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A Família como Espelho: Um Estudo sobre a Moral dos Pobres

Autor:
Instituição: Puc - PR
Tema: Resenha

A Família como Espelho: um Estudo sobre a Moral dos Pobres


INTRODUÇÃO

Há novos conceitos de família com as mudanças dos papéis tradicionais, com a afirmação da individualidade, especialmente a feminina. Mas se mantém o respeito às obrigações e responsabilidades próprias dos vínculos familiares.

Mas famílias pobres a dificuldade de afirmação individual é maior, em especial para a mulher, que é mais subordinada. Aí os elos de obrigação em relação a seus familiares prevalecem sobre os projetos individuais.

A pesquisa, feita em um bairro da periferia (São Miguel Paulista) da zona norte de São Paulo parte da família para compreender com que categorias morais os pobres organizam, interpreta e dá sentido ao seu lugar no mundo. Analisa suas vidas na família e no bairro, sua concepção de trabalho, suas relações sociais com "iguais e desiguais". E a rede de parentesco num contexto de vínculos conjugais tênues.

A pesquisa focalizou a moralidade, as normas e valores na família, no bairro e vizinhança. Para a autora, a definição de família como via de acesso ao problema da moralidade foi delineada à medida que se revelava sua importância como referência simbólica para os pobres dentro e fora de casa. A família espelha e reflete a imagem com a qual os pobres ordenam e dão sentido ao mundo social.

A autora era considerada pelas pessoas pesquisadas como "diferente", mas não teve grandes dificuldades em se aproximar e conviver com os pobres; que são pródigos em conversa. Uma dificuldade era a desconfiança, pois os favelados vivem em constante ameaça, inclusive de despejo. Outra, os pedidos de ajuda, de interferência. Há expectativas de que o pesquisador passa mediar benefícios para a vida dessas pessoas, por ter melhor condição social e é natural, quase uma obrigação querer "aproveitar". Mas há a postura inversa, de afirmação de sua dignidade, autonomia e orgulho.

As entrevistas constituem oportunidades singulares para as pessoas pesquisadas, porque elas podem falar e principalmente ser ouvidas. Sua existência é assim reconhecida por alguém que não pertence ao seu mundo. Os pobres gostam pelo menos no início, de serem avisados da visita, para esperarem com a casa limpa e arrumada. Não se preocupam muito com privacidade, mas querem causar boa impressão.

O convívio envolve alguma tensão inicial que se dissipa com o tempo, e o pesquisador tem que saber se comunicar. Serem escolhidos para uma pesquisa é para os pobres uma diferencia que os leva a serem receptivos. À medida que os pesquisadores conhecem o pesquisador definem-se atitudes de respeito, generosidade, consideração ou indiferença e hostilidade. Os pobres valorizam a educação formal do entrevistador, mas apontam limites, defende a prática, a experiência de vida que possuem como um valor. É uma forma de autovalorização defensiva diante dos bens aos quais eles não têm acesso.


CAPÍTULO 1

O UNIVERSO DA PESQUISA

O que marca os pobres urbanos em São Paulo hoje é o retrato da ruína de promessas de felicidade que encerrava o crescimento industrial e econômico do país. Suas vidas são os resultados da industrialização e da urbanização do país e da migração, com a promessa de que dias melhores virão.

A pesquisa de que resultou este trabalho desenvolveu-se em um dos muitos bairros que se expandiriam como conseqüência deste intenso processo de deslocamento da população trabalhadora do país.

Como a maior parte dos pobres que vivem hoje em São Paulo, a população adulta do bairro é, em sua maioria, migrante, sobretudo nordestina.

O bairro começou a se expandir efetivamente a partir dos anos 70. No começo dos anos 80, a maior parte das mulheres era migrante e tinha seus filhos pequenos. Nesta década o bairro correspondia à franja da cidade de São Paulo. Nos últimos anos, expandiu-se à sua volta um aglomerado de casas construídas em terrenos invadidos, a "favela", deslocando, portanto, a margem da cidade.

