O Mito e suas Características

Autor:
Instituição: Ufpe
Tema: Mito

MITO

Recife - PE

Maio / 2003


INTRODUÇÃO

Este trabalho foi realizado no intuito de expor de forma clara e sucinta ao leitor, o que vem a ser mito. Pensando nisto elucidaremos inicialmente como alguns estudiosos sobre o assunto o define; depois sintetizar o apresentado. Para se fazer bem entender em seguida iremos caracteriza-lo, e esclarecer através de um diferencial entre mito e lenda, religião e razão.

Por fim exemplificaremos com uma síntese do "mito da caverna" com a finalidade de dirimir toda e qualquer dúvida do que é mito.


MITO

Há vários caminhos a trilhar quando pensamos em estabelecer uma definição do que seja mito, pois falar de mito é embrenhar-se em diversos campos do conhecimento e inúmeras formas de interpretação. O termo já encerra em si grandes contradições: ora como "mentira", ora como a verdade íntima escondida atrás de um véu, o mito para muitos nega a razão e a realidade, ainda que quase sempre não haja um questionamento profundo sobre esses dois conceitos. Há tantas definições para o termo quantas as diversas dinâmicas de compreensão do homem face ao mundo em que vive. O mito não nega a razão, mas apodera-se dela de tal forma que a recria e a transcende suscitando, desse modo, diversas realidades em diferentes "mundos" do pensar: Moyers compreende que "aquilo que os seres humanos têm em comum se revela nos mitos. Mitos são histórias de nossa busca da verdade, de sentido e de significação, através dos tempos" (1988:5). O mito enquanto uma narrativa repleta de valores e crenças é um conjunto de imagens e símbolos que traduzem o pensamento, a história, a capacidade de criar e de gerar o novo. O mito é sempre uma incógnita, uma cortina meio transparente, uma forma de dizer tudo revelando muito pouco; enfim, uma grande metáfora.

Nenhum mito surge do nada ou da simples vontade de existir; sua origem ou localização temporal dos fatos de que falam são questões bastante complexas. Ao utilizarmos métodos limitados de interpretação, reduzimos o mito a definições que o apresentam como simples fantasia ou fato ilusório. Mircea Elaide, um estudioso dos mitos e das religiões, afirma que "nas sociedades em que o mito ainda está vivo, há uma distinção cuidadosa entre histórias verdadeiras e histórias falsas" (2000:13). Para os indígenas, o mito está na categoria das histórias verdadeiras, enquanto as histórias falsas são representadas por fábulas ou contos.

A palavra mito se usa habitualmente como sinônimo de crença dotada de validade mínima e de pouca verossimilhança. Neste sentido, mito indica algo de irreal e inatingível, como quando se diz, por exemplo, "uma beleza mítica".

O mito, porém, para o mundo letrado, representa uma forma autônoma de pensamento, persistente e resistente às invectivas de liquidação feitas pelo saber filosófico e científico. É conhecimento que contém o imediato da experiência numa unidade "fantástica" de difícil acesso. Só o pensamento o alcança, nunca o discurso de filosofia nem o de ciência.

"O mito não encontra, de maneira nenhuma, adequada objetividade no discurso" (Nietzsche, F. Origem da Tragédia. Lisboa 1972, p. 128).

O empirismo científico nos acostumou a considerar o mito como um conhecimento "irracional" e infundado, produto de uma atividade intelectual pré-lógica. O pensamento, porém, reconhece o mito de tal forma que com ele se identifica: o mito é pensamento que conhece e se comunica intensamente com a realidade.

Para Platão o mito era conhecimento da realidade. Sua filosofia se fez à base de mitos. Orígenes pôde dizer que o método filosófico de Platão resumia-se em "esconder as grandes doutrinas dentro de mitos" (Cels., 4,39). E Aristóteles, embora tenha conduzido a filosofia pelos caminhos da lógica, afirmava que "o filósofo é, em certo sentido, amigo dos mitos porque o mito diz coisas que maravilham" (Met., I, cap. 2).

"Um mito diz respeito, sempre, a acontecimentos passados: ‘antes da criação do mundo’, ou ‘durante os primeiros tempos’, em todo caso ‘faz muito tempo’. Mas o valor intrínseco atribuído ao mito provém de que estes acontecimentos, que decorrem supostamente em um momento do tempo, formam também uma estrutura permanente. Esta se relaciona simultaneamente ao passado, ao presente e ao futuro" (Lévi-Strauss, C. Antropologia Estrutural. Rio 1975, p. 241).

