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Monografia: Práticas do Letramento e Alfabetização

Autor:
Instituição: Universidade Vale do Acaraú - UVA
Tema: Práticas do Letramento e Alfabetização

Monografia: Práticas do Letramento e Alfabetização
Universidade Vale do Acaraú – UVA
2009

 

 

 

ANDRADE, Deyse Fernanda Ferreira de; CHAVES, Maria Cleide.; SEABRA, Maria José. Práticas do Letramento e Alfabetização. Monografia, Curso de Licenciatura Plena em Pedagogia da Universidade do Vale do Acaraú – UVA. Recife, p. 66, ano 2009

 

Resumo

O objetivo desta pesquisa foi destacar a importância do letramento na formação educacional. Investigar a prática e a alfabetização nas escolas públicas em especial a Escola Maria Amélia de Sá Leitão. Letrar é mais que alfabetizar, é ensinar a ler e escrever dentro de um contexto onde a escrita e a leitura tenham sentido e façam parte da vida do aluno. Letramento é uma tradução para o português da palavra inglesa “Litercy”, que pode ser traduzida com a condição de ser letrada. O vocabulário letramento passou a ser utilizado no Brasil em meados dos anos 80. Hoje domina boa parte das discussões a cerca das novas perspectivas do ensino do sistema alfabético. Podemos definir hoje o letramento como um conjunto de práticas sociais que usam a escrita. Atualmente sociedades inteiras estão cada vez mais centradas na escrita. Ser alfabetizado, isto é, saber ler e escrever tem se revelado em condições insuficiente para responder adequadamente as demandas contemporâneas. É preciso fazer uso da leitura e da escrita no cotidiano. A cada momento, multiplicam-se as demandas por práticas de leituras e de escrita, não só na chamada cultura do papel, mas também na nova cultura da tela, com os meios eletrônicos, que ao contrário do que se costuma pensar, utilizam-se fundamentalmente da escrita, são seus novos suportes. A discussão do letramento surge sempre envolvida no conceito de alfabetização,o que tem levado a uma inadequada e imprópria síntese dos procedimentos, com prevalência do conceito de letramento sobre alfabetização. Não podemos separá-los, pois a principio o estudo do aluno no universo da escrita se dá concomitantemente por meio desses dois processos: a alfabetização e pelo desenvolvimento de habilidades da leitura e escrita nas praticas sociais que envolvem a língua escrita, letramento.

Palavras-chave: Alfabetização, Letramento, Leitura, Escrita, Aluno.

Abstratc

The objective of this research is to detach the importance of the letramento in the educational formation. To investigate practical and the alfabetização in the public schools in special the School Maria Amélia de Sá Leitão. Letrar is more than to alfabetizar, it is to teach to read and to write inside of a context where the writing and the reading have felt and are part of the life of the pupil. Letramento is a translation for the Portuguese of the English word “Litercy”, that it can be translated on condition that to be scholar. The vocabulary letramento passed to be used in Brazil in middle of years 80. Today it dominates good part of the quarrels about the new perspectives of the education of the alphabetical system. We can define the letramento today as a set of practical social that uses the writing. Currently centered entire societies are each time more in the writing. Being alfabetizado, that is, to know to read and to write if has disclosed in conditions insufficient to answer the demands adequately contemporaries. She is necessary to make use of the reading and the writing in the daily one. To each moment, the demands for practical are multiplied of readings and of writing, not only in the call culture of the paper, but also in the new culture of the screen, with the half electronic, that in contrast of what if costuma to think, is used basically of the writing, is its new supports. The quarrel of the letramento always appears involved in the concept of alfabetização, what it has led to an inadequate and improper synthesis of the procedures, with prevalence of the letramento concept on alfabetização. We cannot separate them, therefore I concomitantly begin it the study of the pupil in the universe of the writing if of by means of these the two processes: the alfabetização and for the development of abilities of the reading and writing you practise in them social that they involve the written language, letramento.

Word-key: Alfabetização, Letramento, Reading, Writing, Pupil.

 

Sumário

Resumo

Introdução
I – Capítulo
Compreendendo a relação entre alfabetização e Letramento
1.Definindo a alfabetização
2.Definindo letramento
II – Capítulo
Letramento e alfabetização no processo de ensino Aprendizagem
2.1 As dimensões do aprender a ler e a escrever
2.2 O desafio de ensinar a ler e escrever
III – Capítulo
Processo de Aquisição da Leitura e da Escrita
3.1 Interesse e necessidade
3.2 Histórias infantis; uma possibilidade de alfabetizar letrando
3.3 Alfabetização e letramento: o direito de ser usuário da língua escrita
3.4 A prática do letramento dentro e fora da escola

Metodologia

Resultado

Conclusão

Referências

Introdução

A temática abordada será a questão prática da alfabetização e letramento na Educação Infantil baseada em concepções teóricas fundamentadas por diversos autores.

Neste estudo analisaremos a fundamentação que apóia as práticas na perspectiva do letramento e alfabetização resgatando dados sobre sua origem e seu processo de desenvolvimento no Brasil. Será proposto um outro olhar sobre a alfabetização colocando em questão o objeto de conhecimento envolvido nessa discussão: a língua escrita. E por fim, o letramento será discutido no campo da ciência, ou melhor, na formação dos alunos para uma vida numa sociedade científica e tecnológica.

O que estamos levando para a sala de aula, em se tratando de leitura, contribui para a formação do leitor crítico e reflexivo? Estas preocupações têm se manifestado nos últimos tempos em ações que, de alguma forma, objetivam oferecer suporte ao ensino de leitura e escrita nas escolas.

Partindo desse princípio, vemos a urgência de se apresentar para o educando uma leitura que norteie seu posicionamento e que seja capaz de resultar no leitor que compreende a essência do texto, estabelecendo relações com o autor do mesmo e preenchendo as lacunas que possivelmente possam surgir no ato de ler, é que se realizou uma observação com a leitura crítica.

