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A emancipação da mulher representada pela obra de Agustina Bessa Luis

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Tema: A emancipação da mulher representada pela obra de Agustina Bessa Luis

A EMANCIPAÇÃO DA MULHER REPRESENTADA PELA OBRA DE AGUSTINA BESSA-LUIS “A SIBILA”
FACULDADE DE EDUCAÇÃO SÃO LUIS
JABOTICABAL – SP
2009

RESUMO

Este trabalho tem como objetivo apontar a transformação e a emancipação da imagem da mulher através dos tempos, tal como irá ser apresentada neste trabalho, desde suas origens bíblicas, até o final do século XXI. Visando mostrar as difíceis barreiras que a mulher teve de enfrentar para conseguir mostrar ao mundo sua força, determinação e luta, mostrando que ela é tão capaz quanto o homem, e que pode contribuir socialmente com a produção literária, mostrando o “Mundo” através de seus olhos. Nos últimos anos, o movimento feminista tem sido responsável por diversas conquistas na vida das mulheres. No entanto, elas ainda vivem numa sociedade que lhes dá respostas ineficazes, onde o que permanece é a supremacia dos homens. A história de lutas e conquistas de tantas mulheres, muitas delas mártires de seu ideal, leva a humanidade a iniciar um novo milênio diante da constatação de que ela buscou e conquistou seu lugar. Mais que isso, assegurou seu direito à cidadania, legitimando seu papel enquanto agente transformador de um Mundo que ainda é dominado pelo patriarcalismo. A obra de Agustina Bessa- Luis “A Sibila”, que aqui será analisada consegue representar muito bem o sofrimento de submissão da mulher e mostra também a luta por essa mudança de condição através da personagem Joaquina (Quina).

SUMÁRIO

INTRODUÇÂO

1 A HISTÓRIA DE EMANCIPAÇÃO DA MULHER NO OCIDENTE

2 CRÍTICA FEMINISTA: UM NOVO OLHAR NA LITERATURA

3 UMA VOZ DISSONANTE EM PORTUGAL: AGUSTINA BESSA-LUIS

4 A CONFIGURAÇÃO DA IDENTIDADE FEMININA NA OBRA “ A SIBILA”

4.1 Contextualização
4.2 Enredo
4.3 Definições de “SIBILA”
4.4 Foco Narrativo
4.5 Tempo/Espaço/Ação
4.6 Personagens
4.7 O representação da identidade feminina obra “A SIBILA”

CONSIDERAÇÕES FINAIS

REFERÊNCIAS

INTRODUÇÃO

O objetivo desta monografia é analisar a imagem da Mulher na História da evolução do Mundo, ou seja, o percurso que a mulher percorreu ao longo de sua evolução e em especial na obra da escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís, “A Sibila”. Enfocaremos, portanto, os questionamentos por parte da mulher com relação à imagem que a Sociedade a consagrou.
Através da obra, analisaremos as imagens femininas ou a imagem da mulher nela constantes, procurando demonstrar, ao longo do percurso histórico-literário, os preceitos e preconceitos ligados à imagem da mulher, principalmente na constância com que a dualidade da natureza feminina foi enfatizada (dualidade essa que a mulher tem com o seu próprio “eu”, ou seja, de um lado ela tem que seguir as regras do patriarcalismo e de outro ela quer se libertar da opressão a qual ela se submete a várias gerações). Acompanharemos, assim, a trajetória de Joaquina Augusta (Quina), uma mulher que consegue se sobressair entre todas as mulheres de uma geração cheia de conflitos internos, sendo escravas de uma herança que corresponde às bases consagradas por uma sociedade patriarcal.
Nesse sentido, esta análise pretende mostrar que a mulher não foi apenas um objeto de submissão, mas sim agente de grande importância para acontecimentos de grande valor na vida pública. Em “A Sibila” de Agustina Bessa-Luís, podemos igualmente traçar semelhanças com a imagem do feminino construída na sociedade e na vida literária portuguesa. Por fim, estabeleceremos relações entre a representação do espaço e a construção das personagens, além de abordar o caráter de memória da narrativa, procurando demonstrar como a autora discutiu a condição e a identidade da mulher na sociedade patriarcal. Nesta obra, o mais importante é ressaltar a capacidade que as mulheres têm de romper com as
barreiras do preconceito e superar suas dificuldades, mostrando o grande domínio que possuem para lidar com assuntos que aparentemente pertencem somente ao Homem.
E desta forma seguiremos as seguintes etapas no percurso deste estudo: 1) História de Emancipação da Mulher no Ocidente; 2) Crítica Feminista: um novo olhar na literatura; 3) Uma voz dissonante em Portugal: Agustina Bessa-Luís; 4) A representação da identidade feminina na obra “A Sibila”.

1 A HISTÓRIA DE EMANCIPAÇÃO DA MULHER NO OCIDENTE

É com grande entusiasmo que neste capítulo será abordada a História da Mulher na Literatura, pois nos sentimos completamente tomados pela curiosidade de estudar sua trajetória, desde as civilizações antigas; para tanto, buscamos material consistente que traçasse o perfil dessa mulher dentro da sociedade ocidental em diferentes épocas.
Inicialmente, a presença da mulher na vida pública social do mundo ocidental foi constatada desde a Bíblia, pois esta consiste num documento fundador da civilização cristã, podendo ser a primeira imagem da mulher que é representada pela figura de Eva. Criada a partir de uma costela de Adão, ela já nasce como ser inferior ao homem e, devido à tentação exercida sobre ele, provocou a queda e a perda do Paraíso. A partir deste fato dá-se início a uma visão negativa que é associada desde a primeira mulher. Segundo a Bíblia Sagrada, no livro do Gênesis, Deus deu ao homem este mandamento:

Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás. Gên.2 (16 - 17). A mulher viu que a árvore era boa ao apetite e formosa à vista, e que essa árvore era desejável para adquirir discernimento. Tomou-lhe do fruto e comeu. Deu-o também a seu marido e ele comeu. Gên.2 (6 - 7).

E esta será a imagem da mulher que percorrerá a história durante séculos, em uma sociedade que fixou essa estrutura e a manteve por muitos tempos inalterados.
Desde que o homem começou a produzir seus alimentos, nas sociedades agrícolas do período neolítico (entre 8.000 a 4.000 anos atrás), o trabalho passou a
ser dividido entre homens e mulheres: os homens cuidavam da segurança, caça e pesca, enquanto as mulheres plantavam, colhiam e educavam os filhos. Nas sociedades agrícolas já havia a divisão sexual do trabalho, marcada desde sempre pela capacidade reprodutora da mulher, o fato de gerar o filho e de amamentá-lo. O aprendizado da atividade de cuidar foi sendo desenvolvido como uma tarefa da mulher, embora ela também participasse do cultivo e da criação de animais.
Segundo José Jobson de A. Arruda no seu livro “História Antiga e Medieval” (1991, p.37).
As comunidades primitivas assumiram formas bastante variadas, de acordo com os gêneros de vidas e os sistemas de parentescos com que quase caracterizavam (...) a evolução esteve ligada ao desenvolvimento de novas formas de produção – agricola, criação de produção, artesanato (...). As mulheres trabalhavam muito cuidavam das crianças e as educavam de acordo com os ensinamentos da época e ainda ajudavam a cultivar as terras.

Encontramos também um vestígio de dor e sofrimento na era Medieval. A vida das mulheres medievais era bem agitada, independente da classe social. Trabalhavam tanto quanto os homens, embora fossem julgadas como inferiores a eles. Elas não tinham muitas opções: ou casavam ou iam para o convento. O casamento era arranjado pelo pai quando a menina ainda era criança e visava ao aumento de terras. Segundo as escritoras, Myriam Becho Mota e Patrícia Ramos (1997, pg.86):
(...) O casamento geralmente se realiza em função da conveniência masculina, quase não tendo relação com o amor. Enquanto para as moças de famílias nobres o valor estava no recato e na submissão, para os cavaleiros medievais a honra, a bravura e o heroísmo constituíam qualidades indispensáveis.(...)

