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Arte no Egito

Autor:
Instituição: Universidade do Extremo Sul Catarinense
Tema: Arte Egípcia

Arte no Egito


Nas aulas anteriores, observamos a primeira mudança de estilo ocorrida na história das artes, fôra, no campo da pintura, a passagem do figurativismo realista da pedra lascada para o geometrismo de tendência abstratizante da pedra polida. Essa radical mudança no estilo das artes, coincide, conforme vimos, com radical mudança da vida do homem pré-histórico. A passagem do figurativismo da pedra lascada para o geometrismo da pedra polida correspondeu, no plano histórico e social, à passagem do nomadismo da caça e pesca para o sedentarismo da agricultura e pecuária.

Esse geometrismo, observado em todas as artes, inclusive na própria arquitetura dos monumentos chamados megalíticos, prolongou-se por muito tempo, ou melhor, por vários milênios, atravessa a idade dos metais. Quando os primeiros povos históricos aparecem, estão saindo desse geometrismo neolítico para novas formas de figurativismo.

Entre os primeiros povos históricos, encontramos, inicialmente, na embocadura dos rios Tigre e Eufrates, nas planícies do Golfo Pérsico, os acádios e sumérios, avôs dos assírios e babilônios. Estão justamente desprendendo-se do esquematismo geométrico neolítico para novas formas de figurativismo realista. Também entre esses povos antiquíssimos, vamos encontrar o mesmo fenômeno observado entre os pré-históricos - a arte tem caráter mágico, está intimamente associada á religião. O artista é, ao mesmo tempo, um sacerdote, porque dotado de poderes considerados excepcionais.


O EGITO

O povo que melhor serve ao estudo da transição entre as artes pré-históricas e as artes históricas é o egípcio. Mas, com o Egito, ocorre uma coisa curiosa, por causa do grandioso e frio abstracionismo geométrico das pirâmides, das múmias e dos sarcófagos cheios de riquezas, temos geralmente a impressão de que os egípcios viveram preocupados exclusivamente com a morte. Essa impressão não corresponde, no entanto, a verdade dos fatos.

Todos nós, egípcios antigos ou brasileiros modernos, sempre nos preocupamos muito é com a vida e seus problemas. O egípcio antigo foi um povo alegre, gostador de viver, talvez em toda a antigüidade o povo dotado de mais rica sensibilidade artística. Nenhum outro foi tão artista, tinham o sentimento do grandioso e do abstrato, como vemos nas pirâmides, mas possuíam também o gosto do sutil, do requintado, do mórbido. Levantou as massas descomunais das pirâmides e, no entanto, foi o mais delicado joalheiro da antigüidade. As jóias egípcias distinguem-se, ainda hoje, pela originalidade e beleza.

Ergueu os gigantescos santuários de Luxor e Karnak, que nos espantam por suas dimensões, mas inventou o esmalte o foi o primeiro a estilizar as flores. A idéia egípcia de sustentar enormes blocos de pedra com flores, como vemos nas suas colunas, tem algo de surrealístico. O mundo inteiro depois a adotaria, através dos capitéis das colunas gregas.

Adorava os gatos, os jacarés, os bois, os gaviões. Deixou porém as mais graciosas silhuetas femininas que a antigüidade conheceu. Associava a beleza da mulher ao perfume das flores. Nos desenhos e pinturas, a mulher egípcia aprece flexuoasa, de busto pequeno, dando idéia de uma carioca. O egípcio não era apenas um embevecido da beleza delicada de sua mulher. Tinha-lhe amor, dava-lhe liberdade, acreditava na sua inteligência e capacidade de trabalho. Nos grupos funerários, como já foi observado, vemos a esposa ao lado do marido, pondo-lhe afetuosamente a mão no braço ou na cintura. Achou-se uma inscrição pela qual se ficou sabendo que no tempo dos faraós haviam funcionárias públicas. Havia uma importante senhora, administradora geral dos perfumes. Talvez fosse irmã, cunhada ou comadre da primeira dama do Nilo, mas, de qualquer modo, a mulher exercia função pública.

Por último, nenhum povo teve escrita tão bela e decorativa como a hieróglifa. A sensibilidade e o bom gosto do egípcio começavam, por assim dizer, nas letras de seu alfabeto e acabavam no culto afetuoso e artístico às suas companheiras.

Em todos os tempos, o Egito sempre atraiu, sempre interessou sempre ensinou. Na antigüidade, os povos civilizados voltavam-se para o vale do grande rio como quem se volta para uma fonte de sabedoria e beleza. Assim hoje, quando queremos nos envernizar por dentro e apurar a sensibilidade vamos a centros culturais, como Paris, Florença e Atenas, naquela época, os antigos viajavam ao Egito.

Os gregos ricos e intelectuais - os filósofos, os geômetras, os poetas e os artistas - iam ver o Egito, que para eles hoje o que a Itália e Grécia são para nós. O filósofo grego Pitágoras, por exemplo, andou por lá, voltou assombrado com o tamanho dos monumentos, o saber dos sábios e as distâncias do passado. Diz-se haver trazido os fundamentos de sua concepção matemática da música e revelações sobre os números.

Platão foi outro, esteve em Mêmphis, cidade dos sacerdotes. Conta um historiador haver sido convidado a visitar o templo, sendo recebido com as honras devidas à fama de seu saber. Os sacerdotes, depositários da milenar cultura egípcia, sentaram-se em derredor do visitante e pediram-lhe falasse das coisas de sua terra. Platão falou do progresso e da filosofia na Grécia. Quando acabou, narra o mesmo historiador, o mais velho dos sacerdotes disse-lhe com benevolência:

"- Pelo que acabamos de ouvir, Platão, teu país é habitado só por crianças!"

Levantou-se, tomou-o pela mão, levou-o à porta e apontando-lhe, ao longe, no silêncio da planície ondulada, as três grandes pirâmides:

"- Platão, do alto daquelas pirâmides, quarenta séculos te contemplam!

Assim era o Egito, por sua antigüidade, já enchia de admiração os antigos. Por isso, ao aproximar-se dele, devemos fazê-lo como quem se aproxima de um povo inteligente, sensível e artístico.


ARTE E RELIGIÃO

A arte egípcia choca um pouco nossa sensibilidade de latinos, educada dentro de padrões e concepções estéticos, em última análise, do racionalismo grego.

