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Psicodrama com Crianças

Autor:
Instituição: UNOCHAPECO
Tema: Técnicas e Teorias Psicoterápicas

PSICODRAMA COM CRIANÇAS

Chapecó – SC, Nov.2004


INTRODUÇÃO:

Este trabalho tem por objetivo abordar a pratica do psicodrama com crianças. Em um primeiro momento vamos dar uma breve introdução sobre o psicodrama em geral para podemos obter uma compreensão mais ampla da temática.

Começamos assim então com um breve conceito do que é o psicodrama.

È aplicável a todos os níveis de idade, mediante o seu uso, é possível chegar perto da solução de problemas da infância, assim como dos mais profundos conflitos psíquicos. O psicodrama é a sociedade humana em miniatura, o ambiente mais simples possível para um estudo metódico da sua estrutura psicológica. Através de técnicas como a do ego-auxiliar da improvisação espontânea, da auto-apresentação ‘do solóquio’, da interpretação de resistência, revelam-se novas dimensões da mente e o que é mais importante elas podem ser exploradas como condições experimentais. (MORENO, 1993, p.231)

Através deste breve conceito apresentado acima podemos obter uma noção geral do significado do psicodrama.

Compreendemos que, a base de todo trabalho em psicodrama é o teatro espontâneo. E em relação à criança que é o foco do nosso estudo, ele possibilita à mesma assumir papéis por ela escolhidos e "estar no mundo" por intermédio deles.

Entendemos que o psicodrama com crianças é uma forma de terapia que se dá basicamente através do lúdico, com brinquedos, jogos desenhos, onde a própria criança tem a liberdade de criar.


PSICODRAMA:

O principal fundador do psicodrama foi o médico Jacob Levi Moreno, nasceu em Bucareste-Romênia, em 18 de maio de 1889. Morreu em Beacon - Estados Unidos, pouco antes de completar os seus 85 anos. Era descendente de família judia, oriunda da Península Ibérica. Seu pai era judeu de origem espanhola e sua mãe eslava. A família emigrou sucessivamente para a Turquia, Mar Negro e para as margens do Rio Danúbio, local onde Moreno viveu até os cinco anos de idade. Em 1895, a sua família radicou-se na Áustria, em Viena, cidade onde Moreno cresceu, estudou Filosofia e Medicina e desenvolveu as suas primeiras experiências com o Teatro Espontâneo, até o ano de 1924.

Moreno conta que aos quatro anos e meio organizou uma brincadeira com algumas crianças no porão da sua casa, empilhando cadeiras sobre uma mesa, até o teto, para brincar de ser Deus: seus amigos faziam o papel de anjos e incentivavam para que ele voasse até o chão, ação dramática assumida pelo pequeno protagonista embalado pelos sonhos de ser Deus. O resultado imediato foi uma fratura no braço esquerdo. A longo prazo, essa experiência é tomada como uma Cena precursora da criação do Psicodrama. Moreno ao mesmo tempo em que dirige a cena, transforma-se em autor e ator do drama. A experiência marca e a idéia germina na adolescência.

Durante a adolescência (1908-1911), Moreno apaixona-se pelo teatro, pela filosofia e por trabalhos comunitários de recreação.

O embrião da idéia de Moreno era a espontaneidade. Antes de se formar em medicina em 1917 já tinha desenvolvido estudos sobre a espontaneidade e em 1920 publicou anonimamente "O testamento do pai" onde segundo ele mesmo existiam "possibilidades ilimitadas para a investigação da espontaneidade no plano experimental".

Em 1921 fundou o Teatro Vienense da Espontaneidade, experiência que constituiu a base de suas idéias da psicoterapia de grupo e do psicodrama. A primeira sessão psicodramatica se deu no mesmo ano, e em 1923 se caracterizou o inicio do teatro terapêutico, o qual se transformou em psicodrama terapêutico.

Foi no estudo dos processos grupais que Moreno encontrou uma abordagem alternativa à da Psicanálise para compreender as relações interpessoais.

Para Moreno o fundamento de todas as relações interpessoais sadias é o "tele" que deriva do grego e quer dizer: distante, agindo à distância. O termo foi definido como uma ligação elementar que pode existir tanto entre indivíduos como, também, entre indivíduos e objetos e que no homem, progressivamente, desde o nascimento, desenvolve um sentido das relações interpessoais (sociais).