Nas classes sociais mais altas, a menina casava-se aos oito anos de idade. A mulher devia obediência e fidelidade e era objeto do seu marido. Dirigia-se a ele com respeito, usando o tratamento de “meu amo e senhor”. Se o marido achasse que ela o havia desobedecido, tinha o direito de agredi-la e estas histórias eram contadas na vila em tom humorístico, pois a lei não intervinha em nada. Além disso, a partir do século XIII a mulher era obrigada a aceitar as amantes do marido e criar os filhos dele junto com os seus, sendo que as agressões não podiam causar morte, exceto em casos de adultério.
A participação e o lugar da mulher na História foram sempre ocultados pelos historiadores por muitos e muitos anos, já que elas sempre ficaram à sombra de um mundo dominado pelo patriarcalismo.
Na fase pré-capitalista ou capitalismo comercial (entre XVI e XVIII) todos trabalhavam numa mesma unidade econômica de produção. É neste período que se iniciou as Grandes Navegações e Expansões Marítimas Européias, fase em que a burguesia mercante começa a buscar riquezas em outras terras fora da Europa. Segundo as escritoras, Myriam Becho Mota e Patrícia Ramos (1997, pg.88):

[...] com o aparecimento de banqueiros, cambistas e usuários das mais variadas origens, ocorreu um expansão de crédito, o que veio favorecer as atividades comerciais e industriais, nitidamente urbanas. Desenvolveram-se também o comércio marítimo e o terrestre, realizados a curta ou longa distância. [...]

O mundo do trabalho e o mundo doméstico eram coincidentes. A função de reprodutora da espécie, que cabe à mulher, favoreceu a sua subordinação ao homem. A mulher foi sendo considerada mais frágil e incapaz de assumir a direção e chefia do grupo familiar.
O homem, associado à idéia de autoridade, devido a sua força física e poder de mando, assumiu o poder dentro da sociedade. Assim, surgiram as sociedades patriarcais, fundadas no poder do homem, do chefe de família.
A mulher tornou-se cada vez mais submetida aos interesses do homem, tanto no repasse dos bens materiais, através da herança, como na reprodução da sua linhagem. A mulher passou a ser propriedade do homem, o meio de perpetuar (tornar muito duradouro) sua descendência. Sua função tornava-se cada vez mais restrita ao mundo doméstico, sendo considerada submissa ao homem, assumindo também, em muitos momentos, a lavoura para a sustentação de seus familiares.
Segundo as escritoras, Myriam Becho Mota e Patrícia Ramos (1997, pg.68):

As mulheres desempenharam funções importantes na sociedade medieval. As camponesas auxiliavam sua família nas tarefas agrícolas cotidianas, enquanto as pertencentes às famílias nobres se encarregavam da tecelagem e da organização da casa. Mas todas elas, desde as servas até as mulheres da alta nobreza, estavam submetidas a seus pais e maridos. E a Igreja justificava e favorecia tal dominação, mostrando-se totalmente hostil ao sexo feminino. Alguns teólogos chegavam a afirmar que a mulher era a maior prova da existência do Diabo.

Durante a Idade Média, as mulheres sofreram muito com a inquisição, sendo rotuladas de bruxas e de que possuíam “pacto” com demônios, proporcionando sua exclusão do convívio social, pois eram colocadas na fogueira quando desobedeciam algum comportamento social tipo padrão, enquanto que os homens dessa época eram tidos como sábios. Esta situação foi criada porque a época era dominada pelos homens, cujo poder se centralizava na Igreja, ou seja, os eclesiásticos (padres, sacerdotes e o clérigo). De acordo com Myriam Becho Mota e Patrícia Ramos Braick (apud KRAMER, H. SPRENGER, J. 1997 pg. 86):

O termo bruxa se aplica a homens e mulheres, apesar de haver um número maior de mulheres que repudiavam o cristianismo e se imiscuíam no oculto. Isso pode muito bem ter sido devido à atitude da Igreja que via as mulheres como seres inferiores, naturalmente inclinadas ao engodo e à bruxaria e fabricadas pelo Criador como armadilha a tentar os homens para que incorressem nos pecados da carne. Os fanáticos tanto protestantes quanto católicos, que levaram a cabo as grandes caçadas às bruxas, justificavam seus atos citando Moisés, que havia decretado: “Não deveis permitir que a viva bruxa”; e São Paulo, que sustenta a mesma posição.

Elas só não eram consideradas um mal por inteiro, quando eram tidas com virgens, mães e esposas ou quando estavam voltadas para a religião, trancadas em conventos.
A mulher, para os clérigos, era considerada um ser muito próximo da carne e dos sentidos e, por isso, uma pecadora em potencial. Afinal, todas elas descendiam de Eva. No início da Idade Média, a principal preocupação com as mulheres era mantê-las puras e afastar os clérigos desses seres demoníacos que personificaram a tentação. A maior parte das autoridades eclesiásticas desse período via a mulher como portadora e disseminadora do mal. Tudo que o sabemos sobre as mulheres deste período, coincidência ou não, saiu das mãos de homens que pertenciam à igreja.
Depois de percebermos o quanto a mulher representava perigo e um mal nesta época, concluímos então que se a mulher é uma mal, ela o é ainda mais porque é bela e sedutora.
Segundo o texto escrito pela Professora Patrícia Barboza da Silva, Licenciada pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande – FURG e
colunista Brasil Escola, 2009, pg. 2.

[...] todo este antí-feminismo tinha como objetivos básicos: afastar os clérigos das mulheres, institucionalizar o casamento e a moral cristã, moldada através da criação de um segundo modelo feminino a Virgem Maria. Os três modelos difundidos por toda a Idade Média (Eva, Maria e Madalena) deixam claro o papel civilizador e moralizador desempenhado pela Igreja Católica ao longo de aproximadamente mil anos de formação da sociedade ocidental [...] A própria passagem da visão de corporeidade e danação feminina, pautada no modelo de Eva, vista como aliada do demônio. Esse estado de maldição foi amenizado com o culto à Virgem Maria, que trouxe consigo a reconciliação entre a humanidade e Deus, contudo, essa reconciliação ainda restritiva, pois somente aqueles que vivessem na graça divina alcançariam à salvação. Com Maria Madalena se estende a possibilidade de salvação a todos que tinham caído no erro, mas foram capazes de se arrepender.

A situação da mulher começa a mudar a partir do surgimento do casamento pela Igreja, a maternidade e o papel da boa esposa passaram a ser admirado. No casamento, a mulher estaria restrita a um só parceiro, que tinha a função de dominá-la, de educá-la e de fazer com que tivesse uma vida pura e domesticada. Mas o casamento geralmente se realizava em função de interesses e por conveniência, sem amor.
As mulheres da classe mais baixa, ou seja, aquelas que não estavam destinadas a se casarem com os homens com algum tipo de posse ou riqueza, tinham que trabalhar para viverem, poderiam ir e vir à hora que bem entendessem, poderia escolher seus parceiros, o pai de seus filhos ou escolher se queriam ou não continuar vivendo com quem estavam. E assim, contrariando as normas estabelecidas pela Igreja, grande parte das mulheres pobres estava inserida num cenário familiar caracterizado pela ausência dos maridos, companheiros instáveis, mulheres chefiando seus lares e crianças circulando em outras casas e sendo criadas por comadres, vizinhas e familiares.
Elas passaram a ser chefes de suas casas e de suas famílias, já que foram obrigadas a lutar sozinhas por sua sobrevivência e pela sobrevivência dos filhos. A luta pela sobrevivência familiar determinou uma maior ligação entre mães e filhos, no que diz respeito ao trabalho, com a divisão das tarefas cotidianas necessárias para obtenção de sua sobrevivência.
É no século doze que a mulher começa a mudar seu percurso na História de suas vidas, rebelam-se, então, contra um ser que até então era considerado maior e mais poderoso. Segundo o historiador Jacques Le Goff, na obra Os intelectuais na Idade Media (1995, pg. 86):

[...] existe neste momento uma forte corrente antimatrimonial. No mesmo momento em que a mulher se libera, quando não é mais considerada propriedade do homem ou máquina para fabricar crianças, quando não se pergunta mais se ela não tem alma, [...] o casamento se torna objeto de descrédito, tanto nos meios escolares, onde se constitui toda a teoria do amor.

