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Poema Sobre a Bahia

Autor:
Instituição:
Tema: Gregório de Matos

POEMA SOBRE A BAHIA DE GREGÓRIO DE MATOS

Itaúna, 15 de abril de 2004


O Estilo: Barroco

A visão antropocêntrica do Renascimento teve como conseqüência a perda do poder da Igreja dentro do Estado. Espiritualismo e religiosidade entram em conflito com a valorização dos aspectos materiais da condição humana. A Reforma Protestante, liderada por Calvino, na Itália, e Lutero, na Alemanha, torna-se a teoria religiosa do nascente Capitalismo; a Igreja Católica reage com a Contra-Reforma, principalmente em Portugal e na Espanha, propondo um retorno à autoridade da Igreja e à fé irrestrita da Idade Média. Da tensão em conciliar diferentes correntes filosóficas, Antropocentrismo x Teocentrismo, surge o estilo Barroco.

A fusão do novo com o velho marca, então, a Literatura do século VXII. Os conflitos entre a razão e a fé; o céu e a terra; a sensualidade e o misticismo; o realismo e o idealismo, impregnam a prosa e poesia barroca. Figuras de estilo, como a metáfora, antítese, paradoxo, hipérbole e prosopopéia, são artifícios utilizados pelos escritores e poetas do período para tentarem exprimir seus dramas pessoais e metafísicos. As interrogações permeiam o texto barroco: questionamentos, perguntas; o homem, nas suas dúvidas, volta-se para Deus.

No Brasil, destacam-se as poesias líricas e satíricas de Gregório de Matos e a religiosidade dos sermões de Padre Antônio Vieira - Sermão da Sexagésima e de Santo Antônio aos Peixes são dois dos mais conhecidos. É preciso ressaltar, no entanto, que no caso brasileiro não se pode considerar o Barroco como um estilo literário vigente; ainda não havia no Brasil condições para a formação de uma elite intelectual que propagasse a Literatura enquanto movimento nacional.

O século XVIII foi marcado pela arte do conflito. Na Europa havia o absolutismo, em que o poder absoluto nas mãos do Rei. Ela passava por uma Revolução comercial, causando o enriquecimento da Burguesia. Houve crise religiosa, que fora reflexo da reforma e da contra-reforma.

Em Portugal cresce a influencia dos jesuítas, há a unificação da península ibérica. Portugal entra em declínio econômico devido à decadência do comércio de especiarias e do oriente. A educação oficial em Portugal a ser determinada pelos jesuítas da campanha de Jesus. Houve um atraso cultural e cientifico em Portugal por causa da censura religiosa.

No Brasil, havia o mercantilismo, produção econômica voltada para a metrópole. Acontece a expulsão definitiva dos franceses em 1615. Invasão Holandesa (1624 – 1630) . O Conde Maurício de Nassau administra as regiões ocupadas no Nordeste, havendo então mudanças culturais e econômicas no Nordeste devido à influência Holandesa. Houve o apogeu e declínio da lavoura de cana-de-açúcar no Nordeste durante o período Barroco no Brasil e explosão dos Holandeses em 1654.

As características do Barroco são: conflito religioso e filosófico, teocentrismo X antropocentrismo, pessimismo, que expressa sofrimento e tristeza, conflito de idéias e choques de concepções, bem X mal, céu X inferno, alma X corpo, salvação X pecado, espírito X matéria, purga X sensualidade.

Havia a preocupação com o transitório, com o efêmero, o rebuscamento da linguagem, ou seja, sua elitização, uso exagerado de figuras de linguagem, hipérboles (exagero), Metáfora (comparação), Antítese (oposição de idéias), Paradoxo (choque de idéias opostas).

Houve a tentativa de conciliação entre o racional e o religioso. O Cultismo, ou seja, o jogo de idéias e o Conceptismo, jogo de palavras eram os aspectos barrocos ,que teve outras denominações na Europa, como quevedismo na Espanha, devido à influência do poeta Quevedo estilo conceptista, gongorismo na Espanha, devido à influência do poeta Luiz de Gangorra. Estilo cultista, marinismo na Itália, pela influência do poeta Geansanptista Marini, silesianismo na Alemanha, por reunir poetas da região da silésia, mais tarde fundou-se a escola siléana, eufoísmo na Inglaterra, devido à publicação da novela "Esphues or the anatony q wint" do escritor John Lyly, Preciosismo na França, devido à arte afetada é cheia de rebuscamento da corte do Rei Luiz XIV, o rei sol.