Vamos ver, porém, se conseguimos familiarizar-nos com a arte egípcia, procurando compreender as suas formas. Para abrir caminho, olhemos a estrutura social do antigo Egito. Todos sabemos: a base de sua organização social já era a divisão da população em classes. A classe mais poderosa e considerada era a sacerdotal. Além de possuir grandes riquezas e ocupar numerosos cargos públicos exercia a direção do Estado, através de sua influência sobre o faraó, e monopolizava a cultura e a arte. A classe seguinte era a dos guerreiros, que constituíam a nobreza, possuía extensas propriedades, nas quais exercia poderes absolutos. O resto da população formava a terceira classe, dividida em várias categorias, inclusive escravos. O governante, o faraó, era considerado sagrado, seu palácio era também um templo. O faraó era mais que obedecido, era adorado como um deus.

Pela importância e influência da classe sacerdotal, que dominava material e espiritualmente o país, como ainda pelo caráter sagrado do governante, o regime egípcio era o teocrático e, como toda teocracia, fortemente centralizado. Toda a vida nacional, em todas as suas manifestações, orientava-se sob prescrições religiosas.

As ciências, as letras, as artes, tudo era monopolizado pelos sacerdotes e posto exclusivamente a serviço da religião, em outras palavras, do templo dos deuses e do palácio do rei. A arte no Egito era assim, uma arte dirigida.

Todo o sistema religioso egípcio baseava-se na crença da imortalidade da alma, crença que dominava a vida e a arte. O egípcio viveu sob a ânsia da eternidade. A inscrição "duração eterna" é encontrada em muitos monumentos. O faraó, Amenehet I, do Império Médio, poderoso como Tutmosis III ou Ramsés II, deixou numa inscrição: "Levantarei monumentos diante dos quais se assustará a própria eternidade!"

Esse anseio, esse sentimento do eterno, traduz-se na arquitetura pelo grandioso. O colossal do Egito é sinônimo de eterno, os monumentos religiosos egípcios são os maiores e, sobretudo, os mais duráveis, erguidos pelo homem na antigüidade. Essa abstração do eterno, de algo além das formas orgânicas transitórias, esse absoluto e permanente, o egípcio o expressou de maneira magistral ainda não superada - na pirâmide. Foi o primeiro abstrato geométrico da face da terra, revestindo do mais puro racionalismo matemático o sentimento sem dúvida trágico da eternidade.

A crença religiosa na imortalidade da alma, marcando a arquitetura, também marcou a escultura e a pintura.

Segundo as crenças egípcias, a alma depois da morte continuava vivendo eternamente nos espaços, vagava numa barca de ouro que acompanhava o roteiro do sol. Natural que a imaginação egípcia evocasse uma barca, pois ali está o rio Nilo.

Na sua existência imaterial e eterna, a alma tinha as mesmas necessidades do corpo material e efêmero. Precisava vestir-se, alimentar-se e distrair-se. Precisava de suas armas, se havia sido um guerreiro, de suas jóias e perfumes, se bonita ou simpática havia sido mulher.

Mas, para que a alma pudesse viver a sua vida eterna e vir à terra alimentar-se vestir-se, distrair-se, era preciso que na terra permanecesse, também eternamente, um suporte material capaz de recebê-la.

Esse suporte era a múmia, uma vez consagrada, preparada sob minucioso e complicado ritual, deveria ser conservada íntegra e intocada. Se fosse destruída ou profanada de qualquer modo, a alma ficaria sofrendo por toda a eternidade, seria, brasileiramente falando, uma "alma penada". Então, procurando evitar essa terrível desgraça da profanação ou destruição da múmia, o egípcio a ocultava mais que podia, escondendo-a no interior de labirintos subterrâneos ou debaixo de monumentos colossais, como as pirâmides, os quais, pelo material e forma, pudessem ser igualmente eternos.

Para prevenir que a alma sofresse por todo o resto da eternidade, caso a múmia fosse destruída ou profanada, o egípcio colocava no túmulo, além da múmia, um segundo suporte material - uma estátua do morto. Em virtude dessa prescrição religiosa, foi que os egípcios se tornaram os maiores estatuários da antigüidade. A estátua também deveria durar, deveria resistir ao tempo, em suma, deveria ser eterna. Esses cuidados religiosos conferiram á escultura egípcia característicos próprios.

Em primeiro lugar, o material escolhido pelo escultor, deveria ser resistente e durável. Os egípcios esculpiam em pedras de grande dureza, como o granito, o basalto, a obsidiana e outras, embora também talhassem a madeira e modelassem o barro. Em virtude da resistência do material, tornavam-se necessários longos e laboriosos aprendizados. São conhecidos os atelieres e escolas de escultores, as excelências técnicas dos escultores egípcios são manifestas.

A estátua era concebida dentro da composição unitária e fechada, para assegurar-lhe a durabilidade. Os braços junto ao corpo, as pernas também juntas, conservando-se assim as linhas gerais do bloco de granito no qual fôra lavrada. Geralmente o pescoço, parte vulnerável das estátuas, era reforçado pelo klaft, aquele pano listrado na cabeça, que cai elegantemente sobre os ombros, ou por meio dos cabelos ou da barba estilizados. Distanciando-a o menos possível da forma do bloco no qual fôra esculpida, o egípcio procurava assim preservar-lhe a integridade, a fim de que a alma pudesse encontrar um segundo suporte material, intacto, no caso de faltar a múmia. Percebe-se como as crenças da imortalidade da alma, influindo no material e na forma da arquitetura influíram também no material e na forma da escultura.

Assegurada, assim a volta da alma à terra, pela presença de dois suportes materiais - o corpo embalsamado e a estátua, feita geralmente de pedra dura e resistente - restava agora tornar agradável a permanência da alma na sua morada terrena, que era o túmulo.

Os interiores das câmaras mortuárias eram, por isso mesmo, coloridos, alegres, quase festivos, não possuindo a simplicidade e austeridade de sepultura. O espírito do morto, deveria rever, com os seus olhos eternos, tudo quanto lhe fôra agradável ou necessário na existência terrena do corpo. Nas paredes da câmara mortuária, entre invocações aos deuses, executavam pinturas, que reproduziam as atividades, inclusive os prazeres do morto na sua vida terrena - trabalhos e negócios, guerras e viagens, propriedades e distrações preferidas.