Então, após ser analisado por um longo tempo está situação de constante decadência, começa a mudar a vida e a história da civilização e a vida da mulher, do seu desenvolvimento e da sua moralidade, pois sempre andam ligadas aos acontecimentos do desenvolvimento da humanidade. As mulheres começam a mostrar suas habilidades e sua capacidade de fazer parte de uma sociedade de igual para igual. Estes seres aqui citados de raríssima beleza e bravura começam a se destacar gradativamente em um mundo totalmente preconceituoso, pois elas adquirem o direito a serem alfabetizadas e a freqüentar uma escola. Devido à expansão marítima e a queda do feudalismo, o comércio começou a se desenvolver rapidamente, fazendo com que as mulheres começassem a adquirir seus direitos, devido à falta de mão de obra masculina, pois os homens estavam voltado para as novas descobertas de terras.
Durante o período do Renascimento, as mulheres não perderam tempo em aproveitar as grandes transformações nos padrões de comportamento das crenças, das instituições, dos valores espirituais e materiais, alterações nas mentalidades dos homens, bem como no gosto, na arte e na filosofia. Elas mudaram seus vestuários, ou seja, sua forma de vestir para se diferenciarem dos homens, e acabaram por aproveitar a situação começando a se vestir com roupas mais ousadas: os seus vestidos compridos e volumosos revelavam uma cintura bem definida e mais sensual, ainda com uso de espartilho, podendo, assim, exibir peitos mais volumosos. Vemos, assim, que o Renascimento trouxe consigo um desejo de definir claramente o que não podia ser mudado, uma ruptura de época e um comportamento que as mulheres por tantos anos aguardavam, a sua própria liberdade tanto de expressão quanto de valores morais. Segundo Myriam Becho Mota e Patrícia Ramos Braick (apud DUBY, G; PERROT, M. 1991, pg.135).

[...] A partir do século quinze, os tratados sobre a família, os livros de civilidade e mesmo a literatura médica insistem todos na fragilidade do sexo feminino e no dever que os homens têm de proteger as mulheres da sua fraqueza inata, exercendo sobre elas um domínio brando, mas firme. Longe vão os modelos corteses das relações de gênero, em que o cavaleiro obedecia à sua dama e a servia como sua soberana. [...]
Durante as I e II Grandes Guerras, foi percebida maior participação das mulheres nas atividades produtivas, em vista da mobilização dos homens para as frentes de combate e, desde então, e cada vez mais, as mulheres abandonaram o galope de cavaleiros andantes e deixaram no “esquecimento” um ideal meio lírico de libertação, posicionando-se lado a lado com os homens, aproveitando o momento para conquistar o que mais queriam sua liberdade e seus ideais de libertação deste sistema de patriarcalismo. Elas começam então a deixar de lado seus dons hereditários de boas esposas, mães, donas de casas e começam a sentir a liberdade em suas veias.
Surgi, em meio a este turbulento desejo de liberdade, à era da industrialização, fato este que veio mudar totalmente a figura da mulher, pois as famílias se transferem dos campos para as cidades e a vida se torna mais difícil, assim, as mulheres assumem um lugar dentro da sociedade patriarcal. Eram os homens que detinham o poder e a sabedoria, eram eles que comandavam a sociedade as quais pertenciam, sendo que as mulheres não possuíam voz ativa para nada, apenas para a submissão, porque eram consideradas em alguns casos como seres irracionais.
O homem se vê em uma situação desprivilegiada, pois o grande progresso da industrialização faz com que as indústrias necessitassem cada vez mais de mão de obra em suas fábricas, e com a escassez de mão de obra masculina, as mulheres que possuíam este ideal de liberdade e igualdade aproveitaram-se da situação e conseguiram ingressar nessa nova mudança. Sendo assim, certas funções femininas como tarefas domésticas, o aleitamento e a educação das crianças foram deixando de ser uma prioridade quase que exclusiva da mulher, causando um considerável descontrole familiar em relação aos preconceitos citados anteriormente, descontrole este que acabou com a estrutura familiar dita patriarcal, ou seja, a mulher saiu para trabalhar deixando seus filhos com o propósito de ajudar o marido nas despesas, ou então por serem mães solteiras, entre outras. Mas, por outro lado, devemos lembrar que as mulheres recebiam salários baixíssimos e, mesmo assim, elas seguiam os ritmos de máquinas a vapor. Contudo, a mulher adquiriu parcial liberdade e independência.
Dizemos, então, que a partir deste momento, a mulher começa a si considerar como parte de uma Nova História. E que ainda tentam mostrar seu devido valor. Estamos hoje em uma sociedade mais visionária, em que a cada momento novas descobertas estão ocorrendo, mas, mesmo assim, ainda existem mulheres que sofrem abusos, que são espancadas e que sofrem preconceitos. Atualmente, devido a inúmeras denuncias de espancamentos, sofridos por mulheres dentro de seu próprio lar, foi criada no Brasil a lei Conhecida como Lei Maria da Penha, a lei número 11.340, decretada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva, em 7 de agosto de 2006; dentre as várias mudanças promovidas pela lei está o aumento no rigor das punições das agressões contra a mulher quando ocorridas no âmbito doméstico ou familiar. A lei entrou em vigor no dia 22 de setembro de 2006, e já no dia seguinte o primeiro agressor foi preso, no Rio de Janeiro, após tentar estrangular a ex-esposa.
Hoje vemos através de textos e romances o quanto este ideal de liberdade está sendo representado pela mulher e o quanto foram discriminadas e maltratadas por viverem em uma sociedade em que aquilo que prevalecia é a figura do homem. Por exemplo, Agustina Bessa Luis em seu livro A Sibila (1953), retrata a História da mulher submissa aos costumes do patriarcalismo, mas também mostra a luta pela liberdade e pela vontade de romper com um sofrimento que permaceu por vários séculos. Esta obra mostra perfeitamente a história da mulher e, mesmo sendo ficcional, é de uma realidade sem igual.

2 CRÍTICA FEMINISTA: UM NOVO OLHAR NA LITERATURA

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse a chorar isto que sinto!
(Florbela Espanca 1894-1930)

Neste capítulo estaremos abordando a crítica feminista. Trata-se, pois, de um assunto que exprime certo cuidado, já que denomina um movimento literário que exige certa delicadeza, devido à sua importância e dificuldade de compreensão.
Desde a década de 60, as mulheres começaram a mudar sua forma de pensar, dando origem a um pensamento mais crítico e conquistando cada vez mais políticas relativas aos seus direitos.
Na maioria das vezes, o movimento literário é confundido com o movimento feminista, acabando por criar certa confusão. Ao falarmos de movimento feminista estamos falando de um movimento social que defende a igualdade de direitos e status entre homens e mulheres em todos os campos, o qual surgiu com a revolução industrial e francesa.
A partir daí as Mulheres tomaram consciência de seu verdadeiro papel, rompendo com o modelo imposto pelos homens, e assim, podemos dizer com certa precisão que essa mudança de olhar, influenciou a criação da crítica literária feminista, e que teve como contribuição o movimento feminista.
De acordo com Lúcia Osana Zolin (2003, pg. 161): “Mais importante do que as polêmicas geradas a partir do movimento feminista são os efeitos provocados por ele em seus diferentes momentos”.
Constatamos após várias leituras que a crítica feminista surgiu com a evolução do conhecimento e de lutas constantes contra uma sociedade totalmente patriarcal em meados dos anos 70, tendo como marco a publicação da norte-
americana Kate Millet de Sexual Politics (1970), obra que retrata a política patriarcal de controle da sexualidade feminina nos séculos XIX e XX, uma criação que propiciou o debate sobre a experiência da mulher leitora e escritora, analisando literatura, pintura e políticas públicas relacionadas ao controle populacional e à definição do papel da mulher nesse período. Dessa forma, é com este entusiasmo que a mulher começa a se sobressair em meio a esses turbilhões de controvercias, demosntrando sua capacidade de ver e sentir o mundo de uma maneira cada vez mais próxima com suas prórprias opiniões. De acordo com a aula expositiva da professora da Faculdade São Luis de Jaboticabal, Rafaela Pucca 2008:1

Uma obra que finalmente diagnosticou uma tendência debatida na época: a experiência da mulher como leitora e escritora é distinta da masculina e, por isso, abre margem a mudanças no campo intelectual, além de gerar a quebra de paradigmas e descobertas de novos horizontes. (PUCCA, 2008, informação verbal e escrita).

