Amigo Nerd.net

Os fatores pragmáticos, coerência e coesão textual

Autor:
Instituição:
Tema: Lingüística

A definição de texto


Medeiros (1996:113) define texto como “um tecido verbal estruturado de tal forma que as idéias formam um todo coeso”. A imagem de tecido contribui para esclarecer que não se trata de frases soltas, muito menos de uma simples seqüência de cadeias significativas, pois os signos individuais que constroem uma seqüência textual interligam-se por múltiplas relações de ordem sintática, semântica e fonológica. São seqüência de signos verbais ordenados sistematicamente, de modo a manifestar um único direcionamento,ou seja, não pode ser considerado texto um fragmento que trata de diversos assuntos.

Para que um texto seja constituído, é necessário que o assunto a ser discutido seja de todo coerente, ou seja, suas idéias não podem ser apresentadas como contraditórias e os elementos da frase que possibilitam a transição de uma idéia para outra devem estabelecer coesão entre as partes expostas.

Medeiros considera, ainda que, o conjunto de idéias entrelaçadas para formar um enunciado, capaz de transmitir uma informação ou mensagem, que é o texto, nem sempre aparece revestido de palavras, ou seja, pode ser constituído também por um desenho, charge, uma figura.

Um texto escrito envolve a compreensão de frases e sentenças, de argumentos, de provas formais ou informais, de objetivos, de intenções, muitas vezes de ações e de motivações, isto é, abrange muita das possíveis dimensões do ato de compreender, pois a compreensão verbal inclui desde a compreensão de uma charada até a de uma obra de arte.

“Um texto é mais ou menos eficaz dependendo da competência de quem o produz, ou da interação autor-leitor, ou emissor-receptor. O texto exige determinadas habilidades do produtor, como conhecimento do código, das normas gramaticais que regem as combinações dos signos. A competência na utilização dos signos possibilita melhor desempenho”. (Medeiros, 1996: 114)

Um texto será bem compreendido quando observarmos três aspectos:

  1. o pragmático

  2. a coerência

  3. a coesão


Fatores pragmáticos:


Informatividade

A informatividade é outro fator que interfere na construção da coerência. Ela abrange o grau de previsão da informação contida no texto. Depende desta previsibilidade da informação, que o texto pode ser mais ou menos informativo. Isso quer dizer, que se o texto contiver apenas informação redundante ou previsível, seu grau de informatividade será baixo. Porém, ocorrerá um maior grau de informatividade se contiver informação não previsível, além da informação previsível e esperada.

E por fim, se o texto contiver informação imprevisível e inesperada, terá um grau máximo de informatividade, podendo, a primeira vista, ser considerado incoerente por exigir do receptor um grande esforço de decodificação. Esse grau máximo de informatividade geralmente aparece na literatura e na linguagem metafórica.


1) Exemplo de informação previsível, com grau de informatividade baixo :

O fogo é quente.


2) Exemplo de informação não previsível, além da informação esperada, com grau maior de informatividade :

O fogo é quente. Mas ele pode se apresentar em forma de gases gelados, como os que inflamam nos botijões de gás de cozinha.


3) Exemplo de informação de grau máximo de informatividade, quando toda a informação do texto for inesperada e imprevisível :

O oceano não é água. Na verdade ele é constituído de gases e sais.


Intertextualidade

Para o processo cognitivo (produção/receptor) de um texto, é preciso recorrer-se ao conhecimento prévio de outros textos, podendo a intertextualidade ser de forma ou de conteúdo.

Ocorre intertextualidade de forma quando o produtor de um texto repete trechos, enunciados ou expressões de outros textos, ou então o estilo de determinado autor, ou determinados tipos de discurso.

A intertextualidade de conteúdo pode ser implícita ou explícita, e trata-se de textos de uma mesma área de conhecimento, de uma mesma época, de uma mesma cultura, que dialoga, necessariamente,

uns com os outros.

Exemplos de intertextualidade de conteúdo são matérias jornalísticas de um mesmo dia, quer do mesmo jornal, quer de jornal diferentes, ou de revistas semanais, noticiários de rádio e televisão, que “dialogam” entre si, ao tratarem de um fato em destaque.


Intencionalidade e Aceitabilidade

O produtor de um texto tem, necessariamente, determinados objetivos ou propósitos, que vão desde a simples intenção de estabelecer ou manter o contato com o receptor até a de leva-lo a partilhar de suas opiniões ou a agir ou comportar-se de determinada maneira. A intencionalidade refere-se ao modo como os emissores usam textos para perseguir e realizar suas intenções, produzindo, para tanto, textos adequados à obtenção dos efeitos desejados.

A aceitabilidade constitui a contraparte da intencionalidade. Já se disse que, segundo o Principio Cooperativo de Grice, o postulado básico que rege a comunicação humana é o da cooperação, isto é, quando duas pessoas interagem por meio de linguagem, elas se esforçam por fazer-se compreender e procuram calcular o sentido do texto do(s) interlocutor(s), partindo das pistas que ele contém e ativando seu conhecimento de mundo, da situação, etc.

