Monografia: Analisando a Cartografia Tátil como recurso didático da Cartografia Escolar para o ensino da Geografia e inclusão dos deficientes visuais e os de baixa visão

Autor:
Instituição: IFF
Tema: Monografia: Analisando a Cartografia Tátil como recurso didático da Cartografia Escolar para o ensino da Geografia e inclusão dos deficientes visuais e os de baixa visão

Analisando a Cartografia Tátil como recurso didático da Cartografia Escolar para o ensino da Geografia e inclusão dos deficientes visuais e os de baixa visão.

O presente artigo ressalta a importância da Cartografia Escolar no ensino da Geografia e apresenta uma análise da Cartografia Tátil como recurso didático auxiliar e facilitador voltado para o ensino desta disciplina, além de contribuir para a inclusão dos alunos que apresentem deficiência visual ou sub-visão. Estes pesquisadores defendem que sem o uso deste importante recurso didático nas aulas de Geografia, muitos conceitos estudados nesta disciplina tornam-se não inteligíveis e por demais abstratos. Deve-se destacar também que a Cartografia Tátil muito contribui para garantir o direito constitucional de ir e vir, adquirido por estes alunos cidadãos, e que muitas vezes fica relegado e esquecido, prejudicando assim a autonomia e segurança destes.

Palavras-chave: Cartografia Tátil. Cartografia Escolar. Educação Inclusiva. Deficientes visuais e de baixa visão. Geografia.

Looking at the Tactile Cartography as a teaching of cartography for the School of Geography and inclusion of blind and low vision.

Abstract: This article highlights the importance of cartography in the School of Geography and provides an analysis of Tactile Cartography as a teaching assistant and facilitator for teaching this course, which also provides for the inclusion of students with a visual impairment or sub-view. These researchers argue that without the use of this important resource in the classroom teaching of geography, many concepts studied in this course become unintelligible and too abstract. It should be noted also that the very Tactile Mapping helps to ensure the constitutional right to come and go, these students acquired by citizens, and that often gets relegated and forgotten, thus undermining their autonomy and security.

Key words: Tactile Mapping. Mapping School. Inclusive Education. Blind and low vision. Geography.

1 Introdução

O poema Condição, criado por Guizão Drumond, é tema da campanha de inclusão das pessoas com necessidades especiais e tem sido muito divulgado na mídia ultimamente.

Eu não sou diferente de ninguém quase todo mundo faz assim eu me viro bem melhor quando tá mais pra bom que pra ruim não quero causar impacto nem tão pouco sensação o que diga bem exato é o que cabe na canção [...] eu não sei viver triste, sozinho é a minha condição...
_______________________
*Aluno do curso de Pós–graduação Lato Sensu em Ensino de Geografia: as práticas da Geografia escolar em perspectiva, teorias, história e tecnologias, pelo Instituto Federal Fluminense – IFF, Campos - campus Centro. Professor de Geografia da Rede Particular de Ensino nos municípios de Macaé/RJ e Rio das Ostras/RJ.
Nas últimas décadas, muito se tem discutido sobre as questões da garantia de acessibilidade e inclusão das pessoas com necessidades especiais. Legislações têm garantido este direito. É crescente o número de cursos de braile e libras à população: há maior divulgação na mídia a respeito da Educação inclusiva e acessibilidade, buscando sensibilizar e
conscientizar a sociedade, etc. Nesta perspectiva, destaca-se a importância da utilização de recursos didáticos nas diversas disciplinas, visando garantir a inclusão e proporcionar um melhor aprendizado aos educandos com necessidades especiais. Ressalta-se aqui a importância da Cartografia Tátil como recurso auxiliar nas aulas de Geografia.
Visando um melhor entendimento acerca do tema, faz-se necessário o esclarecimento e um aprofundamento de alguns conceitos, bem como das ciências correlatas. Para tanto, utiliza-se a análise bibliográfica dos diversos autores citados nas referências deste trabalho, bem como as legislações que tratam do assunto.
A Cartografia é uma ciência autônoma, amplamente utilizada no ensino da Geografia como recurso didático para um melhor entendimento das representações da Terra. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN): “A Cartografia pode oferecer uma variedade enorme de representações para o estudo dos lugares e do mundo”. (PCN, 1998, p. 76). Já a Cartografia Tátil é uma adaptação da Cartografia para atender aos deficientes visuais cegos e os de sub-visão. Entretanto, o mais importante é destacar a grande contribuição da Cartografia Tátil para a efetivação da Educação Inclusiva de qualidade, onde os alunos deficientes físicos visuais possam ser integrados num contexto amplo, numa escola que realmente atenda as suas necessidades e que busque uma educação para todos.
Com relação à Cartografia Escolar, os mapas táteis favorecem o processo de ensino-aprendizagem, pois foram criados, visando atender as deficiências visuais dos alunos, fornecendo informações sobre localização, área, fronteiras, espaço, direção e escala, além da ampliação da percepção espacial. Quanto à garantia da acessibilidade e autonomia dos deficientes visuais, os mapas táteis, quando bem elaborados, podem ser utilizados na mobilidade em edifícios, terminais (rodoviários, ferroviários, metroviários, aeroviários), escolas, nos shopping centers, universidades, repartições públicas, em centros urbanos, dentre outros.
Desta maneira, os mapas táteis podem ser enquadrados como grandes facilitadores, promovendo a mobilidade autônoma, além de ampliar a capacidade intelectual dos deficientes visuais. Daí a importância de mapas táteis tanto de edifícios públicos quanto de áreas centrais dos municípios, a fim de que estes possam ser usados nas escolas para atender aos alunos com deficiência visual e de baixa visão.

