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Ouro de Tolo

Autor:
Instituição:
Tema: Abordagem Existencialista

Ouro de Tolo – Raul Seixas


Uma Apreciação crítica a partir das teorias humanistas existenciais fenomenológicas.

Em coerência com a postura fenomenológica, não estando o grupo diante do autor da música ora objeto de estudo, portanto, não podendo ser checado presencialmente a correspondência ontológica com a realidade, a apreciação crítica que segue constitui-se, em grande parte, numa projeção fantasiada pelo grupo, a partir de uma análise, em certa medida, objetiva da letra da referida música, interpretada pelo cantor Raul Seixas.

Antes de entrar na análise do texto propriamente dita, convém explicitar, brevemente, o que entendemos por pensamento existencialista e qual a concepção de homem que fundamenta esta reflexão. Ao nosso ver, o pensamento existencialista é um voltar-se para a concretude do homem para a sua singularidade e particularidade, na linguagem de Heidegger: para o "ser-no-mundo". Nesta perspectiva, o ser humano é aquele que se encontra numa situação, num círculo de afetos e interesses no qual se acha sempre imerso, porém, nunca preso a ele, sempre está aberto para tornar-se algo novo, sempre está para além da situação na qual se encontra. É um eterno rascunho, projeto ou esboço, um ser inacabado. Refletir sobre este "ser-no-mundo", suas possibilidades e limitações, investigar sobre os anseios e sobre as misérias e humanas, é uma atitude que permite uma autêntica tomada de postura frente à própria existência.

Na letra da música "Ouro de tolo" (Raul Seixas), encontramos elementos bastantes que nos permitem caracterizá-la como uma reflexão existencial (pra não dizer existencialista). Nesta música o autor constrói sua reflexão com base em fatos do dia-a-dia como: ter um emprego, ter um carro, ter um dia de descanso, etc, e, a partir deste "mundo de fatos", nos leva a refletir sobre o sentido disso tudo e, principalmente, como o homem está inserido nesta realidade e o quanto ele pode se realizar na condição de dasein ou seja, ser-no-mundo, partindo das suas possibilidades de escolha.

Todos nós concordamos que existir implica em escolher. Neste sentido, segundo a Gestalt, uma escolha é saudável quando feita com base em uma necessidade organísmica. Por outro lado, quando o referencial de escolha não é o próprio organismo, esta será neurótica. As escolhas neuróticas, portanto, são aquelas em que o dasein é um sujeito ao mundo, enquanto as escolhas saudáveis são aquelas em que o dasein é um sujeito no mundo.

Como sujeito no mundo, o protagonista do texto "Ouro de tolo" faz uma reflexão sobre sua própria existência na qual percebe uma dissonância entre o que lhe é exigido "de fora" (o dever de estar contente, feliz e alegre) e o genuíno sentimento interior (abestalhado, desapontado...). Ao perceber que não encontra contentamento e felicidade em suas realizações, o protagonista volta seu olhar sobre o fato de às vezes os outros se sentirem felizes quando estão em situações, ao menos em parte, semelhantes à dele (o doutor, o policial, o padre) e acha tudo uma grande e perigosa piada, pois, o fato de saber-se humano, ridículo e limitado, é ofuscado (pra não dizer encoberto) pelo saber-se doutor, padre ou policial.

Por outro lado, ainda na perspectiva existencialista, um elemento não menos importante nesta reflexão é a questão da finitude. O fato de se reconhecer limitado vem acompanhado, na letra da música, de uma presentificação (no sentido heideggeriano) da própria morte enquanto categoria antropológica fundamental na existência: "... não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar...". A partir desta frase, o autor da música nos oferece elementos que nos permitem dizer que o protagonista do texto é uma pessoa que tem consciência da sua finitude, da própria morte, sobre a qual ele não tem a opção de não escolhê-la. Ele toma este fato, suprassumindo-o como verdade inegável e, a partir desta percepção, escolhe viver e "com-viver", com esta realidade que, por si só, não exclui outras possibilidades de escolha uma vez que, olhando pra tudo isso, ele diz: "Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar, e não posso ficar aí parado". Assim, assumindo sua vida numa existência autêntica, como diria Kierkegaard, o protagonista não é mais vítima de seu mundo, mas, principalmente, seu construtor e criador.

