O romance Seminarista e o Romantismo

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O romance O seminarista de Bernardo Guimarães está escrito em terceira pessoa e sua narrativa é em tempo cronológico. O espaço interno da obra pode ser dividido em macro espaço e micro espaço. O macro espaço é o interior de Minas Gerais e o micro espaço se subdivide em espaços abertos e fechados. Os fechados são a casa paterna, o seminário e, incidentemente, a casa de Umbelina. Os abertos são os campos às luzes da manhã, às sombras da tarde e na escuridão noturna. Já o espaço externo é meados do século XIX.
Nesse romance de Bernardo Guimarães está amplamente presente o tema da religião, elemento corrente no Romantismo, já que tinha sido desprezada pelo racionalismo iluminista. A tendência predominante em O seminarista é a religião canônica. Ou seja, a religião dogmática, como crença e devoção, já que a Eugênio não faltava inclinação religiosa, amor pelas coisas da Igreja, e indício para o serviço do altar. Além disso, ele é mandado para o seminário pelos pais, onde tem mais contato com as leis e os dogmas da Igreja.
No romance, predominam algumas características românticas. Um exemplo é o subjetivismo. Em O seminarista há uma ênfase no sujeito, nos sentimentos de Eugênio, como podemos notar no seguinte trecho:
Desde que Eugênio viu interpor-se entre ele e Margarida um anátema tremendo, que como abismo os separava, perturbou-se para sempre a severidade da sua alma, e esse afeto que votava à companheira de sua infância, posto que a princípio abafado temporariamente pelo manto de gelo de um factício e austero ascetismo, e agora de fresco rudemente contrariado por sua mãe, ia fatalmente transformar-se na mais ardente, profunda e impetuosa paixão.
Outra característica predominante é o ilogismo, percebida no protagonista. Eugênio sofre diversas oscilações de humor, passando da alegria para a tristeza e vice-versa ao decorrer da narrativa. Essas oscilações são notáveis com a mudança de espaço: quando ele está no seminário, ele fica mofino e adoentado. Já quando ele está em casa, perto de Margarida, ele fica feliz e entusiasmado.
O seminarista, por ser uma obra regionalista, mostra muitos aspectos da cor local: costumes, paisagens e fatos do interior de Minas Gerais. Bernardo Guimarães retrata costumes particulares do sertanejo, como por exemplo, o mutirão e a quatragem. Nas palavras do próprio autor:
É o mutirão um costume dos pequenos lavradores, ou da gente pobre dos campos, que vivem como agregados dos grandes fazendeiros e que não possuindo terra, e menos ainda braços para cultivá-la, nem por isso deixam de plantar boas roças, ou de exercer sua pequena indústria, de que tiram a subsistência. Quando chega o tempo de qualquer dos serviços de roça, que consistem nestas quatro operações principais  roçar, plantar, capinar e colher  o pequeno roceiro convida seus parentes, amigos e conhecidos da vizinhança para vir ajudá-lo, e todos pelo direito costumeiro são obrigados a vir dar-lhe uma mão  é a frase usada -, ficando o que assim se aproveita dos serviços dos vizinhos na obrigação de acudir também ao chamado destes para o mesmo fim.
Só que este costume não é só dos roceiros, mas também das mulheres que fiam e tecem, que era o caso da mãe de Margarida, a Dona Umbelina.
Mas o mutirão não consiste simplesmente no desempenho de uma tarefa de trabalho. O dono ou a dona da casa tem por obrigação regalar os seus trabalhadores do melhor modo possível, e a reunião e a boa mesa trazem sempre como conseqüência natural os divertimentos e folguedos. Assim trabalha-se de dia, e à noite toca a comer e beber, dançar, cantar e folgar.
Na festa do mutirão, também podemos perceber outro costume regional: a quatragem, uma dança típica dos roceiros, descrita no décimo segundo capítulo do livro. Outro aspecto que indica a presença da cor local no livro, é a crença na mula-sem-cabeça. No nono capítulo, Margarida diz que mulher que gosta de padre, vira uma mula-sem-cabeça e ela tinha receio de que isso acontecesse com ela.
Outro aspecto da cor local que Bernardo Guimarães mostra em O seminarista é a natureza, forma de afirmação nacional para os românticos brasileiros. Nesse romance, podemos perceber a intenção do autor de mostrar a influência da natureza sobre o homem. Um bom exemplo é o trecho a seguir, em que podemos notar a influência do campo sobre o espírito de Eugênio:
(...) À medida que viajava e ia se avizinhando do lar paterno, ia-se de novo acendendo o brilho dos seus olhos, voltavam-lhe as cores ao rosto pálido, e com elas voltavam também a enxamear no espírito as fagueiras recordações dos brincos da infância em companhia de sua bem querida companheira, como um bando de passarinhos, que depois de uma longa invernada saem das moitas a esvoaçar, espanejar-se e cantar pelos ramos floridos do vergel aos raios de uma formosa manhã de agosto.
O tema fundamental dos românticos brasileiros também está presente no romance de Bernardo Guimarães: o amor. O aspecto do sentimento do amor abordado em O seminarista é a dupla concepção da mulher: vista como anjo e demônio. Por estar apaixonado por Margarida, Eugênio a vê como um anjo mandado dos céus, como símbolo da perfeição. No entanto, ao ser influenciado pelo padre do seminário, ele lhe atribui a característica de demônio, pois ela passa a ser vista como alguém que o está desvirtuando do caminho do sacerdócio. Essa atribuição se torna ainda mais forte, principalmente depois que ele se lembra do episódio da serpente, em que uma cobra se enrolou em Margarida quando criança. No dia desse acontecimento, sua mãe faz uma associação, comparando Margarida com Eva da Bíblia, que foi tentada pela serpente, e ele acaba fazendo a mesma comparação que sua mãe. Ou seja, ele começa a ver Margarida por um aspecto negativo.
Concluindo, o romance retrata bem a vida da gente simples. E são todas essas características citadas acima que encaixam O seminarista na segunda geração romântica.

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