Desse modo, desenvolvemos um trabalho junto ao aluno que procurou dar a leitura à relevância necessária, oportunizando ao mesmo criar hipóteses sobre a estrutura da mesma, a partir de textos que viessem se tornar fontes inesgotáveis de conhecimento, esculpindo seu significado com estilo e clareza, colocando em foco os principais conflitos que cercam a existência humana, essenciais para a formação competente do leitor crítico. Concluímos que os estudantes não se encontram aptos para desenvolver leituras críticas de textos, pela falta de atividades desta natureza, o que faz com que aumente a responsabilidade do educador.

Desse modo, desenvolvemos um trabalho junto ao aluno que procurou dar a leitura à relevância necessária, oportunizando ao mesmo criar hipóteses sobre a estrutura da mesma, a partir de textos que viessem se tornar fontes inesgotáveis de conhecimento, esculpindo seu significado com estilo e clareza, colocando em foco os principais conflitos que cercam a existência humana, essenciais para a formação competente do leitor crítico. Concluímos que os estudantes não se encontram aptos para desenvolver leituras críticas de textos, pela falta de atividades desta natureza, o que faz com que aumente a responsabilidade do educador.

É importante ressaltar um momento histórico, em sociedades distanciadas tanto geograficamente quanto socioeconomicamente e culturalmente, a necessidade de reconhecer e nomear práticas sociais de leitura e de escrita mais avançadas e complexas que as práticas do ler e do escrever resultantes da aprendizagem do sistema de escrita. Assim, é em meados dos anos de 1980 que se dá, simultaneamente, a invenção do letramento no Brasil, para nomear fenômenos distintos daquele denominado alfabetização.

As alterações no conceito de alfabetização nos censos demográficos, ao longo das décadas, permitem identificar uma progressiva extensão desse conceito. A partir do conceito de alfabetizado, que vigorou até o Censo de 1940, como aquele que declarasse saber ler e escrever, o que era interpretado como capacidade de escrever o próprio nome; passando pelo conceito de alfabetizado aquele capaz de ler e escrever um bilhete simples, ou seja, capaz de não só saber ler e escrever, mas de já exercer uma prática de leitura e escrita, ainda que bastante trivial adotado a partir do Censo de 1950; até o momento atual, em que os resultados do Censo têm sido freqüentemente apresentados, sobretudo nos casos das Pesquisas Nacionais por Amostragem de Domicílios (PNAD), pelo critério de anos de escolarização, em função dos quais se caracteriza o nível de alfabetização funcional da população, ficando implícito nesse critério que, após alguns anos de aprendizagem escolar, o indivíduo terá não só aprendido a ler e escrever, mas também a fazer uso da leitura e da escrita, verifica-se uma progressiva, embora cautelosa, extensão do conceito de alfabetização em direção ao conceito de letramento: do saber ler e escrever em direção ao ser capaz de fazer uso da leitura e da escrita.

É preciso, a esta altura, deixar claro que defender a especificidade do processo de alfabetização não significa dissociá-lo do processo de letramento.

Segundo Magda Soares2: p.26 2003

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Levando assim, em consideração o que Magda Soares relata em seus estudos “de que a leitura do mundo precede a leitura da palavra”, e ainda, “o ato de aprender a ler e escrever deve começar a partir de uma compreensão muito abrangente do ato de ler o mundo, coisa que os seres humanos fazem antes de ler a palavra”. Isso quer dizer que o indivíduo não é um depósito vazio e zerado antes da alfabetização, e ali, nós, educadores, estaremos enchendo-o com informações mecânicas e institucionais, através de uma escolarização. Ele já possui sua capacidade de leitura dentro do seu contexto social para sobreviver em meio ao grupo em que vive. A alfabetização com a prática do letramento, trará ao indivíduo capacidades, competências, habilidades diversas para que este se envolva com as variadas demandas sociais de leitura e escrita.

Soares (1998) afirma que o Brasil despertou para o fenômeno do letramento a partir do momento em que percebeu que o problema não é apenas ensinar a ler e escrever, mas sim, proporcionar às crianças e adultos que façam uso da leitura e da escrita, envolvendo-se em práticas sociais das mesmas. A primeira condição para o letramento em uma sociedade é que haja escolarização real e efetiva da população, a alfabetização. A segunda, é que sejam criadas condições para que o alfabetizado fique imerso em um ambiente letrado, com acesso a materiais de leitura e escrita.

Para a mesma, a ausência desse ambiente letrado pode ser reconhecida como uma causa do insucesso das campanhas de alfabetização em nosso país. Percebia-se que os alunos saiam alfabetizados da escola, mas não havia condições para o letramento, quer dizer, não havia um ambiente que pudesse proporcionar-lhes continuação no processo para que se tornassem letrados.

Cientes da importância do conceito de letramento e desejosas em fazer avançar os estudos neste campo, o que pretendemos com este trabalho é pesquisar o desenvolvimento da leitura e da escrita e sua apropriação social em um determinado processo de alfabetização.

A partir desse objetivo podemos verificar o processo de alfabetização de alguns alunos em escolas públicas do município de Igarassu.

Algumas questões nos orientaram nesta pesquisa:

Quando uma criança está alfabetizada para você?

Qual seria o método ou processo ideal para que uma criança seja alfabetizada /letrada?

Quais os fatores que se deve privilegiar no ensino da leitura e de que maneira os fatores pedagógicos se relacionam a eles?

A fim de atingir esse objetivo, esta monografia foi construída em três capítulos.

O primeiro capítulo vai se ocupar em compreender a relação entre alfabetização e letramento segundo o ponto de vista de diferentes autores.

No segundo capítulo aprofundaremos a questão da alfabetização e letramento no processo ensino/aprendizagem; no terceiro, estaremos abordando o processo da aquisição da leitura e da escrita, explicitando a metodologia da pesquisa, analisaremos os dados pesquisados à luz dos conceitos estudados.

Para concluir, apresentaremos considerações que pretendemos que sejam úteis para contribuir no avanço das pesquisas realizadas neste campo de estudos.

Com relação aos referenciais teóricos, verificamos que muitos são os autores que vêm discutindo a questão da alfabetização e letramento. Neste trabalho, estaremos nos aliando a alguns autores no sentido de buscar identificar a dimensão social do letramento nos alunos pesquisados, enriquecendo outras pesquisas já realizadas sobre o tema no Brasil.

