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Indiciplina e o Processo Educativo: Uma Análise na Perspectiva Vygotskiana

Autor:
Instituição: UFT
Tema: Análise do Livro

A Indisciplina e o Processo Educativo: Uma Análise na Perspectiva Vygotskiana


REGO, Teresa. A indisciplina e o processo educativo: uma análise na perspectiva Vygotskiana

A questão da INDISCIPLINA nas salas de aulas é um dos temas que atualmente mais mobilizaram professores, técnicos e pais. Entretanto, apesar de ser objeto de crescente preocupação, no meio educacional este assunto é, de um modo geral, superficialmente debatido.

Neste artigo procuraremos fazer uma reflexão, ainda que breve, sobre o assunto inspirado nas teses elaboradas pelo Psicólogo russo Lev Semenavich Vygotsky, interessado em compreender a gênese do psiquismo humano em seu contexto histórico –cultural.

E importante ressaltar que não é possível encontrar em sua obra referência explicita à questão da INDISCIPLINA. Todavia, o fato de atribuir em suas teses um lugar central à noção de construção social do sujeito permite que façamos algumas relações com o plano educacional. O primeiro diz respeito a inúmeras configurações e enfoques que a noção de INDISCIPLINA pode assumir ou suscitar. O segundo refere à tentativa de analisar os pressupostos subjacentes às idéias e explicações sobre o fenômeno da INDISCIPLINA geralmente presentes no meio educacional.


Afinal o que entendemos por indisciplina e quais são suas causas?

O próprio conceito de INDISCIPLINA, como toda a criação cultural, não é estático, uniforme, nem tampouco universal. Ele se relaciona com o conjunto de valores e expectativas que variam (...) entre as diferentes culturas e numa mesma sociedade.

No plano individual a palavra INDISCIPLINA pode ter diferentes sentidos que dependerão das vivências de cada sujeito e do contexto em que forem aplicados.

Baseado no dicionário é possível entender que DISCIPLINÁVEL é aquele que se deixa submeter, que se sujeita, de modo passivo, ao conjunto de prescrições normativas geralmente estabelecidas por outrem e relacionadas a necessidades externas a este. Disciplinado, é, portanto, aquele que obedece, que cede sem questionar, as regras e preceitos vigentes em determinada organização. Já o INDISCIPLINADO é o que se rebela, que não acatar e não se submete, nem tampouco se acomoda, e, agindo assim, provoca rupturas e questionamentos.

O modo como interpretamos o INDISCIPLINADO (ou a disciplina), sem dúvida, acarreta uma série de implicações á pratica pedagógica, já que fornece elementos capazes de interferir não somente nos tipos de interações estabelecidas com os alunos e nas definições de critérios para avaliar seus desempenhos na escola, como também no estabelecimento dos objetivos que se quer alcançar.

Outro aspecto capaz de influenciar significativamente o processo educativo desenvolvido na instituição escolar diz respeito à visão dos diferentes elementos da comunidade escolar (professores, técnicos, pais e alunos) sobre a causa da INDISCIPLINA.

No meio educacional esta visão é bastante difundida. Costuma-se compreender a INDISCIPLINA, (...) como uma espécie de incapacidade do aluno (ou de um grupo) em se ajustar às normas e padrões de comportamento esperados. A disciplina parece ser vista como um pré-requisito para o bom aproveitamento do que é oferecido na escola.

No cotidiano escolar os educadores (...) vem a INDISCIPLINA como um "sinal dos tempos" revelando uma saudade das práticas escolares e sociais de outrora, que não davam margem à desobediência e inquietação por parte das crianças e adolescentes: "no meu tempo o professor era autoridade; ele era respeitado não só na escola, mas em toda a sociedade!"

É comum também verem a indisciplina na sala de aula como reflexo da pobreza e da violência presente de um modo geral na sociedade e fomentada, de modo particular, nos meios de comunicação, especialmente a TV.

Muitos atribuem a culpa pelo "COMPORTAMENTO INDISCIPLINADO", do aluno à educação recebida na família: "esta criança não tem uma criação familiar totalmente autoritária, está acostumada a apanhar e a receber severos castigos, por esta razão não consegue viver em ambientes democráticos". Assim a responsabilidade pelo comportamento do aluno na escola parece ser única e exclusivamente da família.

Outros parecem compreender que a manifestação de maior e menor INDISCIPLINA no cotidiano escolar está relacionada aos traços de personalidade de cada aluno: "fulano é terrivel aluno, não tem jeito! Sicrano nasceu rebelde, o que eu posso fazer?". Desse modo atribuem a responsabilidade à própria criança ou adolescente, deixando transparecer uma concepção de desenvolvimento inatista

Outra maneira de justificar as causas da INDISCIPLINA, na escola, bastante presente no ideário educacional, se refere à tentativa de associar o comportamento INDISCIPLINADO a alguns "traços inerentes" à infância e a adolescência: "Os adolescentes de um modo geral são revoltados e questionadores não adianta querer lutar contra isso". Neste paradigma, as características individuais são dadas a priori, pois estão relacionadas à etapa da vida em que o aluno se encontra.

Embora estas opiniões comportem várias possibilidades de interpretação e síntese, nos limitares a alguns aspectos que consideramos relevantes.

Primeiramente, é possível observar que o lugar ocupado por cada um destes elementos no sistema educacional parece alterar significativamente o seu modo de explicar as razões da incidência da indisciplina na escola.