2 A Cartografia Escolar

A utilização de mapas para o ensino da Geografia é um instrumento didático muito valioso, no que diz respeito à interpretação da realidade, permitindo a análise da informação de maneira rápida e coesa. Segundo Loch: “Assim como o sentido da visão é reconhecidamente o mais importante canal para a aquisição da informação espacial e geográfica, reconhece-se que os mapas são veículos de informação visual dessas informações”. (LOCH, 2008, p. 45).
O aprendizado da linguagem cartográfica é um importante instrumento de ensino para os conteúdos geográficos, inclusive na formação dos profissionais da área, como professores de Geografia e geógrafos. Conforme Katuta: “As disciplinas do curso superior de Geografia deveriam utilizar essa linguagem, pois, não é possível entender geograficamente paisagens, lugares, territórios e regiões, entre outros, sem o uso de representações cartográficas”. (KATUTA, 1994, p. 133).
Segundo Almeida, citando Meine (MEINE apud ALMEIDA, 2007, p. 122), afirma que: “A Cartografia é uma ciência que engloba a teoria e a prática, utilizando duas esferas diferentes para a realização dos mapas: os processos científicos (generalização, minuta, etc) e os processos técnicos (desenho, reprodução, etc)”.
Na visão defendida por Board (BOARD apud ALMEIDA, 2007, p. 123): “O campo da Cartografia abrange desde a realidade a ser mapeada, escolha de dados, até o mapa e sua utilização. [...] a comunicação cartográfica enfatiza um processo, em vez de um produto, englobando o iniciador, o meio e o recebedor da informação”.
Le Sann, contribui para a ampliação deste conceito ao defender que o ensino da Cartografia ajuda a desenvolver nas crianças seu raciocínio lógico e facilita a memorização das distribuições espaciais. A autora afirma que a Cartografia serve para: “Localizar, representar, evidenciar relações lógicas e possibilitar explicações, é nesse sentido que a Cartografia possibilita a estruturação do pensamento científico e do conhecimento espacial”. (LE SANN, 1997, p. 30).
Contribuições significativas são fornecidas por Libault, sobre o desenvolvimento do estudo da Cartografia, destacando todos os aspectos relacionados ao preparo e confecção de mapas: dos trabalhos geodésicos básicos às diferentes formas de representação cartográfica, destacando a importância científica da elaboração de mapas. Já em relação ao Atlas1, o autor propõe que:

Para o ensino, a cartografação necessita de um estilo simplificado, evidenciando as feições essenciais da paisagem física e humana. A concepção didática será caracterizada por uma generalização expressiva, um desenho nítido, um colorido forte e diferenciado, sempre devendo ser considerado o grau de ensino ao qual for destinado o Atlas. (LIBAULT, 1975, p. 224).

