Psicologia de Gestalt, de Wolfgang Kohler

Autor:
Instituição: Universidade do Amazonas
Tema: Gestalt

A Psicologia da Gestalt


HISTÓRICO

O movimento formal conhecido como psicologia da Gestalt surgiu de uma pesquisa feita em 1910 por Max Wertheimer, na Alemanha. Durante as férias, quando viajava num trem, Wertheimer teve a idéia de fazer a experiência sobre a visão do movimento quando nenhum movimento real tinha ocorrido. Abandonando prontamente seus alunos de férias, ele desceu do trem em Frankfurt, comprou um estroboscópio (instrumento que projeta rapidamente uma série de quadros diferentes no olho, produzindo movimento aparente) de brinquedo, e verificou a idéia que lhe ocorrera, de modo preliminar, num quarto de hotel. Mais tarde, fez pesquisas mais formais na Universidade de Frankfurt, que lhe forneceu um taquitoscópio. Dois outros jovens psicólogos, Kurt Koffka e Wolfgang Köhler, que tinham sido alunos da Universidade de Berlim, também estavam em Frankfurt. Logo depois, eles se engajaram numa cruzada comum.

O problema de pesquisa de Wertheimer, em que Koffka e Köhler serviram de sujeitos, envolvia a percepção do movimento aparente, isto é, a percepção do movimento quando nenhum movimento físico real tinha acontecido. Wertheimer se referia ao fenômeno como a "impressão de movimento". Usando um taquitoscópio, Wertheimer projetou luz por duas ranhuras, uma vertical e a outra vinte ou trinta graus da vertical. Se a luz era mostrada primeiro por uma ranhura e depois pela outra, com um intervalo relativamente longo (mais de 200 milissegundos), os sujeitos viam o que pareciam ser duas luzes sucessivas, primeiro uma luz numa ranhura e então uma luz na outra. Quando o intervalo entre as luzes era menor, os sujeitos viam o que pareciam ser duas luzes contínuas. Com um intervalo de tempo ótimo (cerca de 60 milissegundos) entre as luzes, os sujeitos viam uma única linha de luz que parecia mover-se de uma ranhura para outra e na direção inversa.

Mas, os cientistas conheciam há anos esse fenômeno, e ele podia até ser considerado uma questão de senso comum. Porém, de acordo com a posição então prevalecente na psicologia, a de Wundt, toda experiência consciente podia ser analisada em seus elementos sensoriais. E, no entanto, poderia essa percepção do movimento aparente ser explicada em termos de um somatório de elementos sensoriais individuais, que eram apenas duas ranhuras estacionárias de luz? Poderia um estímulo estacionário ser acrescentado a outro para produzir uma sensação de movimento? Não; e esse era precisamente o ponto central da demonstração brilhantemente simples de Wertheimer: o fenômeno desafiava a explicação pelo sistema wundtiano.

Wertheimer acreditava que o fenômeno que verificara em seu laboratório era, à sua maneira, tão elementar quanto uma sensação, embora diferisse evidentemente de uma sensação ou mesmo de uma sucessão de sensações. Ele deu ao fenômeno um nome adequado à sua natureza peculiar: fenômeno phi. A explicação para esse fenômeno é a seguinte: o movimento aparente não precisava de explicação; ele existia tal como era percebido, não podendo ser reduzido a nada mais simples.

O todo (o movimento aparente da linha) diferia da soma de suas partes (as duas linhas estacionárias). A psicologia associacionista-atomista tradicional, dominante há tantos anos, fora desafiada, e a esse desafio ela não podia responder. Wertheimer publicou os resultados de sua pesquisa em 1912 em "Estudos Experimentais da Percepção do Movimento", artigo considerado o marco do começo da escola de pensamento da psicologia da Gestalt.

Segundo Christian von Ehrenfels, um dos iniciadores da psicologia da Gestalt, o "todo é uma realidade diferente da soma de suas partes".

Diferente da psicanálise, onde o ser humano era visto como algo "analisável". Dividido em "partes" que viviam em conflito (consciente x inconsciente, id x superego, Eros x Thanatos) o ser humano dependia da análise destas "partes" para ser compreendido. Diferente também do behaviorismo, baseado no comportamento e apoiado na possibilidade de novas atitudes a serem aprendidas. Onde a existência de um mundo interior era completamente ignorado e toda a psique humana era explicável através de um jogo de forças entre estímulos e respostas; a psicologia da Gestalt irá contra estas abordagens que apresentavam tentativa da compreensão da psique humana, onde o homem será estudado na sua totalidade.

A palavra gestalt causou consideráveis dificuldades porque não indica com clareza, ao contrário de funcionalismo ou comportamentalismo, o que o movimento representa. Além disso, não tem um equivalente exato em outros idiomas. Vários equivalentes de uso comum são forma, totalidade morfológica e configuração, e o próprio termo gestalt foi incorporado por outras línguas. Em seu livro Psicologia da Gestalt, de 1929, Köhler observou que a palavra é usada em alemão de duas maneiras. Um emprego denota a forma como propriedade dos objetos; nessa acepção, gestalt refere-se à propriedades gerais que podem ser expressas por termos como angular ou simétrico, descrevendo características como a triangularidade nas figuras geométricas ou as seqüências de tempo numa melodia. O segundo uso denota um todo ou entidade concreta que tem como um de seus atributos uma forma ou configuração específica. Nesse sentido, a palavra pode referir-se, por exemplo, aos triângulos, e não à noção de triangularidade. Assim, a palavra gestalt pode servir tanto a objetos como às formas características dos objetos.

A psicologia da Gestalt foi um campo estritamente experimental, que ocupou-se em trazer questionamentos que foram contrários à visão mecanicista e à visão atomística. É um campo de pesquisa que trouxe uma série de novas perspectivas para entender a maneira com a qual o homem percebe o mundo.