A crítica feminista passou a ser muito questionada e conseqüentemente acabou tendo um lugar de destaque, devido à mudança de uma tradição que até então era imutável (o sistema patriarcal).
Podemos compreender, então, que a partir desse desdobramento de olhar feminino, o homem percebeu que as mulheres pensavam e, que por sua vez, pensavam bem ou até mesmo que podiam ter um olhar diferenciado daquilo em que estavam acostumados, elas eram intelectuais e, dessa forma, podiam escrever de uma maneira bem diferente do que a dos homens, propiciando um rompimento de tradições e ampliação de novos caminhos ou a descoberta de novos mundos. Segundo Lúcia Osana Zolin (2003, pg. 161).

[...] A constatação de que a experiência da mulher como leitora e escritora é diferente da masculina implicou significativas mudanças no campo intelectual, marcadas pela quebra de paradigmas e pela descoberta de horizontes de expectativas. No que se refere à posição social da mulher e sua presença no universo literário, essa visão deve muito ao feminismo, que pôs a nu as circunstâncias sócio-históricas entendidas como determinantes na produção literária. [...]

Durante muitos séculos a mulher sofreu discriminações, vivendo como seres irracionais, sendo prisioneiras do seu próprio “eu”, mas esse posicionamento muda a partir do momento em que elas acabam por interferir no meio político e social do homem que, até então, detinha o poder e toda a autonomia de sua “voz”. De acordo com Lúcia Osana Zolin, 2003, pg. 162.

Também a crítica literária feminista é profundamente política na medida em que trabalha no sentido de interferir na ordem social. Trata-se de um modo de ler a literatura confessadamente empenhada, voltada para a desconstrução do caráter discriminatório das ideologias de gênero, construídas, ao longo do tempo, pela cultura. [...]

A crítica feminista trabalha também o sentido de desconstruir a oposição homem/mulher e desde a década de 1970 são realizados debates para entender qual é o espaço que pertence à mulher e o que isso estava causando. Depois de várias lutas para provar seu valor, as mulheres começaram a escrever e a ter seu próprio trabalho (profissão), que até então eram exclusividades do homem. Mas apesar de terem essa autonomia na escrita, havia o medo de retaliações, medo de represália, e, assim, elas começaram a utilizar pseudônimos masculinos como, por exemplo, Mary Ann Evans, pseudônimo de “George Eliot”. Enfim, tudo isso começou a romper com os espaços que até então pertenciam somente aos homens; como por exemplo, a escrita, passou-se agora a atribuir olhares diferenciados nas obras de artes e outras possibilidades de leituras.
Em qualquer tempo, a figura feminina sempre teve um lugar de destaque e, mesmo que de uma forma oculta, ela sempre contribuiu com grandes mudanças, pois o mundo apresentava-se diferente depois da existência desta ou daquela mulher. Seria impossível nomear num pequeno texto as mulheres que marcaram a História, com suas vidas, permanecendo nas mentes dos leitores, transpondo séculos e mundos diferentes, tornando-se vivas, modelos de conduta, força e orientação.
De acordo com Denize Maria Leal, 2009, pg.1:

Mulheres simples, verdadeiras, emprestaram seus nomes para títulos dos livros e entregaram suas vidas para enredos de romances e poemas, sem a pretensão da glória. Delas serviu-se e serve-se a Literatura, alimentou-se e alimenta-se de seus atos, de suas lutas, de suas dores para obter a substância das tramas que devolve caprichosamente urdida pelas palavras. Delineiam-se nas páginas da obra fortalezas, distinguidas pelo amparo, pela defesa, pela proteção. Todas que aí estão não foram imaginadas. Saíram da vida real. São mulheres incríveis, construindo todos os dias o capítulo de uma história digna de figurar no mais vendido, no mais belo livro de literatura, pois é o texto indispensável na obra máxima que é a vida.


Estas autorias femininas reverteram os valores que alicerçavam a tradição, no que diz respeito ao papel da mulher e aos valores a ela referidos e, o que é mais curioso, é que algumas escritas são feitas por homens, mas representam com clareza uma escrita feminina às vezes até mais que uma mulher que possui uma escrita masculinizada. Podemos perceber neste trecho de Lúcia Castelo Branco (1991, pg.18 – 20);

[...] Em primeiro lugar porque, como já se sabe, ela nem sempre é a escrita da mulher e ainda porque a relação que a escrita feminina mantém com os demais discursos (que poderia ser nomeados em bloco como “escrita masculina”) não é exatamente uma relação de oposição, ou de complementaridade. [...] Em segundo lugar, porque elas certamente apontam para uma possível explicação para o fato de a escrita feminina não ser exatamente a escrita das mulheres, mas de estar sempre relacionada à mulher, seja pelo grande número de mulheres que escrevem nessa dicção, seja pela evidência com que esse discurso se manifesta no texto das mulheres, ou ainda pela “mulheridade” que está implícita na escrita feminina, que mesmo quando ela é praticada por homens (há sempre aí, nesse tipo de discurso, uma certa voz de mulher, um certo olhar de mulher).

Para encerrarmos este capítulo dizemos, então, que devemos reavaliar a imagem da mulher e sua escrita na literatura, valorizando as vivências femininas do ponto de vista individual e coletivo. A crítica feminista entende que a literatura deve servir a um propósito de contraponto à tradição cultural do ocidente, que se caracteriza por ser “uma só”, ou até mesmo monossexual, não existindo diferença de sexo. Deste modo, o gênero não é entendido como um dado culturalmente adquirido, que acompanha as mudanças da própria cultura e, a partir deste momento, somos nós que vamos dizer o que somos, pois é um processo de redescoberta, reavaliação e construção, contínuo e intemporal. A própria valorização de outro olhar – feminino – sobre uma tradição histórico-literária-masculina é uma forma de dizer que as coisas e os discursos não são imutáveis.

3 UMA VOZ DISSONANTE EM PORTUGAL: AGUSTINA BESSA-LUÍS

“Nasci Adulta, Morrerei Criança”
(Agustina Bessa-Luis)

Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa ou Agustina Bessa-Luís nasceu em Vila Meã em 15 de Outubro de 1922, na freguesia de Real concelho de Amarante (distrito do Porto). Descendente de uma família de raízes rurais de Entre Douro e Minho, pelo lado paterno (o seu pai foi emigrante, tendo enriquecido no Brasil), e de uma família espanhola de Zamora, por parte da avó materna (Lourença Agostinha Jurado).
Desde muito nova interessou-se por livros, começando por ler alguns da biblioteca do avô materno (Lourenço Guedes Ferreira). Foi através destas primeiras leituras que tomou contato com alguns dos melhores escritores franceses e ingleses, os quais lhe despertaram a arte narrativa. Em 1932 vai para o Porto estudar, onde passa parte da adolescência, mudando-se para Coimbra em 1945, e, a partir de 1950, fixa definitivamente a sua residência no Porto.

