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Influência das Línguas do Tupi e Africana na Língua Portuguesa

Autor:
Instituição: PUC-PR
Tema: Influência das Línguas Indígenas e Africanas na Língua Portuguesa

1. INFLUÊNCIAS TUPI E AFRICANA NO PORTUGUÊS DO BRASIL E A UNIFICAÇÃO DA LÍNGUA

Só a partir da segunda metade do século XVIII é que o Brasil pode começar a ser definido como um espaço de língua dominante portuguesa, devido à conhecida política lingüístico-cultural desenvolvida pelo Marquês de Pombal. A repressão ao uso de línguas indígenas, sobretudo de base tupi -- tronco lingüístico mais difundido na área já colonizada --, desencadeada por essa orientação política, tirou o Brasil de um rumo que poderia tê-lo levado a ser um país de base lingüística majoritariamente indígena.

São os seguintes os dados históricos relativos à implantação do Português no Brasil : a língua portuguesa, em sua versão européia do final do século XV, foi trazida para o território americano em 1500, quando Cabral aportou no Brasil. Caminha, o escrivão de Cabral, relatou que foi impossível "haver fala ou entendimento de proveito", por isso trocaram impressões como mudos, gesticulando.
Datam de 1540 e 1550 as primeiras notícias sobre a língua dos índios, relatadas por europeus que a aprenderam, transformando-se em "línguas", termo utilizado para designar os intérpretes para o português.

Os jesuítas tiveram um importante papel nos estudos das línguas indígenas. Destaca-se, entre os jesuítas, o Padre José de Anchieta, que percebeu a existência de enorme variedade de línguas em função das diferentes nações indígenas existentes.

Nessa década, falavam-se várias línguas e alguns colonos portugueses aprendiam pelo convívio, sem lições, o tupi e outras línguas indígenas e as africanas, pois os negros da Guiné já haviam sido introduzidos no Brasil, como atestam as cartas de Nóbrega.

Estes tupi da costa foram, em grande parte, subjugados e aculturados pelos portugueses; serviram-lhes de guias e aliados na marcha de penetração da terra. De acordo com os tupi, os portugueses consideravam todos os demais indígenas como "tapuias", que era o nome para "inimigo" em tupi. A partir daí, criou-se uma dicotomia tupi-tapuia, que ficou valendo por muito tempo como uma divisão étnica e lingüística.

Os tupi do litoral, entre a Bahia e o Rio de Janeiro, formavam uma série de tribos bastante homogêneas, cultural e lingüisticamente. Os dialetos que falavam foram aprendidos pelos brancos, desenvolvendo-se uma língua geral de intercurso, que era fundamentalmente o dialeto tupinambá, de um dos grupos mais importantes e mais em contacto com os portugueses. Os missionários jesuítas o estudaram, descreveram normativamente e ensinaram em tratados gramaticais, para fins especialmente de catequese. Ele servia não só para as relações com os índios tupi, mas também para os contactos com todos os índios em geral. As nações não-tupi o aprendiam com relativa facilidade (o que não acontecia com a língua portuguesa). Assim se estabeleceu a língua geral tupi, ao lado do português, na vida cotidiana da colônia.. Nessa língua indígena, de intercurso, que os brancos falavam com desembaraço, o português atuou como superstrato modificando sobretudo a fonologia tupi, adaptando para o português vogais e consoantes muito diferentes das portuguesas. Em relação às formas gramaticais, especialmente no verbo, firmaram-se noções de tempo futuro, de modo subjuntivo e assim por diante. Em contacto com o português, que paralelamente se radicou na colônia, esse tupi de intercurso atuou como adstrato, pois tratava-se de duas línguas coexistindo no mesmo território, que ao longo contato da língua índia com o português, este não podia ter saído ileso, conforme o autor Serafim da Silva Neto.

O predomínio da língua geral firmou-se com os bandeirantes, pois todos ou quase todos falavam apenas esta língua, não sabiam o português, partiam do litoral e se embreavam pelos sertões à busca de ouro e do índio escravo, expandindo desta forma o tupi para o interior.

