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O FOCO NARRATIVO SOB A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO DO CONTO ?AMOR?, DE CLARICE LISPECTOR.

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Tema: O FOCO NARRATIVO SOB A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO DO CONTO ?AMOR?, DE CLARICE LISPECTOR.

O FOCO NARRATIVO SOB A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO
DO CONTO “AMOR”, DE CLARICE LISPECTOR.

RESUMO:- A Estética da Recepção possibilita a atualização da obra à medida que o leitor se identifica com a personagem por meio do narrador. Neste estudo, além de trazer a ficção para a realidade do século XXI, busca-se confrontar o impacto do clímax na vida da protagonista, bem como explicar como a rotina tende a reinar no cotidiano do ser humano.
PALAVRAS-CHAVES: Conto; foco narrativo; narrador; personagem; leitor.

ABSTRACT:- The Esthetics of Reception to make possible the up-to-date of production of the to come up to one’s expectations the reader if to identify oneself with the personage through of narrator. In this study, beyond to take the fiction for reality of century XXI if to search, to confront the impact of climax in life of protagonist, and also to explain as the routine to tend to reign in quotidian of human being.
KEY-WORDS:- story; narrative focus; narrator; personage; reader

Este artigo pretende demonstrar a partir das teorias da corrente da Estética da Recepção como o foco narrativo influencia o leitor a se posicionar diante do enredo elaborado no conto “Amor”, de Clarice Lispector, extraído do livro Laços de Família**. Será enfatizado o “horizonte de expectativas do leitor”, o “leitor implícito”, o “leitor ideal”. Faz-se necessário, também, uma abertura para a atualização de alguns aspectos da obra através de uma releitura para a realidade do século XXI. Além disso, será sugerido o preenchimento de vazios imanentes do texto. Conforme Massaranduba (s/d: 61):
“Contar (ato de narrar) ou como contar (o estilo pessoal), implicam uma determinada posição do narrador com relação ao acontecimento”. (...) “O narrador onisciente ou onipresente é uma espécie de testemunha invisível de tudo quanto ocorre, em todos os lugares e em todos os momentos; ele não só se preocupa em dizer o que as personagens fazem ou falam, mas também traduz o que pensam e sentem”.
No conto Amor, de Clarice Lispector, o narrador onisciente é apresentado em terceira pessoa. Assim, a exposição é realizada através da perspectiva do narrador, na qual ele tenta passar para o leitor as emoções, os pensamentos e os sentimentos da personagem. Este tipo de enfoque limita e restringe a profundidade da personagem à visão do narrador sem levar em consideração as expectativas do leitor.
Aliás, “o grande problema do movimento da estética da recepção ainda a ser resolvido é, sem dúvida, o do “leitor ideal”, que se coloca, segundo Wolfgang Iser, num “horizonte de expectativas” – noção plurissignificativa que se refere ora à totalidade de sua imaginação, ora ao contexto externo que o determina em suas leituras e escolhas” (In. Samuel, 2000:116 –117).
Podemos considerar essas limitações impostas pelo narrador, que lesam “esse horizonte de expectativas do leitor”, por exemplo, quando se refere aos filhos da personagem. Quantos filhos? Não foram revelados. Fica claro, evidentemente, que a intenção do autor é tratar da personagem feminina, vivida por Ana. Mas, interessante seria se, no mínimo, houvesse quantificado os filhos de Ana. O leitor imagina que a protagonista tenha apenas dois filhos, pois o uso do plural informa ser mais de um, além disso, suas tardes são livres e ninguém depende de seus préstimos nesta hora. Porém, poderiam perfeitamente, ser quatro ou cinco filhos, todos estudando no período matutino. Essa informação revelaria o tempo despendido nas tarefas da casa e o dedicado às demonstrações de afeto e carinho aos filhos, e talvez evitasse as preocupações com “aquela hora da tarde”. Observe os fragmentos que ilustram o conto Amor, de Clarice, destacados abaixo:
“Os filhos de Ana eram bons (...) Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos” (212); “... cortava blusas para os meninos” (212); “... os filhos que tivera eram filhos verdadeiros” (213); “Também suas crianças ficaram acordadas...” (218). “(...) e as crianças já estavam deitadas,...” (218).
Segundo Maria de Lourdes Ferrari Horta , “a maneira como o ficcionista narra a história é a opção que esse faz para contá-la. O narrador é o contador das histórias, ao qual o escritor transfere a incumbência de narrar. No ato de escrever a narrativa, o escritor se desdobra numa terceira pessoa, que assume a função de relatar, de forma que o “eu” do narrador não se confunde com o “eu” do escritor”.