DINÂMICA X TEORIA MECANICISTA

Mecanicismo, refere-se à tendência do pensamento filosófico/científico de enquadrar a realidade ao modelo das máquinas, sendo uma tendência melhor representada por René Descartes e por Isaac Newton (lei de "causa e efeito"). Ou seja, a natureza, a vida, a mente, enfim tudo funcionaria como o modelo de máquinas, com "engrenagens" que se relacionam sob leis mecânicas, matemática/fisicamente determinadas. Em relação ao corpo, este também é visto enquanto uma máquina, e separadamente da mente ou consciência que o habita. Segundo Descartes: "...examinando com atenção o que eu era, e percebendo que podia supor não possuir corpo algum e existir mundo algum, ou qualquer lugar onde eu existisse, mas que nem por isso podia supor que não existia, e que, ao contrário, pelo fato mesmo de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas concluía-se de forma evidente e certa que eu existia, ao passo que, se apenas houvesse cessado de pensar – embora fosse verdadeiro tudo o mais que alguma vez imaginara – já não teria qualquer razão de acreditar que eu tivesse existido, compreendi que era uma substância cuja essência ou natureza consiste apenas no pensar, e que, para ser, não necessita de nenhum lugar nem depende de qualquer coisa material. De modo que esse eu, isto é, a alma, pela qual sou o que sou, é inteiramente distinta do corpo e, inclusive, é mais fácil de conhecer do que ele, e, ainda que o corpo nada fosse, a alma não deixaria de ser tudo o que é" (O discurso do método).

Esta teoria visa explicar o porquê das coisas. A pergunta fundamental é esta : "- Por que tal coisa é assim desse jeito?" E aí vem alguém e responde: "- Isso é assim porque...

Nas palavras de Köhler: "Na teoria mecanicista, qualquer fato sensorial local é estritamente determinado pelo estímulo. Consequentemente, as características dos estímulos, em suas relações uns com os outros, não podem participar da determinação de experiência sensorial local, a não ser que os processos cerebrais tenham liberdade de exercer ação recíproca. A interação em física, convém lembrar, depende inteiramente das características em relação dos fenômenos que atuam uns sobre os outros. Ora, se passarmos em revista o conhecimento disponível no campo da experiência sensorial, verificamos que, em incontáveis exemplos, os dados da experiência sensorial local dependem da relação entre os estímulos locais e os estímulos nas vizinhanças. A constância do brilho, por exemplo, depende da relação de iluminação e do brilho no campo circundante com o brilho do objeto observado. Nosso ponto de vista será que, em vez de reagir aos estímulos locais por meio de fenômenos locais e mutuamente independentes, o organismo reage ao padrão de estímulos aos quais está exposto, e que essa reação é um processo unitário, um mosaico de sensações locais. O movimento estroboscópico, que evidentemente é uma prova de interação dinâmica, é hoje, em geral, conhecido como o fato no qual Wertheimer baseou seu primeiro protesto contra a teoria de mosaico da experiência sensorial. Se dois estímulos são sucessivamente projetados sobre pontos diferentes da retina, o sujeito vê geralmente um movimento que começa do local do primeiro e termina na região do segundo. Em condições favoráveis, os sujeitos não se referem a duas impressões, e, sim, a uma coisa que se estaria movendo de um lugar para o outro. Como poderá explicar tais observações uma teoria que interpreta os campos sensoriais como mosaicos de fenômenos locais independentes?

Se diversos fios retos são suspensos, irregularmente distribuídos, apontando para diferentes direções, uma corrente elétrica, que por eles passe, lhes dará, imediatamente, direções paralelas. É um resultado bem ordenado da interação eletrodinâmica.

Suponhamos, ainda, que seja despejado óleo em um líquido, com o qual não se mistura. Apesar da violenta interação das moléculas na superfície comum dos líquidos, o limite permanece nitidamente definido. Evidentemente essa distribuição ordenada não é imposta por quaisquer formas rígidas de coerção; resulta, pelo contrário, precisamente dos fatores dinâmicos que atuam na região delimitadora. Não há dúvida de que, enquanto a dinâmica não for perturbada por impactos acidentais vindos do exterior, sua tendência é no sentido de estabelecer distribuições bem ordenadas.

Qual é a explicação para essa tendência? Em tais sistemas há, em determinada ocasião, certa força resultante em cada ponto. Todas essas forças resultantes constituem, juntas, uma forma contínua de tensão. Para o sistema em seu conjunto, o efeito imediato só pode ter uma direção: todas as mudanças locais devem ser tais que, quando consideradas em sua totalidade, levam o sistema mais perto do equilíbrio de forças."

Um exemplo dessa oposição é: tratar sintomas significa usar os anti sejam eles quais forem: antiinflamatório, antibióticos, etc. entender a dinâmica determinante de sintomas, de síndromes significa ir mais profundo ao assunto, adquirir compreensão dele e lidar com sua provável etiologia.


ORGANIZAÇÃO SENSORIAL

Em primeiro lugar o que é percepção? É o processo de organizar e interpretar dados sensoriais recebidos para desenvolvermos a consciência do ambiente ao nosso redor e de nós mesmos.

Os princípios da organização da percepção de Wertheimer foram apresentados num artigo de 1923. Ele propôs que percebemos os objetos da mesma maneira como percebemos o movimento aparente, isto é, como totalidades unificadas, e não como aglomerados de sensações individuais.

Uma premissa básica desses princípios é que, na percepção, a organização ocorre instantaneamente sempre que vemos ou ouvimos diferentes formas ou padrões. Partes do campo perceptivo se combinam, unindo-se para formar estruturas que são distintas do fundo. A organização da percepção é espontânea e inevitável sempre que olhamos ao nosso redor. Não temos de aprender a formar padrões, como querem os associacionistas, se bem que a percepção de nível superior, como o é, por exemplo, rotular objetos pelo nome, de fato dependa da aprendizagem.

Segundo a teoria da gestalt, o processo cerebral primordial na percepção visual não é um conjunto de atividades separadas. A área visual do cérebro não responde a elementos separados do que é visualizado, nem vincula esses elementos mediante algum processo mecânico de associação. O cérebro, na verdade, é um sistema dinâmico em que todos os elementos que estejam ativos num dado momento interagem entre si; elementos semelhantes ou próximos uns dos outros tendem a se combinar, e elementos distanciados ou diferentes não tendem a se combinar.

Os gestaltistas mostraram que o homem não percebe as coisas isoladamente e sem relação, mas as organiza no processo perceptivo como um todo significativo. Segundo Köhler, a forma psicológica correta é a seguinte: modelo de estímulo - organização - reação aos produtos da organização. Estas operações do sistema nervoso de modo algum se restringem a processos primitivos locais; não se trata de uma caixa em que sejam ajuntados de algum modo condutores com funções separadas. Reagem à situação, primeiro por fenômenos sensoriais dinâmicos que lhes são peculiares, como sistema, isto é, pela organização, e depois pelo comportamento que depende dos resultados da organização.

Princípios que fundamentam a organização da percepção são: percepção de objetos, profundidade e distância.

A percepção de objetos

O homem utiliza estratégias de processamento para interpretar a informação visual dos objetos; entre elas está a constância, a figura-fundo e o agrupamento:

1. Constância: é a maneira com que os objetos olhados de diferentes ângulos, de várias distâncias ou sob diferentes condições de iluminação continuam a ser percebidos como tendo a mesma forma, tamanho e cor.