É justamente agora, depois da construção do túmulo e da execução da estátua, quando são chamados os pintores, que devemos nos deter. Destinadas a serem contempladas pelos olhos externos da lama eterna, as pinturas deveriam ter também aquela condição de durabilidade ou, em outras palavras, de eternidade, exigida na arquitetura e na escultura.

Para obter essa pintura durável, capaz de resistir ao tempo, os egípcios inventaram um processo de pintar que se caracteriza por sua durabilidade - a pintura a fresco.

Os processos de pintura a fresco ainda hoje, universalmente usados, naturalmente com aperfeiçoamentos, foram inventados pelos egípcios. O processo de pintura a fresco é muito diferente do processo de pintura a óleo, inventado ou aperfeiçoado, na primeira metade do século XV, pelos pintores flamengos chamados irmãos Van Eyck. A base tradicional da pintura a óleo é a mistura das tintas com o óleo de linhaça e um pouco de secativo, feita sobre tela, madeira, metal ou qualquer outra superfície devidamente preparada. Errando ou não gostando, raspa-se a tinta, pinta-se por cima ou deixa-se o trabalho para continuar depois.

Na pintura a fresco, as tintas - os pigmentos ou os pós das tintas - são dissolvidas exclusivamente na água e aplicadas diretamente na parede. A parede recebe antes revestimento de argamassa, feita de areia, cal e argila. Enquanto esse revestimento está úmido, fresco - daí a denominação italiana afresco - o pintor desenha e pinta. Quando o revestimento seca, em virtude do processo químico de cristalização dos óxidos minerais das tintas, cria-se sobre a pintura tenuíssima camada de cristais, verdadeiro verniz, que a protege com eficácia. O pintor não pode errar muito porque para corrigir será preciso retirar o revestimento e colocar novo, para ovo desenho e novas pinceladas.

Quando a superfície do afresco é grande, estendendo-se por vários metros e compreendendo várias figuras, paisagens e outros elementos de composição, o trabalho do artista faz-se por etapas. Diariamente, cobre ou manda cobrir com revestimento apenas a área, geralmente sinuosa e terminando em detalhes ou nas partes mais escuras, para disfarçar as marcas deixadas depois pelas diferenças das secagens. No afresco do Juízo Final, de Michelangelo, na parede dos fundos da Capela Sistina, no Vaticano, notam-se perfeitamente, inclusive nas reproduções, as marcas das áreas sucessivamente executadas.

Para maior segurança do desenho e do colorido, os mestres renascentistas italianos faziam antes um estudo do afresco, algumas vezes do mesmo tamanho. Era o que se chamava o cartão, quando estudavam detalhes, panejamentos, atitudes, expressões, etc.

Além de certa beleza particular, certa limpidez e transparência, a pintura afresco necessariamente sintética no desenho e na cor, porque deve adaptar-se à visão a distância, adquire, sobretudo, durabilidade.

Pois fora esta, caracterizada principalmente pela durabilidade, a técnica de pintura inventada pelos egípcios, para decorar seus túmulos, templos e palácios, locais de coisas sagradas e eternas.

Na própria técnica da arte, observa-se assim, coincidência com as convicções religiosas, como amanhã poderão ser convicções políticas ou científicas que influirão nos estilos artísticos.


ARQUITETURA

Não considerando as obras civis e militares, habitações, pontes, canais, fortificações, construídas com material de menor resistência e, por isso mesmo, praticamente desaparecidas, a arquitetura egípcia realmente se define nos monumentos funerários e religiosos.

Suas características gerais são: dimensões grandiosas, simplicidade de formas, aspecto maciço e pesado, sistema construtivo estático de peso e sustentação, predominância das superfícies sobre os vazios e policromia.

Por outro lado, a arquitetura egípcia era modular, possuía um módulo. Módulo é a medida padrão que serve para determinar as dimensões das diferentes partes do edifício, estabelecendo entre elas proporções, que nos comunicam sentimentos de variedade e unidade, em outras palavras, o ritmo da composição arquitetônica. Os gregos foram excelentes na modulação.

Divisão dos Monumentos na Arquitetura

A arquitetura egípcia divide-se em monumentos funerários e religiosos. O monumentos religiosos são as Mastabas, as Pirâmides, e os hipogeus-túmulo. Os monumentos religiosos são os templos, os hipogeus-templo e os obeliscos.

Monumentos Funerários

MASTABAS - do árabe mastaba, banco de pedra - Nos primeiros tempos históricos ou nas primeiras dinastias do Antigo Império, são os únicos monumentos funerários.

Diferenciavam-se pelas dimensões e riquezas das decorações interiores, quando destinadas aos faraós e dignitários da corte. São construções de base retangular e forma trapeizodal, originariamente de tijolos e, mais tarde, de blocos de pedra. Compõe-se da capela, do serdab e da câmara sepulcral subterrânea, onde se deposita a múmia. Possuem duas portas: a primeira, de acesso à capela; a segunda, falsa porta, apenas fingida na parede exterior do serdab, destinada à passagem da alma do morto nas suas visitas ao túmulo.

A capela é o local do culto das oferendas, suas paredes interiores estão decoradas de pinturas e inscrições, representações de deuses e, muitas vezes, de cenas da vida terrena do morto. Ali comparecem os amigos e parentes para as devoções.

O serdab, comunicando-se com a capela por pequena abertura na parede divisória, guarda a estátua do morto, é sagrado e inviolável, mantido na obscuridade.

Na câmara sepulcral, escavada no solo e de acesso habitualmente disfarçado no pavimento do serdab, fica a múmia, acompanhada de jóias, utensílios e objetos trabalhados artisticamente, em matérias preciosas, verdadeiros tesouros.

Com o tempo, as mastabas aumentaram consideravelmente de dimensões, comportavam várias salas, corredores, paredes sempre cobertas de pinturas e inscrições. Em torno das grandes pirâmides, encontraram-se algumas mastabas monumentais, bastante ricas, eram túmulos de parentes de faraós, membros do clero e da alta administração. Nas primeiras dinastias do Antigo Império foram os monumentos funerários mais usados.