Maria Agustina Bessa-Luís nasceu em vila Meã (Conselho de Amarante, distrito do Porto), em 15/10/1922. Tem feito viagens pelo estrangeiro. Iniciou-se em 1948, com o romance Mundo Fechado, mas sem chamar sobre si maior atenção. Entretanto, em 1953, com a publicação da Sibila, que mereceu o “Prêmio Delfim Guimarães” de 1953, e o “Prêmio Eça de Queirós” de 1954, entou a gozar de um prestígio que não tem cessado de crescer, mercê da qualidade literária que consegue infindir em suas obras.
( MOISÉS, 2000, pg.618)

É uma das mais consagradas escritoras contemporâneas portuguesa, considerada uma das maiores revelações da literatura moderna e comtemporânea de Portugal. Agustina possui uma vasta produção romanesca e assim consegue confirmar seu lugar na nova ficção portuguesa. Em 2004, venceu o mais importante
prêmio literário para a língua portuguesa, o prêmio Camões. Tem-se dedicado quase inteiramente à criação literária e desde sua estréia em 1948, quando publicou seu primeiro romance manteve um ritmo de publicação pouco usual nas letras portuguesas. Conhecida não só como romancista, mas também como autora de peças de teatro, argumentos, biografias, ensaios e livros infantis, conta até ao momento com mais de meia centena de obras. A sua escrita opõe-se a qualquer tentativa de contextualização, em termos de correntes, na história da literatura portuguesa. A autora revela grande preocupação pela condição social e cultural dos portugueses, particularmente interessada em perscrutar o passado, recorrendo à ficção para problematizar o conhecimento histórico e vivencial.
Suas obras tem causado uma grande impressão: trata-se de uma aparelhagem nova de romancista, forte a ponto de construir um momento de voltagem, no grande “caso” dentro do panorama da ficção moderna em Portugal.
Romancista previligiada, sua poderosa imaginação, onde tudo transfigura e vivifica a um só tempo, conferindo aos seres e aos objetos um helo de verdade e autenticidade provavelmente apenas possível no âmbito da Arte. Impelida por essa imaginação criadora e recriadora, a ficcionista não só arquiteta o plano suposto em que a narrativa se desenrola, como também lhe empresta seguidos dados da observação da realidade que lhes está intimamente conectados. Aparece assim, a identidade entre o ideal e o real, de modo que toda noção de espaço e de tempo desaparece em favor duma multiplicidade, que assinala a perenidade dos dramas focalizados. Tal processo tende a diluir o romance como fabulação corrida e inteira, e a transformá-lo em epopéia romanceada: as personagens se movimentam num espaço místico, ou ao menos imperceptível a olho nu, condensando-se no “mistério” que todas são umas para as outras.
Maria Agustina Bessa-Luís, fez vária viagens pelo estrangeiro. Iniciou-se em 1948, com o romance Mundo Fechado, mas sem chamar sobre si maior atenção. Entretanto, em 1953, com a publicação de “A Sibila”, que mereceu o prêmio “Delfim Guimarães” de 1953 e o prêmio “Eça de Queirós” de 1954, entrou a gozar de um prestígio que não tem cessado de crescer, devido a qualidade literária que consegue infundir em suas obras. “A Sibila” foi revelada em um concurso promovido pela editora Guimarães e escolhida por unanimidade entre trinta e três outra obras, por um jurí compostos pelos nomes mais importantes do modernismo português.
Suas principais obras são:
Mundo Fechado (novela), 1948.
Os super Homens (romance),1950.
Contos Impopulares,1951-1953.
A Sibila (romance),1954.
Ternos guerreiros (romance),1960.
Sermão de fogo (romance),1962.
As Relações Humanas: I – Os Quatro Rios (romance);1964.
As Relações humanas:II – A Dança das Espadas romance);1965.
AS Relações Humanas : III – Canção Diante de Uma Porta Fechada;1996.
A Bíblia dos Pobres:I – Homens e Mulheres ( romance);1967.
A Bíblia dos Pobres : II – As Categorias (romance);1970.
Crônica do Cruzado (romance);1976.
Fanny Owen (romance);1979.
Um Bicho da terra (romance);1984.
Prazer e Glória ( romance):1988.
Vale Abraão (romance);1991, entre outras.
Porém, foi com o romance “A Sibila”, que Agustina Bessa-Luís se impôs como uma das vozes mais importantes da ficção portuguesa contemporânea. Seu estilo único e enigmático rendeu o elogio de muitos críticos, que a denomina “Fernando Pessoa de saias”.
Assim se manifesta a crítica a seu respeito:
Massaud Moisés, confirma o que todos dizem, que Agustina possui uma característca realista e ficcional em suas obras devido é claro ao período ao qual pertenceu, ele diz que Agustina vai mais além, ela chega a mergulhar no tempo, e tudo isso recria com precisão a experiência de sua imaginação, transfigurando e vivificando a um só tempo, dando aos seres e objetos um ligação de verdade e autenticidade. Mas em seus romances ela sempre procura uma reflexão sobre a dimensão metafísica (é um ramo da filosofia que estuda a essência do mundo, é o estudo do ser ou da realidade) do ser humano, escolheu muitas vezes figuras ou acontecimentos históricos, ela consegue com muita facilidade trazer suas personagens ao mundo da realidande.
A.B.L. constitui, sem favor algum, no grande “caso” da moderna ficção portuguesa, mercê das qualidades romanescas que logra reunir na construção comtemporânea , romancista privilegiada,graças a uma poderosa imaginação que tudo transfigura e pesentifica, tornando o possível da fantasia num dado tão verossímel quanto o é a realidade contigente, de que parte e para onde reflui no fim do percurso descrito.
(MOISÈS, 1973, pg 30)

O objetivo básico de Antônio José Saraiva e Oscar Lopes foi escolher com certa precisão obras literariamente mais qualificadas de língua e de autoria originariamente portuguesas, segundo uma perspectiva de desenvolvimento geral das estruturas formais e da matéria humana que lhes corresponde, eles designaram as fases de estruturação e desagregação de uma escola ou estilo literário, e uma dessas designações personificada por eles foi Agustina Bessa-Luis citada com grande alegria por ser também uma autora individualizada em relação a suas obras, pois, narra conspirações, corrupções, intrigas de parentes, criados, amigos e inimigos. Agustina, busca no meio rural onde viveu as personagens desse universo romanesco que criou com tanta verossimelhança. E no caso de “A Sibila”, ela narra críticas à burguesia rural, com um grande realismo, e é nesta obra que, o que mais se predominada é o universo feminino.

"Uma negatividade mais radical, nascida de um ainda mais profundo sentido de decadência na burguesia originariamente rural, e servido por uma extraordinária exuberância, algo indisciplinada, de evocações, pormenorizadas até à alucinação ou amplificadas até aos casos patologicamente mais significativos, eis o que informa os romances caudalosos de um dos mais originais ficcionistas de hoje, Agustina Bessa-Luís." – SARAIVA;LOPES, 1976, pg.1.093.

4 CONFIGURAÇÃO DA IDENTIDADE FEMININA NA OBRA “A SIBILA”

“A Sibila” foi recebida com entusiasmo pela crítica, tornando-se o ponto de partida para uma vasta e bem sucedida carreira literária, voltada principalmente para a investigação dos questionamentos humanos, matrizes de temas universais de personagens e de ambientes que se inserem nas vertentes do nacionalismo português, bem como nas do regionalismo.
Em “A Sibila”, o intimismo e introspecção estão voltados para a psicologia feminina, por vezes em confronto com a masculina, tendo por fulclo o casamento ou situações análogas, em que se jogam os valores burgueses.
Em sua obra, a autora casa perfeitamente o tempo passado e o presente onde essas personagens do presente se estruturam do passado com a evolução da casa, colocando as dúvidas, as angústias e os problemas mais substânciais que determinam a rigidez de personagens que afloram em um espaço agrícola tipicamente regional.
Portanto, mais do que a família, o que mais interessa é o tempo espacial em que se dão os fatos, a carga mística, supersticiosa e mágica que carregam os habitantes desse local de Portugual. Observam-se entrelaçados aspectos da geografia, da linguagem, da flora e da fauna, dos gostos e da forma de vida agreste e precária de seus habitantes. Mas a marca principal de toda narração/descrição feita pela autora é aquela que acentua o domínio do matriarcado, que parece ser característico da região agrícola do Norte de Portugal.
No plano da intriga, trata-se de uma reconstrução da trajetória da família Teixeira e de sua casa secular (que se faz de século a século) que caminha da decadência/ruína ao ressurgimento grandioso e triunfal.