O mito é um conhecimento originário, de valor constante e onipresente, porque exprime os mais recônditos níveis de experiência da psique humana da qual o consciente lógico é apenas uma expressão. Em contraposição à consciência lógica, o mito encerra o sonho desperto dos povos, coreógrafa o delírio báquico da vida, e dramatiza a linguagem da realidade em seu segredo dionisíaco.

O mito está, por isso, intimamente ligado ao mistério, pois, quando se percebe o mito de cada coisa se está na experiência do mistério. Mistério é cada presença na força fantástica de si.

"O mito não é uma simples narrativa, nem uma forma de ciência, nem um ramo de arte ou de história, nem uma narração explicativa. O mito cumpre uma função sui generis, intimamente ligada à natureza da tradição e à continuidade da cultura... A função do mito é, em resumo, a de reforçar a tradição e dar-lhe maior valor e prestígio, unindo-a à mais alta, melhor e mais sobrenatural realidade dos acontecimentos iniciais. Cada mudança histórica cria uma mitologia, que é todavia só indiretamente relativa ao fato histórico" (Malinowski, B. Myth in Primitive Psychology, em Magic, Science and Religion, 1955, p.146).

Na perspectiva funcional sugerida por Malinowski, o mito é conhecimento que fundamenta e consolida a convivência humana. Nele e por ele acontece a vida associada. Ele amalgama os indivíduos. Convence-os a participar juntos da origem e do destino de suas vidas. E é por isso que a narração mítica tem como cenário a vida comunitária. Ao narrar os mitos, a comunidade narra os acontecimentos de sua vida: o nascimento, a morte, a família, o parentesco, o uso das coisas, crenças, as práticas religiosas, as festas, as danças, as atividades de sustento e de ocupação do solo, os conflitos de guerra, as alianças de paz...

A narração mítica desses acontecimentos que fundamentam a comunidade constitui a história do mito. Ler o mito significa acompanhar as peripécias da comunidade. Pelos mitos temos acesso à vida das comunidades míticas. Há perfeita identidade entre mito e comunidade. Esta se espelha naquele. Aquele orienta esta. Uma orientação superior que fala de sua origem, diz o seu presente e profere o seu futuro. A comunidade está no mito como habitante na paisagem. Esta orienta todos os seus afazeres.

Os mitos estimulam a tomada de consciência da sua perfeição possível, a plenitude da sua força, a introdução da luz solar no mundo. Destruir "monstros" é destruir coisas sombrias. Quando criança, o mito é encarado de um modo. Mais tarde, os mitos dizem mais e mais e muito mais. Quem quer que tenha trabalhado seriamente com idéias religiosas ou míticas sabe que, quando crianças, nós as aprendemos num certo nível, mas depois outros níveis se revelam. Os mitos estão muito perto do inconsciente coletivo, e por isso são infinitos na sua revelação.

Presentes em todas as culturas, os mitos situam-se entre a razão e a fé, mas são considerados sagrados. Os principais tipos de mito referem-se à origem dos deuses, do mundo e ao fim das coisas. Também há mitos que procuram explicar a origem da sociedade, a posição de um povo em relação aos demais, o pecado original, etc.

Distinguem-se mitos que contam o nascimento dos deuses (teogonia), mitos que contam a criação do mundo (cosmogonia), mitos que explicam o destino do homem após a morte (escatologia) e outros. As três primeiras categorias têm relações íntimas com as religiões: numerosos ritos religiosos reproduzem, na verdade, certos aspectos ou certos detalhes dos mitos. Segundo alguns antropólogos, o mito precederia o rito.


2 - SÍNTESE DA DEFINIÇÃO DE MITO

  • Relato ou narrativa de origem remota e significação simbólica, que tem como personagens deuses, seres sobrenaturais, fantasmas coletivos.
  • Representação de fatos ou personagens reais exagerados pela imaginação popular e tomados como modelo ou exemplo.


3 - CARACTERÍSTICAS DO MITO

A narração mitológica envolve basicamente acontecimentos supostos, relativos a épocas primordiais, ocorridos antes do surgimento dos homens (história dos deuses) ou com os "primeiros" homens (história ancestral). O verdadeiro objeto do mito, contudo, não são os deuses nem os ancestrais, mas a apresentação de um conjunto de ocorrências fabulosas com que se procura dar sentido ao mundo. O mito aprece e funciona como mediação simbólica entre o sagrado e o profano, condição necessária à ordem do mundo e às relações entre os seres. Sob sua forma principal, o mito é cosmogônico ou escatológico, tendo o homem como ponto de interseção entre o estado primordial da realidade e sua transformação última, dentro do ciclo permanente nascimento-morte, origem e fim do mundo.