Os principais autores e obras do Barroco foram na poesia: Bento Teixeira com Prosopopéia, publicada em 1601, que foi o marco inicial do estilo no Brasil; Frei Itaparica; Botelho de Oliveira e Gregório de Matos, considerado o primeiro poeta brasileiro. As produções poéticas de Gregório de Matos foram poesias líricas: religiosas, amorosas e satíricas. Devido a sua poesia satírica recebeu o cognome de "Boca do Inferno".

Na prosa, Sebastião da Rocha Pita, Nuno Marques Pereira, Padre Antônio Vieira se destacaram neste estilo barroco. Em Portugal Padre Antônio Viera defendia idéias sebastianista, no Brasil defendia a causa indígena. Sua produção literária: Profecias, cartas, sermões, destacando-se o "Sermão da sexagenária", "Sermão de Santo Antonio", entre outros.


O Autor: Gregório de Matos

Gregório de Matos e Guerra nasceu em 1636 na cidade de Salvador – Bahia. De família rica e influente, de senhores de engenho, passou a infância na Bahia com seu irmão, o padre Eusébio Matos, e estudou no Colégio dos Jesuítas. Termina o curso em 1652 transferindo-se para Coimbra, onde posteriormente, em 1661, se bacharelou em direito canônico. Nesse mesmo ano habilitou-se a um cargo de magistratura portuguesa. Em 1663 foi nomeado curador de órfãos e juiz do cível em Lisboa, graças ao seu casamento com Michaela de Andrade, de família ilustre, em 1671.

Por motivos ainda desconhecidos, não se dava bem com o príncipe regente D. Pedro II. Viúvo em 1678, teve o auxílio do arcebispo da Bahia D. Gaspar Barata de Mendonça, para em 1682 voltar à terra natal, com o ofício de "clérigo tonsurado", a fim de ocupar o cargo do tesoureiro-mor da Sé. Após a morte do seu protetor, perdeu o cargo ocupado por negar-se às ordens sacras, onde mais tarde voltaria a exercer advocacia.

Gregório de Matos casou-se novamente. Desta vez com uma viúva sem fortuna Maria de Póvoas, com quem teve um filho.

Vivendo na Bahia cercado de inimigos e desafeto, passou a desferir ferozes sátiras contra a sociedade local e aos nobres, sem distinção, o que lhe rendeu o apelido de "Boca do Inferno" e em alguns casos como "Boca-de-Brasa", e em 1694 foi degredado para Angola, justamente pela virulência de suas sátiras para com as autoridades civis, eclesiásticas, militares, e também com a população local, dizendo em um dos casos que "a cidade da Bahia pode conter dois ff – um de furtar, outro de foder".

Em Angola se envolveu em um golpe militar e colocou-se contra os aliados, virou conselheiro do governo, e por sua atuação para com a população local, foi autorizado a regressar para o Brasil.

Fixou-se no Recife, em Pernambuco, onde não logrou viver pior do que na Bahia. Vivendo lá também estaria longe do alcance das perseguições que era ameaçado na Bahia. Dos seus gêneros literários, destacou-se mais no satírico, por motivos que serão citados adiante.

Gregório de Matos e Guerra teve uma vida relativamente "agitada", indo e vindo do país, sendo perseguido e renomado, até mesmo processado perante a inquisição já havia sido, mas por ser renomado, importante, e rico, conseguiu escapar.

Gregório foi o primeiro, e sem dúvida um dos maiores, representantes de uma literatura autenticamente brasileira.

Gregório de Matos e Guerra morreu em 1695, aos 59 anos, vítima da febre da malária, contraída durante sua estadia na África, pouco tempo depois de seu regresso ao Brasil, em Recife, Pernambuco, e foi sepultado no antigo Hospício da Igreja de Nossa Senhora da Penha dos Capuchinhos Franceses.

Características Literárias de Gregório de Matos

É inevitável notar em quaisquer obras de poetas, uma certa lógica em seu poema, ou um certo tema, escrita, vocabulário ou até modos de escrita semelhantes.

A poesia de Gregório de Matos está profundamente enraizada na realidade brasileira. Superficialmente falando, as obras de Gregório de Matos se ramificavam em duas vertentes: uma lírica, com fundo religioso e moral, onde reponta sempre o amor metafísico e carnal; outra, satírica, oscilando entre zombaria e mordacidade, freqüentemente com conteúdo erótico e pornográfico.

Foi por este último que Gregório de Matos se tornou mais conhecido e que já até foi dito anteriormente, rendeu seu apelido de "Boca do Inferno" ou "Boca-de-Brasa". E também por criticar todas as classes, relatar todos os fatos e costumes do Brasil. Não diferenciava linguagem para falar a respeito de negros, nobres ou religiosos. Falava de todos sem poupar nem mesmo a metrópole: Portugal.