4.1 Contextualização

“A Sibila” traz sutis referências ao contexto histórico-cultural ao qual pertence. É uma época em que vigora, na literatura portuguesa, a corrente literária denominada Neo-Realismo (A Literatura Neo - Realista resgata valores do realismo e do naturalismo do fim do século XIX com forte influência do modernismo, marxismo e da psicanálise freudiana). Como o nome indica, o Neo-Realismo retoma os procedimentos descritivos do Realismo vigente no século anterior, adaptando-o aos dilemas do homem do século XX, que habita um continente devastado pelos horrores de um conflito bélico (Segunda Guerra Mundial) e um país no qual impera a ditadura salazarista. A denúncia dos problemas sociais, a crítica ao governo e ao sistema capitalista são algumas das bandeiras do Neo-Realismo. Na maioria dos autores portugueses, a crítica ao regime ditatorial é disfarçada, pois, como em toda ditadura, a censura e a ameaça de repressão eram constantes. No trabalho de Agustina, não aparece explicitamente nenhuma denuncia social, todavia, ficam subentendidas as disparidades sociais e econômicas que envolvem seus personagens. As reflexões sobre a sociedade e a cultura portuguesa propostas em “A Sibila”, desmascaram muitos aspectos da opressão presente nas relações entre homens e mulheres, dentro daquela sociedade, principalmente no período retratado, entre o final do século XIX e o início do XX.
Na obra destaca-se também a intertextualidade, com referências a escritores, pintores e artistas, revelando de certa forma, o diálogo do livro com outros aspectos da cultura universal. Nas entrelinhas são referidos fatos históricos nacionais, como o advento da república e ouvem-se os ecos da Primeira Guerra Mundial. Portugal, gradativamente, vai adentrando o século XX: observa-se energia elétrica no campo (nas casas mais prósperas) e se torna possível contrapor um universo ainda fechado, estreito e pobre, a um universo que se abre para se deixar penetrar pelo desenvolvimento.

Estalara a revolução, e ele viera do Porto instalar as filhas na propriedade, receoso de sedições, turbulências. Mas tornou à cidade, onde tinha o seu posto, dizia, e onde a sua célula de amigos, iluminados, sinceros, oportunistas, estavam em efervescência e se ramificava por obediência e por contágio. – Temos a Republica – disse José, com voz vacilante e depondo um beijo na fronte da irmã. (p.56).