2. Figura-fundo: sempre que olhamos em torno de nós, tendemos a ver objetos ou figuras contra um fundo. Ex.: as letras negras num texto destacam-se da página branca. O mesmo objeto pode ser visto como figura ou como fundo, dependendo de como a pessoa dirige sua atenção. A escolha de qual elemento se distinguirá é o resultado de muitos fatores e todos eles podem, juntos, ser englobados no termo interesse. Enquanto há interesse, a cena total parecerá organizada de modo significativo.

3. Simplicidade: tendemos a ver uma figura tão boa quanto possível sob as condições do estímulo; os psicólogos da gestalt denominaram isso prägnanz ou "boa forma". Uma boa Gestalt é simétrica, simples e estável, não podendo ser tornada mais simples ou mais ordenada.

4. Agrupamento: princípios que regem o modo de agruparmos os elementos da informação visual que recebemos:

4.1. Semelhança: elementos visuais que tem cor, forma e textura semelhantes são vistos como da mesma categoria.

4.2. Proximidade: os elementos visuais próximos entre si são vistos como sendo da mesma categoria.

4.3. Simetria: os elementos visuais que constituem formas regulares, simples e bem equilibradas são vistas como pertencentes ao mesmo grupo.

4.4. Continuidade: os elementos visuais que fazem com que linhas curvas ou movimentos continuem numa direção já estabelecida tendem a ser agrupados.

4.5. Fechamento: os objetos incompletos são geralmente completados e vistos como completos.

Percepção de profundidade e distância

A retina registra imagens em duas dimensões: esquerda-direita e em cima-baixo. No entanto, nós percebemos um mundo tridimensional.

Esses princípios de organização não dependem dos nossos processos mentais superiores nem de experiências passadas; eles estão presentes nos próprios estímulos. Wertheimer os denominou fatores periféricos, mas também reconheceu que fatores centrais no interior do organismo influenciam a percepção; por exemplo, os processos mentais superiores de familiaridade e atitude podem afetar a percepção. De maneira geral, no entanto, os psicólogos da gestalt tendiam a se concentrar mais nos fatores periféricos da organização que nos efeitos da aprendizagem ou da experiência.


CARACTERISTICAS DAS ENTIDADES ORGANIZADAS

Quando surgiu o problema da Gestalt, ninguém poderia prever que, no futuro, ficaria ele estreitamente relacionado com o conceito da autodistribuicao dinâmica, e os fenômenos da organização sensorial ano passaram a ocupar de pronto a posição central que ora ocupam.

O verdadeiro ponto de partida foi a observação de que os campos sensoriais apresentam características que são genericamente diferentes das sensações da teoria tradicional. Foi Christtian Ehrenfels que, precedido por uma observação de Ernst Mach, chamou a atenção dos psicólogos para o fato de que talvez os mais importantes dados qualitativos dos campos sensoriais tinham sido inteiramente desprezados pela analise costumeira.

Ao passo que se supõe que a sensação ocupe seu lugar no campo independentemente, isto e, determinada apenas pelo estimulo local, o que há de curioso nas qualidades que Ehrenfels introduziu na Psicologia cientifica e sua relação com conjuntos de estímulos. Coisa alguma lhes seja semelhante jamais e ocasionada por estímulos estritamente locais per se; ao contrario, a "conjunção" de vários estímulos e a condição desses efeitos específicos em um campo sensorial.

Não precisaremos considerar suas qualidades para saber que a analise em uma forma extrema tornara, mais cedo ou mais tarde, impossível a compreensão de certos fatos: os processos que constituem a base de nossa experiência de uma cor são, provavelmente, reações químicas em que são formadas certas moléculas e destruídas outras. O conceito "esta reação especifica" perde sua significação, particularmente na teoria psicofísica, onde as cores estão relacionadas com reações.

As qualidades de Ehrenfels, que correspondem a fenômenos dinâmicos mais amplos que a cor, originam-se na mesma ocasião em que a cor se origina. Para ele, suas qualidades representavam experiências que eram acrescentadas as "sensações", quando estas surgiram.

As qualidades de Enrenfels são características de entidades isoladas. "simples", "complicado", "regular", são palavras que invariavelmente se referem a produtos de organização. Em alemão, a palavra Gestalt e usada muitas vezes como sinônimo de forma ou feitio, mas o substantivo Gestalt tem dois significados: alem de forma ou feitio como atributo de coisas, tem a significação de uma unidade concreta per se, que tem, ou pode ter, uma forma como uma de suas características. Quando nos referimos a Psicologia da Gestalt, a significação que atribuímos a palavra Gestalt e a que se refere a um objeto especifico e a organização, e o problema dos atributos da Gestalt tornou-se um problema especial entre os muitos de que os psicólogos da escola tem de tratar. A esperança desses psicólogos e que os conceitos funcionais que eles aplicam a organização sensorial também sejam úteis no tratamento teórico das qualidades de Enrefels.

A adoção de um tipo particular de processo constitui a principal preocupação da Psicologia da Gestalt. Os estudiosos que desejem familiarizar-se com essa forma de Psicologia terão de concentrar a atenção em fenômenos ampliados que se distribuem e se regulam como conjuntos funcionais. De acordo com a definição funcional mais geral da expressão, os processos de aprendizagem, de reestruturação, de esforço, de atitude emocional, de raciocínio, atuação, etc. podem Ter de ser incluídos. Isto torna ainda mais claro que Gestalt no sentido de forma já não e o centro da atenção da Psicologia da Gestalt.

Se mesmo no tratamento de campos sensoriais continua a ser tarefa para o futuro uma solução real de nossos problemas, pelo menos os primeiros passos podem ser dados sem demora.

As coisas que nos rodeiam são, em sua maior parte, entidades bem estáveis. Em conseqüência, suas formas especificas são vistas regularmente, enquanto não houver a interferência de condições surgidas ao acaso ou camufladas intencionalmente. E por esse motivo que o problema da forma visual e tão facilmente deixado de lado e que muita gente ainda pode acreditar que "as formas são apresentadas na projeção retiniana".

Os Psicólogos da Gestalt devem estar bem familiarizados com estas observações e com as conseqüências que se seguem. Do mesmo modo que uma parte do campo visual pode Ter um matiz ou ser acromático, assim também determinada área pode ter ou não uma forma.