As semelhanças com a religião mostram que o mito se refere — ao menos em seus níveis mais profundos — a temas e interesses que transcendem a experiência imediata, o senso comum e a razão: Deus, a origem, o bem e o mal, o comportamento ético e a escatologia. Crê-se no mito, sem necessidade ou possibilidade de demonstração. Rejeitado ou questionado, o mito se converte em fábula ou ficção.


4 - MITO E LENDA

Durante muito tempo confundiu-se o mito com a lenda, uma vez que se lhe conferia o significado de coisa oposta à realidade, em consonância com o sentido expresso pela palavra grega mythos; evocava então apenas as idéias de "fábula", "conto", "ficção", "invenção", em contraste com as noções de historia ("resultado de informações") e alethéia ("verdade" ou "realidade"). Entretanto, nas culturas onde o mito desempenha funções ativas no conjunto da organização social, distinguem-se as histórias "falsas" ou inventadas (lendas, fábulas) das histórias "verdadeiras", (mitos).

O principio básico que em geral diferencia o mito da lenda é a própria natureza das duas categorias de relato, embora ambas se refiram a acontecimentos, de um passado distante e fabuloso. A lenda, "história falsa", narra feitos de alguns heróis populares, explica particularidades anatômicas de certos animais, etc., ao passo que omito, "história verdadeira", se reporta à criação do mundo e dos homens, à origem da morte, etc. O valor social atribuído a cada uma dessas categorias reflete-se na atitude com que são tratadas: se a lenda pode ser contada por qualquer um e a qualquer momento, o mito, na maioria dos casos, toma o caráter de revelação sagrada, de verdadeira iniciação.

Compreende-se, assim, a importância dada ao mito em algumas culturas, onde atua como elemento integrante da religião. Não se reduz à simples narrativa literária, porquanto é encarado como intervenção da história sagrada no mundo, um dado ou um conjunto de dados que geram a realidade ao se incorporarem nos costumes, instituições e técnicas tradicionais da coletividade. Diferencia-se da lenda pelo fato de que sua história fornece o fundamento de toda anda social e tem caráter religioso. Certos contos e lendas podem ser considerados como formas secundárias do mito, mas sua transmissão é folclórica, espontânea, e não iniciática e religiosa.


5 - MITO E RELIGIÃO

Alguns especialistas, como Mircea Eliade, estudioso de história comparada das religiões, atribuem importância especial ao contexto religioso do mito. Com efeito, são muito freqüentes os mitos que versam sobre a origem dos deuses e do mundo (chamados, respectivamente, mitos teogônicos e cosmogônicos), dos homens, de determinados ritos religiosos, de preceitos morais, tabus, pecados e redenção. Em certas religiões, os mitos formam um corpo doutrinal e estilo estreitamente relacionados com os rituais religiosos o que levou alguns autores a considerar que a origem e a função dos mitos é explicar os rituais religiosos. Mas tal hipótese não foi universalmente aceita, por não esclarecer a formação dos rituais e porque existem mitos que não correspondem a um ritual.

Nas religiões monoteístas, as mitologias, sobretudo as teogonias, são geralmente repudiadas como exemplos de ateísmo ou politeísmo, pois representariam urna desvirtuação do Deus único e transcendente, à medida que o relacionam a manifestações ou representações de outras criaturas. Entretanto, essas mesmas religiões também recorrem a descrições fantásticas, de caráter simbólico, para explicar a origem do mundo e do pecado, o fim do mundo e a vida ultraterrena, e não deixam de atribuir a Deus reações e sentimentos humanos.

O mito, portanto, é uma linguagem apropriada para a religião. Isso não significa que a re1igião, tampouco o mito, conte uma história falsa, mas que ambos traduzem numa linguagem plástica (isto é, em descrições e narrações) uma realidade que transcende o senso comum e a racionalidade humana e que, portanto, não cabe em meros conceitos analíticos. Religião e mito diferem, não quanto à verdade ou falsidade daquilo que narram, mas quanto ao tipo de mensagem que transmitem.

A mensagem religiosa geralmente exige determinado comportamento perante Deus, o sagrado e os homens, e é, muitas vezes, formulada de forma compatível com conceitos racionais e em doutrinas sistematizadas).


6 - MITO E RAZÃO

Alguns autores reduzem os nutos a narrativas referentes a tempos arcaicos e elaboradas em épocas pré-críticas, isto é, antes do uso de métodos racionais de estudo e análise. Entendem que o mito tomou-se, com o tempo, mera literatura, embora encontrem dificuldades para estabelecer com precisão quando teria cessado a criatividade mítica. Outros estudiosos, ao contrário, consideram o pensamento mítico una constante antropológica, complementar ao pensamento racional (e não um estágio "menos evoluído" deste). Apontam, para demonstrá-lo, indícios de que o pensamento mítico está em operação em muitas das manifestações culturais contemporâneas (como a arte). Em convivência com a reconhecida tendência à secularização, que "desmitologiza" os símbolos religiosos, morais ou épicos e os equipara a pura "ilusão", existiria uma outra, responsável pela produção de novos mitos ou, mais exatamente, novas formas simbólicas dos temas míticos tradicionais.