4.2 Enredo O romance narra a história de três gerações da família Teixeira, cuja figura principal é Quina, que, por seu profundo e controverso discurso de sabedoria humana, é caracterizada como uma sibila, ou seja, alguém dotado de poderes especiais em relação à previsão do futuro e à obtenção de favores divinos mediante preces.
Ao longo de seus dezenove capítulos, a narrativa vai acompanhar, da queda ao apogeu, os acontecimentos que determinam a vida dessa família e de sua propriedade: a casa da Vessada, destacando o comportamento das mulheres que são diretamente responsáveis pela reedificação do patrimônio. Paralelamente a essa história, outras histórias são recupera­das, sempre na intenção de ilustrar o sistema de valores que cerca a família Teixeira.
O primeiro capítulo inicia-se com o diálogo entre a personagem Germa (Germana) e o seu primo Bernardo Sanches, quando visitavam a quase abandonada casa da Vessada. Germa, distraída da conversa, começa a rememorar os fatos do passado e pergunta a si mesma sobre quem fora Quina, a tia que lhe fez herdeira. Começa, então, a narrativa da história da família, primeira­mente descrevendo o nascimento de Quina, Joaquina Augusta, e depois retornando ao casamento dos pais de Quina, Francisco Teixeira e Maria da Encarnação, que são apresentados detalhadamente. Nesse primeiro capítulo ainda se conta o incêndio que destruiu a casa da família, antes mesmo do nascimento das crianças.
O segundo capítulo traz informações sobre a vida desregrada de Francisco Teixeira e as aflições que Maria (a mãe) sofria, esperando por ele. Descreve-se também as circunstâncias da morte dos três primeiros filhos do casal e o nascimento de Justina, nome de batismo da primeira criança que sobreviveu. Caracteriza-se, nesse capítulo, a diferença de tratamento que a mãe, Maria, dispensava às duas primeiras filhas: Estina era tratada com carinhos e cuidados especiais, enquanto à Quina eram destinados os trabalhos mais pesados. O pai, Francisco, reconhece tais diferenças e, sempre que possível, toma partido da filha mais nova.
No terceiro capítulo observa-se uma série de infortúnios que atinge a família Teixeira. A morte de Abílio, o filho adolescente que foi para o Brasil tentar fortuna e voltou atacado de febres. A falta de dinheiro e as inúmeras dívidas decorrentes da fanfarronice de Francisco, bem como sua morte. Ocorre ainda a ruptura dos namoros das duas irmãs: Estina, cujo namorado desapareceu ao perceber a falência da família, e Quina, que renunciou ao pretendente, para que este pudesse encontrar casamento de maiores dotes.
O quarto capítulo focaliza Quina. Apresenta o desenvolvimento de suas capacidades sibilinas, que eram já previstas pela mancha de nascença que a menina apresentava no pulso e, assim, começaram a ser notadas desde que uma grave doença a atingiu quando não tinha ainda mais de quinze anos, momento em que todos pensaram que iria morrer. A partir desse incidente, Quina percebe que pode exercer alguma influência sobre as pessoas que a cercam.
O processo de reconstrução econômica da casa da Vessada é o assunto do quinto capítulo. As três mulheres são as responsáveis pelo “ressurgimento” da propriedade, uma vez que os rapazes têm muito do comportamento do pai. A filha mais velha, Estina, casa-se por conveniência com Inácio Lucas e passa a viver não muito distante da família. Encontra-se com a mãe e a irmã periodicamente, quando vai ao mosteiro para assistir à missa. Quina e a mãe, Maria passam a viver em aliança e, aos poucos, Quina toma a frente nos negócios da família. Daí para frente, Quina dedica-se a enriquecer materialmente e tornar-se, a cada dia, mais influente e respeitada na região.
No sexto capítulo, as mulheres continuam na rotina do trabalho, quando João anuncia que irá se casar. Maria não aprova a noiva escolhida pelo filho, recebendo-a mal, mesmo depois de casada. Abel, o outro filho, vive em andanças pelo mundo afora, tentando fazer fortuna. Quina o acompanha, convivendo pela primeira vez com a sociedade. Mesmo depois da partida de Abel, ela continua sendo recebida em algumas casas fidalgas, tomando-se mesmo confidente de algumas damas, entre elas, Elisa Aida, a condessa de Monteros.
O sétimo capítulo é dedicado à visita de Quina à casa de Elisa Aida. Esta a convidara após viver uma intriga romanesca, na qual o desfecho, que era um não casamento, fora previsto por Quina. É essa espécie de profecia concretizada que faz com que a condessa trate Quina como “a sibila”. Também, uma parte da história de Estina é recordada. Esta tivera dois filhos que morreram já quase moços, devido à brutalidade do pai, e uma filha, que sofria de alucinações. Apesar dos maus-tratos do marido, não abandona a casa para não desonrar a família.
No oitavo capítulo, Quina será novamente o foco central. Fala-se sobre os pretendentes que a cobiçam, mesmo estando ela com quarenta anos; sobre as suas habilidades nos negócios, que fazem prosperar a casa da Vessada; sobre sua vaidade, não em relação aos atributos físicos, mas, em relação à esperteza e à psicologia com que conquista sempre mais espaço. Há também, uma referência ao progresso da aldeia, com a chegada da energia elétrica e outra, ao poder das rezas de Quina, que, com astúcia, impressionava as pessoas que a ouviam rezar.
O nono capítulo marca o encontro das três gerações da família Teixeira: Maria, Quina e Germa. Inicia-se com o anúncio do nascimento de Germana, através de um cartão-postal trazido pelo carteiro. Narram-se, de­pois, algumas visitas que a pequena Germa faz à casa da Vessada.
A morte de Maria é contada no décimo capítulo. Germa é quem focaliza as personagens: a tia Estina, o tio Inácio Lucas e a tia Quina. Neste capítulo, também ocorre o desaparecimento da filha “louca” de Estina e Inácio Lucas. Quina é chamada pela irmã para que reze pelo reencontro da sobrinha, porém é destratada pelo cunhado. A “louca” só será encontrada no capítulo seguinte.
No décimo primeiro capítulo, a morte também é um tema constante. Primeiramente é a morte da filha de Estina, encontrada, um mês após seu desaparecimento, em um cenário medonho: o interior de uma mina abandonada, repleta de morcegos. Depois vem a morte de Elisa Aida, que é descrita ressaltando-se os pormenores de sua vida teatral. Um escudeiro, que o povo suspeitava ser filho da condessa, ficou desamparado com sua morte e foi acolhido como empregado por Quina. Finalmente, conta-se a morte de uma prostituta, com quem o escudeiro da condessa tivera um filho.
O próximo capítulo, décimo segundo, é dedicado a contar a decisão de Quina, já aos cinqüenta e oito anos: tomar conta do filho da prostituta. Quina desenvolve grande afeição pelo menino de quatro anos, batizado por ela com o nome de Emilio, embora todos o chamassem de Custódio, que era a forma como as crianças eram designadas antes do batismo.
No décimo terceiro capítulo, reaparecem os irmãos Abel e João. O primeiro, após saber da adoção realizada pela irmã, preocupa-se com o destino da herança da família e vai visitar o irmão João, em busca de aliança contra Quina. Encontra o irmão envelhecido, pois não se viam há mais de dez anos, mas não consegue o apoio que procurava. Nesse capítulo, aparecem ainda descrições do comporta­mento que Custódio adota perante sua benfeitora, Quina, e um perfil de Libória, empregada da casa da Vessada.
O capítulo décimo quarto narra o isolamento crescente de Quina. Parte desse isolamento é devido ao envelhecimento natural e parte se deve à proteção dada a Custódio. Mesmo diante da indignação de parentes e conhecidos, ela aceita o comportamento degenerado de Custódio, que se envolve com o bandido Morte e pratica pequenos roubos.
Quina adoece no décimo quinto capítulo e é Libória quem dela cuida. Estina, a irmã, passa uma semana lhe fazendo companhia no auge da doença. O ex-namorado, Adão, de quem Quina se tornou confidente, também vai visitá-la e aproveita para tocar no assunto do testamento. Abel, o irmão, visita a irmã quando ela já está se restabelecendo e a convida para passar alguns dias em sua casa, na cidade, a fim de se tratar.
A visita de Quina à cidade, afastando-se da casa da Vessada pela primeira vez na vida, é o assunto narrado no capítulo décimo sexto. Durante essa visita, ela se hospeda na casa de Abel, mas aproveita para visitar também a casa da cunhada e do irmão João. Três dias após sua chegada, Quina recebe uma carta de Libória, dizendo que Custódio adoecera. Quina retorma imediatamente à casa da Vessada, antes mesmo de saber os resultados de seus exames de saúde.
No décimo sétimo capítulo, a saúde de Quina volta a fraquejar, desta vez, definitivamente. É quando Libória, a em­pregada, aproveita para agoniar Custódio, lembrando a ele que, após a morte de Quina, ficará desamparado. Quina, por sua vez, revive na memória momentos da vida familiar: a mãe, os irmãos ainda jovens, o pai. Custódio inquieta-se com o estado de saúde de sua benfeitora, chegando mesmo a perguntar a ela o que será dele após sua morte. Libória aumenta a perturbação de Custódio, contando casos de miseráveis e mendigos que perambulavam pelas ruas da aldeia. No penúltimo capítulo, Custódio muda de comportamento, passando a agir com interesse e cuidados em relação à Quina e à propriedade da Vessada. Constante­mente ele interroga Quina sobre sua situação após a morte dela. Essa insistência chega a irritá-la, embora sinta pena do rapaz. Na noite em que Libória e Custódio estavam jogando cartas em outro cômodo da casa, Quina morre, sozinha, em seu leito.
O último capítulo é uma retomada do primeiro, dando notícia dos acontecimentos ocorridos após a morte de Quina. O funeral de Quina é narrado. Germa, filha de Abel, irmão que tinha sido registrado com sobrenome materno, é a única herdeira de Quina. A Custódio coube o direito ao usufruto de duas propriedades que Quina adquiriu após a morte da mãe. No entanto, ele só partiu da casa da Vessada após ser expulso por Germa. Foi, então, trabalhar como empregado na propriedade dos herdeiros da condessa Monteros. Como se metesse em fofocas, foi despedido e, vendo-se sozinho novamente, suicidou-se. Estina faleceu e seu marido, Inácio Lucas, casou-se com uma velha parenta. A cena que encerra o livro é a mesma que o iniciou: a conversa de Germana com o primo Bernardo. O livro é encerrado com reticências, quando Germa questiona a personalidade da “sibila”. Em linhas gerais, trata-se um romance centrado em três personagens femininas, extremamente fortes, que se sucedem na direção da Casa da Vessada, enquanto os homens dedicam-se a gastar o que elas conquistaram.

4.3 Definições de “SIBILA”

Sibilas são um grupo de personagens da mitologia greco-romana. São descritas como sendo mulheres que possuem poderes proféticos sob inspiração de Apolo. O termo “sibilina” que caracteriza a forma de se expressar da personagem e, ainda, a associa ao misticismo, aos presságios, ao sentido de milagre que os outros lhe conferem.
“Sibila” é aquela que profetiza, mas, ao mesmo tempo, designa também uma forma de falar assobiando, sussurrando e em forma de silvo. Sibila, que remete para a figura clássica da Sibila de Delfos, significa adivinha e refere-se à personagem Joaquina Teixeira, a Quina. No entanto, Quina não tinha poderes sobrenaturais, era apenas atilada e prática conselheira; ninguém da sua igualia a tratava por sibila. Morreu velha e doente, mas orgulhosa da casa que salvara da falência e da fortuna que ameassara.

[...] Aos poucos, foi ganhando títulos de adivinha, de mulher de virtude, que nunca repudiou completamente, ainda que lhe repugnasse ser equiparada a qualquer explorador de ingenuidades broncas. Acima de tudo, Quina nunca soube até que ponto a sua condição espiritual era poderosa. [...] (p.52)

4.4 Foco Narrativo
O foco narrativo realiza-se na terceira pessoa, apresentando um narrador onisciente, capaz de ver e saber tudo, inclusive os pensamentos e sentimentos mais íntimos das personagens, traduzindo e interpretando gestos e reflexões que as próprias personagens desconhecem. No entanto, durante toda a narrativa, este narrador nos dará trabalho: lê e aponta, revê, indica e observa. Está de uma forma ou de outra presente, deixando-se entrever na memória de Germana, a Germa. É ela quem desfia, uma a uma, as lembranças de Maria Joaquina, a Quina. O eixo narrativo ou a coluna de sustentação da história é Quina, a sibila, que pode ser entendida como a protagonista, que dá título à obra. Germa, sua sobrinha, é apresentada como a narradora em potencial, passível, porque tem condições de conhecer mais e interiormente essa figura humana incrível que foi Quina.