Assim sendo e baseados nos estudos de Katuta, estes pesquisadores defendem a importância da Cartografia Escolar como instrumento fundamental a ser utilizado no ensino da Geografia, além de citar o resgate histórico apresentado pela autora, sobre a utilização da Cartografia em relação às três correntes ideológico-filosóficas (fases), que dominaram o pensamento geográfico nestes dois últimos séculos no Brasil. Segundo Katuta, “a linguagem cartográfica passou por basicamente três fases distintas”. (KATUTA, 1994, p. 135).
A primeira fase ocorre entre as décadas de 1930 a 1970. Nesse período, imperavam na Geografia brasileira os referenciais teórico-metodológicos denominados por alguns como Geografia Positivista ou Geografia Tradicional, onde os mapas eram utilizados apenas para localizar os fenômenos geográficos, sem a intervenção humana, como se não houvesse uma integração nem a co-participação dos seres humanos.
A segunda fase ocorre entre as décadas de 1970 a 1980 e é conhecida como Geografia Crítica. Nesta fase a Cartografia passa por um abandono, bem como a negação de qualquer material didático auxiliador, como o Atlas, mapas, cartas e globos, pela maioria dos professores e seguidores dessa corrente, pois relegava-se a importância dos mapas e destacava-se a discussão crítica e politizada, muitas vezes afastando-se da formação plena do cidadão.
Já a fase atual, teve início no final da década de 1980. Nela a linguagem cartográfica volta a ter uma importância fundamental devido, principalmente, ao acesso mais fácil a mapas atualizados na internet e a utilização diária, por parte da mídia, de mapas temáticos mais atrativos nos noticiários televisivos, fazendo com que despertasse um maior interesse por parte dos alunos. Seria uma fase de integração onde o mapa sozinho não responde aos questionamentos sem uma análise aprofundada do homem, que analisa e faz parte desse mesmo espaço geográfico. Esses ricos instrumentos didáticos estão voltando a ser utilizados no ensino da Geografia no Brasil de forma sistematizada nos mais variados níveis de ensino.
Não é demais lembrar, que as questões pertinentes à ordenação espacial dizem respeito a todos os seres humanos, sejam estes deficientes visuais ou não. Porém a Geografia em suas práticas e discursos, tende a determinar um único jeito de representar e interpretar o mundo, que seria a partir de uma análise “científica”, e não dá margem para a diversidade de leituras e vivências espaciais as quais muito contribuiriam para uma ampliação da visão do mundo, que nesse caso seria uma visão não se limitada à dimensão visual de nosso aparelho ótico.
Daí a relevância da Cartografia Escolar, destacando-se aqui a Cartografia Tátil, devido ao fato de que ela contribui significativamente para exercitar o raciocínio lógico, produzir conhecimentos novos, levantar e formular hipóteses, refletir e pensar o espaço, além de ser um diferencial da Geografia perante as outras disciplinas, pois nenhuma outra utiliza com tamanha desenvoltura os mais variados mapas em quaisquer assuntos abordados. Devido a constante utilização desse recurso didático em sala de aula, o mesmo contribui para que ocorra uma maior participação dos alunos, além de proporcionar uma maior integração entre estes e o planeta.

2.1A Cartografia Tátil como elemento de Educação Inclusiva

Queremos ter o direito de começar a enxergar como seria a escola dos nossos sonhos. Queremos ter o direito de sonhar e de nos mover em direção a esse sonho... jamais parar de sonhar. Porque o sonho é o combustível da esperança. E a esperança move as pessoas.
Roseli Salete Caldas

Para se entender o real significado da Cartografia Tátil no ensino para os deficientes visuais, faz-se necessário saber: o que é a Cartografia Tátil? Para que serve? A quem atende? Visando responder a estas questões, busca-se referencial nos estudos desenvolvidos nos últimos vinte anos por pesquisadores brasileiros, que servem-nos de referencial.
Loch, definindo o que seria Cartografia Tátil afirma que:

É um ramo específico da Cartografia, que se ocupa da confecção de mapas e outros produtos cartográficos que possam ser lidos por pessoas cegas ou com baixa visão. [...] Desta forma, os produtos de Cartografia Tátil podem ser enquadrados como recursos da tecnologia por auxiliarem a promover a independência de mobilidade e ampliar a capacidade intelectual de pessoas cegas ou com baixa visão. (LOCH, 2008, p. 35).