No caso dos processos mentais, um acontecimento constitui uma "perturbação" apenas com relação a um conjunto maior e unitário que ele interrompe. Sem essa referencia, a palavra não tem sentido. As pessoas familiarizadas com a teoria musical lembrar-se-ão que um som só tem caráter "tônico" dentro de um processo musical em que ele desempenha uma parte especial. O mesmo e verdade com referencia a "tom" que aponta para alem de si mesmo não independentemente, mas como parte de uma estrutura musical mais ampla.

Casos semelhantes podem ser facilmente encontrados entre os adjetivos e verbos. "holh" ("oco") e "offen" , "completo" e "incompleto" pertencem a essa categoria, em que o sentido se refere a unidades especificas experimentadas, somente as quais tais adjetivos são aplicáveis. No campo das palavras que significam acontecimentos e atividades temos por exemplo: "partida" e "começo", "termo", "termino" e "fim", "partir" e "começar", "proceder" e "continuar" e também "desviar", "dobrar", "retardar", etc. Se considerarmos o sentido de tais palavras como "hesitar" ou "desviar", verificaremos que tal sentido pressupõe a ocorrência de processos coerentes mais amplos, cujas modificações são designadas por estes termos. Esses processos podem ser melodias ou as atividades de outras pessoas tais como as vemos, ou processos mentais que se desenvolvem em uma pessoa. De um modo essencial, as significações de tais palavras permanecem as mesmas em todos os setores da experiência, pois os principais aspectos da organização não se restringem a qualquer campo especial.


COMPORTAMENTO

Quando me referi a experiência objetiva, chamei a atenção para o fato de que as coisas, seus movimentos e suas mudanças se apresentam com fora ou diante de nos. Ao mesmo tempo, salientei que a experiência objetiva depende de processos cerebrais. Como poderá, então, essa experiência aparecer diante de nos? Não pode haver duvida a respeito dos fatos em si mesmos. E indiscutível que, em certas condições, um som pode parecer localizado em nossa cabeça, mas a arvore, que se encontra acolá, e vista, sem sombra de duvida, como algo distante, e a janela embora muito mais próxima, esta, incontestavelmente, fora de nos. Do ponto de vista funcional, contudo, a existência desses objetos visuais e uma questão de processos que ocorrem em nosso cérebro e, portanto, em nos. As mais simples considerações fisiológicas provam tal coisa.

Do mesmo modo que todas as outras características do campo estão associadas com fatos fisiológicas do cérebro, também a posição relativa dos objetos constatados pela experiência, depende de alguma espécie de ordem nos processos que constituem sua base fisiológica. A simples localização geométrica desses processos, contudo, não pode ser correlativo da ordem espacial, constatada pela visão. Considero como indiscutível que tudo quanto e experimentado tem uma base funcional, isto é, depende de acontecimentos físicos reais. Naturalmente, as relações dinâmicas em questão atuam nos tecidos, isto e, nas células, fibras e líquidos dos tecidos, que ocupam certos volumes do espaço físico. Presumimos, porem, no que diz respeito ao nosso problema, somente importam as relações dinâmicas, ao passo que não tem significação direta as distancia e áreas geométricas através das quais se estende a ordem dinâmica. A localização relativa de objetos no espaço visual serra considerada como correlativo das posições relativas de processos locais correspondentes dentro da área visual do cérebro.

No tocante ao principio, esta e a solução do nosso problema. Meu corpo como uma experiência _ que na linguagem comum chamamos de "Eu" _ e, ate certo ponto, uma coisa visual, do mesmo modo que um lápis ou um livro são coisas visuais. Ora, da mesma maneira que as coisas aparecem fora umas das outras, o "Eu" aparece visualmente externo as coisas e vice-versa. Se o aparecimento daquelas coisas em lugares diferentes não causa assombro a quem quer que seja, porque essa separação pode ser compreendida em função da localização de sus correlativos fisiológicos no cérebro, não temos motivo para nos surpreender com a posição relativa de tais objetos visuais, por um lado, e o "Eu" visível, por outro lado. Não se torna necessária, assim, qualquer hipótese especial para explicar porque sou visualmente separado de tais objetos e eles de mim. Se há qualquer paradoxo no aparecimento deles externamente, isto e, fora de mim, então exatamente o mesmo paradoxo deveria ser encontrado na relação espacial, digamos do lápis e do livro. As pessoas em geral não conhecem tal coisa simplesmente porque deixam de distinguir o corpo, como experiência perceptiva, do organismo, como sistema físico, que, como tal, jamais ocorre em qualquer experiência. Naturalmente, tais pessoas também ignoram o fato de que a parte visual do "Eu" e fisiologicamente causada pela projeção de partes do organismo sobre sua própria retina e pelos processos correspondentes no cérebro que tem uma localização particular em que estão cercados pelos processos correspondentes a outros objetos visuais.

Não creio que a confusão termine jamais, a não ser que nos acostumemos a dar um nome ao "Eu" perceptivo e outro ao organismo físico. Sugiro, como tenho feito nestas linhas, que o primeiro seja chamado de "corpo", ficando o vocábulo "organismo" reservado ao sistema físico que deve ser estudado pelos anatomistas e fisiologistas.

O fato de os objetos visuais serem tão claramente localizados fora do "Eu" visível espanta todas as pessoas que ouvem dizer que as coisas, cores, etc. dependem de fenômenos que ocorrem "dentro de si mesmas". Naturalmente, essa afirmação, somente sera correta se tomada no sentido fisiologico, em que "dentro de si mesmas" se refere ao organismo, que nao participa da experiencia. Na experiencia visual, uma arvore depende tao puco de mim, tomada no sentido de experiencia, como o processo mental que corresponde a arvore depende dos processos que correspondem ao "Eu" experimentado.

Ate agora, temo-nos considerado, a nos propios como, e considerado as coisas exclusivamente como experiencias visuais. A situacao, contudo, permanecera a mesma se considerarmos tambem outras experiecias. As coisas e suas propriedades podem ser experimentadas pelo tacto em lugar da visao. Tambem podem ser sentidas pelo calor ou frio; tem cheiro, são pesadas e emitem sons. Todas essas experiencias estao localizadas em um espaco perceptivos, seja com precisao, seja apenas de maneira vaga. Mais particularmente, todas tem uma localizacao relativa aos fatos visuais. Assim, uma voz pode ser ouvida do lado de fora ou do lado de dentro da janela. O fato de todas essas experiencias sensoriais aparecerem em um espaco comum pode ser explicado de varias maneiras. Qualquer que seja a interpretacao correta, a verdade e que todos os fatos sensoriais aparecem em um espaco, o espaco em que tambem os objetos visuais e o "Eu" visual estao localizados.

