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Reflexões e Perspectivas sobre a Educação Inclusiva de pessoas com necessidades especiais em classes reguralres de ensino

Autor:
Instituição: Faculdade São Luis de Jaboticabal
Tema: Educação Inclusiva

Educaçõa Inclusiva: Reflexão sobre inclusão de alunos com deficiência auditiva em classes regulares de ensino

Faculdade São Luis de Jaboticabal
2008

 

 

 

Resumo

O presente trabalho teve como objetivo promover uma reflexão sobre as políticas que norteiam a inclusão de alunos com deficiência auditiva em classes regulares de ensino, assim como uma sensibilização dos professores que trabalham em classes inclusivas, para que possam adquirir uma visão mais positiva e menos crítica em relação à educação inclusiva, visando-se a socialização e o aprendizado desses alunos para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e igualitária. Realizamos uma pesquisa de campo com três professoras da rede municipal de ensino, por meio de questionários. Nas respostas obtidas, observamos as dificuldades encontradas pelas entrevistadas e o empenho delas em buscar soluções, muitas vezes sem o apoio da escola. Acreditamos que, à medida que os professores envolvidos nesse processo recebem um assessoramento pedagógico especializado, assim como uma formação continuada direcionada a um melhor desenvolvimento de sua prática pedagógica, certamente alguns dos problemas encontrados no processo de inclusão do aluno com deficiência auditiva serão minimizados.

 

Sumário

Introdução
1. Contexto histórico da educação de surdos
2. Inclusão
2.1. Conceito de Inclusão e Educação Inclusiva
2.2. Princípios Fundamentais da Educação Inclusiva
3. Deficiência Aditiva
3.1. Deficiência Auditiva: conceitos e definições
3.2. Características do aluno com deficiência auditiva
4. Inclusão X escola: pesquisa com professores que atuam em classes regulares de ensino
4.1. Metodologia da pesquisa
4.2. Análise e discussão dos resultados
Considerações Finais
Referências
Anexo



Introdução

A educação inclusiva destaca-se hoje por sua política de igualdade de direitos e respeito às diferenças, visando um melhor atendimento aos alunos com Necessidades Educacionais Especiais em classes regulares de ensino.

Neste trabalho discutimos preferencialmente as questões que envolvem a inclusão educacional do aluno com deficiência auditiva, em seus aspectos históricos e atuais com o intuito de facilitar a compreensão das políticas que norteiam a educação inclusiva.

A importância de discutir este tema justifica-se pelo fato de a inclusão educacional, nas escolas públicas, ser uma realidade que diverge dos parâmetros que a orientam. Isto acontece tanto pela falta de estrutura das escolas públicas quanto pelo despreparo de alguns profissionais que, muitas vezes, não têm condições de pagar por uma formação continuada. No entanto, essas condições deveriam ser ofertadas pela rede de ensino na qual esses profissionais estão inseridos, conforme previsto no artigo 59 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) ”Os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com necessidades especiais: III - professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns” (BRASIL, 1996).

Para a realização deste trabalho, utilizamos como metodologia de estudo, além de pesquisa bibliográfica, pesquisa de campo, envolvendo professores de alunos com Deficiência Auditiva da Escola Municipal de Ensino Fundamental “Américo Roncalli” e do Centro de Educação e Recreação “Vera Lúcia Cavassani”, ambas situadas na cidade de Américo Brasilense (SP), que funcionam sob regime de inclusão. Aplicamos um questionário com cinco perguntas referentes ao tema em discussão, conforme anexo.



1. Contexto Histórico da educação dos surdos

Neste capítulo, fazemos uma breve abordagem histórica da educação dos surdos, visando um melhor entendimento de sua história enquanto classe social segregada, e dos movimentos que precederam as políticas que lutam por uma sociedade igualitária.

Durante muitos anos, a educação das pessoas com Necessidades Especiais desenvolveu-se de forma preconceituosa, prevalecendo à segregação. Na Antigüidade, por possuírem características divergentes daquelas instituídas pela sociedade dita “normal”, eram vistos “[...] com piedade e compaixão, como pessoas castigadas pelos deuses ou como pessoas enfeitiçadas, e por isso eram abandonados ou sacrificados.” (GOLDFELD,1997, p. 24).

