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Ser Escravo no Brasil

Autor:
Instituição: UNEB
Tema: Resenha

Resenha - Ser Escravo no Brasil

Santo Antonio de Jesus

Setembro 2001


MATTOSO, Kátia Queiroz

Ser escravo no Brasil – capítulo 4 – O africano adapta-se ao Brasil e aos Brasileiros. São Paulo, editora brasiliense, 1990. 3ª edição.

Kátia Mattoso faz um ensaio sobre a adaptação dos escravos no território brasileiro, sua sociabilização com os outros escravos, alguns provindos da mesma carga de navio, os quais adquiriram amizade nos longos dias de martírio, precedentes a viagem e da própria viagem, que duravam intermináveis dias para aquelas pessoas nos porões imundos do navio.

Em alguns casos, escravos conseguiam comprar a liberdade, e. depois de prosperar, saíam comprando a liberdade de outros escravos, quase sempre companheiros da mesma carga negreira. Por exemplo. Um negro forro dirigia uma empresa cuja finalidade era a de devolver à áfrica cerca de 200 outros negros alforriados baianos. Ele fretou um navio britânico para recambia-los ao país de origem. Ora, este negro fizera parte de um carregamento de escravos trazidos à Bahia pelo navio Emilia, em 1821. Dos 200 repatriados, 60 faziam parte do carregamento do navio.

Para os que ficaram, humildade, obediência e fidelidade vão ser os pilares da vida desses homens, mercadorias muito particulares pois, apesar de tudo, os compradores-proprietários acabam por perceber de que os escravos também são homens e que uma certa parcela de intimidade se pode estabelecer com eles, se são fiéis, obedientes e humildes. Essas três qualidades essenciais, formam o perfil do bom escravo. O escravo, desta maneira, adquire uma identidade social e sente que são lhe dados certos papéis sociais de relevada importância, resultado da garantia protetora da família do senhor. Ele pode se tornar feitor, mestre, cabo de turma e ter a impressão de passar para o lado da autoridade. Contudo apesar dessa proximidade, o mundo do escravo e do senhor permanece social e culturalmente separados. Kátia coloca que essa proximidade entre os dois mundos, o do escravo e o do senhor, é , na verdade, uma forma eficaz e sutil da resistência do negro frente a uma sociedade que deseja desvencilha-lo de toda uma herança moral e cultural. Fiel ao modelo de vida imposto pelos brancos, e aos ideais criados por grupos heterogêneos, o negro, integra-se ao meio, adaptando-se a nova cultura criada por estes grupos, encontrando uma nova identidade e ao mesmo tempo mantendo a tradição africana, sempre viva e presente em sua vida. Segundo a autora, esse duplo aprendizado é essencial e indispensável tanto para a sobrevivência como é a chave de sua identidade nova. Para subir na escala social e conquistar seu espaço, o negro precisa utilizar os valores da sociedade branca que o adotou.

No papel de escravo é necessário haver obediência, que varia de acordo com os parceiros, o tipo de trabalho e as condições necessárias para desempenha-lo. Resguardado na obediência, ele poderá recriar seu mundo destruído, um universo novo com cores da terra brasileira, mas particularmente seu. Aprenderá a língua do seu senhor, rezará ao Deus dos cristãos e saberá executar um trabalho útil.

No Brasil, há uma diferença entre a obediência do escravo urbano e a obediência do escravo do campo, como também aqueles que trabalhavam em minas.

A produção maciça de alguns artigos primários de exportação, como a cana-de-açúcar e a um sistema de exploração bem alicerçado, criou-se no Brasil, uma sociedade de hierarquia social rígida. Onde a peça mestra para manter um sistema de produção eficiente era o braço negro nas tarefas agrícolas e industriais.

A partir desse momento, a autora descreve a formação de vários tipos de sociedade. Nas regiões nordeste e centro-leste, sobretudo na parte litorânea, surge uma sociedade com sistema patriarcal, que perdurou por muito tempo. Onde as marcas de poder eram: a terra, a mão-de-obra escrava e o engenho de açúcar com suas máquinas.

Cita outro tipo de sociedade mais aberta que regiam a vida dos trabalhadores das regiões mineiras. Estes poderiam ascender na hierarquia social e tornar-se homem livre, onde á depender da sorte podiam comprar a sua liberdade.