Apesar da presença da favela, que deslocou o "pior lugar da cidade" para além do bairro, redefinindo em termos relativos à posição em que se vêem os moradores, efetivamente ocorreram melhorias no local. Isso mostra que, apesar da forte recessão econômica, à década de 80 não foi assim tão "perdida".

O bairro obteve visíveis melhorias quanto a bens de consumo coletivo, como resultado do impacto de lutas sociais de bairro nesta década em que novos atores políticos entram em cena. Serviços públicos como um posto de saúde e uma creche foram instalados a partir de movimentos femininos.

Em termos de suas histórias familiares, os moradores deste bairro falam da percepção de uma mobilidade social em relação à geração que os procedeu, no sentido de que tiveram acesso a recursos inexistentes em seus locais de origem, sobretudo no que se refere às oportunidades de trabalho, de consumo e de educação para seus filhos encontrados na cidade.

As dificuldades encontradas na cidade para estudar desencorajam o projeto de ascensão social através da educação. Como raramente os migrantes vindos da zona rural dominam a leitura e a escrita, pensadas como o instrumento de adequação aos códigos urbanos.

Contudo, os migrantes que vivem nas periferias urbanas são um grupo social, ao contrário dos grupos étnicos que, ao chegarem ao novo lugar de moradia, se estruturam em torno de uma identidade comum, construída com elementos que já traziam em sua bagagem. Quando seus problemas de adaptação na cidade já estão relativamente assentados, os migrantes enfrentam, como qualquer nativo da cidade, o problema de serem pobres.

Sua origem, embora marque sua existência, passa a ser secundária, porque o que conta agora é o que a cidade lhes oferece.


CAPÍTULO 2

OS POBRES NAS CIÊNCIAS SOCIAIS BRASILEIRAS

Muitas e diferentes imagens foram construídas pelas ciências sociais sobre os pobres. Antes das décadas de 1960 e 1970 os pobres eram mais estigmatizados, como "vadios" ou "classe perigosa", pelos grupos dominantes. Depois passaram a ser identificados como "trabalhadores" e percebidos como sujeitos políticos. Hoje há uma tendência a considerar pobreza como ausência de direitos. Antes a crítica era que faltava aos pobres "consciência de classe", agora que falta a noção de "cidadania". Definia-se a condição social dos pobres a partir da exploração do trabalho pelo capital e mais recentemente, pela ausência de reconhecimento de seus direitos.

A volta do interesse pela temática das relações familiares na década de 1970 foi legitimada pela referencia ao trabalho. A família tornou-se objeto de estudo a partir da análise de sua funcionalidade para o capital, como unidade de reprodução de força de trabalho. A mulher foi inserida no mercado, como trabalhadora. Nesse contexto foi que se desenvolveu, nas Ciências Sociais, a reflexão de família entre os pobres.

Entretanto, a lógica capitalista não esgota a análise dos trabalhadores pobres, mesmo em suas relações de trabalho constitui-se dentro de um universo social onde as relações capitalistas se entrecruzam com os traços escravistas e clientelistas de nossa formação histórica.

A ótica da produção está presente em pesquisas sobre a família trabalhadora também naquelas que a analisaram a partir de suas estratégias de sobrevivência e de unidade de consumo, o que remete a um processo de produção mais amplo.

Vadios, favelados, marginais, subempregados, população de baixa renda e morador de periferia são designações dos pobres, de acordo com as transformações ocorridas no processo produtivo e na dinâmica da urbanização e da expansão do trabalho urbano do país. Vadio era quem não trabalhasse no mercado de trabalho formal. Nas décadas de 1950 e 1960, a partir do discurso do cientista social, esta contraposição se fez em termos de "trabalhadores x desempregados e subempregados". A pobreza deixava de ser vista em termos de absorver a mão-de-obra trabalhadora. Na década de 1980 a pauperização aumentou também nos pólos mais dinâmicos da economia brasileira, como São Paulo.

Na família se combinam e se socializam os efeitos da pobreza, com arranjos familiares para responder às diversidades econômicas. A pobreza tem uma categoria relativa que não pode ser confinada num único eixo de classificação, num único registro.