As Pirâmides

Por suas dimensões, as pirâmides desde a antigüidade sempre feriram a imaginação do homem. Os judeus antigos diziam-na depósitos de trigo, mandados construir por José, ministro do faraó, na provisão dos anos de escassez. Os árabes, diziam que eram diques imensos para conter as areias do deserto. Outros povos, arcas gigantescas de tesouros colossais, não tendo sido poucas as tentativas no passado para descobri-los.

Mas, na realidade, como todos sabemos, são túmulos grandiosos dos faraós, sobretudo do Antigo Império. Logo à primeira vista, simultaneamente com a expressão eloqüente da forma, sugerem os esforços consideráveis exigidos pela construção - braços de dezenas de milhares de trabalhadores escravos, durante dezenas de anos, para extração, corte e transporte de milhares de blocos de granito, que pesam dezenas de toneladas, conduzidos por barcaças pelo Nilo, desde as distantes jazidas de Assuan, na primeira catarata, à planície de Gizé, perto do Cairo, onde foram sendo levantadas.

Impressionam, depois, pela harmonia de suas formas com as da geografia. As massas geométricas puras adquirem poderosa sugestão na simplicidade da planície arenosa. Poucas vezes, como tem sido observado por mais de um autor, as formas criadas pelo homem se casam tão harmoniosamente com as da natureza.

Os arqueólogos e historiadores de arte divergem sobre muitos de seus aspectos técnicos e expressivos. Verdadeiras bibliotecas tem sido escritas, tema realmente apaixonante para os eruditos sensíveis, desde os astrônomos do século passado aos estudiosos dos nossos dias.

O abade Moreux, por exemplo, conhecido astrônomo francês, escreveu no seu entusiasmo que "A Grande Pirâmide vem abrir a era da arquitetura não por princípio insignificante, destinado a desenvolver-se através dos séculos, sob lentos e contínuos progressos, mas por um elã de ciência, majestade, e excelência, atingindo de golpe um ideal, que talvez a humanidade não ultrapassará jamais."

A Origem da Pirâmides

As pirâmides não surgiram de repente, com a simplicidade geométrica que podemos considerar clássica - base quadrada, lados triangulares, que se unem no vértice. Essa forma, os egípcios a obtiveram através de longa e lenta elaboração. Conta-se que o faraó Zoser, da III Dinastia do Antigo Império, achou a mastaba túmulo medíocre para um governante de seu poder e glória, pediu então ao seu arquiteto Imhotep concebesse-lhe sepultura condigna. Adorado depois desse feito como deus na arquitetura, Imhotep imaginou superpor cinco mastabas, criando assim a primeira pirâmide ou pirâmide escalonada de Sacara, com sessenta metros de altura, na planície de Gizé.

Mais tarde, na IV Dinastia, a forma escalonada aperfeiçoou-se com as pirâmides de Meidum e Dachur. Em vez de cinco mastabas superpostas, a de Meidum tem apenas duas, enquanto a de Dachur apresenta os lados com dupla inclinação, aproximando-se bastante da simplicidade geométrica final. Chama-se, por isso mesmo, pirâmide de dupla inclinação.

Ainda na IV Dinastia, são construídos os túmulos dos faraós Quéops, Quéfren e Miquerinos, quando a pirâmide atinge a sua forma que ainda há pouco estávamos chamando clássica.

Construíram-se, posteriormente, numerosas outras, pois, como dissemos, eram os túmulos usuais dos faraós no Antigo Império, mas de tijolos em substituição à pedra, mais laboriosa e custosa. Naturalmente não resistiram ao tempo, existindo escombros, em montes disformes ao longo do Nilo.

Restaram apenas, desafiando o tempo, as chamadas três grandes pirâmides, construídas de pedra, na planície de Gizé e as de Sacara, Meidum e Dachur.

As chamadas três grandes pirâmides são as dos faraós Quéops, Quéfren e Miquerinos, respectivamente com 148, 126 e 60 metros de altura. A de Quéops, mais alta, é comumente denominada A Grande Pirâmide. Para termos idéia de sua altura, basta considerar exigirem os engenheiros três metros do pavimento ao teto para cada andar de edifícios de apartamentos. Desse modo a altura da Grande Pirâmide corresponde à um arranha céu de cinqüenta andares.

A construção das pirâmides exigia complexa ciência de mecânica e arquitetura. Construíam-se sobre terrenos rochosos, previamente escolhidos e estudados, capazes de resistir ao peso descomunal dos blocos de granito. Suas fundações requeriam esforços e cuidados iguais ao da construção propriamente dita.

Os blocos eram extraídos, cortados e primorosamente esquadrados, nas distantes jazidas de granito de Assuan, no Alto Nilo, na região nubiana, onde o governo egípcio construiu uma enorme represa e onde se encontram monumentos antigos, entre os quais o templo de Ramsés II, em Abu-Simbel e a ilha de Filae. Saliente-se que esses monumentos, por iniciativa da UNESCO, em colaboração com o governo egípcio foram preservados do desaparecimento sob as águas, mediante audaciosas obras de proteção e deslocamento dos mesmos para partes mais altas.

Os blocos de granito provenientes de Assuan, eram desembarcados em ancoradouros especialmente construídos e arrastados a braço, através do deserto, por estradas firmes, mas escorregadias, porque recobertas com o lodo do Nilo, constantemente umedecido e renovado. Em seguida, puxados por um plano inclinado de terra batida, que se elevava acompanhando o nível da fileira de blocos que se iam acumulando. Colocados os blocos, revestiam-nos de uma camada de argamassa, destruída pelo tempo, para uniformizar a superfície das faces da pirâmide.

Terminada a tarefa gigantesca de colocação dos blocos e do revestimento das faces, cumpria fazer a remoção de aterro do imenso plano inclinado de areia. Era um trabalho que equivalia praticamente, pelos esforços exigidos, à construção de outra pirâmide.

Tem sido feito cálculos de exigência de mão-de-obra, do material e do tempo necessários à construção das grandes pirâmides de Gizé. Calculou-se, por exemplo, que a Pirâmide de Quéops consumiu trinta anos e esforços de cem mil operários, escravos e prisioneiros de guerra, submetidos a regime desumano de trabalho. Seu volume seria de 2.500.000 metros cúbicos.

Agora passaremos a estudar a função e simbolismo das pirâmides. A pirâmide, propriamente dita, compõe-se de canais de aeração e corredores de acesso à sala central, onde habitualmente disfarçada está a entrada da galeria que conduz à câmara subterrânea sepulcral, no subsolo, com a múmia do faraó luxuosamente paramentada, máscara de ouro e outros adornos e símbolos, cercada de utensílios e armas preciosos.