Por que atribuimos aos outros experiencias mais ou menos semelhantes as que temos nos proprios? E o que dizemos constantemente, não apenas de um modo geral, mas tambem especificamente, em casos particulares. Algumas vezes, as outras pessoas parecem reconhecer, de fora, nossas proprias experiencias com maior clareza do que podemos observa-las de dentro. Assim , por exemplo, tenho dificuldades em descrever a experiencia intima da hesitacao ou falta de determinacao. Não obstante, outras pessoas dizem que tais estados se refletem claramente em meu rosto, e eu me mostro disposto a concordar com elas, uma vez que conheco muito bem aquela expressao fisionomica, por já te-la observado em outros. Creio que foi Nietzche quem afirmou que, de certo modo, o "Tu" antecipa o "Eu". Isto se aplica, antes de mais nada, ao nosso conhecimento do carater e personalidade. Nossas experiencias subjetivas estao longe de nos apresentar uma imagem adequada de nossa propria pessoa, ao passo que outras pessoas, muitas vezes, reconhecem em poucos minutos seus tracos principais.

Não creio que as coisas que as outras pessoas dizemconstituam os elementos mais dignos de confianca a esse respeito, muito embora suas afirmacoes possam ser consideradas descricoes de suas experiencias. A maior parte das pessoas não fala a respeito de suas experiencias em si mesmas. Alem disso, frequentemente, atribuimos as outras pessoas afetacao ou modestia, amistosidades ou frieza, sem que elas digam uma única palvra a respeito de seus sentimentos. Em paises estrangeiros, reconhecemos muitas vezes se os outros são indelicados ou amaveis, embora sua lingua possa ser para nos de todo desconhecida.

Mesmo quando entendemos as palavras de outras pessoas, a maneira com que elas falam pode-nos ser mais valiosa para interpretar seus sentimentos do que as proprias palavras. Segundo os psicologos, a repeticao constante produz acentuadas associacoes entre nossas experiencias e os fenomenos corporais correspondentes. Em consequencia, sempre que tais acontecimentos corporais ocorrem em outras pessoas, as experiencias correspondentes são imediatamente reestruturadas. Alem disso, não há necessidade de que a recordacao consista no aparecimento de imagens e ideias; pode assumir a forma da chamada assimilacao, em que o fato que evoca a reestruturacao aparece impregnado do fato reestruturado. Ela atua como o simbolo + da a ideia de adicao, quando o esquife aparece impregnado do horror da morte e quando uma bandeira parece Ter absorvido as virtudes particulares de um pais. Da mesma maneira , dizem-nos, as modificacoes corporais vistas nos outros parecem agora impregnadas de experiencias que tivemos frequentenente, quando tais mudancas ocorriam em nossos proprio caso. Em resultado, a amistosidade pode parecer visivel na fisionomia nos outros, ou a raiva ser perfeitamente audivel em um grito de animal. Por acaso não compreendemos outras pessoas que são extremamente diferentes de nos mesmos? Algumas vezes vejo estampado no rosto de outra pessoa uma repelente ganancia, para a qual não existe correspondente em minha propria experiencia.

Não nego, que o comportamento tal como e percebido esta relacionado com mudancas que ocorrem na superficie dos organismos em questao, isto e, com o comportamento fisico. Tambem admito que essas modificacoes fisicas não estao diretamente mais relacionadas com os processos mentais das pessoas do que estao os fenomenos que percebemos, quando observamos essas pessoas.De qualquer modo, uma vez que o comportamento dos outros so nos e apresentado na percepcao, nosso conhecimento dos outros deve , antes de mais nada, referir-se a essa fonte. Parece, assim, que o comportamento como esfera de fatos perceptivos tambem deve ser nosso primeiro sujeito, quando tentarmos solucionar o problema do entendimento social. Afinal de contas, devemo-nos lembrar que, as vezes, os percepts nos contam mais a respeito dos fatos que os acontecimentos, que se interpoem entre esses fatos e esses percepts.

A conexao funcional entre os processos interiores de uma pessoa e suas consequencias perceptivas em outras constitui uma cadeia causal enormemente complicada. Muitos fatos perceptivos concernente a cor , ao formato, ao movimento, etc., são usados , de vez em quando, nas ciencias naturais, e, no entanto, são usados, de vez em quando, nas ciencias naturais, e, no entanto, e bem sabido que a cor, a forma e o movimentode objetos perceptivos estao muitas vezes sujeitos a influencia que, em tais condicoes, tornam tais fatos inuteis para os cientistas. Por esse motivo, são eles somente tidos como certos de um modo preliminar e, com notaveis excecoes, postos inteiramente de ladonas medicoesde verdade. No nosso caso, parece aconselhavel seguir, Mutatis mutandis, o exemplo, isto e, confiar no entendimento imediato,tal como aqui se descreveu, desde que num determinado caso não haja motivo para desconfianca. Se fossemos rejeitar inteiramente seu testemunho, poderiamos, com facilidade, perder de vista fatos que escapam a metodos mais ortodoxos de Psicologia. Nenhum psicologo, contudo, deve confiar no entendimento nesse sentido, sem estar plenamente consciente de seu perigo.


ASSOCIACAO

Se não dessemos atencao a experiencia direta, correriamos grande perigo de construir um sistema de Psicologia artificialmente simplificado, como o Behaviorismo. Por outro lado, parece impossivel estudar-se a Psicologia apenas como a ciencia da experiencia direta. Para esse fim, o campo da experiencia e demasiadamente restrito. E de todo evidente que os acontecimentos neurais, acompanhados de experiencia, constituem apenas partes de estruturas funcionais maiores. Como tais, dependem de fatos aos quais a experiencia não tem acesso direto. A experiencia nos revela nossas proprias limitacoes. E precisamente o que temos de experar se, de um conjunto funcional mais amplo, apenas uma parte restrita e representada na experiencia. A direcao especifica da qual temos, entao, consciencia, corresponde ao fato de uma parte do campo conhecido pela experiencia estar funcionalmente relacionada com processos que não tem versoes experimentadas.

A experimentacao na comparacao sucessiva pode nos mostrar diretamente o que acontece ao traco do primeiro processo, quando este proprio processo cessou. Ate agora, tais experiencias me levam a acreditar que tracos dessa especie sao conservados durante muito tempo e provavelmente identicos as bases fisiologicas da memoria.