No fim da Idade Média e início da Idade Moderna, predominavam as filosofias humanísticas, com isso, houve uma valorização do ser humano e, conseqüentemente, as pessoas com necessidades especiais passaram a ser alvos de organizações religiosas e filantrópicas; as deficiências, antes vistas como algo sobrenatural, passaram a ser tratadas como doença.

O drama dos surdos é menos ligado à sua enfermidade do que às razões psicológicas que rapidamente se transformam em efeitos patológicos. A causa profunda desse drama encontra-se ligada à incompreensão da sociedade que não o vê como diferente e, sim, como deficiente. (ALMEIDA, 2000, p. 3)

Segundo Goldfeld (1997, p. 25), no século XVI, na Espanha, o monge beneditino Pedro Ponce de Leon ensinou quatro surdos, filhos de nobres, a ler por meio de uma metodologia própria que incluía a representação manual das letras (datilologia), escrita e oralização. Após seu sucesso, fundou a primeira escola para surdos.

Em 1771, o Abade Charles Michel de L’Epée transformou sua casa em escola pública e atendeu 75 alunos surdos. “L’epée e seu seguidor Sicard acreditavam que todos os surdos, independentemente de nível social, deveriam ter acesso à educação, e esta deveria ser pública e gratuita” (GOLDFELD, 1997, p.26).

Houve grande aumento no número de escolas para surdos no século XVIII e a comunicação era feita por meio da linguagem de sinais.

No Brasil, a educação do surdo teve início em 26 de setembro de 1857, com o Imperial Instituto de Surdos Mudos (atual Instituto Nacional de Educação de Surdos - INES), fundado pelo professor francês Hernest Huet, que era surdo, com o apoio do Imperador Dom Pedro II.

A partir de 1860, surgiram alguns opositores à língua de sinais que, influenciados pelos avanços tecnológicos da época, passaram a defender a aprendizagem da comunicação oral pelos surdos.

O Oralismo prevaleceu até o início da década de setenta. A partir desta data, a insatisfação de educadores e surdos com a comunicação oral deu origem a outro método de comunicação, que abrangia tanto a linguagem de sinais quanto outros códigos manuais, denominado Comunicação Total.

Na década de 80, surge o Bilingüismo, ou seja, o surdo utiliza a linguagem de sinais em algumas situações e em outras a língua oral.

No final dos anos 80 e início dos anos 90, nos países mais desenvolvidos, surgiram movimentos de inclusão social que reivindicavam a construção de uma sociedade para todos. Nesse período, surgiu a “educação especial” para crianças com deficiência. Goldfeld (1997, p. 14) define a educação especial como um movimento universal e democrático de ensino cuja finalidade é a de assegurar às crianças com necessidades especiais, que não participam dos processos regulares de ensino, o direito de freqüentar uma escola.

Na década de 90, com a Declaração Mundial de Educação para todos (ONU, 1990), a sociedade começou a perceber que as pessoas com deficiência, quando tinham acesso a escolarização e treinamento, tornavam-se produtivas e colaboradoras. Esse pensamento de integração proporcionou o surgimento de classes especiais dentro de escolas comuns.

Tomando por base a Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994), os países desenvolvidos foram os pioneiros na implantação de classes inclusivas e de escolas inclusivas.

Inspirado no Plano Decenal de Educação para todos (BRASIL, MEC, 1993) e nas mudanças educacionais que ocorriam no mundo, as políticas de Diretrizes da Educação Especial começaram a mudar e passaram a ter subsídios na proposta da inclusão. Segundo Sassaki (1997, p.17), o movimento de inclusão em países em desenvolvimento, como o Brasil, só tomou força nos primeiros 10 anos do século XXI, mas tem promovido discussões e envolvimento de todos os países. Dentro deste contexto, a educação no Brasil caminha gradativamente para assegurar a todos, sem discriminação, o direito à educação.

Com as políticas e leis que asseguram e norteiam à inclusão, as escolas estão sendo chamadas a levar em conta a ampla diversidade das características e necessidades dos alunos; adotar um modelo centrado no desenvolvimento destes e não apenas em conteúdos programáticos; dar ênfase à aprendizagem e prepará-los para o convívio social e profissional.

