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O Método Experimental e as Dificuldades Metodológicas das Ciências Humanas

Autor:
Instituição: Ites
Tema: Metodologia

O MÉTODO EXPERIMENTAL E AS DIFICULDADES METODOLÓGICAS DAS CIÊNCIAS HUMANAS

TAQUARITINGA

MAI / 2004


O Método Científico

Introdução

Etimologicamente, método vem de meta, "ao longo de", e hodós, "via, caminho". É a ordem que se segue na investigação da verdade, no estudo feito por uma ciência, ou para alcançar um fim determinado. Quando programamos alguma coisa por exemplo, sempre temos inúmeras antecipações mentais e por isso somos obrigados a nos organizar antes de tal programa, para que tenhamos o sucesso esperado. Se fizéssemos esses mesmos programas freqüentemente é claro que já teríamos desenvolvido artifícios novos para que facilitasse nosso trabalho e não precisaríamos ficar preocupados por antecipação. Essas antecipações mentais são formas de racionalização do agir, de modo a melhor adequar os meios e os fins, impedindo que sejamos guiados apenas pelo acaso. Porém, nem sempre esses processos são muito claramente percebidos, pois na vida cotidiana não paramos para pensar a respeito deles. Vamos pegando o jeito e melhorando nossa habilidade, e só nos preocupamos em mudar quando os processos usados até então começam a se mostrar inadequados.

O método na Idade Moderna

O método na Filosofia nunca teve uma intensa prioridade pois até então ela se preocupara com o problema do ser e somente na Idade Moderna se volta para as questões do conhecer. É daí que surgem os temas privilegiados de epistemologia, ou seja, a discussão a respeito da crítica da ciência e do conhecimento. Enquanto o filósofo antigo não questiona a realidade do mundo, Descartes, seguindo rigorosamente o caminho, o método por ele estabelecido, começa duvidando de tudo, até reconhecer como indubitável o ser do pensamento. O filósofo passa a se preocupar com o sujeito cognoscente (o sujeito que conhece) mais do que com o objeto conhecido.

O método adquire um sentido de invenção e descoberta, e não mais uma possibilidade de demonstração organizada do que já é sabido, e é justamente nesse momento que a ciência rompe com a filosofia e sai em busca de seu próprio caminho.

O método experimental

É difícil a abordagem do tema do método experimental, pois precisamos dizer o que é esse método e, ao mesmo tempo, mostrar que não é bem assim... Ou seja, por questão de generalização ou didática, explicamos as etapas do método científico, mas no processo mesmo de execução temos de reconhecer que nunca ocorre tal como é descrito. Comecemos pelo exemplo do procedimento levado a efeito por Claude Bernard. Percebeu que coelhos trazidos do mercado têm a urina clara e ácida, característica dos animais carnívoros (observação). Como ele sabia que os coelhos têm a urina turva e alcalina, por serem herbívoros, supôs que aqueles coelhos não se alimentavam há muito tempo e se transformaram pela abstinência em verdadeiros carnívoros, vivendo do seu próprio sangue (hipótese). Fez variar o regime alimentar dos coelhos, dando a alguns alimentação herbívora e a outros, carnívora; repetiu a experiência com um cavalo (controle experimental). No final, enunciou que "em jejum todos os animais se alimentam de carne" (generalização). Vamos explicar agora cada uma das etapas do método experimental.

Observação

A observação comum é com freqüência, feita ao acaso, dirigida por propósitos aleatórios.A observação científica é rigorosa, precisa, metódica e, portanto, orientada para a explicação dos fatos. Há situações em que apenas nossos sentidos são suficientes para a observação científica, mas às vezes torna-se necessário o uso de instrumentos que emprestam maior rigor à observação, como também a tornam mais objetiva. É mais rigorosa a indicação da temperatura no termômetro do que a percebida pela nossa pele.