Freitas, nesta perspectiva, vem ampliar a concepção da Cartografia Tátil ao defender que:

Entende-se por Cartografia Tátil a área específica da Cartografia dedicada ao desenvolvimento metodológico; à produção de material didático tátil para a transmissão de conceitos geográficos, do meio ambiente e da vida em sociedade; bem como a sua aplicação prática em aulas para alunos cegos e de baixa visão. Usualmente, fazem parte deste tipo de material didático as maquetes táteis e os mapas táteis que, na maioria dos casos, são construídos de maneira convencional, que não explora outros canais de comunicação, a não ser o tátil (através do toque do aluno e do professor no material didático) e oral (através das orientações transmitidas pelo professor ao aluno). (FREITAS, 2008, p. 2).

E quem são as pessoas com deficiência visual (cegas ou com baixa visão) e em que se diferem?
Os deficientes visuais são incluídos em dois grandes grupos: os que apresentam cegueira e os de baixa visão, sub–visão ou visão sub-normal.
a)Cegueira: Classificação adotada para as pessoas sem nenhuma acuidade visual, sem o sentido da visão. Só lêem quando conhecedoras da escrita em braile2, em destaque na figura 1.
De acordo com o Instituto Benjamin Constant (IBC) é considerado cego, aquele que apresenta desde ausência total de visão até a perda da percepção luminosa.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera deficiente visual a pessoa, que é privada em parte (segundo critérios pré-estabelecidos) ou totalmente da capacidade de ver.
O Decreto n? 3.298/99, artigo 3, inciso III, traz a definição legal do deficiente visual: seria aquele com acuidade visual igual ou menor que 20/200 no melhor olho, após a melhor correção, ou campo visual a 20º (tabela de Snellen), ou ocorrência simultânea de ambas as situações.

Figura 1: Alfabeto braile.

b) Baixa visão, sub–visão ou sub-normal: Essa classificação é adotada para as pessoas com uma baixa acuidade visual, mas ainda enxergam um pouco, necessitando de material pedagógico diferenciado, pois não conseguem diferenciar os meios tons, só conseguem enxergar cores fortes e contrastantes.
Ainda, segundo o IBC, é considerado portador de baixa visão aquele que apresenta desde a capacidade de perceber luminosidade até o grau em que a deficiência visual interfira ou limite seu desempenho.
Segundo a Associação Macaense de Apoio aos Cegos (AMAC): “A pessoa apresenta visão sub-normal quando óculos comuns não conseguem dar uma visão nítida. Assim, orientações especiais são necessárias para realização de suas atividades”.
Tanto a cegueira total quanto a baixa visão podem afetar as pessoas em qualquer idade. Crianças podem nascer sem visão e outras pessoas podem torna-se deficientes visuais em qualquer fase da vida. Segundo o site da Fundação Dorina Nowill para Cegos: “A perda da visão pode ocorrer repentinamente, a partir de um acidente ou de uma doença, em qualquer fase da vida de qualquer ser humano”.
Segundo a OMC, baixa visão (ou visão subnormal): “É o comprometimento do funcionamento visual em ambos os olhos, mesmo após correção de erros de refração comuns com uso de óculos, lentes de contato ou cirurgias oftalmológicas”.
A população brasileira, segundo o Censo Demográfico de 2000, publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de 169.872.856 milhões de pessoas, sendo 24.600.253 milhões de pessoas que se autodeclararam com algum tipo de deficiência, esse número corresponde a 14,5% da população brasileira. Desses, 11,77 milhões de pessoas com deficiência visual sendo que 0,1% destas são consideradas cegas (IBGE, 2000). Já o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) afirma que há um milhão de deficientes visuais no Brasil. Apenas dez mil são economicamente ativos. Esse é um número bastante elevado e pode-se concluir que a não inclusão econômica é proporcional a não inclusão escolar dos deficientes visuais, tornando-se um processo cruel e excludente dessa significativa parcela da população brasileira.
A cidade de Campos de Goytacazes, segundo dados do Censo de 2000, com uma população de 406.989 mil habitantes, apresentava 81.637 mil pessoas com algum tipo de deficiência, em torno de 20% da população total e, desses, 37.375 mil pessoas classificadas como incapazes com alguma ou grande dificuldade de enxergar (IBGE, 2000).
Segundo Gonçalves: “Se somarmos os alunos com surdo-cegueira, cegueira e baixa visão teremos 59.712 alunos com deficiência visual segundo dados obtidos do Censo Escolar MEC/INEP de 2006”. (GONÇALVES, 2008, p. 27). Conclui-se então, que 18,4% do total de alunos com algum tipo de necessidades educacionais especiais a nível nacional em 2008, apresentam alguma deficiência visual.
O número de alunos com necessidades especiais, dentre elas a visual, tende a aumentar nas turmas de ensino regular, a nível nacional, devido à proposta de inclusão e acessibilidade criada pelo Governo Federal, através do Ministério de Educação e Cultura e de suas secretarias.