Ao apresentar sua "Teoria da Espontaneidade do Desenvolvimento Infantil", Moreno parte da relação simbiótica entre o bebê e sua mãe, para conceituar a Matriz de Identidade:

Segundo Moreno (1993) "A matriz de identidade é considerada a placenta social da criança, o lócus em que ela mergulha suas raízes. Proporciona ao bebê humano segurança, orientação e guia".

Segundo Moreno (1993), a Matriz de Identidade evolui por fase ou etapas:

1. Etapa de identidade total indiferenciada ® A pessoa não distingue realidade de fantasia, o si mesmo dos outros. Depois que a criança se separa da mãe pelo nascimento, inicia-se uma nova fase do relacionamento: o período de "identidade". Apesar de separados fisicamente, mãe e filho formam ainda uma só pessoa na experiência da criança. A criança "experimenta" uma identidade consigo mesma e todas as pessoas e objetos do seu meio ambiente através da mãe como intermediária, seja através do peito ou da mamadeira Ainda não há eu, não há uma pessoa separada da criança. Há apenas o acontecimento e a vivência de identidade.

2. Matriz da identidade total diferenciada: a criança vai ganhando sua autonomia, diminuindo sua dependência dos egos auxiliares. A criança começa a diferenciar entre fantasia e realidade. A fase do "reconhecimento do eu" corresponde ao método psicodramatico do espelho. Todos conhecemos a persistente admiração de criança quando se vêem num espelho. De início a criança não tem consciência de que vê no espelho uma imagem de si mesma. Quando, finalmente, percebe que a imagem no espelho é dela própria, é porque surgiu em seu crescimento um ponto crítico, um progresso importante em sua compreensão de si mesma.

3. Matriz da brecha entre fantasia e realidade: Ocorre a separação entre o mundo real e o mundo fantasia. "Enquanto a brecha não existia, todos os componentes reais e fantásticos estavam fundidos num só(...)"(MORENO, 1993, p.124). Simbolicamente, a criança se torna capaz de sair de si mesma e se colocar no papel de sua mãe, e que a mãe se sinta no papel de seu filho.

Uma análise geral das três etapas do processo evolutivo dos grupos de crianças, descritas na seção anterior, parece permitir um paralelo com as três etapas do desenvolvimento da matriz de identidade proposta por Moreno, que se denominam como "Duplo", "Espelho" e "Troca de Papéis" estas três fases ou etapas do desenvolvimento da espontaneidade infantil.

A matriz de identidade proposta por moreno, pode nos proporcionar uma visão geral da vida do ser humano, entendemos que no psicodrama diferente de outras teorias como a psicanálise por exemplo que propõe um desenvolvimento por fases e idades no psicodrama não há o que se esperar de uma criança pela sua idade, mas sim podemos observar em que estágio da matriz de identidade a mesma se encontra.

Estudando um pouco da teoria do Moreno obtivemos a compreensão de que na abordagem psicodramatica, a pessoa oscila de uma fase da matriz de identidade para outra (as pessoas transitam em sua experiência de vida, constantemente, de um nível de realidade a outro). A terapia visa que a pessoa alcance a brecha, que é a fase na qual distingue o que é real do que é fantasia. Em uma conversa informal com uma profissional que trabalha com esta abordagem questionamos uma situação "prática" do que seria uma pessoa adulta estar na Matriz da Brecha ou não estar, ela nos citou o exemplo de um psicótico, este não distingue o que é real do que é imaginário, não consegue realizar a troca de papéis, se trocar de papel com o terapeuta ele pode não voltar mais, este acreditaria ser o terapeuta e a partir deste momento levaria a vida do terapeuta.


O PSICODRAMA COM CRIANÇAS:

O psicodrama com crianças se da basicamente através de jogos, historias e brincadeira onde a própria criança tenha liberdade de criar. É através destes métodos que se pode alcançar a sensibilidade da criança, é o que lhe da prazer e desprazer e vontade ou medo de aprender. O brinquedo e o faz de conta fazem parte do exercício da simbolização para o próprio conhecimento da realidade.