Todas as teorias bem fundadas sobre a memoria, o habito, etc., devem conter hipotesessobre os tracos da memoria como fatos fisiologicos. Tais teorias tambem devem presumir que as caracteristicas dos tracos são mais ou menos afins as do processos, gracas aos quais elas foram criadas. De outro modo, como poderia ser explicada aprecisao da reestruturacao, que e notavel em grande numero de casos? A Psicologia da Gestalt acrescenta, mais particularmente, que pode ser conservada nos tracos qualquer organizacao especifica que apresentem os processos originais e as experiencias que os acompanham. Se tal organizacao e conservada, exerce poderosa influencia sobre a reestruturacao. Se uma coisa com sua forma especifica foi percebida muitas vezes, juntamente com outros fatos, a apresentacao da mesma coisa pode mais tarde provocar a reestruturacao dos fatos. Se, porem, com os mesmos estimulos presentes, outra coisa de forma diferente e vista por algum motivo, não havera reestruturacao. Disso se deduz que os tracos das experiencias passadas não constituem um continuo indiferente nem um mosaico de fatos locais independentes, e sim, que devem ser organizados de maeira que se parecam com a organizacao dos processos originais. Com essa organizacao, participam dos processos de reestruturacao.

Na verdade, na livre imaginacao e no sonho podemos contemplar cenas que diferem muito de qualquer experiencia que tenhamos tido antes. Não obstante, mesmo as mais estranhas criacoes dos sonhos continuam sendo figuras que apresentam as caracteristicas essencias da organizacao. Evidentemente, o reconhecimento e a reestruturacao dependem pelo menos tanto da organizacao dos acontecimentos passados como dos efeitos locais de estimulo, que, de acordo com a teoria do mosaico, seriam os elementos de experiencias passadas.

A lei de associacao por contiguidade tem sido considerada particularmente satisfatoria porque da ao aprendizado uma interpretacao puramente mecanicista.

Resumindo: quando a organizacao e naturalmente forte, a associacao ocrre espontaneamente. Na ausencia de organizacao especifica,não e de esperar qualquer associacao, ate que o sujeito estabeleca intencionalmente alguma organizacao. Alem disso, quando os membros de uma serie estao bem associados, apresentam caracteristicas que dependem de sua posicao nas series conjuntas, da mesma maneira que os sons adquirem certas carcteristicas, quando ouvidos dentro de uma melodia. Finalmente, componentes de uma serie que constitui pequenos grupos solidos são, ao mesmo tempo, componentes particularmentebem associados.

Partindo do ponto de vista a que agora chegamos, algumas das discussoes anteriores aparecem sob nova luz. Tornou-se provalvel qu a associacao dependa da organizacao, porque uma associacao e o efeito persistente de um processo organizado. Ora, quando se lancou a ideia de organizacao, eramos, a cada passo, dificultados por explicacoes empiricas, nas quais os fatos contrarios a teoria do mosaico eram prontamente rejeitados como meros produtos da aprendizagem. Portanto, a organizacao deve ser aceita como uma fase primaria da experiencia. Agora, podemos ir adiante e afirmar que, ao contrario, quaisquer efeitos que a aprendizagem tenha sobre a experiencia subsequente serao provavelmente pos-efeitos de organizacao anterior. De fato, a aprendizagem, no sentido em que a expressao tem sido usada neste contexto, corresponde a associacao e, se temos razao, a associacao e um pos-efeito da organizacao. Por conseguinte, acarreta um circulo vicioso qualquer tentativa no sentido de reduzir a organizacao de experiencias a influencia de significacoes associadas e semelhantes. Não se pode reduzir a organizacaoa outros fatores, se se quer que estes fatores sejam comppreendidos apenas em funcao de organizacao. Naohesito em repetir que as experiencias ssao muito comumente impregnadas de significacao. Esta afirmativa, porem, pode ser ilusoria, se eu não acrescentar, primeiro, que na maioria dos casos, trata-se de experiencias organizadas a que tais significacoes se prendem e, em segundo lugar, que os fatos da aprendizagem aqui abrangidos tambem derivam dos principios de organizacao.


EVOCAÇÃO

A Psicologia investiga três assuntos principais no campo da memória: (1) aprendizagem e formação dos traços que nos permitirão mais tarde evocar; (2) o destino destes traços no período situado entre a aprendizagem e a evocação, e (3) o processo da própria investigação. Na verdade, a evocação desempenha um papel na investigação de todos estes problemas, porque o estudo das leis da aprendizagem e das da retenção abrange a evocação tanto quanto o estudo da própria evocação. No estudo deste fenômeno só haverá variação das circunstâncias concernentes a ele.

Uma experiência sobre evocação feita em laboratório consistia em fazer com que os animais aprendessem a escolher o membro de um par de objetos, por exemplo, o mais escuro de dois cinzentos. Após isto, era apresentado a eles um novo par, que consistia no objeto "certo" do período anterior e um novo objeto. O novo objeto tinha com o objeto "certo" a mesma relação que este tivera com o objeto "errado" do par original. O resultado era que, na maioria das experiências, os animais escolhiam o novo objeto, evidentemente porque, no novo par, esse objeto desempenhava o mesmo papel que o objeto "certo" desempenhava no período de aprendizagem (o par anterior). Com a mudança da situação, o novo objeto passou a ser o componente mais escuro do par. Após várias experiências com este mesmo objetivo, foi conclusivo que parece ser uma regra geral o fato de que a retenção que se refere à organização de fatos é mais persistente que a retenção que se refere a fatos individuais em si mesmos. Vários psicólogos têm observado que, muitas vezes, continuamos capazes de lembrar a estrutura geral das coisas, quando seu conteúdo mais particular já não é retido. Outros estudos, levando em consideração o tempo (após a fase de aprendizagem, era contado um tempo de alguns segundos, onde somente após este a cobaia era exposta à situação seguinte), demonstraram que os traços guardados na memória não são, de modo algum, entidades rígidas, mas, ao contrário, estão impregnados de tendências dinâmicas, e estas tendências parecem ser mais fortes nos animais que no homem. Em tais observações, o comportamento que depende dos traços da memória é usado como indicador de mudanças sofridas por estes traços. Há, contudo, outras situações em que os traços são bem preservados, ao passo que, nas circunstâncias em questão, a evocação é, não obstante, difícil ou mesmo impossível. Vamos agora demonstrar através de outros exemplos que a evocação depende de condições muito específicas.

