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Análise Estilística da Poesia - Além da Terra, Além do Mar - de Carlos Drummond de Andrade

Autor:
Instituição: UNIR
Tema: Análise Estilística

ANÁLISE DA POESIA "ALÉM DA TERRA, ALÉM DO MAR" DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


1. QUEM FOI CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

1.1. Sua vida

Nasceu em ltabira do Mato Dentro (MG) em 1902. Fez os estudos secundários em Belo Horizonte, num colégio interno, onde permaneceu até que um período de doença levou-o de novo para ltabira. Voltou para outro internato, desta vez em Nova Friburgo, no estado do Rio de Janeiro. Pouco ficaria nessa escola: acusado de "insubordinação mental" - sabe-se lá o que poderia ser isso! -, foi expulso do colégio. Em 1921 começou a colaborar com o Diário de Minas. Em 1925, diplomou-se em farmácia, profissão pela qual demonstrou pouco interesse. Nessa época, já redator do Diário de Minas, tinha contato com os modernistas de São Paulo. Na Revista de Antropofagia publicou, em 1928, o poema "No meio do caminho", que provocaria muito comentário.

1.2. Sua obra

Poesia: Alguma poesia (1930); Brejo das almas (1934); Sentimento do mundo (1940); Poesias (1942); A rosa do povo (1945); Claro enigma (1951); Viola de bolso (1952); Fazendeiro do ar (1954); A vida passada a limpo (1959); Lição de coisas (1962); Boitempo (1968); As impurezas do branco (1973); A paixão medida (1980); Corpo (1984); Amar se aprende amando (1985); O amor natural (1992).

Prosa: Confissões de Minas (1944) - ensaios e crônicas; Contos de aprendiz (1951); Passeios na ilha (1952) - ensaios e crônicas; Fala, amendoeira (1957) - crônicas; A bolsa e a vida (1962) - crônicas e poemas; Cadeira de balanço (1970); O poder ultrajovem e mais 79 textos em prosa e verso (1972) - crônicas; Boca de luar (1984) - crônicas; Tempo vida poesia (1986).

1.3. Drummond e o Modernismo

Carlos Drummond de Andrade é considerado o maior poeta brasileiro do século XX. Foi também admirável cronista; sua prosa é distinta pela força da linguagem poética, que dá forma aos registros do cotidiano e da memória. Poeta "nascido intelectualmente dentro do Modernismo, sem laivo de passado e nem perigo de volta a ele", como observou Antonio Candido, Drummond produziu extensa obra, em que a poesia de enfoque social e a poesia relativa ao indivíduo se mesclaram e se fundiram. Para José Guilherme Merquior, Drummond é uma das grandes "fundações" do Modernismo; segundo o crítico, "este poeta renovou a linguagem e o endereço de nossa lírica. Depois dele, uma e outra se abriram a modos mais objetivos de direção social, que já não cabem no subjetivismo anterior. O humanista dos primeiros livros deu ao lirismo uma agudeza reflexiva e irônica que o virou pelo avesso; o autor de A Rosa do Povo passou a emocionar-se com os sentimentos coletivos, e finalmente o terceiro Drummond, de Claro Enigma considerado, fundou entre nós a grande meditação poética sobre as razões da existência, a pensativa poesia sobre a ‘condition humaine’ e as recentes significações do Neo-Humanismo contemporâneo".


2. A poesia "Além da Terra, além do Céu".

2.1. Análise

No presente trabalho pretende-se fazer uma breve análise estilística da poesia em questão, serão levados em consideração alguns recursos morfológicos, fonológicos, semânticos e rimas.

ALÉM DA TERRA, ALÉM DO CÉU

Além da Terra, além do Céu,

no trampolim do sem-fim das estrelas,

no rastro do astros,

na magnólia das nebulosas.

Além, muito além do sistema solar,

até onde alcançam o pensamento e o coração,

vamos!

vamos conjugar

o verbo fundamental essencial,

o verbo transcendente, acima das gramáticas

e do medo e da moeda e da política,

o verbo sempreamar,

o verbo pluriamar,

razão de ser e de viver.

( Carlos Drummond de Andrade)

Ao utilizar o recurso fonológico da língua, a aliteração da letra /M/, o poeta sugere infinitude, transcendência, a grandiosidade do sentimento expressado pelo eu - poético, reforça o sentido semântico do advérbio além:

"Além da Terra, além do Céu,

No trampolim do sem-fim das estrelas,"

Os fonemas homorgânicos /t/e /d/ são colocados nos versos seqüencialmente de forma a sugestionarem proximidade imediata entre terra e céu:

"Além da Terra, além do Céu,

No trampolim do sem-fim das estrelas,

No rastro do astros,

...

Além, muito além do sistema solar,"

O poeta utiliza-se do sufixo aumentativo/multiplicativo /pluri/ e do advérbio /sempre/ fazendo uma junção com o verbo para alcançar uma maior expressão do conteúdo afetivo do eu - poético, transcende a carga representativa do verbo amar traduzida pelas gramáticas:

"o verbo sempreamar,

o verbo pluriamar,"

Há uma inversão sintática em relação ao verbo. O poeta desloca o verbo para o final do verso para dar maior ênfase à expressividade na poesia:

"até onde alcançam o pensamento e o coração,

vamos!"

Nesse jogo de palavras e desvio de algumas funções da língua, percebe-se que o poeta se utiliza da repetição do conectivo /e/ no 11º verso na coordenação dos termos como sugestão de aceleração do ritmo poético, é como se o eu – poético tivesse pressa em alcançar logo, a eternidade:

"e do medo e da moeda e da política,"

Nota-se a utilização de um recurso lexical a partir de palavras distantes semanticamente, mas que remetem à idéia de aproximação:

"Além da Terra, além do Céu,"

Ao acrescentar o morfema /s/ no termo astro = astros, o poeta criou um desvio da norma, alterando o sentido do termo no verso, desrefencializa-o e confere-lhe um novo sentido transcendendo o primeiro:

"no rastro do astros,"

Quanto às rimas, podemos percebê-las através do marcador sintático: a vírgula. Nem todos os versos possuem rimas sequencialmente. Há versos sem simetria, variando a terminação sem preocupação com rima:

"no trampolim sem-fim das estrelas,"

"razão de ser e de viver"


3. considerações finais

A poesia "Além da Terra, além do Céu" provoca a idéia de que é possível transcender o sentido do verbo amar traduzido pela gramática normativa, para isso, o poeta se vale de advérbios (além, sempre, muito), prefixo (pluri), criando uma mistura de significados que provoca e desperta um verdadeiro reboliço na percepção do leitor, até atingir seu objetivo.


4. Bibliografia Consultada

ANDRADE, Carlos Drummond de. Amar se aprende amando. Record, 2002.

CHALHUB, Samira. A metalinguagem. 4ª ed. São Paulo: Editora Ática, 2001.

ELIA, Silvio. Orientações da lingüística moderna. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1978.

GUIRAUD, Pierre. A estilística. Trad. De Miguel Maillet. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

KAYSER. Wolfgang. Trad. Paulo Quintela. Análise e interpretação da obra literária. Coimbra: Editora Armênio Amado, 1985.

MARTINS, Nilce Sant`anna. Introdução à estilística. 3ª ed. São Paulo: T. A. Queiroz, Editor, 2003.

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