Dessa forma a criança traz á tona o sentido que o mundo e as coisas a sua volta tem para si mesma. Toda a brincadeira pode apresentar manifestações inconscientes do modo pelo qual a criança viveu ou recorda certas experiências ou que a perturbam.

Acredita-se que a criança ao brincar de faz de conta esta atuando no mundo fictício, que se compõe de elementos da realidade subjetiva (enquanto a criança expressa suas vivencias, sentimentos) e da realidade objetiva (enquanto ela usa elementos dessa realidade e os transmutam). Podemos então, falar de outra dimensão do continuo realidade/irrealidade: a ficção-que a projeção da realidade subjetiva sobre a objetiva, é a recomposição dessa ultima através de elementos originados da primeira.


A PSICOTERAPIA:

Segundo a teoria psicodramatica, o conceito de saúde mental baseia-se na capacidade de jogar e inverter papéis. Temos como objetivo da psicoterapia propiciar condições para o surgimento de novos papéis e fortalecer os papéis pouco desenvolvidos ou mal estruturados. (GONÇALVES, 1988, p.65)

Considera-se a saúde mental como sendo a principal meta de qualquer psicoterapia, apesar desta depender de outros fatores também, bem como saneamento básico, por exemplo. A concepção citada acima é a visão psicodramatica de saúde mental.

Partimos do objetivo da psicoterapia psicodramatica, agora vamos abordar as questões básicas da terapia bem como contrato, freqüência, duração das sessões, técnicas mais utilizadas entre outros.

Em relação ao contrato, este é realizado com os pais e com a criança. Em relação ao contrato com a criança, Gonçalves da até uma sugestão do que se pode falar com a mesma.

Dizemos a criança mais ou menos o seguinte: "Você virá aqui toda semana para trabalharmos juntos, vamos conversar sobre você e sobre as coisas que estão difíceis para você. A gente vai fazer isto usando este material e também fazendo representações ‘como se fosse um teatro de histórias de ‘verdade’ ou ‘inventadas’. Também combinamos com a criança a respeito de termos sessões com os pais. Para estes explicamos o nosso método de trabalho, falamos sobre a possível duração da terapia e combinamos também qual é a melhor forma de eles ajudarem a criança (sessões periódicas encaminhamento para orientações dos pais) (GONÇALVES, 1988, p.66)

A mesma autora ainda nos fala que são realizadas sessões semanais de 50 a 60 minutos de duração com a criança e sessões periódicas com os pais, onde também podem ser utilizadas técnicas psicodramaticas.

No psicodrama encontramos uma situação bem interessante, que é a possibilidade de haver uma união funcional, ou seja, de um co-terapeuta.

No psicodrama também é comum a utilização de materiais lúdicos, os quais podem ser utilizados com diversos pacientes. Os principais objetos utilizados são: Bonecos, bichos de pano, família de bonecos, carros, isopor, objetos de madeira e de plástico e algum material para confecção de objetos bem como papel, lápis de cor, linha, massinha, clipes, cola, durex, tesoura, palitos de madeira, retalhos de pano, etc.

Em relação às técnicas utilizadas no psicodrama as mais comumente utilizadas são:

1)Entrevista: o terapeuta dirige-se a criança ou ao personagem por ela desempenhado, colocando-lhe questões diretas a respeito dela mesma.

2)Dialogo: fala-e-replica entre os personagens, representados pelo terapeuta e pela criança.

3)Intervenção coloquial: qualquer intervenção dialogal, informação que se proporciona, perguntas, confirmações [...] assinalamentos, que consistem "em chamar atenção a respeito de algum signo (sinal) que o paciente emite"[...]

4)Duplo: através do corpo e de palavras, o terapeuta expressa os sentimentos que o protagonista não esta podendo trazer a tona. O duplo funciona como uma forma de "consciência auxiliar"

5) Inversão de papéis: utilizada para informar o terapeuta sobre o "papel que deve assumir (troca de papéis informativa) ou para que a protagonista sinta os efeitos de sua conduta sobre o outro."[...]

6) Interpolação ou resistência: é a modificação por parte do terapeuta, dos traços característicos do contra papel que a criança lhe atribui ou a imposição pelo terapeuta, de um personagem inesperado, colocando o protagonista diante da situação nova.