Se o termo associação expressa o fato de que o traço de uma experiência unitária é ele próprio um fato unitário, deveríamos deduzir que, uma vez formado tal fato unitário, qualquer grupo d estímulos que corresponda a uma fração considerável da situação original causará a evocação de sua outras partes. Na realidade, isto não se dá, porque, entre as características de uma experiência organizada e os estímulos correspondentes, não há, de modo algum, relações ponto por ponto. O processo organizado depende de todo o conjunto de estímulos e de suas "características em relação", de uma maneira que não pode ser analisada nos efeitos independentes dos estímulos locais. Por este motivo, uma fração do conjunto original de estímulos não estabelece um processo que tenha sido contido realmente no acontecimento original. Pelo contrário, tal ação dá origem a um processo que, em certos aspectos, difere da parte correspondente do fenômeno original. Em conseqüência, o processo agora oferecido pode não ter versão equivalente no traço unitário daquele fenômeno, e pode, por este motivo, ser incapaz de causar a evocação de suas outras partes. Assim, por exemplo, a figura 01 não é susceptível de evocar as linhas que faltam na letra H, embora, geometricamente, tal figura represente a maior parte de uma letra H. Do mesmo modo, a figura 02 não provocará a evocação das linhas faltosas de um R. Vendo um H ou um R, não vimos, naturalmente, as figuras 01 e 02 como verdadeiras formas visuais. Assim, os traços do H e do R não contém partes que correspondam às linhas apresentadas em nossas figuras e não ocorrem a evocação.

Devemos concluir que a evocação se restringe a casos e que o processo ora apresentado e uma parte do fato unitário original são suficientemente semelhantes. Isso só se dará quando o presente processo corresponder a uma parte natural, ou a um subconjunto, da organização original. Assim, as letras U.S. são susceptíveis de causar a evocação de um A. e as estrelas de lembrar as outras partes da bandeira norte-americana. Em ambos os casos, a parte ora oferecida parece uma parte relativamente independente da experiência original. Evidentemente, a semelhança constitui a condição principal.

Outra característica importante da evocação é que ela surge de acordo com o grau de importância com que o fato relacionado a ela foi experimentado. De fato, mostramo-nos inclinados a presumir que, quando o "eu" se sente de um modo ou de outro relacionado com um objeto, há realmente um campo de força no cérebro que se estende dos processos correspondentes ao "eu" aos processos correspondentes ao objeto. O princípio do isomorfismo determina que, em dado caso, a organização da experiência os fatos fisiológicos subjacentes têm a mesma estrutura. Nossa hipótese satisfaz esse postulado. A esta relação "eu-objeto", daremos o nome de organização bipolar. Mas o que tem a ver essa forma de relação (organização bipolar) com a Psicologia? Bom, verificamos que a associação significa a sobrevivência de traços unitários, quando ocorreram processos organizados. Ora, se o "eu" forma unidades funcionais particularmente fortes com objetos, com os quais se relaciona pelos vetores, com correspondentes estados do "eu" e objetos correspondentes, deverão, é de se esperar, deixar traços no sistema nervoso.

Segue-se, porém, algo mais importante do fato de os vetores atuarem em situações psicológicas e de suas atuações terem pós-efeitos. É muito comum a seguinte experiência: tenho de executar uma tarefa d que possivelmente não goste, mas que é urgente. No decorrer do dia, porém, vejo-me ocupado com muitas outras coisas. Converso com amigos, leio um livro, etc. De vez em quando, contudo, algo semelhante a uma pressão se faz sentir em meu íntimo e, examinando, verifico que esta pressão procede da persistente tendência d ser relembrada a tarefa, e, assim, entrar no campo da ação presente. Evidentemente, o fenômeno só pode significar que o traço em questão ainda contém um vetor. Experiências feitas em laboratório (Lewin e Zeigarnik) comprovam que as experiências não concluídas são mais fáceis de serem evocadas que as já terminadas, com uma precisão de 90% em média de acerto.

A explicação apresentada pelos autores chama a atenção para o fato de que, quando procura resolver um problema, o sujeito se encontra em um estado de tensão que se refere ao seu trabalho, e este estado de tensão costuma persistir até que se chegue à solução. Se o trabalho é interrompido antes de ser completado, o traço da situação conterá a tensão. E, justamente como, durante o trabalho, a tensão o mantém em andamento, ela ainda atua na mesma direção, quando, depois da interrupção, a situação se tornou um traço. Como a evocação seria o primeiro passo para se completar a tarefa, o resultado da experiência é perfeitamente compreensível. Se esta explicação é correta, deve ter conseqüências susceptíveis de serem verificadas. Mencionarei apenas uma. Não podemos esperar que, em condições normais, a tensões nos traços sejam conservadas para sempre. Parece muito mais provável que desapareçam pouco a pouco. Verificou-se que este é, de fato, o caso. Quando a evocação foi examinada, depois de um retardamento de 24h, a superioridade das tarefas interrompidas decrescera consideravelmente.

Em outras experiências, Lewin conseguiu provocar a evocação e também inibições por meio de associações prévias que atuavam contra determinada tarefa. Conseguiu-se tal coisa apresentando-se uma situação totalmente particular. Suponhamos que, no caso de várias sílabas, a evocação leva a resultado idêntico as do processo que a instrução realmente exija. Se em tais circunstâncias o sujeito sucumbir à tentação d se fiar na evocação como o caminho mais fácil, esta atitude pode, inadvertida e completamente, tornar-se uma atitude de evocação. Uma vez estabelecida esta direção, a sílaba seguinte irá evocar sua companheira, mesmo se nesse caso, a evocação der um resultado que está em disparidade com a tarefa. Deste modo, manifestam-se, afinal, de fato não somente erros pela evocação mas também inibições da execução correta. Isso quase parece mostrar que as associações previamente estabelecidas não podem influenciar determinado campo a não ser que esteja atuando um vetor correspondente.

Hesito em aceitar tal coisa como tese geral. Para falar a verdade, a teoria psicológica foi longe ao presumir que, quando associações poderosas tenham sido formadas, a evocação ocorrerá espontaneamente, e em qualquer situação. Por outro lado, deveremos supor que, durante toda a nossa vida, não ocorra qualquer evocação a não ser que seja apoiada por um vetor naquela direção? Talvez seja aconselhável manter nossa decisão em suspenso, até que investigações futuras esclareçam melhor o assunto. Enquanto isso a verdade é que, precisamente, fica provado que os vetores desempenham importantíssima parte na evocação, o aparecimento e desaparecimento de tais vetores tornar-se-ão problemas de psicologia particularmente importantes. É também verdade que mal estamos começando a reconhecer os problemas mais essenciais desse campo. Além disso, é felizmente verdade que, em milhões de casos, não ocorre a evocação embora isso devesse ocorrer de acordo com pontos de vista amplamente aceitos. Seja como for, porém, a evocação, de um modo geral, continua sendo um dos fatos mais freqüentes e mais importantes da vida mental.