Em Amor, o leitor observa que o destino da personagem se torna refém deste tipo de narrador, pois além das tarefas domésticas e das rotinas de uma dona de casa dos meados do século XX – como cuidar das crianças e atender as necessidades do marido – também fica privada da liberdade para se expressar livremente, pois o narrador não o permite; fala, pensa e se expressa por ela.
Em “O leitor implícito, Iser (In. Samuel, 2000:115) afirma que o leitor diante dos vazios do texto, isto é, espaços abertos para plurissignificação, inclusive devido à barra existente entre significante e significado no signo lingüístico, deve encontrar pontos de indeterminação que preencherá de acordo com seu próprio imaginário, ou a “consciência imaginativa do leitor”. Cria-se assim a possibilidade de um “leitor ideal” que preencheria os vazios do texto com uma leitura interpretativa”.
Por isso, sem querer fugir do foco narrativo, mas utilizando um dos vazios do texto deixado pelo autor, queremos ressaltar que Ana, a protagonista do conto, embora tenha feito a sua “escolha”, não é uma pessoa realizada; como ocorre com a maioria das mulheres casadas que aqui ela representa. A mulher sai do seio da família, onde se sente vigiada e busca no casamento um ponto de partida para “viver” as emoções que ousou imaginar e acreditar ser possível. Então descobre tardiamente que se afastou de uma e caiu noutra armadilha do destino. Na verdade, Ana quer ser livre, quer voar, mas encontra-se encarcerada de todas as formas possíveis; quer atendendo às convenções sociais, à sua “segurança”, à sua própria condição de mulher, ou do tempo em que a narrativa se compõe. Basta observarmos o trecho:
“Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas (...). O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre longe de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. (...) Assim ela o quisera e o escolhera” (p.213).
É possível notar também, que o narrador introduz a personagem no conto e descreve uma sucessão de impressões a seu respeito, mas fica registrado principalmente o “cansaço” de Ana, parecendo transpassar este desânimo para o próprio narrador, que imprime uma lentidão e uma suavidade tamanha na narrativa, que quando passamos pelo clímax, praticamente não o percebemos: “Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde (212); ... Até Humaitá tinha tempo de descansar (213).”
Todavia, não se pode negar que o narrador relata os fatos a partir do momento em que “Ana subiu no bonde”. O narrador está distante da personagem e atua como mero observador, narra com absoluta imparcialidade, evitando fazer juízo de valores, não toma partido nem contra, nem em defesa do papel desempenhado por Ana, simplesmente assume a tarefa de descrever suas ações, pensamentos e emoções.
Contudo o narrador descreve esta mulher das primeiras décadas do século XX como a perfeita figura da Amélia (que não tinha a menor vaidade, que era mulher de verdade) e nós — leitores — nos deparamos com duas possibilidades bastantes distintas a serem comparadas: a primeira é o fato de que o homem do século XXI ainda se recorda daquela mulher e sente sua falta, como se fosse a namorada idealizada, a quem se atribuía a dedicação ao bem estar do marido e dos filhos; a matriarca que devia reunir em torno de si a prosperidade da família; já, a segunda, a nova mulher, emancipada, trabalhadora, disputa com o homem o espaço no mercado de trabalho, defende a todo custo seus direitos de igualdade, e no entanto, ainda luta para se afastar do fogão e do tanque. Apesar de tudo, e além de tudo, continua sendo mãe, esposa, dona de casa que lava, passa, cozinha, faz as compras no mercado, busca as crianças no colégio, consulta o médico. Ora, Ana estava cansada? E o que dizer da mulher da atualidade?
A mulher contemporânea realiza dupla jornada e ainda por cima, estuda para atingir seus objetivos e realizar projetos. Já não pode se dar ao luxo de pensar que “Certa hora da tarde era mais perigosa”.
Segundo Roland Barthes (In. Horta, 1999:70) “quem fala (na narrativa) não é quem escreve (na vida) e quem escreve não é quem é. O autor pertence ao mundo da realidade histórica; o narrador, ao universo ficcional, um universo imaginário: entre os dois mundos há analogias e não identidades”.
A narrativa é tão bem articulada que ao narrar, o narrador consegue transmitir ao leitor toda a monotonia da realidade da personagem. A impressão que temos é a de que Ana é absorvida pelo ambiente a sua volta, e que sentada no banco do Jardim Botânico, parece vegetar juntamente com a paisagem: “Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo (215).”