A observação científica não é a simples observação de fatos. Por exemplo, duas pessoas diferentes observando a mesma paisagem selecionam aspectos diferentes, pois o olhar não é uma câmara fotográfica que tudo registra, mas há uma intenção que dirige nosso olhar, o que significa que o olhar tende para alguma coisa. Nesse exemplo já temos de considerar a primeira dificuldade. Quando se trata do olhar de um cientista, este se acha impregnado por pressupostos que lhe permitem ver o que o leigo não percebe. Em outras palavras ao fazer a coleta de dados, o cientista seleciona os mais relevantes para o encaminhamento da solução do problema. O critério para a seleção dos fatos obviamente já orienta a observação.

A posição empirista baseia-se na crença de que a ciência parte do sensível, da observação dos fatos e pelo que consideramos anteriormente, os fatos não são o dado primeiro, os fatos são o resultado da nossa observação interpretativa. Além disso, não é sempre que os dados aí estão, bastando que os identifiquemos.

Hipótese

Hipótese é o que está sobre a tese, o que está posto por baixo, o que está suposto. A hipótese é a explicação provisória dos fenômenos observados. É a interpretação antecipada que deverá ser ou não confirmada. A hipótese propõe uma solução, portanto, o papel da hipótese é reorganizar os fatos de acordo com uma ordem e tentar explica-los provisoriamente. A formulação da hipótese não resulta de procedimentos mecânicos, mas é a expressão de uma lógica da invenção. Nesta etapa do método científico, o cientista pode ser comparado ao artista inspirado que descobre uma nova forma de expressão.

Há vários tipos de raciocínio usados pelo cientista ao formular a hipótese:

A hipótese, para ser científica deve ser passível de verificação. No caso da astronomia, basta realizar nova observação orientada pela hipótese. Mas em outras ciências a verificação é um pouco mais complexa e deve ser feita por meio de experimentação.

Experimentação

Experimentação é o estudo dos fenômenos em condições que foram determinadas pelo experimentador. Trata-se da observação provocada para fim de controle da hipótese. A importância da experimentação é que ela proporciona condições privilegiadas de observação: podem-se repetir os fenômenos; variar as condições de experiência; tornar mais lentos os fenômenos muito rápidos; simplificar os fenômenos. Nem sempre a experimentação é simples ou viável. É impossível observar a evolução darwiniana, que se processa durante muitas gerações; mesmo assim é uma hipótese valiosa, na medida em que unifica e torna inteligível um grande número de dados.

No entanto, quando a experimentação não confirma a hipótese, o trabalho do cientista deve ser recomeçado, na busca de outra hipótese.

Generalização

As análises dos fenômenos nos levam à formulação de leis, que são enunciados que descrevem regularidade ou normas. Se na fase da experimentação analisamos as variações dos fenômenos, na generalização estabelecemos relações constantes, o que nos permite enunciar, por exemplo: sempre que a temperatura de um gás aumentar, mantida a mesma pressão, o seu volume aumentará. Podemos dizer que foi descoberta a relação constante e necessária porque, se aumentarmos a temperatura do gás o seu volume aumentará, e não poderá deixar de aumentar. Não se trata de uma contingência, algo que pode ou não ocorrer, mas de um determinismo.

As ciências após o século XVII

A descoberta do método científico no século XVII aumentou a confiança do homem na possibilidade de a ciência conhecer os segredos da natureza. O método científico se aperfeiçoa, se universaliza e serve de modelo e inspiração a todas as outras ciências particulares que vão se destacando do corpo da "filosofia natural". É interessante notar que a ligação inicial entre filosofia e ciência persistiu por muito tempo na nomenclatura dos cientistas.

As ciências humanas

No século XIX o desenvolvimento das ciências da natureza atinge a discussão dos fatos humanos, com a exigência de que também as ciências humanas se tornassem autônomas, desligadas do pensamento filosófico. Veremos como a procura do estatuto epistemológico das ciências humanas não se faz sem dificuldade. Ora porque lhes é negado o caráter de cientificidade, isto é, não são consideradas ciências; ora porque só são considerados científicos os métodos calcados nas ciências da natureza; ora porque elas procuram o próprio método, distinto de tudo o que já tinha sido visto até então, tendo em vista a especificidade do seu objeto.

A primeira ciência humana a se desenvolver foi a economia no século XVII, depois veio a sociologia no século XIX.