A múmia era depositada em sarcófagos suntuosos de madeira ou de pedra. A cidade fenícia de Biblos enriqueceu exportando cedro do Líbano para a fabricação de sarcófagos egípcios.

Quase todos os túmulos foram saqueados ainda na antigüidade, saques, muitas vezes feitos pelos próprios faraós, apesar dos protestos da classe sacerdotal. A história dos saques aos túmulos egípcios é longa, as riquezas acumuladas em torno das múmias reais queimavam a imaginação dos antigos, cada invasor do Egito corria com avidez aos túmulos.

Aos redor das pirâmides, haviam diversas construções. Haviam dois templos, nos quais se adorava o faraó divinizado, um, mais modesto e distante, destinado ao povo. Também haviam numerosas sepulturas de membros da família real e de dignitários da corte, em pequenas mastabas ou pirâmides monumentais, que formava, às vezes, verdadeiras ruas.

Nas proximidades, dependências de serviços do culto e residências dos sacerdotes auxiliares, todo esse complexo conjunto encontrava-se dentro de um amplo recinto murado.

A famosa Esfinge, foi lavrada na rocha viva, no século XXVI A.C., no reinado de Quéfren, cujos traços fisionômicos reproduz, é a entrada monumental do templo de sua pirâmide. O príncipe Tutmosis IV, século XXI A.C., sonhou que a Esfinge lhe pedia para que afastasse a areia que começava a soterrar, após coroado faraó atendeu ao pedido, mandando realizar obras de conservação do monumento.

Eis, em linhas gerais, a pirâmide, simultaneamente túmulo e templo. Nas suas dimensões e localização, as da planície de Gizé tem sido estudadas por astrônomos e matemáticos, que lhes descobriram curiosas particularidades matemáticas, geodésicas e astronômicas, especialmente na de Quéops.

A simples título de curiosidade, vamos alinhar algumas: o meridiano da Grande Pirâmide é o que atravessa mais continentes e menos mares, divide, exatamente em duas partes iguais, as terras da superfície do globo; o paralelo aproximado da 30º, Norte, sobre o qual se acha o centro da Grande Pirâmide, é que atravessa mais terras; se multiplicarmos a altura da Grande Pirâmide, 148,208 m, por 1 bilhão, teremos 148.208.000 km, a distância da Terra ao Sol é de 149.400.000 km., com uma incerteza de 70.000.000 km; o canal de entrada, situado na face norte, determina uma luneta meridiana natural com inclinação B 26º.30 sobre o horizonte e permite, atualmente, a observação circumeridiana (culminação inferior) da Estrela Polar. Quando de sua construção, segundo os cálculos do Abade Moreux, era a estrela Alfa, da Constelação de Dragão, que desempenhava o papel astronômico da Estrela Polar e culminava no campo visual de referido canal. Estes e outros dados, extremamente interessantes, levaram estudiosos à conclusão de que a Grande Pirâmide é muito mais de que um simples monumento erguido à vaidade de um homem, é a súmula esotérica dos altos conhecimentos a que atingiram os egípcios antigos em diversos planos do saber.

Os Hipogeus

A pirâmide foi o monumento funerário por excelência do Antigo e Médio Impérios. No Império Médio, passaram a ser construídas de tijolos e desapareceram em grande parte. Mas no Império Novo as coisas mudam, em lugar de pirâmides os faraós passam a usar o hipogeu ( do grego hipo, debaixo; geo, terra). O hipogeu é geralmente um túmulo escavado na rocha, os faraós das grandes dinastias tebanas mandam escavar seus túmulos no flanco das montanhas rochosas. Galerias, corredores e salas se sucedem, esplendidamente decorados e mobiliados, até a câmara sepulcral, onde se acha o sarcófago, com a múmia do faraó. Todos os cuidados são postos para dificultar a localização da múmia do rei. Em diversas tumbas de Ábidos chegaram a fazer câmaras mortuárias falsas, com um sarcófago, mas vazio. Em outras, fingem falsas entradas de corredores, que conduziriam ao verdadeiro sarcófago. Os arqueólogos empregam, por isso mesmo, artifícios e astúcias para descobrir o local da múmia.

A entrada do hipogeu-túmulo era habitualmente disfarçada, quase todos foram violados na antigüidade, os árabes, movidos pela cobiça, foram infatigáveis violadores de sepulcros reais.

A partir da expedição de Napoleão, a exploração de túmulos egípcios, para a venda de utensílios funerários, transformou-se em verdadeira fonte de renda para as classes populares e rurais.

Próximo ao túmulo, de entrada disfarçada e desconhecida, ficava o templo, onde se adorava o faraó divinizado. Algumas vezes, era, ao mesmo tempo, templo e palácio.

Monumentos Religiosos

Os santuários de culto individual aos faraós não podem nos dar idéia exata dos templos egípcios, de sua planta e, sobretudo, de suas colossais dimensões, Essa impressão a obteremos nos dois grandes santuários de Luxor e de Karnak, perto da cidade de Tebas.

Chega-se ao templo egípcio, por uma longa e ampla avenida de esfinges, a entrada é monumental, com dois imensos e altos pilones de base retangular e forma trapeizodal - verdadeiras pirâmides truncadas. No interior desses pilones, escadarias que levam ao alto, ao teto em forma de terraço, onde se erguem nos dias de festa mastros embandeirados. Entre os dois pilones, no centro, a porta de entrada, ladeada por dois obeliscos. Na superfície dos pilones, baixos relevos e inscrições coloridas.

Em seguida, um pátio cercado por colunas, desse pátio passa-se a uma grande sala, cujo teto de pedra está sustentado por poderosas colunas. Chama-se hipostila, por isso mesmo, por estar sob colunas, iluminada lateralmente por aberturas no alto das paredes. A seguir, o sacrário, imerso na obscuridade. É um lugar sagrado, com as imagens dos deuses e as relíquias mágicas, ali só podem chegar o faraó e o sumo sacerdote, para os ritos misteriosos de comunicação com a divindade.