A análise da letra permite-nos perceber, com base na abordagem humanista existencial fenomenológica, que o personagem está consideravelmente desalienado, demonstrando um elevado nível de consciência e protagonização, o que parece tender à saúde. A letra desta música também pode sugerir um passo onde se interrompa o processo de regulação pelo campo fenomênico externo caracterizado pela hétero-estima, voltando-se para sua auto-regulação. Desse modo, parece evidenciar uma postura segundo a qual se escolhe manter o contato, como dasein, que não se fecha nas "cercas embandeiradas que separam quintais".

A análise fragmentada da letra, porém, nos permite verificar a presença de alguns mecanismos neuróticos, de modo mais evidente a introjeção. A seqüência a partir da primeira frase do início do texto até a frase "Por ter finalmente vencido na vida" parece evidenciar conteúdos que muitas vezes são introjetados e que, um dia, talvez até já foram figura (sentido gestáltico da palavra) para o autor. Essa introjeção parece ser evidente a partir do mote "Eu devia" repetido seqüencialmente, para elencar as situações que deveria vivenciar, na hipótese de seguir aquilo que o campo fenomênico externo de certa forma impõe.

A seqüência a partir da frase "Mas eu acho isso uma grande piada" até a frase "E agora eu me pergunto: E daí?" nos parece um súbito momento de desalienação e reintegração do self, quando o organismo recobra sua localização no momento presente, revelando-se capaz de, em certa medida, superar a introjeção e regular-se pelo seu próprio referencial, levando aquela figura inicial para o fundo, fechando a gestalt.

Tomadas isoladamente, fragmentadas e separadas do seu contexto, as frases "Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar..." e "mas que sujeito chato sou eu" parecem revelar, respectivamente, uma projeção para o futuro (falta de presentificação), e uma forma de retroflexão onde ele volta para si o que, em tese, deveria ser para o outro, contudo, como já dissemos no início desta reflexão, optamos por considerar aquela fala não como indício de neurose mas como sinal de desalienação na medida em que aponta para uma escolha consciente e responsável diante do mundo da vida.

Por fim, resta-nos dizer que o próprio título do texto já sugere um desilusionar-se, desenganar-se uma vez que a expressão "ouro de tolo" nos remete a conceitos tais como: ilusão, engano, falso valor... Também vale a pena destacar que, na frase "que sujeito chato sou eu" além do que já foi dito a respeito de um possível mecanismo de retroflexão, podemos perceber um aspecto de sobriedade por parte do autor quando este percebe que é muito chato não achar graça em nada e isto, na prática é insustentável. Contudo ele se joga novamente na existência porém sob uma nova perspectiva, tornando-se senhor de si mesmo e sujeito e protagonista da própria história, apesar das limitações, contingências e circunstâncias. Portanto, se por um lado a reflexão existencial não muda, num primeiro momento, o mundo em si, em sua realidade objetiva e inegável, ela porém permite que seja mudada a forma de ver o mundo e de lidar com ele. Deste ponto de vista, tomar uma postura faz-se necessário e desfazer-se dos muitos ouros-de-tolo é quase que uma conseqüência natural deste processo.

Conclusão: para além da simples identificação de um ou outro mecanismo neurótico presentes no decorrer da música analisada, procuramos delinear nossa leitura numa perspectiva menos técnica e, talvez, mais teórica. Este viés, além de permitir o link com várias vertentes do pensamento existencialista (Heidegger, Kierkegaard, Sartre, e outros) também é favorável a uma leitura dotada de sentido e significado para nós, não somente enquanto alunos do curso de Psicologia, mas principalmente, enquanto ser-no-mundo. Se a leitura do presente trabalho ao menos estimular alguma reflexão sobre os temas aqui abordados, acreditamos ter alcançado nosso objetivo mais geral.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

PERLS, Fritz. A abordagem gestáltica e testemunha ocular da terapia. Rio de Janeiro, Zahar Editores. Segunda edição 1981 p 17 – 56.

SEIXAS, Raul. Ouro de Tolo in: EU, RAUL SEIXAS. 1991

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