A intencionalidade tem relação estreita com o que se tem chamado de argumentatividade. Se aceitamos como verdade que não existem textos neutros, que há sempre alguma intenção ou objetivo da parte de quem produz um texto, e que este não é jamais uma "cópia" do mundo real, pois o mundo é recriado no texto através da mediação de nossas crenças, convicções, perspectivas e propósitos, então somo obrigados a admitir que existe sempre uma argumentatividade subjacente ao uso da linguagem. A argumentatividade manifesta-se nos textos por meio de uma série de marcas ou pistas que vão orientar os seus enunciados no sentido de determinadas conclusões. Entre estas marcas encontram-se os tempos os tempos verbais, os operadores e conectores argumentativos, os modalizadores, entre outros. A partir dessa marcas, como também das inferências e dos demais elementos construtores da textualidade, o receptor construirá a sua leitura, entre aquelas que o texto, pela maneira como se encontra lingüisticamente estruturado, permite. È por isso que todo texto abre a possibilidade de várias leituras.

sentido de determinadas conclusões. Entre estas marcas encontram-se os tempos os tempos verbais, entre outros. A partir dessa marcas, o receptor construirá a sua leitura, entre aquelas que o texto, pela maneira como se encontra lingüisticamente estruturado, permite. É por isso que todo texto abre a possibilidade de várias leituras.

Situacionalidade

A situacionalidade age em duas direções: da situação para o texto, que deverá “determinar em que medida a situação comunicativa interfere na produção/recepção e, portanto, no estabelecimento da coerência.”; e do texto para a situação, em que o produtor passa a recriar o mundo dependendo de seus objetivos, interesses, propósitos, crenças, convicções, etc.

No primeiro caso é necessário, ao construir um texto, verificar o que é adequado àquela situação específica. Todos os dados situacionais, tais como: o momento e o lugar da comunicação, as imagens recíprocas que os interlocutores

fazem uns dos outros, seus pontos de vista, os papéis que desempenham vão influir tanto na produção como na compreensão do texto. No segundo caso, o mundo criado pelo texto não é uma cópia fiel do mundo real, mas o mundo que é visto pelo produtor, partindo de uma determinada perspectiva, e com determinadas intenções. Isso explica o fato de que sempre que duas ou mais pessoas descrevem um objeto, ou uma situação, nunca o fazem da mesma forma, logo os referentes textuais não são idênticos aos do mundo real. Por sua vez, o receptor passa a interpretar o texto de acordo com a sua ótica, os seus propósitos e as suas convicções, pois há uma mediação entre o mundo textual e o mundo real, e vice-versa.

É importante que haja uma adequação do texto na situação comunicativa,

pois um texto que é coerente em uma dada situação pode não sê-lo em outra. Por isso a situacionalidade exerce um papel relevante na construção da coerência.


Aspecto semântico : Coerência

A coerência resulta da configuração que assumem os conceitos e relações subjacentes à sua superfície textual. É considerada o fator fundamental da textualidade, porque é responsável pelo sentido do texto. Envolve não só aspectos lógicos e semânticos, mas também cognitivos, na medida em que depende do partilhar de conhecimentos entre os interlocutores. Cada segmento textual é pressuposto do segmento seguinte, que por sua vez será pressuposto para o(s) que lhe estender(em), formando assim uma cadeia em que todos eles estejam concatenados harmonicamente. Quando há quebra nessa concatenação, ou quando um segmento atual está em contradição com um anterior, perde-se a coerência textual. A coerência é também resultante da adequação do que se diz ao contexto extraverbal, ou seja, àquilo o que o texto faz referência, que precisa ser conhecido pelo receptor.


Aspecto semântico : Coerência

A coerência resulta da configuração que assumem os conceitos e relações subjacentes à sua superfície textual. É considerada o fator fundamental da textualidade, porque é responsável pelo sentido do texto. Envolve não só aspectos lógicos e semânticos, mas também cognitivos, na medida em que depende do partilhar de conhecimentos entre os interlocutores. Cada segmento textual é pressuposto do segmento seguinte, que por sua vez será pressuposto para o(s) que lhe estender(em), formando assim uma cadeia em que todos eles estejam concatenados harmonicamente. Quando há quebra nessa concatenação, ou quando um segmento atual está em contradição com um anterior, perde-se a coerência textual. A coerência é também resultante da adequação do que se diz ao contexto extraverbal, ou seja, àquilo o que o texto faz referência, que precisa ser conhecido pelo receptor.

O que é coerência?

Dificilmente se poderá dizer o que é coerência apenas através de um conceito, por isso vamos defini-la através da apresentação de vários aspectos e/ou traços que, em seu conjunto, permitem perceber o que esse termo significa. A coerência está diretamente ligada à possibilidade de estabelecer um sentido para o texto, ou seja, ela é o que faz com que o texto faça sentido para os usuários, devendo, portanto, ser entendida com um principio de interpretabilidade, ligada à inteligibilidade do texto numa situação de comunicação e à capacidade que o receptor tem para calcular o sentido desse texto. Este sentido, evidentemente, deve ser do todo, pois a coerência é global. Para haver coerência é preciso que haja possibilidade de estabelecer no texto alguma forma de unidade ou relação entre seus elementos.