Capítulo I

Compreendendo a Relação entre Alfabetização e Letramento

A alfabetização é a ação de ensinar e aprender a ler e a escrever, algo que deveria ser ensinado de forma sistemática, onde a mesma não deve ficar diluída no processo de letramento.

Existem pessoas alfabetizadas, que dominam o sistema de escrita alfabética, mas que são incapazes de produzir textos em situações específicas ou ainda que não consigam compreender certos textos com os quais se deparam em sua vida cotidiana.

À medida que as práticas sociais de leitura e escrita foram tornando-se mais numerosas e complexas e passaram a exigir mais dos sujeitos – mais que as habilidades denominadas, muitas vezes, codificação e decodificação –, assistimos a redefinição do conceito alfabetização, que do simples ensinar / aprender a ler e escrever passou a envolver novos processos e denominações. É justamente a ampliação desse conceito e sua relação com o que hoje chamamos de letramento.

Letramento é o estado ou condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas, cultiva e exerce as práticas sociais que usam a escrita determinando indivíduo ou grupo social.

Ter-se apropriado da escrita é diferente de ter aprendido a ler e escrever; aprender a ler e escrever significa adquirir uma tecnologia, a de codificar e decodificar a língua escrita.

Alfabetizar e letrar são duas ações distintas, mas inseparáveis ao contrário: o ideal seria alfabetizar letrando, ou seja, ensinar a ler e a escrever no contexto das práticas sociais da leitura e da escrita de modo que o indivíduo se torne ao mesmo tempo, alfabetizado e letrado (SOARES, 1998).

Sendo incorporado à palavra letramento ao nosso problema não é apenas ensinar a ler e escrever mas é, também sobretudo, levar os indivíduos – crianças e adultos a fazer uso da leitura e da escrita, envolver-se em práticas sociais da leitura e da escrita.

Apesar de termos vivido um amplo debate, nas últimas duas décadas sobre o ensino e aprendizagem da língua escrita; escolas públicas e particulares do nosso país ainda continuam praticando um ensino de alfabetização limitado à cartilha e métodos. (MOURA e MORAIS, 2001)

O conceito de letramento expressa essa possibilidade de ser mais, de além das letras, das palavras, das frases...

Letramento traz a possibilidade de reinterpretar o mundo, analisar, comparar, elaborar e reelaborar, levando a inclusão no universo cultural. Por meio da cultura letrada podemos nos comunicar e nos integrar com outras pessoas, podemos ter acesso a uma gama infinita de informações; temos a possibilidade de uma participação mais ativa seja no campo profissional na política...

Estar imerso em ambiente letrado é fundamental, não parece ser suficiente, é preciso que o professor leve seus alunos a refletirem sobre a escrita, a estabelecerem relações entre diferentes tipos de textos significativos o mais próximo que for possível de seu uso social.

A deficiência do sistema educacional na formação de sujeitos plenamente letrados não decorre apenas do fato do professor não ser um representante pleno da cultura letrada. (Kleiman, 1991) nem das falhas, num currículo que não instrumentaliza o professor para o ensino.

As falhas acreditam são mais profundas, pois são decorrentes dos próprios pressupostos que subjazem ao modelo de letramento escolar.

Na medida em que possibilita uma leitura crítica da realidade se constitui como um importante instrumento de resgate da cidadania e que reforça o engajamento do cidadão nos movimentos sociais que lutam pela melhoria da qualidade de vida e pela transformação social. (FREIRE, 1991)

Uma inferência que se pode tirar do conceito de letramento é que um indivíduo pode não saber ler e escrever, isto é ser analfabeto; mas ser, de certa forma letrada.

A criança que ainda não se alfabetizou, mas já folheia livro finge lê-los, brinca de escrever, ouve histórias que são lidas, está rodeada de materiais escritos e percebe seu uso e função, essa criança é ainda “analfabeta” porque não aprendeu a ler e a escrever, mas já penetrou no mundo do letramento.

O professor alfabetizador precisa compreender todas as facetas do processo de alfabetização psicologia cognitivo da psicolingüística da sociolingüística e lingüística assim como os seus condicionantes sociais, políticos culturais. Para a partir daí elaborar atividades e procedimentos onde se operacionalize essas diversas facetas (SOARES, 2007).

Há casos de indivíduos com variados níveis de escolarização e alfabetização que apresentam níveis baixíssimos de letramento, alguns “quase” nenhum. Estes, são capazes de ler e escrever, contudo, não possuem habilidades para práticas que envolvem a leitura e a escrita: não lêem revistas, jornais, informativos, manuais de instrução, livros diversos, receita do médico, bulas de remédios, ou seja, apresentam grandes dificuldades para interpretar textos lidos, como também podem não ser capazes de sequer escrever uma carta ou bilhete. Todavia, gostaríamos de destacar que nessa nota acima mencionada diz também que esse tipo de indivíduo pode ser uma pessoa alfabetizada, mas não é letrada; neste ponto divergimos, por acreditarmos que a possibilidade de uma pessoa possuir grau zero de letramento não exista, em se tratando deste viver em uma sociedade grafocêntrica.

1.1 Definindo Alfabetização

A alfabetização consiste no aprendizado do alfabeto e de sua utilização como código de comunicação.

De um modo mais abrangente, a alfabetização é definida como um processo no qual o indivíduo constrói a gramática e em suas variações. Esse processo não se resume apenas na aquisição dessas habilidades mecânicas (codificação e decodificação) do acto de ler, mas na capacidade de interpretar, compreender, criticar, resignificar e produzir conhecimento. A alfabetização envolve também o desenvolvimento de novas formas de compreensão e uso da linguagem de uma maneira geral. A alfabetização de um indivíduo promove sua socialização, já que possibilita o estabelecimento de novos tipos de trocas simbólicas com outros indivíduos, acesso a bens culturais e a facilidades oferecidas pelas instituições sociais. A alfabetização é um fator propulsor do exercício consciente da cidadania e do desenvolvimento da sociedade como um todo.

Uma das explicações dadas para o fracasso da alfabetização no Brasil é a de que a democratização do acesso à educação, ocorrida a partir dos anos 70, levou a escola a lidar com crianças que teriam, em razão de suas condições de vida, sérias deficiências culturais e lingüísticas, que acarretariam dificuldades de aprendizagem. Teriam problemas de indisciplina e não valorizariam a escola. Sua linguagem oral seria muito distante da língua escrita. Em seu ambiente familiar, não vivenciariam os usos da escrita nem conviveriam com pessoas que valorizassem esse aprendizado. Seus pais teriam pouco interesse pela escola.