Seus poemas seguiam o estilo barroco, possuindo em sua maioria: jogos de palavras; linguagem ornamentada, com hipérboles e metáforas; conceptismo e cultismo; e o indispensável paradoxo.

Outra característica de Gregório de Matos, é que a maioria de suas obras não possuía um título propriamente dito, e sim uma dedicatória a quem ou que ele escrevia, fazendo de suas obras uma espécie de "homenagem" aos alvos de seus poemas.

Seus textos, procuravam mostrar, com clareza, a realidade do Brasil. Com detalhes até impressionantes, por fazerem parte de uma sátira.

Por sua linguagem pornográfica, uma imposição judicial lhe proibiu de publicar sua sátiras, o que não o impediu de continuá-las.

Um fato interessante, é que a própria data de nascimento e morte do poeta não são tão convictas assim. Por exemplo, são muitas variantes encontradas na sua data de nascimento da obra biográfica produzida por Manuel Pereira Rabelo, no século 18, são citadas as datas de 1623 e 1633, e que aparece em outras obras também as datas 1636, 1634. Isso em apenas duas obras.

Outro dos motivos é o estudo dos seus poemas. Isso porque a maioria de suas obras era feita em folhas à parte, e passadas à diante de mão em mão, o que resultava em várias perdas, pois não se tem exatamente as palavras do poeta, mas sim, a versão de cada pessoa que a copiava. Gregório dificilmente publicava uma obra com as folhas organizadas, e quando isso acontecia a inquisição apreendia a obra.

Gregório de Matos, ou a vida dele, sempre terá uma das características de seus poemas, o paradoxo. Não se sabe ao exato o que aconteceu, e o que foi meramente inventado, não se sabe se Gregório era um inteligente homem, ou um simples plagiário, como foi acusado por vezes, mas sabe-se ao certo que Gregório de Matos foi um dos, senão o maior, contribuinte para a Literatura Brasileira.


Análise dos Sonetos

Aos Srs. Governadores do Mundo em Seco da Bahia e seus Costumes

"A cada canto um grande Conselheiro

que nos quer governar cabana e vinha;

não sabem governar sua cozinha,

e querem governar o Mundo inteiro!

Em cada porta um bem freqüente Olheiro

da vida do Vizinho e da Vizinha,

pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha

para o levar à Praça e ao Terreiro.

Muitos Mulatos desavergonhados,

trazendo pelos pés aos Homens nobres;

posta nas palmas toda picardia.

Estupendas usuras nos mercados:

todos os que não furtam, muito pobres:

eis aqui a Cidade da Bahia."

Gregório faz alusão a um dos males do Brasil, principalmente à corrupção através deste soneto satírico. Após a longa estada em Portugal, Gregório de Matos encontra a vida, na Bahia, mudada para pior. Para ele, o mercantilismo está fazendo com que a verdadeira fidalguia da terra, a nobreza luso-baiana, a qual a sua família pertence, inicie sua derrocada. Estrangeiros desclassificados, latifundiários com pretensões aristocráticas, mulatos e judeus abusados ameaçam a antiga elite.

Por isso, seu olhar ressentido, ao deter-se na realidade presente, enxerga apenas corrupção, negociata, oportunismo, mentira, desonra, injustiça, imoralidade, quebra das normas e das leis, completa inversão de valores. A escrita torna-se para ele vingança:

Querem-me aqui todos mal,

Mas eu quero mal a todos...

Ninguém parece escapar à sua ironia: os figurões portugueses, os padres, os colonos, os bacharéis, os degradados lusos que vinham para o Brasil e aqui enriqueciam, os nativos, os mestiços, os negros, todos são sistematicamente ridicularizados, como em Epílogos, onde num jogo de perguntas e respostas, o poeta demole com a sociedade de seu tempo.

Este poema é uma descrição do que era realmente naquele tempo a cidade da Bahia. O soneto ressalta uma crítica aos desmandos das autoridades e à futilidade dos habitantes citadinos.

Os personagens principais deste poema são a Cidade de Salvador, a burguesia e cleros com uma cifrada linguagem de paradoxos do retrato do local e de seus componentes. O gosto do poeta pelo insulto leva-o a acentuar os aspectos grotescos dos indivíduos e do contexto baiano como neste soneto em que descreve a cidade da Bahia (Salvador).