2.2Sobre a Educação Inclusiva e suas implicações

Quanto à questão da Educação inclusiva no Brasil, faz-se necessário citar algumas leis que dão respaldo aos direitos adquiridos pelos alunos com necessidades especiais.
A Constituição Federal do Brasil, de 1988, destaca na seção I do Capítulo III:

Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada para a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:
I-Igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
[...]
Art. 208. O dever do Estado, com a educação será efetivado mediante a garantia de:
[...]
III - atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência preferencialmente na rede regular de ensino (grifo nosso). (CFB. 1988, p. 136 – 137).

Em 1989, a Lei n? 7.853/89 criou a Coordenadoria Nacional para Integração das Pessoas com Necessidades Especiais (CORDE), que tem como principal objetivo garantir o acesso aos serviços de formação profissional, inclusive nos cursos regulares.
A Lei n? 9.394/96, conhecida como, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), no que diz respeito à Educação para à inclusão social, cita:

Art. 58. Entende-se por educação especial, para os efeitos desta Lei, a modalidade de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede de ensino, para educando portadores de necessidades especiais.
Art. 59. Os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com necessidades especiais:
I - Currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos, para atender as suas necessidades.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), criado pela Lei n? 8.069 de 13 de julho de 1990, também destaca no Capítulo IV, quando trata da Educação Especial.

Art. 53. A criança e o adolescente têm direito à educação, visando o pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho assegurando-lhes:
I- Igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; [...]
Art. 54. É dever do Estado assegurar à criança e ao adolescente: [...]
III- Atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino. (ECA. 1990, p. 27 – 28)

Nos últimos anos, a educação especial tem sido alvo das políticas de democratização do ensino em todo o mundo. Diversos encontros, tratados e conferências abordam o assunto, merecendo destaque o que foi proposto na Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais: Acesso e Qualidade, realizado em Salamanca, em 1994, onde se reuniram representantes de diversos países, inclusive o Brasil. Foi firmado pelos representantes dos países participantes desta conferência, a Declaração de Salamanca e Linhas de Ação sobre Necessidades Educativas Especiais, que: “A princípio todas as crianças, sempre que possível, devem aprender juntas, independente de suas dificuldades e diferenças” (SALAMANCA, 1994, p. 2).
Cada vez mais, surgem no mundo todo ações afirmativas de políticas de inclusão dos alunos com deficiência no ensino regular, como destaca a Conferência Mundial sobre Educação Para Todos (Jomtiem), realizada na Tailândia em 1990. Torna-se necessário, no entanto, esclarecer quando esta integração acontece de fato.
Baseando-se nos estudos de Fonseca (FONSECA apud FREITAS, 2003, p.1), estes pesquisadores defendem: “Só se pode falar em integração quando há uma efetiva interação entre deficientes e não deficientes”. Essa afirmação do autor reafirma, que a escola dita inclusiva é aquela onde não há separação entre alunos e que todos eles, independentes das suas limitações físicas, devam permanecer em salas heterogêneas, nos horários normais de aula e caso ocorra necessidade, esses alunos freqüentariam em outro turno as salas especiais que atenderiam como forma complementar o desenvolvimento didático pedagógico.
Baseando-se nas Legislações apresentadas, evidencia-se que uma das prioridades atuais das políticas públicas, envolvendo a Educação Infantil e o Ensino Fundamental, refere-se à integração do aluno com necessidades educacionais especiais, nas atividades cotidianas desenvolvidas em classe de ensino regular. No entanto, observa-se o quanto ainda são incipientes os materiais didáticos e metodologias para garantir ao professor e à escola, infra-estrutura e autonomia na aplicação dos conteúdos a estes alunos, especialmente na disciplina de Geografia.
Nesta perspectiva, de acordo com Freitas e Ventorini: “No que se refere ao material cartográfico tátil a escola especial apresenta um quadro precário e insuficiente para suprir as necessidades dos seus alunos. [...] Constatou-se que havia uma carência de material didático para abordar conceitos geográficos em nível mundial, nacional, regional e local” (FREITAS; VENTORINI, 2003, p. 4).
Quanto à importância dos mapas táteis para os deficientes visuais, estes pesquisadores recorrem aos estudos realizados por Almeida, ao defender que: “Os mapas são até mais necessários para esse grupo de usuários do que para aqueles que conseguem enxergar. Pessoas cegas podem usar um mapa para se orientar, sem ajuda, dentro de um edifício”. (ALMEIDA, 2008, p. 120).
Vale ressaltar ainda que, enquanto as escolas de educação especial apresentam um quadro precário, quanto ao material didático, para atender aos alunos com necessidades especiais, em grande parte das escolas públicas e particulares, este material é inexistente. Além disso, a maioria dos mapas táteis utilizados, são ultrapassados e distantes da realidade, prejudicando principalmente os alunos dos primeiros ciclos do Ensino Fundamental, pois nessa fase o destaque na aprendizagem do ensino de Geografia corresponde à noção de lugar, bairro e cidade.
É importante dizer também que não existem mapas táteis da maioria das cidades brasileiras e, até o momento, a cidade de Campos acompanha este quadro. Daí a relevância em que haja uma maior integração entre a academia, nesse caso o curso de graduação em Geografia e o de Pós-graduação Lato Sensu em Ensino de Geografia, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense (IFF) com as instituições: Escola Estadual Conveniada São José Operário3 e o Núcleo de Apoio a Pessoas com Necessidades Educacionais Especiais (NAPNEE)4, para o estudo e confecção, principalmente de mapas táteis da região central do município de Campos dos Goytacazes.
Segundo Gonçalves, a Escola Estadual Conveniada São José Operário, quanto à sua clientela:
Atende a alunos com deficiência visual de pré-escolar à 4ª série. A partir daí, esses alunos são encaminhados para escolas de ensino regular, onde recebem por algum tempo, até se adaptarem, atendimento especializado de todo material necessário para o processo de ensino-aprendizagem como transcrição em Braille e escrita ampliada no caso do aluno com baixa visão. (GONÇALVES, 2008, p. 26).