Historicamente, as discussões sobre a alfabetização se organizaram em torno da eficácia dos processos (analítico, sintético, analítico-sintético) e dos métodos (silábico, fônico, global). Posteriormente, com a divulgação dos estudos sobre a psicogênese da alfabetização, assistiu-se a um abandono da discussão sobre a eficácia dos processos e métodos. Como se caracteriza, hoje, o estado da discussão sobre a metodologia da alfabetização.

Quando articuladas as diferentes facetas no processo de alfabetização, fica evidente que os objetivos, funções e a utilização da leitura e da escrita são diferentes entre as classes populares e as classes favorecidas. Segundo Soares, este processo de alfabetização precisa ser contextualizado, porque, (...) Qualquer sistema de comunicação escrita é profundamente marcado por atitudes e valores culturais, pelo contexto social e econômico em que é usado. Portanto, a alfabetização é um processo de natureza não só psicológica e psicolingüística, como também de natureza sociolingüística.

Do outro lado temos o alfabetismo, incluindo a perspectiva histórica, antropológica, sociológica, discursiva, textual, literária, pedagógica e política; tornando-se impossível formular um conceito universal de alfabetismo sem levar a diversidade de suas relações com a sociedade.

No Brasil, por exemplo, é considerado alfabetizado (letrado) aquele que é capaz de localizar, compreender e usar informações fornecidas por diferentes tipos de textos. Em algumas sociedades, saber assinar o nome significa estar alfabetizado, isto porque, há diferentes conceitos de alfabetismo, dependendo das necessidades e condições sociais presentes em determinado momento histórico de um grupo ou cultura.

Não é possível se falar da alfabetização sem nos referirmos o Paulo Freire: o seu “Método de Alfabetização”. Esse vai além da simples alfabetização. Propõe e estimula a inserção do iletrado no seu contexto social e político, na sua realidade, promovendo o despertar para a cidadania plena e transformação social. É a leitura da palavra, proporcionando a leitura do mundo. O método de alfabetização de Paulo Freire é resultado de muitos anos de trabalho e reflexões de Freire no campo da educação. No processo de aprendizado, o alfabetizando ou a alfabetizanda é estimulado(a) a articular sílabas, formando palavras, extraídas da sua realidade, do seu cotidiano e das suas vivências. Nesse sentido, vai além das normas metodológicas e lingüísticas, na medida em que propõe as crianças que se apropriem da escrita e da palavra para se politizarem, tendo uma visão de totalidade da linguagem e do mundo. O método Paulo Freire estimula a alfabetização mediante a discussão de suas experiências de vida entre si, os participantes da mesma experiência, através de tema/palavras gerador(as) da realidade dos alunos, que é decodificada para a aquisição da palavra escrita e da compreensão do mundo. As experiências acontecem nos Círculos de Cultura segundo sua esposa – A trajetória de Paulo Freire;

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Em 1964, quando coordenou o Plano Nacional de Alfabetização no governo do presidente João Goulart, Paulo Freire contabilizou 20,4 milhões de analfabetos com mais de 15 anos de idade. Em pouco mais de quatro décadas, a redução é tímida. Somente seis milhões a menos de brasileiros na lista de analfabetos. Se nessa conta forem incluídos os analfabetos funcionais - aqueles com até quatro anos de estudo - o número de pessoas que não sabem ler nem escrever salta para 30,5 milhões de pessoas. Sem alfabetização, eles ficam sem acesso a um dos direitos mais defendidos por Paulo Freire, a cidadania.

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Entretanto, sendo a escola um contexto social onde os processos de ensino e aprendizagem se produzem de uma determinada maneira e obedecem a regras específicas, o estudo da atividade construtiva dos alunos se trasladaria do laboratório à sala de aula. Assim, sendo a sala de aula um dos âmbitos onde se constroem os conhecimentos, é preciso analisar as inter-relações que se produzem entre professores, alunos e conteúdos. Coll y Gómez-Granell afirmam que ademais da construção realizada pelos alunos, é necessário pesquisar os mecanismos de influência ou de ajuda pedagógica que lhes permitam construir e atualizar seus conhecimentos. Estes estudos oferecem dificuldades, mas proporcionam uma maior aproximação entre a teoria e a prática, explicando não só “os processos cognitivos subjacentes à adquisição de certos conteúdos e como aplicar estes no ensino, bem como também explicar o processo construtivo do conhecimento na escola e nas salas de aula”.

1.2 Definindo Letramento

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De acordo com Kleiman (1991), o conceito de letramento começou a ser utilizado nos meios acadêmicos com o intuito de estabelecer as diferenças entre os estudos sobre a escrita, vinculados ao meio social, e as práticas individuais de alfabetização que se desenvolvem no ambiente escolar. Os eventos de letramento, ou seja, a relação entre a escrita e o meio.

Nos dias de hoje, em que as sociedades do mundo inteiro estão cada vez mais centradas na escrita, ser alfabetizado, isto é, saber ler e escrever, tem se revelado condição insuficiente para responder adequadamente às demandas contemporâneas. É preciso ir além da simples aquisição do código escrito, é preciso fazer uso da leitura e da escrita no cotidiano, apropriar-se da função social dessas duas práticas; é preciso letrar-se. O conceito de letramento, embora ainda não registrado nos dicionários brasileiros, tem seu aflorar devido à insuficiência reconhecida do conceito de alfabetização. E, ainda que não mencionado, já está presente na escola, traduzido em ações pedagógicas de reorganização do ensino e reformulação dos modos de ensinar.

Letramento não é necessariamente o resultado de ensinar a ler e a escrever. É o estado ou a condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como conseqüência de ter-se apropriado da escrita (SOARES, 2003).