O pensamento racional e científico não seria, portanto, um "desmascarador" de mitos e substituto do pensamento mítico, mas pode ser capaz de reconhecer sua atualidade.

Se uma das características fundamentais do pensamento mítico é efetivamente a aceitação acrítica das narrativas e explicações que ele produz, será então extremamente dificil que uma sociedade reconheça seus próprios mitos como tais, pois isso significaria considerá-los de um ponto de vista crítico, de forma que eles passariam a ser vistos como mera ficção ou, se aceitos como verdadeiros, tomar-se-iam valores morais, religiosos ou éticos. Em qualquer caso, existe uma resistência individual e social a "desmascarar" o mito e a considerá-lo em seu caráter de linguagem simbólica.


7 - O MITO DA CAVERNA

Imaginemos homens que vivam numa caverna cuja entrada se abre para a luz em toda a sua largura, com um amplo saguão de acessa Imaginemos que esta caverna seja habitada, e seus habitantes tenham as pernas e o pescoço amarrados de tal modo que não possam mudar de posição e tenham de olhar apenas para o fundo da caverna, onde há uma parede. Imaginemos ainda que, bem em frente da entrada da caverna, exista um pequeno muro da altura de um homem e que, por trás desse muro, se movam homens carregando sobre os ombros estátuas trabalhadas em pedra e madeira, representando os mais diversos tipos de coisas. Imaginemos também que, por lá, no alto, brilhe o sol. Finalmente, imaginemos que a caverna produza ecos e que os homens que passam por trás do muro estejam falando de modo que suas vozes ecoem no fundo da caverna

Se fosse assim, certamente os habitantes da caverna nada poderiam ver além das sombras das pequenas estátuas projetadas no fundo da caverna e ouviriam apenas o eco das vozes. Entretanto, por nunca terem visto outra coisa, eles acreditariam que aquelas sombras, que eram cópias imperfeitas de objetos reais, eram a única e verdadeira realidade e que o eco das vozes seriam o som real das vozes emitidas pelas sombras.

Suponhamos, agora, que um daqueles habitantes consiga se soltar das correntes que o prendem. Com muita dificuldade e sentindo-se freqüentemente tonto, ele se voltaria para a luz e começaria a subir até a entrada da caverna. Com muita dificuldade e sentindo-se perdido, ele começaria a se habituar à nova visão com a qual se deparava. Habituando os olhos e os ouvidos, ele veria as estatuetas moverem-se por sobre o muro e, apos formular inúmeras hipóteses, por fim compreenderia que elas possuem mais detalhes e são muito mais belas que as sombras que antes via na caverna, e que agora lhes parece algo irreal ou limitado. Suponhamos que alguém o traga para o outro lado do muro. Primeiramente ele ficaria ofuscado e amedrontado pelo excesso de luz; depois, habituando-se, veria as várias coisas em si mesmas; e, por último, veria a própria luz do sol refletida em todas as coisas. Compreenderia, então, que estas e somente estas coisas seriam a realidade e que o sol seria a causa de todas as outras coisas. Mas ele se entristeceria se seus companheiros da caverna ficassem ainda em sua obscura ignorância acerca das causas últimas das coisas. Assim, ele, por amor, voltaria a caverna a fim de libertar seus irmãos do julgo da ignorância e dos grilhões que os prendiam. Mas, quando volta, ele é recebido como um louco que não reconhece ou não mais se adpata à realidade que eles pensam ser a verdadeira: a realidade das sombras. E, então, eles o desprezariam...


CONCLUSÃO

Com a realização deste trabalho, podemos observar que a semelhança entre mito, lenda e religião se confundem um pouco e para um leigo no assunto pode ser considerado a mesma coisa.

Mostrou mais uma vez a importância que o biblioteconomista deve ter em ampliar seu campo de visão ao máximo, para que com isso possa reconhecer cada parte por mais simples que possa parecer da sua profissão. Afinal cabe ao profissional catalogar de forma precisa e explicar a terceiros o que possa ter dúvida.


BIBLIOGRAFIA

BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao Pensar. 15. ed. Vozes.

CAMPBELL, Joseph & MOYERS, Bill. O Poder do Mito. São Paulo, Palas Athena, 2000.

CHAUI, Marilena. Convite a Filosofia.

ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. São Paulo, Perspectiva, 2000.

Enciclopédia Larousse, vol. 6. São Paulo, Cultural, 1987.

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