A confecção de mapas táteis da região central do município e de prédios públicos, justifica-se pela sua aplicação como recurso didático para os estudos de Geografia e por permitir o reconhecimento dos principais pontos de referência da região central deste município, tais como: pontes, hospitais, escolas, principais vias de ligação entre a escola e o terminal rodoviário até os principais órgãos públicos, entre outros.
Justifica-se também pelo fato de que os mapas táteis de edifícios públicos e da região central do município de Campos dos Goytacazes poderão ser utilizados pelos alunos do IFF através do NAPNEE e a Escola Estadual Conveniada São José Operário e outras que atendam a alunos deficientes visuais e de sub-visão, para facilitar o deslocamento, garantir a acessibilidade destes aos principais pontos destacados nos mapas, além de integrar os deficientes visuais à sociedade.

3 Analisando os mapas táteis

De acordo com o que foi exposto até o momento, conclui-se que a Cartografia Tátil é uma ferramenta de ensino e inclusão que pode ser amplamente utilizada não só em sala de aula, mas no dia-a-dia de uma parte significativa da população brasileira, que são os deficientes visuais. No entanto, para que isso aconteça é fundamental que haja uma padronização das normas cartográficas táteis, além de uma vontade política a nível nacional para que a iniciação do conhecimento cartográfico para as pessoas com deficiências visuais ou sub-visão possa ocorrer quase que paralelo ao ensino da alfabetização em braile ou não.
Além disso, vale destacar que a utilização de mapas comuns destinados a alunos com visão “normal”, quando são adaptados para atender aos alunos com deficiência visual, representam um recurso didático muito aquém das necessidades destes. Constata-se esta afirmativa ao analisar o mapa abaixo representado, onde verifica-se que a utilização de barbante colado no mapa, tenta indicar os limites territoriais dos municípios, porém este material não oferece aos deficientes visuais precisão quanto aos limites estabelecidos. Verifica-se ainda que este mapa, que está representado na Figura 2, não apresenta indicativos ou Legenda em braile e não possui cores fortes que poderiam atender aos alunos com baixa visão, podendo ser considerado ineficiente para este tipo específico de aluno.
Estes pesquisadores, ainda nesta defesa e baseados nos estudos de Ventorini e Freitas, consideram que deve-se evitar a utilização de barbante na elaboração dos mapas táteis, pois: “[...] o barbante é difícil de ser moldado manualmente, aos detalhes do contorno dos mapas, o que poderia levar os alunos cegos a criarem imagens mentais muito distantes da realidade”. (VENTORINI; FREITAS, 2003, p. 2).
Segundo Loch, “nem tudo em um mapa convencional pode ser transcrito para a leitura tátil”. (LOCH, 2008, p. 47).
Faz-se necessário também chamar atenção para dois pontos principais: o deficiente visual com perda total utiliza apenas o tato para entender o mapa, por isso a importância de materiais que demonstrem relevo, tendo-se o cuidado de não usar materiais que venham machucar ou prejudicar a sensibilidade da ponta dos dedos. Já os deficientes com baixa visão necessitam de cores fortes e letras maiores para poderem entender o que está representado.