O narrador tentou em vão provocar no leitor a impressão de que Ana deveria receber tal impacto em sua vida ao deparar com o cego mascando chicles que os sinos soariam uma Ave Maria..., Aleluia..., qualquer coisa do gênero, mas tal não logrou. O leitor se decepciona, pois aguarda ansioso que a qualquer momento o despertar para uma nova realidade traga mudanças drásticas para a vida da personagem. O que houve foi uma torrente de torpor, nojo, náusea, bondade e piedade como nos recortes escolhidos:
“... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa (215); ... E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca (215); ... Como a repulsa que precedesse uma entrega – era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante (216)”.
É bem verdade que o narrador sugere uma gravidez, mas não deixa tão explícito neste sentido, abrindo novamente espaço para o leitor imaginar que talvez os sintomas de nojo e náusea que tomam conta da personagem possam realmente ser indícios de um estado de gestação. Por outro lado, devemos lembrar que o cheiro dos ovos quebrados durante a arrancada súbita do bonde também poderiam provocar tal mal estar, muito embora isso não seja sequer mencionado.
“... o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão...(214)”; “O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se havia quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede (214)”; “...Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada (216)”
Para compreender o universo narrativo o leitor se envolve com a personagem. Perde-se no mundo imaginativo da ficção, colocando-se no lugar do autor que se esforça para imprimir voz ao narrador no intuito de que haja a comunicação entre a obra e o leitor. Neste sentido cabe lembrar: “o conceito de leitor segundo Jauss “baseia-se em duas categorias: a de horizonte de expectativa, misto dos códigos vigentes e da soma de experiências sociais acumuladas; e a da emancipação, entendida como a finalidade e efeito alcançado pela arte, que libera seu destinatário das percepções usuais e confere-lhe nova visão da realidade” (In. Zilberman, 1989:49).
O leitor constrói uma imagem da personagem. Vai entrando no seu mundo, sentindo aproximar-se uma “certa hora da tarde”. Começa a criar uma cumplicidade, ora com o narrador, ora com a personagem. Quando, ligados a Ana, nos deparamos com o cego. Esperamos sinceramente quebrar os elos das correntes que nos atam, libertá-la desta rotina que destrói as possibilidades de uma vida renovada. De repente percebemos que a autora retrata a realidade de cada um de nós. Somos assaltados por algum acontecimento em dado momento de nossas vidas e isto nos faz repensar a nossa história. Porém, assim como acontece com a personagem, também nós não somos donos dos nossos destinos. E o que dizer do livre arbítrio? Somos governados por uma força maior, que talvez possa ser traduzida por um conjunto de valores morais, sociais e individuais que nos controlam e nos impulsionam para um amanhã incerto.
Clarice Lispector retrata o painel de uma realidade cotidiana. Basta pensar quantas vezes, ao deitarmos na cama para o merecido repouso, rememoramos nossas insatisfações diante da vida e decidimos mudar tudo a partir do amanhecer do dia seguinte. Quando acordamos pela manhã, já não lembramos dos compromissos assumidos interiormente. As obrigações do dia a dia e o contexto de sempre são os mesmos. Somos arrastados pelos mesmos caminhos trilhados até então. Assim também faz Ana. Toma consciência do mundo à sua volta impulsionada pelo desejo de transformação, pelas necessidades estampadas em nossos semelhantes; porém é envolvida por seu próprio mundo circulado pelas pessoas com quem se relaciona.
Acreditamos ter ficado clara a questão das limitações impostas pela presença do narrador numa obra literária. As revelações e as omissões intencionais, tanto podem deleitar como frustrar o leitor, mas pode propiciar um novo cenário criativo no universo imaginário do receptor.

BIBLIOGRAFIA
ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história da literatura. Ed. Ática. São Paulo. 1989.
LEITE, Lígia Chiappini Moraes.O foco narrativo. 4. ed. Ed. Ática. São Paulo. 1989.
MASSARANDUBA, Elizabeth de M., CHINELLATO, Thaís Montenegro. Coleção Objetivo Sistema de Métodos de Aprendizagem. Livro 22. 2002.
HORTA, Maria de Lourdes Ferrari. Letras de Hoje. O foco narrativo em A Hora da Estrela. 1999.
DUARTE, Osvaldo. Instrumento Crítico. Revista de Estudos Lingüísticos e Literários n.2, UNIR. Departamento Acadêmico. 1999.
MORICONI, Ítalo (Org.). Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século. Ed. Objetiva. Rio de Janeiro: 2000.

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