DISCERNIMENTO (INSIGHT)

Se a associação, o hábito e a evocação não são os fatos mediante os quais o curso da vida mental é principalmente determinado, quais são os outros fatores mais importantes? Há, para esta pergunta, uma resposta que nem sempre é claramente formulada, mas, não obstante, implicitamente aceita pela maior parte das pessoas. Nós a chamaremos a convicção do leigo. O leigo acredita que muitas vezes sente diretamente porque quer fazer certas coisas em uma primeira situação e certas outras coisas em uma segunda. Se tem razão, as forças que determinam principalmente suas tendências mentais e suas ações são, em sua maior parte, diretamente apresentadas em sua experiência.

A crença do leigo parte de sua experiência cotidiana. Os defensores do outro ponto de vista parecem acreditar ser ele (o outro ponto de vista) o único compatível com o espírito científico. A quem devemos seguir? Confesso que prefiro a convicção do leigo. No tratamento dos processos sensoriais, os dados fornecidos pela descrição despida de preconceitos tem-se mostrado melhor guia do que os postulados da teoria mecanicista. Confiando nos primeiros, o teórico da função sensorial estabeleceu contato com as ciências naturais, de uma maneira jamais alcançada por aqueles que consideravam o princípio mecanicista como o único cientificamente aceitável.

Em nossas explicações seguintes, terão de ser consideradas observações evidentes, quase corriqueiras. Não é por nossa culpa que, de maneira deplorável, tais observações tenham desaparecido da Psicologia Científica e tenham, portanto, de ser novamente descobertas. Veremos, mais tarde, que precisamente aspectos tão evidentes da experiência humana podem expressar fatos fundamentais da dinâmica cerebral .

Depois de uma longa caminhada, em um dia muito quente de verão, bebo um copo de cerveja gelada. Ao fazer isso, sinto na boca a frialdade e o gosto característico. Há, também, um grande prazer. Será necessário para mim, ficar sabendo, pouco a pouco, que tal prazer vem da frialdade e do gosto? Que ele nada tem a ver com a aranha que estou vendo na parede ou com o tamanho da cadeira que se encontra diante de mim? Evidentemente, não é necessária tal aprendizagem. Não estou mais diretamente consciente do meu prazer em si mesmo e do tato e do gosto em si mesmos que estou do fato de que o prazer se refere à frialdade e o gosto. E sinto também que meu prazer é uma reação adequada àqueles fatos. Entre o prazer e sua base sensorial experimento o que é chamado em alemão seu "verständlicher Zusammenhang" , que corresponde aproximadamente a "relação compreensível".

O mesmo pode-se dizer de muitos casos em que a atitude do sujeito é negativa. Durante duas semanas estive muito ocupado, preparando, cuidadosamente, um jogo de instrumentos para certas experiências. Esta manhã, encontrei os instrumentos completamente desarranjados e fiquei irritado. Se eu dissesse, então: "Aqui está a janela, ali a mesa, em um canto os instrumentos, em um outro a cadeira e perto da porta, eu mesmo, furioso" constituiria esta enumeração uma descrição adequada da situação? Evidentemente, não. Tenho certeza de que a porta, por exemplo, não tem a menor relação com a minha raiva. Descobrindo os instrumentos desarranjados, sei imediatamente que este fato é que me irrita. E, ainda aí, não só esta referência particular é inerente à minha experiência como também a raiva é considerada natural nas circunstâncias.

Em uma bela noite, em Tenerife, quando me encontrava calmamente trabalhando à minha mesa, assustei-me como jamais antes havia me assustado. De repente, a casa foi violentamente abalada e sacudida — minha primeira experiência de um terremoto. Poderia haver a menor dúvida de que foi o súbito tremor que me assustou e não qualquer outra coisa? Evidentemente, não. Mais uma vez a emoção foi sentida como tendo sido causada por uma experiência particular. Via de regra, não precisamos aprender, pouco a pouco, que acontecimentos intensos e inesperados são seguidos pelo temos, como se a priori uma fisionomia amável ou o perfume de uma rosa também devessem ser acompanhados pelo temor. Quando este nos domina de súbito, sempre o sentimos como procedendo de fatos particulares.

Em todos esses exemplos, minhas reações internas são experimentadas como derivadas da natureza da determinadas situações e, em certos outros casos, os acontecimentos ocorridos no ambiente são sentidos como derivados de minhas atitudes. A consciência direta da determinação, tal como é descrita nos exemplos anteriores, também pode ser chamada de discernimento (insight). Quando certa vez empreguei esta expressão, em uma descrição do comportamento inteligente dos macacos não se evitou, prece, inteiramente, um lamentável mal entendido. Verificou-se, algumas vezes, que os animais eram capazes de realizações que não esperávamos que ocorressem abaixo do nível humano. Afirmou-se, então, que tais realizações envolviam o discernimento (insight). Segundo parece, alguns leitores interpretaram esta formulação como se ela se referisse a um misterioso agente ou faculdade mental que se tornara responsável pelo comportamento dos macacos. Na verdade, de nada disso cogitei, quando escrevi meu trabalho. Espero que não surjam mal entendidos semelhantes do presente estudo. Intencionalmente, o conceito de Insight foi agora apresentado em uma base de fatos inteiramente comuns e simples. Não se trata aqui, de modo algum, de invenções ou outras notáveis realizações intelectuais e, longe de se referir a uma faculdade intelectual, o conceito é usado de modo estritamente descritivo. Não irei negar que, de um ponto de vista filosófico, é da maior importância saber se a determinação de certas experiências pode ou não ser ela própria experimentada. Por enquanto, porém, parece-me mis necessário que o conceito em si mesmo seja claramente entendido o que se tais outras conseqüências fossem logo plenamente compreendidas. Procurei, também, deixar profundamente claro que, tomado em seu sentido básico, o termo discernimento (insight) refere-se à dinâmica experimentada nos campos emocional e de motivação não menos que à determinação experimentada em situações intelectuais.


GESTALT-TERAPIA

Visão Geral

A Gestalt-terapia é uma terapia existencial-fenomenológica fundada por Frederick S. Perls e Laura Perls, na década de 1940. Ela ensina a terapeutas e pacientes o método fenomenológico de awareness, no qual perceber, sentir e atuar são diferenciados de interpretar e modificar atitudes proexistentes. Explicações e interpretações são consideradas menos confiáveis do que aquilo que é diretamente percebido ou sentido. Pacientes e terapeutas, em Gestalt-terapia, dialogam

Comentários