A sala hipostila do templo da Karnak ainda hoje espanta por suas dimensões, é a maior sala coberta de pedra que existe no mundo. Tem 102 metros de comprimento por 51 de largura, com 134 colunas, verdadeira e impressionante floresta, algumas de 10 metros de diâmetro, cobertas de desenhos e inscrições em cores. Esta imensa e aterradora sala está imersa na obscuridade e dentro dela o crente sentia-se realmente esmagado pelo poder e eternidade dos seus deuses.

Esses templos gigantescos, como os de Luxor e de Karnak, verdadeiros santuários nacionais, foram construídos por vários faraós. Na construção consumiram-se riquezas fabulosas, arrancadas a ferro e fogo dos povos da Ásia Menor. Cada faraó desejava deixar seu nome ligado a esses monumentos colossais. Mandava, às vezes, apagar a o nome do antecessor, substituindo-o pelo próprio. Mesmo os conquistadores bárbaros, quando ali chegavam, tinham o passo tolhido pelo espanto e admiração. Gravavam também seus nomes nas paredes e colunas descomunais.

As colunas Egípcias

Os templos egípcios não são apenas grandiosidade, nos detalhes das estruturas gigantescas, ao lado da perícia técnica, no trato da pedra e da mecânica construtiva, os egípcios revelam bom gosto e sutilezas artísticas, criaram, por exemplo, todos os tipos de colunas conhecidos.

Uma coluna compõe-se de três partes principais - a base, suporte inferior sobre o qual assenta; o fuste, o corpo propriamente dito da coluna de forma cilíndrica, às vezes com reentrâncias côncavas denominadas caneluras, para animar com os contrastes de sombras e luzes a superfície lisa; e o capitel, parte superior para suportar o peso da estrutura do teto. Esses três elementos variam segundo o estilo da coluna.

Os egípcios criaram quatro tipos de coluna: a protodórica, a lotiforme, a campaniforme e a hatórica.

A protodórica não possui base e seu capitel é formado por um suporte quadrangular. O fuste apresenta geralmente caneluras. É a mais antiga e seu exemplo mais característico está na coluna do templo de Der-el Bahari, que, pela simplicidade, podemos considerar moderno. Dessa coluna, como veremos mais adiante, se originaram as colunas dóricas gregas.

A lotiforme tem o fuste composto de talos de lótus em feixe, como se estivessem amarrados. Seu capitel é uma flor de lótus não desabrochada e geometricamente estilizada.

A campaniforme, também chamada papiriforme, distingue-se pelo capitel em forma de campânula que representa a flor de lótus ou do papiro plenamente desabrochada. É a mais decorativa e luxuosa coluna egípcia, realçada pela geometrização e colorido vivo dos elementos florais.

A hatórica tem no capitel um rosto humano, personificação da deusa Hator, representada por uma vaca. No alto da cabeça, pequeno templo.

Conforme dissemos, a arquitetura egípcia, como toda arquitetura antiga era modular, isto é, possuía um módulo, medida padrão para estabelecer as proporções entre as diferentes partes do edifício, obtendo-se, desse modo uma impressão de variedade dentro da unidade, era colorida também. As dimensões das colunas obedeciam igualmente a módulos, que variavam naturalmente no decorrer do tempo.

Segundo a técnica, as colunas poderiam ser monolíticas, isto é, inteiriças, feitas num só bloco ou de tambores superpostos. Esta última técnica era a mais comum, particularmente nas colunas de maiores dimensões.


ESCULTURA

No início deste polígrafo, vimos que as artes no Egito estavam exclusivamente a serviço da religião. Eram, portanto, artes dirigidas, que obedeciam a prescrições religiosas, estabelecidas pelos sacerdotes, prescrições, estas que conferiam à escultura egípcia seu caráter bastante peculiar.

Os egípcios foram talvez os maiores estatuários da antigüidade, são admiráveis no domínio do material e no poder expressivo. Conhecem-se as escolas de arte e os atelieres junto aos templos e palácios, nos quais se faziam demoradas e severas aprendizagens. Mostram-se excelentes no tratamento do material utilizado, tanto os resistentes, como o granito, o basalto, a diorita, como os mais brandos, os calcários macios e a madeira. Não se deve esquecer o vidro e a moldagem em barro, sobretudo figurinhas em cerâmica, feitas com maior liberdade de interpretação, tocadas sempre de vivo realismo, abundantes entre os utensílios e os objetos funerários. Foram igualmente bons no baixo-relevo e no desenho de incisão, com que cobriam as superfícies das paredes e colunas dos templos.

Como a arquitetura, a escultura, era também policromada e sente-se constante preocupação de associar as duas artes, num todo harmonioso. Se considerarmos o caráter o caráter mural da sua pintura, concluiremos que, por força inclusive dos seus sentimentos religiosos, os egípcios realizavam o que se chama modernamente a integração ou síntese das artes, tendência dominante nas artes contemporâneas, quando a pintura e a escultura estão voltando à matriz comum na arquitetura.

Por outro lado, apesar das convenções a que foram submetidos, os escultores revelam acentos pessoais. Poucos souberam impregnar a imagem humana da atmosfera de grandeza soberana. Tantas vezes os faraós surgem plenos de dignidade, embora seminus, trajando simples tangas.

Por sua finalidade religiosa e associação com a arquitetura, a escultura egípcia adquire generalizado caráter monumental, embora a dimensão grandiosa não seja a qualidade única do monumentalismo. Estátuas de enormes dimensões são comuns, os colossos de Ramsés II, em Abu Simbel, no alto Nilo, impressionam pelo tamanho, como as esculturas dos grandes templos, especialmente em Luxor e Karnak.

O transporte desses colosso, alguns desenterrados depois de milênios, oferece aos arqueólogos modernos sérios problemas, que foram, no entanto, plenamente resolvidos, com os recursos elementares de que a antigüidade dispunha. Livros especializados, mostram as complexas e penosas operações de transporte dessas gigantescas massas de pedra por simples esforço do braço humano.

Como as demais artes, mesmo dentro dos princípios gerais de frontalismo e hieratismo, a escultura apresenta no decorrer dos tempos sensíveis variações estilísticas, sobretudo durante o reinado do faraó herético Amenófis IV ou Aknaton, na XVIII Dinastia, promotor de reforma social e religiosa que teve vivos reflexos nas artes.

Na época de Aknaton, a escultura adquiriu acentuado caráter naturalista, assim como na pintura, ambas contrariaram convenções religiosas e artísticas milenarmente estabelecidas.