Neste poema Gregório critica a colonização do Brasil pelos portugueses e também de carona o domínio europeu ao mundo. Pode-se chegar a essa conclusão através dos versos iniciais, onde concluímos que com a palavra conselheiro, grafada com letra maiúscula, se referia aos portugueses devido aos três próximos versos, em que ele fala que os portugueses mal sabem governar a própria casa (país) e querem colonizar todo o mundo, inclusive o Brasil (referido como Bahia).

Nesta primeira estrofe, Gregório critica o modo de governar dos portugueses, uma vez que eles não conseguem governar o próprio país, pois sabe-se claramente que nesta época, Portugal era fortemente influenciado pela Inglaterra. Assim, o domínio e influência que os ingleses impunham aos portugueses, eles descontam no Brasil com juros excessivos, haja visto que o Brasil foi para Portugal apenas uma despensa, de onde pegava-se os materiais desejados. Para eles, pouco (ou melhor, nada) se importava com a preservação ambiental, com a ética, com a moral, com o amor e solidariedade para com o próximo e respeito para com outras culturas, credos, religião e tradição. Grande parte desse abuso foi exercida sob a pressão que a Inglaterra exercia sobre Portugal, que cobrado e encurralado pelas dívidas, viam na colônia uma solução.

Nestes primeiros versos, o poeta usa as palavras "cabana" e "vinha", especificamente no segundo verso do poema, as quais tem o sentido de negócios particulares. A palavra "picardia" significa esperteza ou desconsideração e "usuras" juros ou lucros exagerados.

Na segunda estrofe nota-se também o uso de letras maiúsculas para substantivos comuns, o que nos levou a concluir que seriam trocadilhos, então observamos que o poeta fala nesta estrofe, sobre os países vizinhos a Portugal (sobretudo França e Holanda) por estes estarem em constante ameaça à expansão portuguesa.

Já nos últimos versos começa a falar mal do povo brasileiro criticando a ação dos índios em dar toda a riqueza aos portugueses em troca de nada, e chamando todo o povo brasileiro, principalmente da Bahia, de ignorantes, fechando com a frase "… eis aqui a Cidade da Bahia…" dando a impressão de estar a descrever a Bahia com seu poema.

As características barrocas notadas neste poema são: jogos de palavras; conceptismo, e o imprescindível paradoxo.

O paradoxo notado não aparece claramente, e sim no contexto. Neste caso, no começo do poema Gregório de Matos mostra toda sua indignação com a colonização, criticando os portugueses e nos colocando como vítimas. Já no decorrer do poema começa a colocar o povo brasileiro como um povo que furta, e engana, fofoca, e em fim, coloca o povo brasileiro como sendo o próprio vilão.

A conclusão que deve ser realizada através da leitura deste soneto não é em relação à época em que foi escrito, mas à nossa atualidade. Ficamos estarrecidos, quando, através dos meios de comunicação, todos os dias, tomamos conhecimento da corrupção reinante neste País. Porém, é um grande passo, o povo brasileiro ter ciência de fatos terrivelmente prejudiciais à nação, pois, somente assim poderá exigir que se faça o certo; somente assim, poderá abolir os maus costumes.

São males que vêm desde a época das Capitanias Hereditárias e continuam arraigados em nossa cultura, como se pode observar neste soneto de Gregório de Matos Guerra. Com esta sátira podemos perceber que no século XVII, no Brasil Colônia, já existiam desmandos e incompetências.

E com nossa realidade atual, podemos concluir que a situação do Brasil, desde quando ele se chamava Ilha de Vera Cruz e com a sua condição de colônia de exploração, sob comando e domínio português, não se modificou muito. Houve algumas mudanças evolutivas, (ora, os sistemas de corrupção, manipulação, roubos, desonestidades, a quantidade e formas de cobrança de impostos, temos de admitir que estão muito mais evoluídos, utilizando todas as novas tecnologias, informática, entre outros sistemas modernos) e outras tantas regressivas, demonstrando que desde a época de Gregório e suas críticas, o Brasil está caminhando para a "desordem e regresso". Com todas essas análises acerca dos poemas e idéias de Gregório lá no século XVII, comparado ao nosso atualizadíssimo século XXI, fica a sugestão: que tal mudar a frase na bandeira do Brasil para que ela fique coerente com a realidade de nossa situação?

São poemas como este de Gregório que nos faz entender e refletir sobre a situação do Brasil atual e sua contextualização com o passado, identificando a origem das condições absurdas em que hoje vive nosso país.


BIBLIOGRAFIA

Matos, Gregório de. Seleção de Obras Poéticas 2. USP

PERES, Fernando da Rocha. Gregório de Mattos e Guerra: uma revisão biográfica. Salvador, Editora Macunaíma, 1983.

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