Nesse aspecto, vários países estão realizando uma profunda revisão dos paradigmas para orientar a educação de seus alunos.

A educação especial deve deixar de ser um sistema paralelo à educação para integrá-la como um conjunto de recursos pedagógicos e de serviço de apoio, que facilitem a aprendizagem de todos os alunos com necessidades especiais incluídos no ensino regular.

 

2. Inclusão

 

2.1. Conceito de Inclusão e Educação Inclusiva

Para melhor entendermos as políticas que buscam hoje uma sociedade mais justa e igualitária, consideramos importante levantar alguns pontos sobre a Inclusão e os vários conceitos que a definem, especialmente no campo da educação.

Nos últimos anos, temos ouvido, com maior freqüência, o uso do termo inclusão: inclusão de Pessoas com Necessidades Especiais, inclusão digital, inclusão social, inclusão no mercado de trabalho, entre outros. Mas qual é a definição de inclusão?

Se procurarmos em dicionários, descobriremos que inclusão é o ato ou efeito de incluir, ou seja, tornar-se parte de algo. E não é isso exatamente o que as pessoas com necessidades especiais querem? Ou seja, fazer parte da sociedade a qual pertencem?

Para Sassaki (1997, p. 171), “A inclusão social é o processo pelo qual a sociedade e a pessoa com deficiência procuram adaptar-se mutuamente tendo em vista a equiparação de oportunidades e, conseqüentemente, uma sociedade para todos”.

No que se refere à Educação Especial, o Dicionário Aurélio (2004) define inclusão como “O ato de incluir pessoas portadoras de necessidades especiais na plena participação de todo o processo educacional, laboral, de lazer, etc., bem como em atividades comunitárias e domésticas”.

Em documentos oficiais, é comum a utilização do termo integração como sinônimo de inclusão. No entanto, muitos autores defendem a significação distinta de ambas as expressões. Sassaki (1997, p.42) define integração como ”inserção da pessoa com deficiência preparada para conviver na sociedade” e inclusão como “modificação da sociedade como pré-requisito para a pessoa com necessidades especiais buscar seu desenvolvimento e exercer a cidadania”.

Em muitos casos, o termo inclusão tem sido compreendido do ponto de vista social, que consiste em apenas incluir, colocar junto com outros e ponto final. Num ambiente verdadeiramente inclusivo, convivemos com as diferenças, buscando objetivos comuns, com as mesmas possibilidades de fracasso, mas também com perspectivas de realizações conjuntas. Afinal “a inclusão ensina a tolerância para todos os que estão diariamente na escola e para a comunidade” (CAVALCANTE, 2006, p. 36).

Quando discutimos a inclusão educacional, partimos do princípio de que cada indivíduo tem suas potencialidades e necessidades especiais, e que essas devem ser respeitadas para que, assim, todos os alunos consigam progredir em seu processo de ensino aprendizagem. Mas como fazer para que todos consigam caminhar juntos apesar de tantas diferenças? Almeida (2000, p. 3) afirma que “Surdos e ouvintes têm línguas diferentes, mas podem viver numa única comunidade, desde que haja um esforço mútuo de aproximação pelo conhecimento das duas línguas, tanto por ouvintes como por surdos”.

Deve-se rever a idéia de que as diferenças são um problema, assumindo que elas são inerentes a qualquer pessoa e proporcionam o enriquecimento do processo social e educativo do indivíduo. Almeida (2000, p. 4) diz que, ao considerarmos a surdez como uma diferença, ela deixa de ter uma conotação patológica, enfatizando a necessidade de o indivíduo desenvolver meios de interagir e expressar-se por meio de uma língua própria.

 

2.2. Princípios Fundamentais da Escola Inclusiva

A educação é um direito de todos e os alunos com necessidades especiais têm garantido o direito de estudar em classes comuns, recebendo atendimento educacional especializado, é o que asseguram os artigos 205 e 208, inciso III da Constituição Federal do Brasil (BRASIL, 1988).

Com a Conferência de Jomtiem, na Tailândia, em 1990, e a Conferência de Salamanca, na Espanha, em 1994, o Brasil assumiu o compromisso de implantar políticas que visem à inclusão de pessoas com necessidades especiais em todos os setores e seguimentos da sociedade.