E, embora o letramento não seja conseqüência natural da alfabetização, pode-se considerar que o individuo letrado e alfabetizado e mais poderoso que o letrado não-alfabetizado. Isso significa concluir ingenuamente que a condição de alfabetizado e letrado, por si só, seja suficiente para garantir o exercício pleno da cidadania, sobretudo se considerarmos os elevados números da pobreza e da miséria, que vem aumentando e se traduzem em grande contingente de excluídos sociais e culturais em nosso país.

Em sociedades letradas, o atravessamento da escrita na vida como um todo se faz de um modo forte, não só nas atividades de leitura e de escrita propriamente, mas nas atividades orais, já que a fala das pessoas letradas é muito marcada pela linguagem que se escreve. Este quadro se modifica dependendo do acesso que se tem a círculos letrados, diferenciando-se, portanto, entre as classes sociais. Uma perspectiva de letramento, de certo modo diversa, nos é mostrada por (MEY, 2001).

A educação infantil é um espaço propício para a iniciação ao mundo letrado, devendo promover experiências significativas com a linguagem oral e a escrita, cuja função e responsabilidade é garantir a todas as crianças o acesso aos saberes lingüísticos necessários para o exercício da cidadania. O domínio da língua adquire importância, enquanto instrumento de comunicação e expressão de idéias, pensamentos, sentimentos, bem como de acesso às informações, construção de visões de mundo e produção de conhecimento.

A noção de letramento é uma noção relativamente recente no cenário educacional e está relacionada à participação dos sujeitos nas práticas sociais que têm como eixo a linguagem escrita.

Muito se tem discutido sobre os significados do letramento, mas algo parece ser comum a alguns autores (Goulart, 2001, 2002; Kleiman, 2001; Ribeiro, 1999; Soares, 2001, 2002, 2003 e Tfouni, 1988, 2004). A noção surge da necessidade de explicar algo que é mais amplo que alfabetização, ou seja, que vai além do domínio da tecnologia da leitura e da escrita, uma vez que nas sociedades grafocêntricas em que vivemos hoje, novas formas de uso social da leitura e da escrita, inclusive por aquelas pessoas consideradas analfabetas, vêm se dando.

Os analfabetos envolvem-se em práticas sociais diárias de leitura e de escrita, quer seja ao pedir alguém que leia o nome de um ônibus ou de uma rua, que leia uma carta que recebe que veja o prazo de validade de um produto no supermercado, que anote um recado para alguém etc. Embora não saibam ler e escrever, essas pessoas, de certo modo já apresentam graus de letramento, uma vez que estão imersas num mundo letrado e fazem uso, de uma forma ou de outra, da leitura e da escrita.

Soares (2002) apresenta letramento como: o estado ou condição de indivíduos ou de grupos sociais de sociedades letradas que exercem efetivamente as práticas sociais de leitura e de escrita participam competentemente de eventos de letramento.

A autora identifica duas dimensões de letramento: a individual e a social. A dimensão individual de letramento, que envolve especificamente a competência de ler e escrever e compreender o que está lendo e escrevendo, requer um conjunto de habilidades, quais sejam: motoras, cognitivas e meta cognitivas. Soares ressalta ainda que ler e escrever são processos diversos, embora complementares, que requerem habilidades diferenciadas.

A dimensão social do letramento apresenta-se como uma prática social, ou seja, de que forma, em um determinado contexto, as pessoas demonstram familiaridade com algumas práticas de leitura e de escrita.

O modelo autônomo de letramento é aquele em que o problema da não aprendizagem é uma questão individual. O aluno atribui a si próprio a responsabilidade de não ter aprendido; trata-se de um modelo bastante comum de ser encontrado entre alunos em processo de alfabetização: uma autoculpabilização por não ter estudado quando criança.

Quando alunos em processo de alfabetização nos dizem: A gente só pode ser alguém na vida através do estudo e Porque a gente sem o estudo não é nada, né? (conteúdos muito comuns de serem ouvidos) suas falas estão impregnadas por uma concepção autônoma de letramento, ou seja, é natural para eles se sentirem inferiorizados, pois se o discurso do puder dominante, das classes privilegiadas afirma que analfabetismo é “mancha”, “escravidão”, “erva daninha” etc. com que autoridade os alfabetizandos poderão questionar ou discordar desse pressuposto?

No modelo ideológico de letramento, o que se destaca é que todas as práticas de letramento são aspectos não apenas da cultura, mas também das estruturas de poder numa sociedade. (KLEIMAN, 2001).

Partindo-se, portanto, dessa afirmação: o que pode ser feito para superar o modelo autônomo de letramento, imposto pelos poderosos, que discrimina e exclui? Como desnaturalizar a desigualdade? A transformação da prática escolar de forma que o conflito discursivo em sala de aula seja estabelecido para que práticas sociais dominantes possam ser discutidas, examinadas e repensadas poderão construir contextos de aprendizagem, em que os alunos tragam seus conhecimentos, suas experiências, suas vivências. O que não se pode perder de vista é que as diferenças (culturais, sociais, econômicas etc.) devem ser levadas em conta num processo de alfabetização, ou seja, com que finalidade a leitura e a escrita são ensinadas e praticadas.

A voz dos alfabetizandos, ao serem ouvidas e respeitadas, propicia um contexto de aprendizagem onde o “saber da experiência vivida” é considerado; ao participarem de atividades letradas, suas vozes, mesmo que não portadoras da norma da língua considerada padrão, se tornam também legitimadas socialmente.

Alfabetizar letrando é um desafio. Assim como os autores que apresentamos, consideramos distintos os conceitos de alfabetização e letramento, embora entendamos que são processos que se interpenetram, uma vez que a leitura do mundo precede a leitura da palavra e aprender a ler e a escrever é também compreender o mundo no seu contexto, vinculando linguagem e realidade (FREIRE, 1983).

A voz dos alfabetizandos, ao serem ouvidas e respeitadas, propicia um contexto de aprendizagem onde o “saber da experiência vivida” é considerado; ao participarem de atividades letradas, suas vozes, mesmo que não portadoras da norma da língua considerada padrão, se tornam também legitimadas socialmente.

O letramento, por sua vez, é um continuum que envolve um processo permanente, cujo produto final não se pode definir nem pré-fixar, impossibilitando a distinção precisa entre analfabetismo e letramento e entre iletrado e letrado, do ponto de vista tanto individual quanto social.