Evidente que a natureza destes apontamentos, simples apostilas de aulas, não permite considerações mais demoradas em torno da evolução estilística das artes egípcias. No entanto, podemos acentuar que a partir do Império Médio as artes figurativas começam a perder a vigorosa síntese do realismo de expressão do Antigo Império, passando a adquirir certos meneios decorativos, acompanhados de virtuosismo técnico. Essas características acentuam-se bastante no Novo Império, à medida que a civilização egípcia entre em decadência e praticamente desaparece, sob o domínio de sucessivos invasores, os últimos dos quais, na Idade Média, foram os árabes, que se instalaram até hoje em seu país.


PINTURA

Para que possa ser melhor compreendida, a pintura egípcia deve ser examinada nos seus aspectos técnicos e expressivos, alguns bastante característicos. Nos aspectos técnicos, está o processo de pintar a fresco, que estudamos anteriormente, quando falávamos de suas relações com a crença na imortalidade da alma. Nos expressivos, destaca-se a Lei da Frontalidade, também intimamente identificada com a religião.

A Lei da Frontalidade

Quando contemplamos uma pintura egípcia notamos várias singularidades, as figuras humanas como que sofreram verdadeira distorção. No rosto de perfil, o olho está de frente, o tórax é visto de frente, enquanto as pernas e os pés estão de perfil. Essas singularidades se observam sistematicamente em todos os desenhos e relevos egípcios, desde os tempos mais antigos.

Julgou-se, a princípio, fosse ingenuidade ou incapacidade, mas isso não seria possível num povo tão adiantado em outras atividades e conhecimentos. O próprio Champollion dizia não se poder explicar essa singularidade por simples ingenuidade. Finalmente, foram estudadas essas anomalias e receberam a denominação de lei da Frontalidade.

A Lei de Frontalidade baseia-se num princípio de deferência recíproca, deferência ao contemplador para coma imagem e da imagem para com o contemplador. É característica das artes religiosas, cortesãs ou oficiais, especialmente nos períodos primitivos.

A imagem dos deuses, dos reis e governantes, dos poderosos em suma, exige o máximo de referência da pessoa que a contempla, em reciprocidade, numa deferência mútua, essa imagem mostra-se completamente, na maior área de visibilidade, para que receba o máximo de reverência. Estão sempre de frente, frontalmente, mostrando-se por inteiro, para o máximo de adoração ou respeito. Raro ver a imagem de um deus ou rei em três quartos (3/4), um pouco mais de lado, num ângulo de baixo para cima ou de cima para baixo, representada de modo audacioso ou livre, estão sempre de frente, algumas vezes de perfil, que é uma espécie de frontalismo.

Dificilmente aceitaríamos o retrato oficial de um chefe de Estado moderno, retrato destinado a receber reverência, porque símbolo do próprio Estado, numa atitude ousada, num close-up em que não se apresentasse completamente, não fosse visto inteiramente, para receber o máximo de reverência.

Para obter a representação da imagem completa dos seus deuses e reis, ambos merecedores do máximo de reverência, porque divinos, os egípcios representavam-na nos aspectos mais característicos e, sobretudo, de maior visibilidade. Desenhando o rosto de perfil, procuravam mostrá-lo ao máximo e, particularmente, no aspecto mais característico, pois o aspecto mais característico e inconfundível do rosto humano é o perfil. Visto de frente, reduzido a um simples oval, onde o nariz e a boca tem os seus valores diminuídos, o rosto humano não é tão característico e possui menor área de visibilidade. Tanto isso é verdade, que as autoridades policiais ainda hoje não se contentam apenas com a fotografia de frente, exigem também a de perfil, mais característica e inconfundível. Nesse ponto as polícias modernas ainda estão nos tempos dos faraós.

No rosto de perfil, colocavam o olho de frente. De frente o olho humano é mais olho e mais visto, isto é, oferece maior área visual.

Pelo caráter abstrato e simbólico de sua pintura, que fixava o tipo e não o indivíduo, o pintor egípcio não individualizava o perfil, representando-o de maneira uniforme e convencional, sobretudo nos temas sagrados. Mais tarde, quando se atenuaram as prescrições religiosas, representou perfis com maior realismo.

Tratava o tórax do mesmo modo, representando-o de frente, visto de perfil, o tórax não é tão característico quanto visto de frente, quando o vemos de maneira mais completa. As mesmas observações aplicam-se às pernas e aos pés, um pé é mais pé, digamos assim, oferecendo maior área de visibilidade quando visto de perfil.

Desse modo, nas suas intrigantes anomalias, o egípcio queria na realidade era representar ao máximo a figura humana, nos seus aspectos mais típicos e totais, para que a imagem divinizada de rei ou deus recebesse o máximo de reverência e, ao máximo, se oferecesse a essa reverência.

A Lei da Frontalidade é constante através dos tempos nas imagens religiosas e cortesãs, acentuadamente nas artes primitivas, carregadas de maior misticismo. À medida que a pintura vai perdendo sua exclusiva finalidade religiosa ou cortesã, isto é, à medida que vai deixando de servir exclusivamente aos deuses e aos reis, vai diminuindo e depois infringindo os princípios de frontalismo. Um gênero de arte marcadamente cortesão, a ópera lírica, por exemplo, ainda se rege pelos princípios da frontalidade. Todos sabemos que por muito tempo os atores de teatro não davam as costas ao público, mantendo-se invariavelmente em atitude frontalística.

A própria fotografia esteve longo tempo presa à lei de Frontalidade. Os fotógrafos dos jardins públicos, verdadeiros primitivos da fotografia, quando mandam o paciente ficar duro como um pedaço de pau, olho grudado na objetiva, estão, no seu rudimentarismo técnico e expressivo, inconscientemente obedecendo à lei de Frontalidade.

Os desenhos pré-históricos da idade paleolítica, apresentando sempre os animais de perfil, são frontalistas, porque desejam apresentá-los totalmente, nos seus aspectos mais característicos.

Quem vibrou o golpe de morte no frontalismo, pela mobilidade da câmara, permitindo os mais diversos e inesperados ângulos de visão, foi a mais revolucionária das artes contemporâneas - o cinema.

Perspectiva e Claro-Escuro

Outro aspecto interessante é que os egípcios não representavam, nas suas pinturas, a ilusão de espaço ou profundidade, em outras palavras, não usavam a perspectiva científica.