Além do critério da carência para definir os pobres, temos o paradigma da cultura, que é tudo como componente simbólico da ação humana, inclusive do trabalho. Na antropologia há uma tendência que corresponde a uma valorização da diversidade cultural com duas vertentes: uma ressalta a integração dos pobres e outra se baseia no pressuposto de uma homogeneidade necessária aos trabalhadores.

Se os pobres formam uma cultura inteiramente autônoma, tem uma especificidade, uma diversidade e são, ao mesmo tempo, parte subordinada a um todo mais amplo mantem-se a indagação de como vivem e pensam. Se forem portadores de uma cultura inteiramente autônoma, reproduzem na análise a polaridade socialmente instituída de "nós" e "eles", de pobres como grupo subalterno que se diferencia dos dominados.

A visão que se construiu a respeito dos pobres esta numa relação simétrica e inversa à visão da sociedade brasileira. Nas ciências sociais os pobres foram desqualificados (alienados, massa amorfa) ou glorificados, o que acaba redundando num preconceito social às avessas. Assim, os estudos sobre a pobreza constituíram-se como a crítica da sociedade brasileira. O Brasil já foi considerado dual (2 Brasis) e desigualmente integrado ao capitalismo.

Os valores tradicionais como marcas dos pobres urbanos vão além do eixo explicativo da relação capital-trabalho. A eles também se associam idéias de fatalismo, passividade e conformismo. Há um valor moral da atividade em si, mas predomina o papel de provedor da família.

É importante a rede de parentesco para a integração do migrante que se deslocou da zona rural com hábitos tradicionais e patriarcais para o meio urbano, com a idéia de "melhorar a vida". Assim os pobres urbanos revelam uma identidade social híbrida, mesclada em sistemas de valores distintos, que não foram por eles elaborados, mas que são próprias da complexidade urbana onde se integram como "Pobres". Eles encorparam novos padrões de conduta, sem negar os padrões tradicionais. Procuram satisfazer suas novas necessidades mas continuam recorrendo à rede de relações pessoais que se mantem atuante no meio urbano.

O trabalho é instrumento de integração ao meio urbano suas esta não acontece nem se sustenta como processo social sem a rede de relações baseada na família e comunidade. Para as pobres, a família é o próprio substrato de sua identidade social. Sua importância se acentua porque as instituições públicas não são capazes de substituir familiares no cuidado a doentes, velhos e criança e etc. As obrigações fundam-se num código de lealdades, de obrigações mútuas e recíprocas. Assim a sobrevivência da família se sustenta nos recursos pessoais e nas energias morais que ela é capaz de mobilizar.

A autora considera os "valores tradicionais" dos pobres como componentes estruturais da ordem moral com o qual representam o mundo social do qual fazem parte.


CAPÍTULO 3

A FAMÍLIA COMO UNIVERSO MORAL

A trajetória da família brasileira está diretamente ligada com papéis estruturais assumidos por cada membro dessa instituição que por sua vez sofre influências de fatores externos, como o econômico.

A princípio, faz-se necessário entender que a família é constituída por uma escala hierárquica, isto é, cada membro tem sua importância dentro de uma graduação. O papel principal era designado ao macho, enquanto autoridade patriarcal.

Essa autoridade está voltada aos valores instituídos pela cultura familiar, por isso, deve ser reconhecida na medida do cumprimento de seus deveres perante suas responsabilidades, de forma a manter sob equilíbrio o universo de direitos que lhe é concedido por ter esse papel.

Outra característica está correlacionada com a posição econômica da família na sociedade, atingindo principalmente as pertencentes a classe subalterna, está ligada a hierarquia reproduzidas pelos membros familiares, e que está voltada para o favorecimento do homem e das crianças nos quais são depositadas expectativas para o futuro.

Por muito tempo, o homem foi o provedor da renda familiar através de seu trabalho, refletindo em si o peso das obrigações, repercutindo nos valores morais que determinam o homem como homem, da mesma forma que a mulher, por assumir seu desempenho como dona-de-casa, passa a ser responsável pelo controle dos gastos familiares.