Os estudos sobre o letramento, desse modo, não se restringem somente àquelas pessoas que adquiriram a escrita, isto é, aos alfabetizados. Buscam investigar também as conseqüências da ausência da escrita a nível individual, mas sempre remetendo ao social mais amplo, isto é, procurando, entre outras coisas, ver quais características da estrutura social tem relação com os fatos postos.

 

Capítulo II

Letramento e Alfabetização no Processo de Ensino Aprendizagem

Os estudos sobre o letramento no Brasil começaram a ganhar força por volta de 1990, com trabalhos que procuravam compreender tanto "o impacto social da escrita" (cf. Kleiman, 1995) quanto à inserção dos sujeitos no universo da palavra escrita, considerando seu processo de socialização. Nos dias de hoje, em que as sociedades do mundo inteiro estão cada vez mais centradas na escrita, ser alfabetizado, isto é, saber ler e escrever, tem se revelado condição insuficiente para responder adequadamente às demandas contemporâneas. É preciso ir além da simples aquisição do código escrito, é preciso fazer uso da leitura e da escrita no cotidiano, apropriar-se da função social dessas duas práticas; é preciso letrar-se. O conceito de letramento, embora ainda não registrado nos dicionários brasileiros, tem seu aflorar devido à insuficiência reconhecida do conceito de alfabetização. E, ainda que não mencionado, já está presente na escola, traduzido em ações pedagógicas de reorganização do ensino e reformulação dos modos de ensinar, como constata a professora Magda Becker Soares, que, há anos, vem se debruçando sobre esse conceito e sua prática.

"A cada momento, multiplicam-se as demandas por práticas de leitura e de escrita, não só na chamada cultura do papel, mas também na nova cultura da tela, com os meios eletrônicos", diz Magda, professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). "Se uma criança sabe ler, mas não é capaz de ler um livro, uma revista, um jornal, se sabe escrever palavras e frases, mas não é capaz de escrever uma carta, é alfabetizada, mas não é letrada", explica. Para ela, em sociedades grafocêntricas como a nossa, tanto crianças de camadas favorecidas quanto crianças das camadas populares convivem com a escrita e com práticas de leitura e escrita cotidianamente, ou seja, vivem em ambientes de letramento.

Ao relacionar os usos e as funções atribuídas à escrita à organização dos grupos na sociedade, focalizando as conseqüências socioculturais, políticas e/ou cognitivas do recurso à palavra escrita, os estudiosos passaram a centrar sua atenção na interferência dos modos de socialização para a construção, pelos sujeitos, de uma relação com a palavra escrita. Por essa razão, os estudos provocaram um deslocamento importante na forma de se conceber o processo de aprendizagem da escrita e da leitura: o olhar deixa de ser discriminatório, pois o que se procura compreender é o que o sujeito faz quando recorre à palavra escrita e por que ele faz o que faz.

É certo que esses estudos foram alimentados por resultados de trabalhos das áreas que dialogavam entre si para fundamentá-los. Em outras palavras, desenvolver investigações dessa natureza passou a ser viável porque, por exemplo, para ser breve, os estudos da linguagem se abriram para entender a variabilidade na língua e na produção/recepção de textos – motivados por descobertas de disciplinas como Sociolingüística, Psicolingüística, Lingüística Textual e Análise do Discurso – e os estudos da educação se viram impulsionados a compreender as razões do fracasso escolar de alunos que, desde o início dos anos 1970, com a chamada "democratização da escola", têm sido sistematicamente excluídos de nossas salas de aulas.

Compreendendo a linguagem como atividade mediadora dos processos cognitivos do homem, o grupo se propõe a articular pesquisas, estudos, e ações afins, relacionados aos aspectos políticos, históricos, cognitivos e pedagógicos da alfabetização e do letramento, entendido este como um conjunto de práticas sociais interativas de uso da leitura e da escrita dentro de um contexto social específico no qual os sujeitos estão inseridos, e um fenômeno polissêmico e complexo que entrelaça língua e cultura, que transcede a escrita, aglutinando as mais variadas manifestações da linguagem (oral, icônica, gestual, pictórica, corporal, imagética, acústica, numérica, etc.), ampliando o processo de leitura e da escrita na escola, nas suas variadas formas de expressão.

2.1 As Dimensões do Aprender a Ler e a Escrever

Durante muito tempo à alfabetização foi entendida como mera sistematização do “B + A = BA”, isto é, como a aquisição de um código fundado na relação entre fonemas e grafemas. Em uma sociedade constituída em grande parte por analfabetos e marcada por reduzidas práticas de leitura e escrita, a simples consciência fonológica que permitia aos sujeitos associar sons e letras para produzir/interpretar palavras (ou frases curtas) parecia ser suficiente para diferenciar o alfabetizado do analfabeto.

Com o tempo, a superação do analfabetismo em massa e a crescente complexidade de nossas sociedades fazem surgir maiores e mais variadas práticas de uso da língua escrita. Tão fortes são os apelos que o mundo letrado exerce sobre as pessoas que já não lhes basta à capacidade de desenhar letras ou decifrar o código da leitura. Seguindo a mesma trajetória dos países desenvolvidos, o final do século XX impôs a praticamente todos os povos a exigência da língua escrita não mais como meta de conhecimento desejável, mas como verdadeira condição para a sobrevivência e a conquista da cidadania. Foi no contexto das grandes transformações culturais, sociais, políticas, econômicas e tecnológicas que o termo “letramento” surgiu, ampliando o sentido do que tradicionalmente se conhecia por alfabetização (Soares, 2003).