A perspectiva científica, restaurada plenamente na pintura européia pelos artistas italianos pré-renascentistas, é a representação dos corpos no espaço, segundo a posição que ocupam e o ângulo por que são vistos. Como sabemos, existem na pintura duas espécies de perspectivas - a linear e a aérea, em outras palavras, a do desenho e a da cor.

A linear, também chamada geométrica, é obtida pelo desenho, isto é, pela direção das linhas e deformação das imagens. Quando se representa uma rua em perspectiva, por exemplo, o tamanho das casas vai diminuindo à medida que se distanciam. Todas as linhas convergem para um ponto único, situado no nível do horizonte e denominado ponto de vista.

Quando desenhamos uma mesa em perspectiva, deformamo-la segundo nossa percepção visual, não segundo a realidade da mesa - a cabeceira mais próxima é maior; a mais distante, menor. Esta, em linhas gerais e através destes exemplos banais, é a perspectiva linear ou geométrica.

A perspectiva aérea é obtida através das cores, são as gradações, o esbatimento, o esmaciamento das cores, produzido pela distância, com a interposição das camadas atmosféricas entre o olhar do contemplador e a coisa vista ao longe, sendo que as cores dos objetos mais próximos são mais vivas.

As duas perspectivas, a linear ou geométrica e a aérea, combinadas e bem aplicadas, proporcionam ilusão perfeita de espaço ou de terceira dimensão.

Apesar de sua experiência na pintura e de seus progressos em tantos planos do saber, os egípcios jamais aplicaram esse processo de representação ilusionista das imagens da realidade. Para representar o espaço, mas, na verdade, apenas sugerindo-o, usavam outro processo também adotado por povos antigos, superpunham as figuras ou cenas em faixas horizontais. Isso significa que as figuras ou cenas da faixa mais baixa, estão mais próximas; as da intermediária, mais distantes; e as da faixa mais alta, ainda mais distanciadas.

Observem que as crianças também não sabem representar os corpos em perspectiva. Quando pedimos a um garoto para representar um casa, faz as fachadas fronteira e lateral na mesma linha de base. Ao desenhar uma cadeira, na impossibilidade de representá-la em perspectiva, representa-a de perfil. A criança não se dá conta desses erros de perspectiva senão quando cresce e seu conhecimento e interpretação da realidade deixam de fazer-se predominantemente através do sentimento, para serem feitos também através da razão e, portanto, de abstração. Porque em última análise, a representação em perspectiva dos objetos no espaço é um processo intelectual de abstração, que exige certa maturidade mental.

Por isso mesmo vamos encontrar pela primeira vez a aplicação da perspectiva científica, entre os gregos clássicos por excelência racionalistas e intelectuais. Não conheciam e interpretavam o mundo à base exclusivamente do sentimento, que deforma as imagens da realidade, como o selvagem, o egípcio, o mesopotâmico e a criança. Os povos anteriores aos gregos e as épocas artísticas posteriores, mas desconhecedoras da cultura grega, não aplicam também as regras da perspectiva científica.

Desaparecido o racionalismo grego e sobrevindo o misticismo cristão dos primeiro séculos da Idade Média, isto é, o mundo de novo conhecido e interpretado não à base de especulação racional e científica, mas do sentimento e da emoção, no caso religioso, desapareceu também na pintura européia a representação em perspectiva, com iremos ver nos artistas cristãos primitivos, nos bizantinos e românicos.

A história da pintura européia, do início da Idade Média aos Tempos Modernos, pode ser contada como a lenta e laboriosa reconquista da visão em perspectiva científica.

Outra observação ainda poderemos fazer em relação à pintura egípcia, a ausência do claro-escuro, isto é, as gradações entre sombra e luz, para dar a ilusão de volume. Embora não aplicassem esse recurso, os pintores egípcios procuravam comunicar a sensação de volume e mesmo de espaço mediante certas inflexões da linha e a oposição de cores quentes e frias.

Por último, não pintava a óleo, a técnica da pintura a óleo, isto é, a dissolução das tintas no óleo de linhaça, só se tornou conhecida nos princípios do século XV, graças a descoberta ou aperfeiçoamento atribuído aos irmãos Van Eick, pintores flamengos notáveis tanto por essa técnica como pelos valores expressivos de suas obras. A técnica preferida pelos pintores egípcios era o afresco, ainda que utilizassem também a têmpera e a encáustica, cujos processos explicaremos mais adiante.

Apesar de figurativa, a pintura egípcia é abstrata, no sentido de não revelar expressão direta da realidade na sua verdade visual, como se pode concluir pela sistemática aplicação da lei de Frontalidade, reveladora não de sensações óticas, mas de sentimentos religiosos.

No Antigo Império, os pintores eram simples na composição, sintéticos no desenho e sóbrios no colorido. Usavam tonalidades particularmente sombrias e graves, comunicam-nos sentimentos de estabilidade, são pouco dinâmicos. A partir do Império Médio e, principalmente no Novo Império, insinuam-se intenções decorativas e de elegância ornamental, que atingem finalmente certo preciosismo luxuoso.

Essa tendência decorativa predomina durante as conquistas grega e romana, que marcam a decadência do Egito antigo e o conseqüente desaparecimento de suas formas artísticas autênticas e características.

A época Saíta, anterior à conquista de Alexandre, revela uma espécie de renascimento. Os artistas inspiram-se nas formas simples e graciosas do Antigo Império, numa volta ao passado nacional. Pouco depois, sob a influência grega, exercida sobretudo através da cidade de Alexandria, centro cosmopolita de cultura, e o advento de novas condições históricas e sociais, extinguem-se as formas de arte egípcias, que tanto haviam procurado exprimir o eterno.


ARTES DECORATIVAS

Nas artes menores ou chamadas Artes Decorativas, mobiliário, ourivesaria, cerâmica, etc., os egípcios também revelaram-se excelentes criadores. Criaram, por exemplo, todos os tipos de móveis conhecidos, elegantes e confortáveis. Trabalharam caprichosamente a madeira, com incrustações de marfim, metal e pinturas laqueadas, como se observa nos utensílios e peças funerárias retirados dos túmulos e hoje nos museus europeus.

As jóias, braceletes, pulseiras, colares, peitorais e anéis, feitos de materiais semiprecioso

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