No que se refere à escola inclusiva, parte-se do princípio de que todos os alunos devem ter igualdade de oportunidades e devem aprender juntos, independente de suas dificuldades ou diferenças. Para que isso ocorra, as escolas devem adequar-se a todos os alunos, adotando uma pedagogia que leve em consideração suas características individuais, auxiliando em seu processo de aprendizagem e proporcionando ações que favoreçam interações sociais, com práticas heterogêneas e inclusivas previamente definidas em seu currículo, como determina a LDBEN - Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996), em seu artigo 59, quando afirma que os sistemas de ensino devem assegurar aos alunos com necessidades especiais adaptação curricular e metodológica, técnicas e recursos educativos específicos que atendam às necessidades características de cada indivíduo.

Para que aconteça uma verdadeira educação inclusiva, é necessário que ocorram mudanças, não só na estrutura física, organizacional e pedagógica da escola, mas também nas concepções e atitudes dos professores.

Segundo a Resolução 02/2001, que institui as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial, “A formação dos professores para o ensino na diversidade, bem como para o desenvolvimento de trabalho de equipe são essenciais para a efetivação da inclusão” (BRASIL, 2001).

A LDBEN (BRASIL, 1996) em seu artigo 59, inciso III, enfatiza a importância da formação do professor que pretende atuar em escola inclusiva, seja por meio de capacitação ou especialização, para que este esteja apto a trabalhar com a diversidade de seus alunos.

Os alunos com deficiência auditiva, de acordo com as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial (BRASIL, 2001), devem estudar em sala de aula comum, com apoio de professor intérprete de libras e outros serviços de apoio pedagógico especializado (médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, etc.) ou em sala de recursos, como complementação curricular.

Almeida (2000, p. 4) assegura que:

Com a grande procura por novas abordagens educacionais e a reestruturação de programas educacionais para o surdo em todo mundo, torna-se necessária uma revisão histórica, ainda que rápida, para melhor situar a evolução das abordagens utilizadas com surdos até o momento.

Felizmente percebemos uma mobilização do sistema educacional brasileiro, pelas iniciativas de capacitação de professores e profissionais da área, procurando um melhor atendimento de pessoas com necessidades especiais na rede regular de ensino.

A escola inclusiva é uma realidade que está sendo construída de forma gradativa. Ainda são poucos os exemplos de sucesso que nos chegam ao conhecimento, contudo, é indispensável que abracemos essa idéia para torná-la realidade em todo o país.

 

3. Deficiência Aditiva

 

3.1. Deficiência auditiva: conceitos e definições

Abordamos neste capítulo, de forma simples e clara, alguns conceitos e definições que julgamos ser de grande importância para o profissional da educação melhor entender as nomenclaturas e características próprias de cada indivíduo com deficiência auditiva.

Fazemos uso da expressão “deficiência auditiva” para abranger todos os graus de surdez ou ausência total de audição.

Para conceituar a deficiência auditiva, precisamos não apenas conhecer os diferentes graus de perdas auditivas do indivíduo, mas também o contexto histórico, social ou educacional ao qual está inserido, considerando sua forma única e singular de ver e ouvir o mundo, assim como seu relacionamento com a sociedade a qual pertence.

Segundo o decreto 5.626, de 22 de dezembro de 2005, em seu artigo 2º:

[...] considera-se pessoa surda aquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Língua Brasileira de Sinais – Libras. Parágrafo único. Considera-se deficiência auditiva a perda bilateral, parcial ou total, de quarenta e um decibéis (dB) ou mais, aferida por audiograma nas freqüências de 500Hz, 1.000Hz, 2.000Hz e 3.000Hz.

Segundo Almeida (2000, p.19), a deficiência auditiva é dividida em três grupos: condutiva, mista e neurossensorial, classificando-a de acordo com o grau de desvio em:

• Normal (0-25 dB),
• Leve (26-40 dB),
• Moderado (41-70 dB),
• Severo (71-90 dB),
• Profundo (acima de 91 dB),
• Anacusia.

