nenhuma identificação da empresa no formulário e, após recolhido, será depositado numa urna. Não havendo nenhuma possibilidade de identificação. Suas respostas serão de muita importância para o reconhecimento da importância do setor hoteleiro no município de Canavieiras.

Susany Sales Brandão – Autora da Pesquisa

Prof. MSc. Élson Cedro Mira – Orientador da Pesquisa

1. Qual o faturamento médio mensal de seu hotel/pousada?

2. Do faturamento, quanto é gasto na cidade de Canavieiras (incluindo todos os tipos de gastos, excluindo somente impostos e taxas)? Sua resposta pode ser em valores de moeda corrente (R$) ou em porcentagem (%).

3. Do faturamento, quanto é gasto com bens e serviços adquiridos em outras cidades (incluindo todos os tipos de gastos, excluindo somente impostos e taxas)? Sua resposta pode ser em valores de moeda corrente (R$) ou em porcentagem (%).

4. Do faturamento quanto é gasto em impostos (municipais/estaduais e federais) e taxas (associações, sindicatos)? Sua resposta pode ser em valores de moeda corrente (R$) ou em porcentagem (%).

5. Quando sua empresa opta por comprar bens/serviços em outras cidades é por que...

( ) Em Canavieiras os preços são maiores

( ) Em Canavieiras a qualidade do bem/serviço é pior

( ) Não há oferta do bem/serviço em Canavieiras

6. Quais os tipos de bens e serviços que o Sr (a) mais compra fora de Canavieiras?

7. Quais os tipos de bens e serviços que o Sr (a) mais compra em Canavieiras?

TABELA 1

n

Faturamento Médio Mensal (R$)

Gastos em Canavieiras (%)

 

Bens/serviços exportados (%)

 

Impostos (%)

 

% dos gastos

Lucro

1

10.000,00

0,45

4.500,00

0,35

3.500,00

0,07

700,00

0,87

0,13

2

1.500,00

0,70

1.050,00

0,20

300,00

0,08

120,00

0,98

0,02

3

35.000,00

0,50

17.500,00

0,20

7.000,00

0,20

7.000,00

0,90

0,10

4

200,00

0,95

190,00

-

-

0,05

10,00

1,00

-

5

3.200,00

0,78

2.496,00

0,05

160,00

0,07

208,00

0,90

0,11

6

5.000,00

0,70

3.500,00

0,05

250,00

0,20

1.000,00

0,95

0,05

7

10.000,00

0,75

7.500,00

0,10

1.000,00

0,10

1.000,00

0,95

0,05

8

7.000,00

0,60

4.200,00

0,20

1.400,00

0,08

560,00

0,88

0,12

9

2.500,00

0,90

2.250,00

0,03

75,00

0,01

25,00

0,94

0,06

10

2.500,00

0,75

1.875,00

0,12

300,00

0,08

200,00

0,95

0,05

11

2.500,00

0,80

2.000,00

0,05

125,00

0,01

25,00

0,86

0,14

12

3.200,00