Já no século dezessete, houve um desenvolvimento da mestiçagem étnica, cultural e lingüística, com a tentativa de lusitanização do índio e a indianização do português, e ainda com a africanização dos índios e brancos, uns assimilando-se aos outros.

A colônia brasileira ganhou um novo elemento desde os princípios do século XVII, quando, em escala cada vez mais crescente, se desenvolveu o tráfico de negros africanos, como escravos, para o Brasil, onde se distribuíam pelos grandes latifúndios e pelos centros urbanos. A importância da presença negra no processo de aculturação observado na colônia se explica por dois fatores: o primeiro, de caráter geral, decorre do fato de se formar entre o senhor e o escravo um tipo de convivência mais direta do que aquela até então existente entre o colonizador e o índio; o segundo, de caráter mais específico, resulta da suposição de que, sendo os negros originários de colônias portuguesas da África, já teriam contacto com a língua dos brancos.

Vieram para o Brasil negros das mais variadas nações, pois era política colonial portuguesa diversificar a composição do elemento africano para dificultar sua unidade e mantê-los submissos. Havia, portanto diferentes grupos étnicos, com uma grande variedade de línguas. Eram negros da Guiné, da Costa da Mina, de Angola, de Moçambique, do Congo, enfim, de muitas partes da África.

Dentre as muitas línguas africanas faladas no Brasil, destacam-se o nagô ou ioruba na Bahia, e o quimbundo ou congoesa no norte e no sul. A língua nagô, falada como língua geral na Bahia, foi aprendida por muitos outros escravos para entenderem-se uns com os outros. No Rio de Janeiro, a grande maioria dos escravos negros era banto, daí o predomínio do quimbundo, ambundo e outras línguas.

Desta maneira, à variedade de línguas indígenas, agregou-se a das línguas africanas. Diante desta multidão de línguas indígenas e africanas, o português, para impor-se, usou os mais variados recursos. Uma das primeiras medidas foi determinar que os índios fossem instruídos em língua portuguesa. Mas os jesuítas, por conhecerem o tupi (reduzida por eles à língua geral) melhor que os representantes de outras ordens religiosas e melhor também que os colonos recém-chegados, mantiveram a barreira lingüística como forma de manter seu domínio sobre os índios. Começa desta forma um período antijesuíta, que teve sérias conseqüências.

Um marco na imposição do Português como língua dominante no Brasil foi a expulsão dos jesuítas em 1757, durante o governo de D. João VI e para acabar com toda a influência da caluniada Companhia, impôs a língua portuguesa como língua oficial na região que abrangia os estados de Pará e Maranhão, que soma um terço do atual território brasileiro.

Vários fatores auxiliaram na imposição da língua portuguesa:

O português era a língua da administração, todos documentos jurídicos eram escritos na língua dos colonizadores

Questões sociais, isto é, os conhecedores da língua portuguesa eram vistos como pertencentes ao grupo socialmente superior ou dominante.

Finalmente, com a chegada do Príncipe Regente em 1807, foi o acontecimento que marcou definitivamente uma fase decisiva na vitória da língua portuguesa e da cultura européia.

Resumindo a questão da "vitória" da língua portuguesa no Brasil colonial, pode-se dizer que, durante três séculos, o português e o tupi, ou língua geral, existiram lado a lado, influenciando-se reciprocamente e cruzando-se. O tupi era a língua doméstica, familiar e corrente dos colonos, e o português, a língua oficial, que as crianças, mamelucos e também filhos de índios aprendiam nas escolas mas não falavam em casa. A realidade lingüística era muito complexa, porque, com o português, conviviam as várias línguas indígenas e as várias línguas faladas pelos negros no Brasil.


2. BIBLIOGRAFIA

MELO, G. Chaves. A língua do Brasil. 4. ed. Melh. E aum. Rio de Janeiro, Padrão, 1981.

SILVA NETO, S. da S. Introdução ao estudo da língua portuguesa no Brasil. 4. ed. Rio de Janeiro, Presença, 1977.

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