A perda auditiva implica tanto mudanças sociais e educacionais quanto psicológicas. Luchesi (2003, p. 18) explica que “[...] a surdez acarreta dificuldades aos indivíduos em qualquer sociedade de qualquer tempo. Contudo, não deve ser vista como um fenômeno a-histórico e, como tal, permanecer estática através dos tempos”.

Habitualmente atribuímos à pessoa com deficiência auditiva a incapacidade de compreender a fala humana, como resultado de um problema clínico, ou seja, uma doença que deve ser tratada, como se a comunicação só fosse possível pela linguagem oral, fazendo-o ir busca da correção de seu problema, isto é, de sua “normalização”.

A surdez em si não é o infortúnio ; o infortúnio sobrevém com o colapso da comunicação e da linguagem. Se a comunicação não pode ser obtida, se a criança não é exposta à língua e ao diálogo apropriados, verificamos todos os reveses [...] ao mesmo tempo linguísticos, intelectuais, emocionais e culturais. (SACKS, 1998, p.130)

A aquisição de uma linguagem própria, como é o caso da língua de sinais, faz-se necessário para que a pessoa com deficiência auditiva possa comunicar-se com o meio social em que está inserido e assim desenvolver suas habilidades educacionais e profissionais.

 

3.2. Características do aluno com deficiência auditiva

Os alunos com deficiência auditiva apresentam características diferentes dos demais alunos, por isso requerem recursos pedagógicos e metodológicos específicos para o seu desenvolvimento escolar.

Almeida (2000, p. 17) afirma que:

[...] a pessoa surda é constituída biologicamente como todos nós, e, desta forma, apresenta possibilidades de operar mentalmente sobre o mundo, observando, comparando e tirando conclusões, dentro de suas trocas sociais. Assim sua dificuldade não se deve a uma condição biológica, mas às circunstancias que lhe dificultam o desenvolvimento de recursos apropriados para agir sobre o mundo e de realizar trocas para a superação dessa dificuldade.

Para comunicar-se, o aluno com deficiência auditiva faz uso em alguns casos de gestos caseiros, desenvolvidos no convívio familiar, comunicação oral, leitura labial e LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais).

Há no Brasil três filosofias educacionais específicas para pessoas com deficiência auditiva ou surda. São elas:

• Oralismo - o surdo desenvolve a língua oral (no caso do Brasil, o português) que deve ser a única forma de comunicação.
• Comunicação Total – a comunicação desenvolve-se por meio de diversos recursos lingüísticos como códigos manuais, linguagem oral e língua de sinais.
• Bilingüismo – o surdo deve adquirir como língua materna a língua de sinais e, como segunda língua, a língua oficial de seu país.

Segundo Goldfeld (1997, p. 47), tanto para a pessoa com deficiência auditiva quanto para o ouvinte, o pleno desenvolvimento de suas capacidades lingüísticas, emocionais e sociais desempenha um papel determinante para seu desenvolvimento como pessoa.

A família apresenta-se como fator principal no que diz respeito à aprendizagem das questões sociais básicas da pessoa com deficiencia auditiva, pois é na primeira infância que a ausência da voz dos pais acaba sendo compensada com outros estímulos como: sorrisos, carícias, expressões, etc. Conforme cresce, convive e interage cada vez mais com pessoas fora do círculo familiar.

Ser surdo, nascer surdo, coloca a pessoa numa situação extraordinária; expõe o indivíduo a uma série de possibilidades linguisticas e, portanto a uma série de possibilidades intelectuais e culturais que nós, outros, como falantes nativos num mundo de falantes, não podemos sequer começar a imaginar. (SACKS, 1999, p.129)

É importante que a pessoa com deficiencia auditiva seja estimulada a ter uma boa auto-estima e a aceitar-se, pois esta, quando inserida em ambientes escolares que não sejam inclusivos, tendem a isolar-se ou apresentar comportamentos anti-sociais.

O papel da escola é quase tão importante quanto o da família, visto que proporciona à pessoa com deficiencia auditiva a convivência num grupo social mais amplo e diversificado. Almeida (2000, p.9) afirma que o desenvolvimento escolar da criança surda é igual ao dos ouvintes, não havendo relação entre o atraso da aquisição dos conhecimentos e a idade, e que a interação entre ambos durante as atividades escolares é de extrema importância para o desenvolvimento do respeito entre as duas línguas.