As ciências humanas

Introdução

A partir do século XVII dá-se o desenvolvimento das ciências da natureza (física, química, biologia), com a aplicação do método experimental. Mesmo que as ciências humanas tenham começado a surgir no final do século XVII, até hoje enfrentam problemas na tentativa de estabelecer o método adequado à compreensão do comportamento humano. Além disso, as ciências humanas encontram-se também diante de um novo conceito de homem, ferido em seu narcisismo. O que se discute aí não é apenas o método das ciências humanas, mas o próprio conceito de ciência, que será questionado no nosso século.

Dificuldades metodológicas das ciências humanas

Enquanto todas as outras ciências têm como objeto algo que se encontra fora do sujeito congnoscente, as ciências humanas têm como objeto o próprio ser que conhece. Daí se possível imaginar as dificuldades da economia, da sociologia, da psicologia, da geografia humana, da história para estudar com objetividade aquilo que diz respeito ao próprio homem tão diretamente.

Vejamos quais são as dificuldades enfrentadas pelas ciências humanas:

A complexidade inerente aos fenômenos humanos, sejam psíquicos, sociais ou econômicos, resiste às tentativas de simplificação. Em física por exemplo, ao estudar as condições de pressão, volume e temperatura, é possível simplificar o fenômeno tornando constante um desses fatores. O comportamento humano, entretanto, resulta de múltiplas influências como hereditariedade, meio, impulsos, desejos, memória, bem como da ação da consciência e da vontade, o que o torna um fenômeno extremamente complexo.

Outra dificuldade da metodologia das ciências humanas encontra-se na experimentação. Isso não significa que ela seja impossível, mas é difícil identificar e controlar os diversos aspectos que influenciam os atos humanos. Além disso, a natureza artificial dos experimentos controlados em laboratório podem falsear os resultados. A motivação dos sujeitos também é variável, e as instruções do experimentador podem ser interpretadas de maneiras diferentes, já que para o homem, enquanto ser consciente e afetivo, a situação sempre será vivida de maneiras diferentes.

Também é preciso saber o que será observado: se o comportamento externo do indivíduo ou grupo, ou apenas o relato do que sentiram. Essa técnica, chamada introspecção, pode ser falseada pelo indivíduo voluntariamente, quando mente, ou involuntariamente, por motivos que precisariam ser detectados. Por isso, mesmo que a introspecção seja usada, há que a considere uma abordagem inadequada.

Outra questão refere-se à matematização. Se a passagem da física aristotélica para a física de Galileu se deu pela transformação das qualidades em quantidades, pode-se concluir que a ciência será tão rigorosa quanto mais for matematizável. Ora, esse ideal é problemático com relação às ciências humanas, cujos fenômenos são essencialmente qualitativos. Por isso, quando é possível aplicar a matemática, são utilizadas técnicas estatísticas e os resultados são sempre aproximativos e sujeitos a interpretação.

Outra dificuldade é a subjetividade. As ciências da natureza aspiram à objetividade, que consiste na descentração do eu no processo de conhecer, na capacidade de lançar hipóteses verificáveis por todos, mediante instrumentos de controle; e na descentração das emoções e da própria subjetividade do cientista. Mas se o sujeito que conhece é da mesma natureza do objeto conhecido, parece ser difícil a superação da subjetividade.

Por fim, se a ciência supões o determinismo, ou seja, o pressuposto de que na natureza tudo que existe tem uma causa, como fica a questão da liberdade humana? Por haver regularidades na natureza, é possível estabelecer leis e por meio delas prever a incidência de um determinado fenômeno.

Tais dificuldades foram levantadas não com a intenção de mostrar que as ciências humanas são inviáveis, pois elas aí estão, procurando o seu espaço. Quisemos apenas acentuar as diferenças de natureza e os problemas que têm encontrado até o momento. O método utilizado depende, de certa forma, dos pressupostos filosóficos que embasam a visão de mundo do cientista.


Referência:
ARANHA, Maria L. A. e MARTINS, Maria H. P., Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo, Editora Moderna, 1993.

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