7) Solóquio: o cliente utiliza ‘para reproduzir sentimentos e pensamentos ocultos que teve ’realmente’ em uma situação’nova.

8) Utilização de fantoches para dramatização, escolhendo também aqueles que prefere que o terapeuta utilize.(GONÇALVES, 1988, p.67)

Também queremos salientar as fases da sessão psicodramatica, que conforme a mesma autora em relação à divisão clássica moreniana são necessárias alguma modificações.


ARTICULAÇÃO DO TEMA COM SITUAÇÃO PRÁTICA:

Para realizarmos esta atividade entrevistamos um profissional que trabalha com a abordagem psicodramatica.

Q) Quais os principais fundamentos do psicodrama?

R - O psicodrama tem como fundamento epistemológico a fenomenologia-existencial, que busca entender a realidade do indivíduo e sua existência, historializando-a; trabalhando de forma dinâmica as relações.

Q) Em quais pontos a psicoterapia psicodramatica com crianças se difere da do adulto?

R – Na psicoterapia com crianças o psicodrama trabalha basicamente com o lúdico: brinquedo, jogos desenhos, semelhante às outras teorias.

Q – Como se da a primeira entrevista? Ocorre de forma igual às outras terapias?

R - A primeira entrevista ocorre de forma semelhante a outras terapias (abordagens). Precisamos ter os pais, ou um deles, ou mesmo o responsável pela criança presente neste primeiro momento para identificarmos juntos os motivos pelos quais foi procurado o profissional da psicologia. A criança precisa ter claro do que se trata, suas necessidades e anseios são prioritários.

Q) Que matérias devemos ter disponíveis no consultório para este tipo de terapia?

R – Jogos, brinquedos, argila, colagem, materiais como lápis de cera, tinta, bonecos de pano (família), almofadas (faz parte do espaço psicodramatico).

Q – Como os pais podem auxiliar? Devem participar da terapia? E ainda, devem falar dos "problemas" na frente da criança?

R – Participam da primeira entrevista e quando o psicólogo achar necessário serão chamados novamente. Evitamos falar a palavra "problema" na frente da criança, ou de qualquer cliente adulto, mas esclarecemos juntos os motivos pelos quais a criança está ali e a sua percepção diante disso tudo.

Q – Quais os recursos desse tipo de terapia?

R – Matérias já foram citados em outra pergunta e técnicas do psicodrama quando necessário. Alguns instrumentos são utilizados no contexto psicodramatico como: cenário, protagonista e ego-auxiliar.

Q – Quais são as fases do desenvolvimento dentro da terapia psicodramatica?

R – Aquecimento inespecífico (quebra-gelo); aquecimento específico (que encaminha para a dramatização); dramatização (vivência aqui-agora); compartilhar (o psicoterapeuta compartilha algo que tenha a ver consigo "aproximando-se" do seu cliente); comentários (a sua visão mais de fechamento da sessão).


CONCLUSÃO:

Com o decorrer do curso fomos percebendo as diversas possibilidades profissionais, e com a realização deste trabalho descobrimos mais uma, ficamos fascinados pelo tema que iria ser abordado.

Em relação à temática abordada a quantidade de material disponível é bem restrita, faltam publicações a respeito do psicodrama com crianças.

Com a realização do trabalho descobrimos que o psicodrama infantil trabalha de forma muito especial, e que tem muitos recursos a sua disposição bem como o uso de materiais (brinquedos, argila, colagem, lápis, tinta, almofadas, e técnicas do psicodrama (cenário, protagonista, ego-auxiliar, etc.)).

O psicodrama com crianças difere daquele com o adulto, por trabalhar basicamente com o lúdico, ou seja, com o faz de conta com auxilio de jogos e brincadeiras.

Compreendemos que o psicodrama tem como fundamento epistemológico a fenomenologia-existêncial, que busca entender a realidade do indivíduo e sua existência, trabalhando as relações de uma forma dinâmica.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

MORENO, Jacob Levi. Psicodrama. São Paulo: Cultrix, 1993.

GONÇALVES, Camila Salles. Psicodrama com crianças: Uma psicoterapia possível. São Paulo: Agora, 1988.

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