 

4. Inclusão X Escola: Pesquisa com professores que atuam em classes que atuam em classes regulares de ensino

 

4.1. Metodologia da Pesquisa

Para melhor entender o processo de construção de uma escola inclusiva, realizamos uma pesquisa de campo na Escola Municipal de Ensino Fundamental “Américo Roncalli” e no Centro de Educação e Recreação “Vera Lúcia Cavassani”, ambas situadas na cidade de Américo Brasilense (SP). Na pesquisa, analisamos a opinião de três professoras inseridas no processo de inclusão.

A pesquisa constou de cinco questões dissertativas, em que cada professora relatou suas experiências e dificuldades no processo de inclusão do aluno com deficiência auditiva em sala de aula regular.

 

4.2. Análise e discussão dos resultados

1) Sua opinião, com relação à escola inclusiva, é favorável ou contrária?

P1 - Sou a favor. Criança é sempre criança e todas as pessoas têm as suas limitações. As crianças com deficiência precisam apenas de alguns cuidados especiais, mas nada que não pode ser adaptado.
P2 - Sou favorável, mas não da forma que está sendo feita. Na realidade a inclusão só existe no papel. A teoria existente é ótima se realmente fosse aplicada e se houvesse empenho de nossos governantes, enfim todos. Se nada for feito, continuaremos com a integração, dizendo que está ocorrendo à inclusão. Hoje, os alunos são apenas integrados na classe e os professores é que têm que buscar alternativas, sem apoio pedagógico.
P3 - Sou favorável a uma escola inclusiva adaptada e reformulada para que atenda realmente aos alunos com necessidades especiais. Não da maneira que está sendo nas escolas, pois dessa maneira tem dado ênfase a exclusão.

Fica claro que as professoras, mesmo colocando-se favoráveis a inclusão, demonstram certo descontentamento com a aplicação das políticas que regem a inclusão.

2) Você tem em sua sala de aula um aluno com deficiência auditiva. Há algum apoio ou acompanhamento em relação ao desenvolvimento de suas atividades pedagógicas?

P1 - Não há acompanhamento dentro da sala de aula, eu procuro trabalhar com ela de acordo com suas necessidades e limitações, mas ela faz tratamento em Bauru, sua família é muito consciente em seu desenvolvimento.
P2 - Comecei o curso de libras e pretendo conseguir aprender a me comunicar utilizando a língua de sinais. Sinto-me impotente quando João tenta me contar alguma coisa e eu não entendo. Até o momento não houve nenhum acompanhamento em relação ao desenvolvimento por parte da coordenação pedagógica.
P3 - Tenho em minha sala um aluno com deficiência auditiva. Quando não tem falta de professor fica na minha sala de aula uma professora me auxiliando, é importante ressaltar que tenho 37 alunos.

As três professoras alegam falta de acompanhamento pedagógico especializado, porém se adéquam à situação, investindo em cursos de capacitação ou atividades diferenciadas para os alunos com deficiência auditiva.

3) Houve alguma reformulação no Currículo e na Metodologia para que você pudesse trabalhar melhor com esse aluno?

P1 – Não, o problema da educação é que no papel é tudo muito bonito, mas na realidade os professores têm que se adaptar muitas vezes sem estar preparado para enfrentar determinadas situações.
P2 – Tudo o que é proposto em sala de aula, João desempenha com êxito. Procuro falar olhando para ele, brinco com a classe fazendo o alfabeto em libras, todos gostam e aprendem com mais facilidade que eu. Afinal, estamos aprendendo juntos.
P3 – Não houve nenhuma reformulação no Currículo e na Metodologia, tenho procurado fazer o máximo do possível para trabalhar com esse aluno, através de atividades diferenciadas.

Percebe-se que, mesmo não havendo a reformulação pedagógica necessária para um melhor atendimento destes alunos, as professoras adaptam-se e buscam soluções dentro de suas possibilidades.

4) Você tem facilidade em se comunicar com esse aluno? E os colegas, interagem normalmente com ele?