Em segundo lugar chama atenção para o fato de que, na busca dos determinantes da INDISCIPLINA, a influencia de fatores extra-escolares no comportamento dos alunos, na visão de muitos educadores, parece ocupar o primeiro plano.

Podemos concluir que as concepções de desenvolvimento humano predominante no meio educacional trazem sérias conseqüências a pratica pedagógica.

Entendemos que estas posições devem ser revistas, já que as explicações, mitos e crenças sobre o fenômeno da INDISCIPLINA na sala de aula difundidos no meio educacional, alem de acarretarem preocupantes implicações a pratica pedagógica, se embasam em pressupostos preconceituosos, superados e equivocados sobre as bases psicológicas do desenvolvimento e aprendizagem do ser humano, sobre as dimensões biológica e cultural envolvidas na formação de cada pessoa. Conforme afirma Quijano (1986 p. 45) "as idéias são prisões duradouras, mas não precisamos permanecer nelas para sempre".


Vygotsky e o desenvolvimento humano

Fiel às teses do marximos dialético, Vygotsky concebe a cultura, a sociedade e o individuo como sistemas complexos e dinâmicos, submetidos a ininterruptos e recíprocos processos de desenvolvimento e transformação. Sendo assim considera fundamental analisar o desenvolvimento humano no seu contexto cultural.

"Cada individuo aprende a ser um homem. O que a natureza lhe dá quando nasce não basta para viver em sociedade. É lhe preciso adquirir o que foi alcançado no decurso do desenvolvimento histórico da sociedade humana" (Leontiev, 1978, p.267)

Ao internalizar as experiências fornecidas pela cultura a criança e o adolescente reconstroem individualmente os modos de ação realizados externamente e APRENDEM a organizar os próprios processos mentais, a controlar e dirigir seu comportamento (autogoverno) e agir neste mundo. O individuo deixa, portanto, de se basear em mediadores externos e começa a se apoiar e recursos internalizados.

O APRENDIZADO é o aspecto imprescindível no desenvolvimento das características psicológicas típicas do se humano, já que as conquistas individuais: informações, valores, habilidades, atitudes, postura (por ex. mais ou menos indisciplinada) resultam de um processo compartilhado com pessoas e outros elementos de sua cultura.

As relações entre DESENVOLVIMENTO e APRENDIZAGEM ocupam papel de destaque na sua obra.

A educação (recebida na família, na escola e na sociedade de um modo geral) cumpre um papel primordial na construção dos sujeitos.


A família, a escola e o aprendizado da disciplina

Os postulados de Vygotsk permitem que analisemos o fenômeno da (IN)DISCIPLINA num quadro mais amplo e menos fragmentário do que geralmente difundido nos meios educacionais, pois inspira uma visão abrangente, integrada e dialética dos diferentes fatores que atuam na formação do comportamento e desenvolvimento individual.

Conforme exposto anteriormente, os traços de cada ser humano (comportamento, funções, psíquicas, valores etc) estão intimamente vinculados no aprendizado (...) desse modo é possível afirmar que um comportamento mais ou menos indisciplinado de um determinado individuo dependerá de suas experiências, de suas histórias educativas, que por sua vez sempre terá relações com características do grupo social e da época histórica que se insere.

Os postulados defendidos por Vygotsky ressaltam claramente o papel crucial que a educação tem sobre o comportamento e o desenvolvimento de funções psicológico complexas, como agir de modo consciente, deliberado, de autogovernar-se. Em outras palavras o comportamento (IN)DISCIPLINADO é aprendido.(...) por esta razão o problema da (IN)DISCIPLINA não deve ser encarado como alheio à família nem tampouco a escola, já que na nossa sociedade, elas são as principais agencias educativas.

A família é entendida como o primeiro contexto de socialização exerce, indubitavelmente grande influência sobre a criança e o adolescente. Coerente com esta perspectiva, Moreno e Cubero (1995) identifica na literatura especializada três estilos de práticas educacionais paternas:

PAIS AUTORITÁRIOS

Principais características:

PAIS PERMISSIVOS

Principais características

PAIS DEMOCRÁTICOS

Principais características

Segundo as autoras as conseqüências de cada uma destes estilos no comportamento da criança são bastante significativas as que recebem uma educação familiar autoritária tendem a manifestar, entre outros aspectos, obediência e organização, mas também maior timidez, apreensão, baixa autonomia e auto-estima. Os filhos de pais permissivos, apesar de mais alegres e dispostos que aqueles que recebem uma educação autoritária, devido às poucas exigências e controle de seus pais, tendem a apresentar um comportamento impulsivo e imaturo, assim como dificuldade em assumir responsabilidades. Já os que recebem uma educação democrática, além de apresentar significativo autocontrole, auto-estima, capacidade de iniciativa, autonomia e facilidade nos relacionamentos, tendem a demonstrar que os valores morais difundidos em sua família foram interiorizados.

È impossível negar, portanto, a importância e o impacto que a educação familiar tem. Entretanto, seu poder não é absoluto e irrestrito (...) os traços que caracterizarão a criança e o jovem ao longo de seu desenvolvimento não dependeram exclusivamente da família (...) sendo assim, uma relação entre professores e alunos baseada no controle excessivo, na ameaça e na punição, ou na tolerância permissiva e espontânea, também provocara reações e uma dinâmica bastante diferente daquela inspirada em princípios democráticos, o que nos leva a reconhecer que a escola não pode eximir de sua tarefa educativa no que se refere à disciplina (...) nesse sentido, o papel mediador do professor é de fundamental importância.

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