A relação que tem de ser estabelecida pode ser não só semântica (entre conteúdos), mas também pragmática, entre atos de fala, ou seja, entre as ações que realizamos ao falar (por exemplo: jurar, ordenar, asseverar, ameaçar, prometer, avisar). A coerência se estabelece na interlocução entre os usuários do texto, (seu produtor e receptor). Textos sem que continuidade são considerados como incoerente, embora a continuidade relativa a um dado tópico discursivo seja uma condição para o estabelecimento da coerência, nem sempre a continuidade representará incoerência. Exemplo: "No verão passado, quando estivemos na capital do Ceará Fortaleza, não pudemos aproveitar a praia, pois o frio era tanto que chegou a nevar", percebemos que ela é incoerente em decorrência da incompatibilidade entre um conhecimento prévio que temos da realizada com o que se relata. Sabemos que, em Fortaleza não neva.

Assim, os processos cognitivos operantes entre os usuários do texto caracterizam a coerência na medida em que dão aos usuários a possibilidade de criar um mundo textual que pode ou não concordar com a versão estabelecida do "mundo real".


Aspecto Formal : Coesão

Produzimos textos porque pretendemos informar, divertir, explicar, convencer, discordar, ordenar, etc., ou seja, o texto é uma unidade de significado produzida sempre com uma determinada intenção. Assim como a frase não é uma simples sucessão de palavras, o texto também não é uma simples sucessão de frases, mas um todo organizado capaz de estabelecer contato com nossos interlocutores, influindo sobre eles. Quando isso ocorre, temos um texto em que há coerência.

São muitos os autores que têm publicado estudos sobre coerência e coesão. Koch (1997) conceitua a coesão como "o fenômeno que diz respeito ao modo como os elementos lingüísticos presentes na superfície textual se encontram interligados, por meio de recursos também lingüísticos, formando seqüências veiculadoras de sentido." Para Platão e Fiorin (1996), a coesão textual "é a ligação, a relação, a conexão entre as palavras, expressões ou frases do texto." A coesão é, segundo Suárez Abreu (1990), "o encadeamento semântico que produz a textualidade; trata-se de uma maneira de recuperar, em uma sentença B, um termo presente em uma sentença A." Daí a necessidade de haver concordância entre o termo da sentença A e o termo que o retoma na sentença B. Finalmente, Marcuschi (1983) assim define os fatores de coesão: "são aqueles que dão conta da seqüenciação superficial do texto, isto é, os mecanismos formais de uma língua que permitem estabelecer, entre os elementos lingüísticos do texto, relações de sentido."

A respeito do conceito de coesão, é a condição necessária, mas não suficiente, para que se crie um texto. Na verdade, para que um conjunto de vocábulos, expressões, frases seja considerado um texto, é preciso haver relações de sentido entra essas unidades (coerência) e um encadeamento linear das unidades lingüísticas presentes no texto (coesão). Mas essa afirmativa não é categórica nem definitiva, por algumas razões. Uma delas é que podemos ter conjuntos lingüísticos destituídos de elos coesivos que, no entanto, são considerados textos porque são coerentes, isto é, apresentam uma continuidade semântica.

Embora a coesão não seja condição suficiente para que enunciados se constituam em textos, são os elementos coesivos que dão a eles maior legibilidade e evidenciam as relações entre seus diversos componentes. A coerência em textos didáticos, expositivos, jornalísticos depende da utilização de elementos coesores.

A coesão pode ser observada tanto em enunciados mais simples quanto e enunciados mais complexos. Observe os exemplos:

1) Mulheres de três gerações enfrentam o preconceito e revelam suas experiências.

2) Elas resolveram falar. Quebrando o muro de silêncio, oito dezenas de mulheres decidiram contar como aconteceu o fato que marcou sua vida.

Nesses exemplos, temos os pronomes suas e que retomando mulheres de três gerações e o fato, respectivamente; os pronomes elas e sua antecipam oito dezenas de mulheres .


Referências

BENVENISTE, E. Problemas de lingüística geral. São Paulo: Nacional, 1976.

LYONS, John. Linguagem e lingüística. Rio de Janeiro Zahar Editores, 1988.

MESERANI, Samir. O intertexto escolar. São Paulo, Cortez, 1995.

ANTUNES, Irandé C. Aspectos da coesão do texto. Recife, Editora da UFPE, 1996.

FÁVERO, Leonor L. Coesão e coerência textuais. São Paulo, Ática, 1991.

KOCH, Ingedore V. e TRAVAGLIA, Luiz C. Texto e coerência. São Paulo, Cortez, 1989.

MIRA MATEUS, M. Helena et alii. Gramática da língua portuguesa. Coimbra, Livraria Almedina, 1983.

http://acd.ufrj.br/~pead/ - Português – Ensino a distância (PEAD). Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Acesso em : 17 de março de 2007.

Comentários


Páginas relacionadas