P1 – Sim, se comunicar com ela não tem problema pois ela fala, com um pouco de atenção dá para entender o que está sendo comunicado. Os colegas têm muita afeição e cuidado com a colega.
P2 – A classe do JDII é muito receptiva. Todos cuidam do João se necessário e são tratados com igualdade. Sinto como se não tivesse nenhum aluno especial na classe, pois todos são especiais. Como disse anteriormente, estou aprendendo a me comunicar com ele em libras, porque o João é especial, ele entende tudo o que lhe é proposto.
P3 – Consigo compreender “coisas” corriqueiras do dia-a-dia como: ir ao banheiro, beber água, etc. No início do ano foi difícil, pois os alunos não estavam acostumados com ele. Esse aluno é muito agitado.

Observa-se que a comunicação e a interação entre professores e alunos dão-se de forma natural, entretanto a professora 3 mostra-se apática à situação de inclusão que está vivenciando. Tal atitude pode estar influenciando o relacionamento do aluno incluído com os demais colegas.

5) Como você analisa o papel da família nesse processo educacional?

P1 – A família tem um papel fundamental na educação do aluno, seja ele portador de deficiência ou não; costumo dizer que os educadores não fazem nada sozinhos e a educação é uma parceria entre família e professores e só dá certo quando ambos têm consciência disso.
P2 – A educação da criança com necessidades especiais deve ser uma tarefa compartilhada pelos pais e por profissionais. Tanto pais como educadores precisam de apoio para aprender a trabalhar juntos, como parceiros, visando ao melhor desempenho da criança.
P3 – Em minha opinião, a família deveria ser mais presente e buscar soluções/ajudas específicas e não deixar para a escola resolver, como se fosse um “depósito”.

As professoras 1 e 2 colocam a família como eixo central no desenvolvimento do aluno com deficiência auditiva e que sua educação depende de um trabalho conjunto, uma “parceria” entre família e escola, objetivando o desenvolvimento social e pedagógico deste aluno.

No entanto, a professora 3 mais uma vez mostra-se indiferente à inclusão de seu aluno, atribuindo única e exclusivamente aos pais a responsabilidade pelo atendimento especializado.

A LDBEN (BRASIL, 1996) garante ao aluno com necessidades especiais o direito de ser atendido em escola regular, com professores qualificados e especializados, que viabilizem oportunidades iguais para a construção de seu desenvolvimento social e pedagógico, considerando suas habilidades específicas.

 

Considerações Finais

As escolas de hoje estão vivenciando um momento histórico de construção de uma sociedade para todos, alicerçada em ideais de igualdade de direitos e respeito às diferenças. Inspiradas no paradigma da inclusão tornam-se abertas às diversidades sociais, acolhendo todos os alunos de forma igualitária, respeitando suas características únicas e assim contribuindo para a efetivação do direito de todos à educação.

Entretanto, a construção de uma escola inclusiva é um processo gradual e contínuo que requer medidas de interação entre o poder público e a sociedade da qual fazemos parte.

A proposta da educação inclusiva tem por objetivo tornar acessível a todas as pessoas com necessidades especiais as mesmas oportunidades de educação, interação social e qualificação profissional que é dada às outras pessoas.

No que se refere à inclusão de alunos com deficiência auditiva no ensino regular, esta deve proporcionar, além da adaptação curricular e pedagógica, o acompanhamento de professor capacitado ou especialista e um intérprete de língua de sinais (LIBRAS), para que o aluno surdo possa interagir e comunicar-se com os outros sem prejuízo de seu aprendizado e vivência social, objetivando um atendimento educacional de qualidade.

Mesmo com respaldo legal, observa-se que o sistema educacional não se estruturou para oferecer esse serviço às pessoas com necessidades especiais em geral, principalmente no sistema público de ensino. Mas, se ficarmos a espera dessa estruturação, a inclusão demorará ainda mais para ocorrer.

Infelizmente o que vemos em algumas escolas é um tipo de “falsa inclusão”, ou seja, é dado aos alunos com necessidades especiais, especificamente com deficiência auditiva, o acesso a classes regulares de ensino, porém sem a adaptação curricular e metodológica necessária ou qualquer outro tipo de acompanhamento especializado. Dessa forma, os alunos são inseridos em salas regulares, mas acabam sendo excluídos no que diz respeito ao seu processo de aprendizagem.