Em relação à escala, pode-se utilizar qualquer uma que atenda a necessidade da representação, desde que siga a padronização cartográfica. Segundo a proposta de Loch, para a padronização dos mapas táteis deve-se contar com os seguintes componentes visuais: “[...] a Moldura, o símbolo de Norte, o lugar do Título, da Escala e da Legenda, os quais, junto ao mapa, são importantes para a sua apresentação. [...] Todos esses elementos devem estar na parte superior e em escrita em braile”. (LOCH, 2008, p. 54).

Figura 2: Mapa oficial do Estado do Rio de Janeiro onde os limites dos
Municípios foram contornados com barbante.

Alguns mapas, como os apresentados nas Figuras 3 e 4, na maioria das vezes são elaborados por instituições conceituadas no atendimento aos deficientes visuais, como o Instituto Benjamim Constant (IBC) e na Fundação Dorina Nowil para Cegos, entre outras, cabendo ressaltar que estas instituições carecem de uma maior assistência por parte de profissionais na área do conhecimento cartográfico para sua revisão técnica.

Figura 3: Mapa político do Brasil onde os Estados são separados por marcação em relevo, além da indicação das siglas dos Estados, Localização e Legenda em braile.


Figura 4: Mapa Múndi onde são representados os fusos horários
em relevo com indicações em braile.


4 Considerações Finais

O ensino da Geografia visa, dentre outros, proporcionar aos alunos uma ampliação da sua visão de mundo tendo como base o olhar geográfico e estimulado-os a se expressar através dos recursos disponíveis. Para o aluno que apresente uma necessidade especial, é necessário uma contínua busca de novas alternativas para atender a estas dificuldades encontradas no dia-a-dia da sala de aula. Foi possível a estes pesquisadores, por meio deste trabalho, constatar o aumento significativo de alunos com deficiência visual ou sub-visão, matriculados na rede pública de ensino da cidade de Campos dos Goytacazes. Projeta-se que, gradativamente, o número de alunos matriculados nas escolas em turmas regulares tende a aumentar, devido a atual política de educação inclusiva por parte do Governo Federal.
Estes pesquisadores puderam constatar também a falta de preparo por parte dos profissionais em educação e das escolas, para atender aos alunos com necessidades especiais. Daí justifica-se a necessidade da criação e reestruturação tanto do espaço físico, quanto dos equipamentos, material didático, além da contínua capacitação dos profissionais envolvidos no atendimento a estes.
Espera-se que este artigo contribua para minimizar as barreiras na inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais, despertar o interesse e novos estudos sobre a Cartografia Tátil, além de motivar as instituições universitárias, através de um maior intercâmbio entre elas e contando com a participação de especialistas das diversas áreas, além dos deficientes visuais, que são o alvo maior desta pesquisa, para a elaboração de mapas táteis, buscando facilitar o processo de aprendizagem na área de Geografia dos alunos com necessidades especiais visuais.
A utilização da Cartografia Tátil no dia-a-dia dos deficientes visuais pode abrir novos espaços a uma parte significativa da população brasileira, proporcionando a estes condições de maior acessibilidade e melhor integração à sociedade. Porém, para que isso aconteça, é necessário um melhor direcionamento dos recursos públicos disponíveis a favor de uma Educação inclusiva, plena, que entenda os sujeitos com necessidades especiais como cidadãos e sujeitos de direitos.

Referências

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