4.5 TEMPO/ESPAÇO/AÇÃO

Os acontecimentos envolvendo o casal Maria e Francisco e sua descendência ocorrem principalmente nas duas décadas do final do século XIX e nas duas iniciais do XX. No romance “A Sibila”, o tempo da narrativa não acompanha o tempo cronológico. É a memória, com seus volteios e desvios característicos, que orienta o desenrolar da história de três gerações. Apesar de uma estrutura aparentemente confusa, o tempo no romance pode ser recuperado, indiretamente, como um quebra-cabeça, juntando-se as marcações temporais espalhadas ao longo do texto. Em virtude dessas idas e vindas no tempo, com o narrador apresentando flash-back, o tempo predominante é o psicológico, pois o registro maior é o das ações interiores das personagens, tentando captar os elementos fundamentais que constituem o ser humano em sua complexidade e em suas contradições. O cenário da maior parte da narrativa é a propriedade da família Teixeira, denominada casa da Vessada. Tal propriedade está inserida no espaço rural de uma zona do Norte de Portugal. A ambientação rústica e o clima rural vão ser reforçados durante todo o romance, com freqüentes referências ao modo de vida do lugar e uma série de recursos lingüísticos que incluem regionalismos, objetos, vegetação e crendices, típicos de um universo social determinado. É comum a referência à aldeia para marcar o centro geográfico da região, bem como a classificação de comarca, para referir-se à área mais abrangente. As ações acontecem fundamentalmente nesse espaço rural, provinciano, envolvido por uma maneira muito peculiar de ver e vivenciar o mundo.

[...] Estavam muito graciosos com as suas pelerinas forradas de seda escocesa, sob as quais se viam os vestidos de flanela beije, à marinheira. A mãe, muito bela, com cabelos alaranjados recolhidos pelo véu de viagem, debruçava-se da portinhola, rindo e sacudindo a mão enluvada. (p.49).

Como podemos notar, há uma preocupação em registrar, através da descrição, não apenas elementos da natureza, mas os móveis, as roupas e adereços, com detalhes que não podem escapar ao olhar feminino:

4.6 Personagens

Joaquina Augusta (Quina), a sibila - Segunda filha de Maria Encarnação e Francisco Teixeira; mulher de condição espiritual poderosa, nunca se casou, conselheira, faz próspera a condição da família, detentora de secretas potências que ultrapassa o campo humano. Não era bonita, e sim pequena como o pai, mas de falas astuciosas e gênio profundamente equilibrado. A partir de uma doença, que a deixou presa à cama como uma paralítica, passou a ser tomada como pessoa de dons sobrenaturais.
Francisco - Marido de Maria, pai de Quina. Homem de pouca afeição ao trabalho, mas dotado de grande poder de atração com relação às mulheres. Por causa de seu caráter desperdiçador, gastador, deixa a família em dificuldades financeiras.
Maria - Mãe de Quina e Estina. Mulher trabalhadeira, esposa dedicada, suporta com paciência as aventuras do marido, sem permitir que os filhos sequer falem mal dele.
Abel - Irmão de Quina. Vai morar na cidade. É ganancioso, está sempre pensando na herança, que um dia deverá ser distribuída.
João - O irmão empobrecido. Leva vida modesta em um apartamento de classe média. Não se envolve nos problemas familiares.
Narcisa - Vizinha e amiga de Maria. Mulher inculta e pouco preocupada com a higiene.
Germana, Germa - Sobrinha de Quina; filha de Abel (irmão de Quina); desde pequena identifica-se com a tia e é a sucessora de Quina; Germana, às vezes, passa a ser fio condutor do que nos será narrado. É a partir de seu ponto de vista que toda a história é "relembrada". Moça moderna, torna-se a herdeira da Casa da Vessada.
Balbina - irmã de Maria, mulher mentirosa, madrinha de Quina e de Elisa Aida.
Estina - irmã mais velha de Quina; moça prendada, recebeu uma educação cuidadosa, gostava de serviços leves que pudesse executar sentada. Casa-se com um homem hipocondríaco, de posses medianas.
Custódio - (Registrado como Emílio), recebe o nome de Custódio por não ter sido batizado, criou-se nas barras da saia de Quina; mimado, mete-se com maus elementos, chegou aos limites do bandidismo; Quina sempre o perdoa. Filho do escudeiro de Elisa Aida com uma prostituta, era bonito, mas pouco inteligente. Não tinha nome a herdar, nem bens. Recolhido por Quina é criado como se fosse um filho, mas não herda todos os seus bens. Pelo amor que lhe tinha, Quina deixa-lhe duas propriedades que conseguira por si, mas nega a Custódio as terras que recebeu de herança, onde ele foi criado, mas que são destinadas a Germa. Custódio revela-se apegado à terra e à condição inferior, não conseguindo dirigir nem se interessar pelas suas propriedades. Sem conseguir encontrar um lugar para si e um destino para cumprir, o “sem-família” tira a própria vida.
Elisa Aida - Dona de um orgulho grotesco; apegada a banalidades, rica, tem também Quina como conselheira. Provinciana que adota ares de fidalga ao casar-se com um tio que enriquecera. Conseguem títulos de nobreza e ela se torna a condessa Monteros.
Adriana - Prima de Quina, mulher linda, com os cabelos alaranjados da mãe e um perfil inocente e grave.

4.7 O papel da mulher na obra “A Sibila”

No que diz respeito à crítica feminista, esta surge em meados da década de 1970 após a publicação da tese de doutorado Sexual Politcs 1970, da norte-americana Kate Millet, uma obra que finalmente diagnosticamos uma tendência debatida na época: a experiência da mulher como leitora e escritora é distinta da masculina e por isso abre margem a mudanças no campo intelectual, além de gerar a quebra de paradigmas e descobertas de novos horizontes.
Quando falamos da crítica feminista, queremos simplesmente falar do lugar da mulher no mundo ou na sociedade, tendo em vista seus horizontes de interesses, seus desejos, suas necessidades e suas experiências. É comum encontrar entre as obras da nossa literatura imagens da mulher estereotipadas segundo o modelo da sociedade patriarcal, caracterizadas pela submissão, resignação, espera, e pelo sofrimento. Somente no século XIX e XX este estado de submissão e opressão que a mulher vinha sofrendo começa a se transformar.
Destacamos, portanto, a oposição e a opressão entre as personagens masculinas e femininas dentro da obra “A Sibila”. Tal oposição favorece as personagens femininas que são as verdadeiras guias de “intriga” dentro da obra, e percebemos essa aversão no trecho a seguir:

As mulheres viam-se a braços com toda a responsabilidade, o que não era novo para elas. Com uma sistemática defesa de economia que rasava pela avareza, a sua vida sem gestos, sem extraordinários, conseguiam proezas de orçamento no qual bastaria a presença de um homem fumador ou amigo de seroar para causar o desequilíbrio. [...] Elas tinham habituado a contar apenas com o seu pulso, a serem sós, [...]. Por isso o seu carácter não podia deixar de adquirir acentos viris, assim como as suas mãos tinham calos e nodosidades, como o seu espírito se abstinha de manifestações supérfluas. E a entranhada aversão pelo homem, pelo ser inútil e despótico, egoísta, cedendo aos vícios e à corrupção com uma facilidade fatalista, desenvolve-se nelas cada vez com mais intensidade (p.53-54).

Quanto aos homens da família, vão ser destacados os traços de personalidade que fazem deles degeneradores do “patrimônio familiar”. João não era ambicioso, ao contrário de Abel, que acalentava ideal de riqueza, mas ambos herdaram do pai o gosto pelos amores dispersos e a pouca disposição para o trabalho, enquanto as mulheres significam o equilíbrio. As cenas que traduzem o elemento masculino avançam com um discurso próximo do desequilíbrio, pois a figura masculina, de certa forma, quer se apoderar da mulher, querendo que elas simplesmente sejam convertidas em servidoras, escravas da luxúria do homem e submissas a eles.

[...] E, naquele lar em que o chefe aparecia apenas para ser servido, para aceitar a escolha do melhor bocado e a servidão feliz de todos os que levavam afinal o fardo das monótonas canseiras [...] A presença de Francisco não a afligia menos que a sua ausência porque, velho garanhão dedicado quase ingenuamente às verduras da mocidade, perseguia muito as caseiras jovens, sorrateiro e fino,

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