Já a sociedade das regiões pastoris dos vastos sertões brasileiros é ainda mais fluída, por ser pouco povoada, de clima rude e não haver proprietários do solo. É habitada em sua maioria por brancos pobres. Não distinção entre o tipo de vida que leva o senhor, dono de rebanhos de gado, e o escravo que o auxilia no pastoreio dos bois. São terras nômades de relativa liberdade também para os escravos.

No século XIX, porém, quando se estabelecem no Rio Grande do Sul as grandes charqueadas para a salga da carne seca, ocorre uma invasão dos pecuaristas a região. Surge uma nova sociedade que mudará os destinos dos escravos dos campos, das minas e dos sertões. Aos escravos urbanos cabe todo tipo de serviço considerado humilhante pela população branca de origem européia. O trabalho escravo torna-se indispensável, e aqueles que o tem como posse, alugam seus serviços.

O escravo urbano goza de mais liberdade, em relação ao seu senhor, do que o escravo rural. Artesão, ele não precisa residir na Casa Grande, basta apenas pagar ao seu senhor, um percentual de acordo com a sua produção. Circula livremente nas ruas, intera-se com homens livres e humildes, seus irmãos. É menos prisioneiro da sua condição de escravo. São peças valiosas para os seus donos, empresários, que os vendem por verdadeiras fortunas.

De acordo com Kátia, a historiografia brasileira se divide em duas vertentes: uma defende a idéia de que os escravos eram maltratados; outra defende que eles eram mais zelados que a maioria da população atual do país.

Esses maltratos eram atenuados pelo clero. Os jesuítas não podiam fazer muita coisa, pois viviam de caridade, que era o caminho da salvação, tanto dos pobres como das classes privilegiadas.

A autora depara com a idéia de que o escravo morria jovem porque trabalhava demais. Trabalhavam de 15 a 17 horas por dia. Essa afirmação não tem muito apoio por parte de alguns estudiosos, que descobriram através de documentos que a jornada de trabalho era cortada por várias pausas, sem contar os feriados que são numerosos no calendário brasileiro.

O excesso de trabalho não explica o elevado índice de mortalidade entre os escravos, sua causa talvez esteja nas condições climáticas em que era desenvolvida a jornada trabalhista, como também o tipo de vestuário para enfrentá-las. Vestidos de maneira inadequada para suportar as mudanças bruscas do clima, os escravos se tornam vulneráveis a doenças tais como, simples resfriados que se transformam em bronquites, anginas, pneumonias e finalmente tuberculose, doença fatal.

Nesse período diversas doenças tornaram-se epidêmicas no Brasil: a tuberculose, a sífilis, verminoses, escorbuto, malária, desinterias e tifo, em sua maioria mortal. Devido á má condição de higiene, os escravos são os que mais são atingidos com estas doenças.

A sociedade escravista brasileira é comparada a um jogo, cujas regras estão a favor dos senhores. O escravo tem o livre arbítrio de aceitar ou não as regras desse jogo. Na maioria das vezes, era difícil recusa-las, pois isso obrigaria o escravo a fugir, ou, se pego, a morte.

O mundo dos escravos brasileiros fazia distinção ao mundo dos homens livres. Ser escravo no Brasil era buscar a proximidade dos dois lados, ou seja, eliminar as barreiras culturais, sociais e contraditórias entre esses dois mundos.

Para o senhor, os escravos ao desembarcarem eram homens rudes, retraídos, hostis e tristes, alguns permanecendo desse jeito até a morte. Mas, uma parte desses escravos tendem a tornar-se servis, capazes e experientes, se converterão ao catolicismo, se tornando então civilizados.

Kátia salienta também o processo de construção da família do escravo, considerando seus pormenores, e ao mesmo tempo a violência com que esses eram separados de suas famílias em seus países de origem. Para esses, não havia neles o desejo de casar-se novamente. Esse processo de casamento entre escravos foi promovido pela lei do ventre livre (1871), que declarava livre todo nascituro, e acabava com a separação de pais e filhos abaixo dos 12 anos de idade.

A solidariedade é realçada pela autora na menção às associações de negros forros, quase sempre das mesmas etnias, que se organizavam com o objetivo de lutarem pelos interesses da classe e também de preservar os laços de cultura suavizados pelos longos anos de servidão no Brasil.

Hoje ainda vemos eternizados os traços dessa cultura, nos diversos locais, conhecidos como ghetos , ou comunidades, mais concentradas na Bahia.

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