Hoje, tão importante quanto conhecer o funcionamento do sistema de escrita é poder se engajar em práticas sociais letradas, respondendo aos inevitáveis apelos de uma cultura grafocêntrica. Assim,

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Com a mesma preocupação em diferenciar as práticas escolares de ensino da língua escrita e a dimensão social das várias manifestações escritas em cada comunidade, Kleiman, apoiada nos estudos de Scribner e Cole, define o letramento como;

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Mais do que expor a oposição entre os conceitos de “alfabetização” e “letramento”, Soares valoriza o impacto qualitativo que este conjunto de práticas sociais representa para o sujeito, extrapolando a dimensão técnica e instrumental do puro domínio do sistema de escrita:

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Ao permitir que o sujeito interprete, divirta-se, seduza, sistematize, confronte, induza, documente, informe, oriente-se, reivindique, e garanta a sua memória, o efetivo uso da escrita garante-lhe uma condição diferenciada na sua relação com o mundo, um estado não necessariamente conquistado por aquele que apenas domina o código (Soares, 1998). Por isso, aprender a ler e a escrever implica não apenas o conhecimento das letras e do modo de decodificá-las (ou de associá-las), mas a possibilidade de usar esse conhecimento em benefício de formas de expressão e comunicação, possíveis, reconhecidas, necessárias e legítimas em um determinado contexto cultural. Em função disso,

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2.2 O Desafio de Ensinar a Ler e a Escrever

Como conciliar essas duas vertentes da língua em um único sistema de ensino? Na análise dessa questão, dois embates merecem destaque: o conceitual e o ideológico.

1) O embate conceitual

Tendo em vista a independência e a interdependência entre alfabetização e letramento (processos paralelos, simultâneos ou não, mas que indiscutivelmente se complementam), alguns autores contestam a distinção de ambos os conceitos, defendendo um único e indissociável processo de aprendizagem (incluindo a compreensão do sistema e sua possibilidade de uso). Em uma concepção progressista de “alfabetização” (nascida em oposição às práticas tradicionais, a partir dos estudos psicogenéticos dos anos 80), o processo de alfabetização incorpora a experiência do letramento e este não passa de uma redundância em função de como o ensino da língua escrita já é concebido. Questionada formalmente sobre a “novidade conceitual” da palavra “letramento”, Emilia Ferreiro explicita assim a sua rejeição ao uso do termo:

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Note-se, contudo, que a oposição da referida autora circunscreve-se estritamente ao perigo da dissociação entre o aprender a escrever e o usar a escrita (“retrocesso” porque representa a volta da tradicional compreensão instrumental da escrita). Como árdua defensora de práticas pedagógicas contextualizadas e significativas para o sujeito, o trabalho de Emília Ferreiro, tal como o dos estudiosos do letramento, apela para o resgate das efetivas práticas sociais de língua escrita o que faz da oposição entre eles um mero embate conceitual.

Tomando os dois extremos como ênfases nefastas à aprendizagem da língua escrita (priorizando a aprendizagem do sistema ou privilegiando apenas as práticas sociais de aproximação do aluno com os textos), Soares defende a complementaridade e o equilíbrio entre ambos e chama a atenção para o valor da distinção terminológica:

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Assim como a autora, é preciso reconhecer o mérito teórico e conceitual de ambos os termos. Balizando o movimento pendular das propostas pedagógicas (não raro transformadas em modismos banais e mal assimiladas), a compreensão que hoje temos do fenômeno do letramento presta-se tanto para banir definitivamente as práticas mecânicas de ensino instrumental, como para se repensar na especificidade da alfabetização. Na ambivalência dessa revolução conceitual, encontra-se o desafio dos educadores em face do ensino da língua escrita: o alfabetizar letrando.

2) O embate ideológico

Mais severo do que o embate conceitual, a oposição entre os dois modelos descritos por Street (1984) representa um posicionamento radicalmente diferente, tanto no que diz respeito às concepções implícita ou explicitamente assumidas quanto no que tange a pratica pedagógica por elas sustentadas.

O “Modelo Autônomo”, predominante em nossa sociedade, parte do princípio de que, independentemente do contexto de produção, a língua tem uma autonomia (resultado de uma lógica intrínseca) que só pode ser apreendida por um processo único, normalmente associado ao sucesso e desenvolvimento próprios de grupos “mais civilizados”.

Contagiada pela concepção de que o uso da escrita só é legitimo se atrelado ao padrão elitista da “norma culta” e que esta, por sua vez, pressupõe a compreensão de um inflexível funcionamento lingüístico, a escola tradicional sempre pautou o ensino pela progressão ordenada de conhecimentos: aprender a falar a língua dominante, assimilar as normas do sistema de escrita para, um dia (talvez nunca) fazer uso desse sistema em formas de manifestação previsíveis e valorizadas pela sociedade. Em síntese, uma prática reducionista pelo viés lingüístico e autoritário pelo significado político; uma metodologia etnocêntrica que, pela desconsideração do aluno, mais se presta a alimentar o quadro do fracasso escolar.

Em oposição, o “Modelo Ideológico” admite a pluralidade das práticas letradas, valorizando o seu significado cultural e contexto de produção. Rompendo definitivamente com a divisão entre o “momento de aprender” e o “momento de fazer uso da aprendizagem”, os estudos lingüísticos propõem a articulação dinâmica e reversível entre “descobrir a escrita” (conhecimento de suas funções e formas de manifestação), “aprender a escrita” (compreensão das regras e modos de funcionamento) e “usar a escrita” (cultivo de suas práticas a partir de um referencial culturalmente significativo para o sujeito). O esquema abaixo pretende ilustrar a integração das várias dimensões do aprender a ler e escrever no processo de alfabetizar letrando.

 

Capítulo III

Processo de Aquisição da Leitura e da Escrita

Para alguns autores, muito antes de iniciar o processo formal de aprendizagem da leitura e da escrita, a criança já tem contato direto com as mais diversas formas simbólicas da escrita, seja em casa , na rua ou em qualquer lugar onde se encontre.

Dentre eles, existe autora Emília Ferreiro que contribuiu bastante para o entendimento de como ocorre o processo de aprendizagem da linguagem escrita.

Segundo essa autora, a criança pensa sobre a escrita, formulando hipóteses sobre ela, como maneira de compreender o que significa. Essas hipóteses acontecem em todas as crianças, que vão evoluindo desde a fase Pré-silábica, na qual ainda não há intenção de representar através da escrita os aspectos sonoros da fala, até chegar ao padrão alfabético, que é aquele no qual a criança associa sons falados a letras escritas.