Estes alunos, por não conseguirem se adaptar, ficam isolados nos cantos da sala de aula, sem conseguir entender o que acontece ou sem se comunicar com os professores e mesmo com os próprios colegas. Nesse caso, ocorre uma mera integração física, e não um atendimento específico às necessidades educacionais e sociais do aluno que requer especificidade em sua comunicação, de acordo com o nível de sua perda auditiva.

O que pudemos observar em nossa pesquisa é que a inclusão do aluno com deficiência auditiva na educação infantil apresenta um maior envolvimento tanto por parte do professor quanto dos demais alunos, contribuindo para uma melhor interação social e pedagógica.

A inclusão não é de interesse apenas dos alunos com deficiência auditiva. Ao inserirmos este aluno na escola regular, estaremos exigindo da instituição novos posicionamentos e procedimentos de ensino baseados em concepções e práticas pedagógicas mais evoluídas, além de mudanças na atitude de professores, modos de avaliação e promoção dos alunos para séries e níveis de ensino mais avançados, pois a inclusão, de certa maneira, submete os professores ao aprimoramento e à capacitação profissional e questiona a qualidade da formação dos alunos.

No entanto, mesmo com todas as dificuldades colocadas nesse trabalho de pesquisa, nada deve impedir que a inclusão aconteça em nossas escolas. Mesmo porque a Constituição Federal, em seu artigo 5º assegura que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros [...] a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, [...]” (BRASIL, 1988). Isto faz da inclusão um direito inalienável de todos os cidadãos com necessidades especiais.

Cabe a nós, enquanto sociedade, fazer cumprir esta lei refletindo sobre as seguintes questões:

• A escola do meu bairro está fundamentada nos princípios políticos e sociais da inclusão?
• Os alunos com necessidades especiais que freqüentam esta escola são atendidos por professores capacitados ou especializados?
• Houve reestruturação física, pedagógica e curricular para melhor atender estes alunos?
• O que eu, enquanto cidadão de direitos e deveres, estou fazendo para colaborar com a inclusão de pessoas com necessidades especiais na sociedade a qual pertencemos?

Findamos nossas considerações com o seguinte pensamento:

“Quanto mais sistemas comuns da sociedade adotarem a inclusão, mais cedo se completará a construção de uma verdadeira sociedade para todos – a sociedade inclusiva”. (SASSAKI, 1997, p. 41).

 

Referências

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CAVALCANTE, Meire. A sociedade em busca de mais tolerância. Revista Nova Escola, São Paulo, n.196, p. 34-36, out. 2006.

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SACKS, Oliver; tradução: Laura T. Mota. Vendo vozes: Uma viagem ao mundo dos surdos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

SÃO PAULO, Secretaria da Educação. Leitura, escrita e surdez. São Paulo: FDE, 2005.

SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: Construindo uma sociedade para todos. . Rio de Janeiro: WVA, 1997.

UNESCO. Declaração de Salamanca: Sobre os Princípios, Políticas e Práticas na Área das Necessidades Educativas Especiais. Brasília: CORDE,1994.

SITES PESQUISADOS

SITE: http://www.mec.gov.br

SITE: http://www.ines.gov.br

SITE: http://www.novaescola.org.br

 

Anexo

Pesquisa sobre a onclusão de alunos com deficiência auditiva em classes regulares de ensino

Entrevistas com professores

1. Sua opinião, com relação à escola inclusiva, é favorável ou contrária? Explique.

2. Você tem em sua sala um aluno com Deficiência Auditivas? Há algum apoio ou acompanhamento em relação ao desenvolvimento de suas atividades pedagógicas?

3. Houve alguma reformulação no Currículo e na Metodologia para que você pudesse trabalhar melhor com esse aluno?

4. Você tem facilidade em se comunicar com esse aluno? E os colegas, interagem normalmente com ele?

5. Como você analisa o papel da família nesse processo educacional?

Dados Complementares

Nome:
Escola:
Série em que leciona:
Formação profissional:

( ) Magistério ( ) Formação em nível Superior ( ) Especialização ( ) Outros:

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