Dessa forma, quando a criança faz traços contínuos no papel e, atribui-lhes significado, ( como quando escreve e lê "O menino caiu” ) ela está escrevendo, ou seja, está fazendo uma atividade investigativa sobre a escrita que será importante para que ela possa evoluir gradativamente . em sua aprendizagem: por isso, essas tentativas da criança não devem ser motivos de chacota, ao contrário, devem ser incentivadas e reforçadas

Durante a aprendizagem da escrita, a criança passa por várias fases até chegar à hipótese Alfabética, na qual realiza uma análise sonora da palavra que vai escrever, fazendo corresponder a cada som um caracter escrito. A produção escrita da criança torna-se legível para o adulto, embora não haja ainda o domínio das regras de ortografia, o que ocorre posteriormente, de forma gradativa e devendo ser estimulado através da apresentação de materiais escritos na escola e também na família, já que trata-se de uma aquisição cultural, ou seja, que não ocorre apenas internamente na criança.

Nessa fase de escrita alfabética, as crianças podem escrever palavras como “dinosauro” (dinossauro), “tatussinho” (tatuzinho) e “jacare” (jacaré) e é necessário que estejam em contato com vários materiais escritos, através dos quais possam perceber as diferenças no padrão de escrita do idioma, compará-los com sua maneira de escrever para que possam adquirir a escrita ortográfica.

É importante ressaltar que podem ocorrer diferenças individuais quanto à idade em que cada uma das crianças passa por cada fase de evolução da escrita e essas diferenças têm a ver também com maior ou menor interesse e estimulação (principalmente na família) em relação à oferta de material significativo de leitura e escrita.

Contudo, é também importante observar a evolução de todo esse processo e ficar atento a dificuldades específicas, que podem necessitar de ajuda profissional, principalmente quando a criança está em uma fase inicial do processo e a requisição escolar é de uma fase mais adiantada; nesses casos é necessário diagnosticar os fatores que podem estar interferindo para poder fazer com que a criança evolua e acompanhe o que é pedido para seu nível de escolaridade.

Como já foi citado, é importante que a criança possa ter acesso ao material escrito para que construa o conhecimento da leitura e da escrita.

A leitura, parte desse processo também desenvolve-se de forma gradual, é um hábito a ser adquirido e deve ser fonte de prazer e não apresentada de forma obrigatória através de imposição ou cercada de castigos e ameaças.

A apresentação da leitura deve ocorrer o mais cedo possível na vida da criança, através da casa, da família e dos pais, que são os primeiros incentivadores, promovendo a aproximação com a linguagem, desde o momento em que cantam para os bebês, brincam com eles usando histórias, adivinhações, rimas e expressões folclóricas, ou folheiam livros e revistas buscando figuras conhecidas e perguntando sobre seus nomes.

A leitura, sem dúvida, irá refletir de forma significativa e positiva aumentando o repertório na escrita da criança e do adulto também.

3.1 Interesse e Necessidade

No âmbito dos estudos da alfabetização, da leitura e da escrita, tem surgido a temática do letramento relacionada às práticas sociais orais e escritas que atravessam e condicionam o movimento dos sujeitos, determinando seus espaços de ação. Esses estudos, orientados, principalmente, por pesquisas que se desenvolvem na confluência das áreas da linguagem, da literatura, da cultura e da história vêm contribuindo com novas reflexões para os estudos sobre alfabetização e, em conseqüência, para a prática pedagógica com a linguagem na escola. Nesse contexto, as atividades orais e de leitura e escrita podem ser mais bem compreendidas no sentido da formação do cidadão-leitor crítico.

Para Paiva et al (2003),

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Considero, como Paiva et al (2003), que a escola deve ir além dos aspectos práticos da vida, sem deixar de incluí-los. A escola é o espaço de alargar, conhecer e adentrar novos universos, que possam dar outros significados à vida, contribuindo para que se compreenda a realidade de outras maneiras. E de que maneiras se pode conhecer e compreender a realidade? Penso que pode-se conhecê-la e explicá-la com os saberes que vamos construindo no nosso cotidiano; pode-se também conhecê-la na perspectiva das explicações científicas, isto é, fruto dos saberes organizados pelos diferentes ramos da Ciência; pode-se, de outro modo, analisá-la com as indagações e reflexões da Filosofia, ou da Religião; e pode-se, entre outros modos, experimentá-la com o conhecimento construído pela Arte. A apropriação de tais conhecimentos nos alarga o entendimento da realidade, possibilitando nos participar da mesma, transformá-la, explorá-la e usufruir da realidade mais amplamente.

Os conhecimentos acima mencionados, construídos no desenvolvimento das diferentes áreas de estudo, caracterizam as sociedades letradas. Desse modo, para sermos considerados letrados precisamos compreender aqueles variados modos de ler o mundo, conhecendo a forma como a linguagem escrita se organiza, apresentando os diferentes conhecimentos de modos diferentes.

Assim, diferentes que somos, podemos resolver nossas vidas de modos também diferentes. A leitura, na atualidade, desde as séries iniciais precisa compreender textos de um modo gerais mais polissêmicos e polifônicos do que os textos veiculados pela cartilha há oitenta anos. Polissêmicos, porque são passíveis de muitas leituras, dependendo da história de vida do leitor, de seus interesses, apreensões e assim por diante. Polifônicos, porque na voz do autor estão vozes de outras pessoas, de outros autores, da sociedade, da história.

Para tanto, sugiro o trabalho com a literatura, afinal, demanda modos de leitura que levam o leitor a aprofundar suas competências. Ao buscar ler nas entrelinhas, atribuir novos sentidos para os textos, conhecer formas mais livres de ação na realidade, conhecer novos sistemas de referência do mundo, o leitor pode-se perceber como sujeito capaz de transformar a realidade, participando dela de forma mais íntegra, mais crítica.

Nossa meta principal é incentivar entre os professores a reflexão das relações entre a temática alfabetização, linguagem, letramento e leitura da literatura, trabalhando por práticas leitoras culturalmente referenciadas, fazendo um contraponto com as práticas leitoras tradicionais, muitas vezes mecanizadas e distanciadas do universo social.

Pretendemos incentivar essa discussão de modo a contribuir para que ultrapassem práticas mecanizadas de trabalho com a linguagem na escola, notadamente na perspectiva das práticas orais e das práticas de leitura e de escrita, na direção do que constitui o funcionamento do chamado mundo letrado.

Para tanto, faz-se necessário discutirmos as perspectivas metodológicas para a pr&aa

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