O homem, neste instante é considerado o chefe da família e a mulher como chefe da casa. Dentro dessa organização, a mulher se faz também pela unidade familiar, vinculando-se ao seu papel de mãe para ser reconhecida como mulher.

A idéia de família é constituída por três elementos: o casal, a casa e os filhos. Entre estes e os pais existe uma hierarquia que, com o crescimento da criança do adolescente, vai diminuindo, ao mesmo tempo em que também se reduzem as regalias. Esses processos vão se desenvolvendo com a maior intensidade a partir do momento em que os filhos vão adquirindo responsabilidade e repartindo as tarefas com a família. Após essa fase de crescimento e amadurecimento, espera-se uma retribuição aos pais por toda dedicação.

A partir do momento que o casal decide ter filhos, ocorrem inúmeras transformações. A responsabilidade aumenta significativamente, pois passam a construir sua própria família, vinculando-se da primeira (pais, irmãos etc.).

A gravidez traz consigo a independência sendo que, em várias situações, é viabilizada com esta única intenção. A mãe solteira muitas vezes permanece em sua família, que a considera vítima. Ela assume parte da culpa e, a fim de reparar-se, se coloca como auto-suficiente.

A relação entre pais, mães e filhos são estabelecidos pelo convívio, em que o zelo e o cuidado se representam desvinculados da origem biológica. Uma frase bastante ilustrativa nesse caso é o pai e mãe é quem cria. A elasticidade do uso da categoria pai e mãe acontecem com a prática de adoções informais e temporárias.

A aceitação moral do aborto é incomum, enquanto que a adoção do filho por falta de opções de superação à condução da pobreza não representa desafeto ou desapego. Pode sim, tanto uma ocorrência quanto outra, significar uma justificativa que procedida além das condições materiais, atingindo relações de recepção, doação e retribuição.

O casamento tem o significado que contempla o projeto inicial de família e melhoria de vida. Nesse caso, o homem é depositário da melhoria de vida, em ter algo e também, da imagem e respeito. No código masculino da sociedade, os rendimentos investidos no casamento indicam futuro que antes do acontecimento eram desperdiçados com divisão.

De modo geral, a primeira união é planejada e idealizada como referendo de Deus e dos homens. E no caso, de casamento legal e religioso, a moralidade conferida da à união também indica respeito e legitimidade aos papéis de marido e esposa.

Família se define no circulo de pessoas que se forma a partir da confiança e não se limita ao grupo genealógico ou extensão vertical de parentesco, baseando-se na rede de obrigações que se sobrepõe as relações de sangue. Não existem sobrenomes que explicitem status, então, o melhor convívio é com quem se pode selecionar para dar, receber e retribuir em relações não imediatas.


CAPÍTULO 4

A MORAL NO MUNDO DO TRABALHO

Em relação aos moradores de bairro, os "pobres urbanos", identificam-se uma heterogeneidade quanto à inserção no mercado de trabalho e, por outro lado, uma homogeneidade quanto à baixa renda e qualificação.

No entendimento desses homens com estas características, moradores da periferia, a identidade de trabalhador confunde-se com a de pobre. E é através do trabalho que demonstram não serem pobres, pois tal terminologia, para esses moradores, tem o significado de "pobre de espírito", e ser trabalhador lhes dá um valor moral, de honestidade, de disposição de vencer, compensando, dessa forma, as desigualdades socialmente atribuídas.

Para o homem, o trabalho vale, além pelo rendimento econômico, também pelo rendimento moral, tomando-o um sujeito digno, de honra. Essa honra o afirma frente aos outros, sendo o trabalho um dos instrumentos fundamentais da afirmação pessoal e social. Através dela, abre-se a possibilidade de o trabalhador reivindicar um direito (pois para ele é a honra que está em questão e não o direito fundado na noção de cidadania, entendendo que cidadania, justiça e política são para os ricos).

Outra qualidade moral importante para os trabalhadores é a disposição, sendo que a potencialidade para trabalhar é a sua disposição e força.

Um valor primordial para a disposição do trabalhador é a saúde. Essa é considerada uma dádiva de Deus. Assim, a saúde e a disposição para trabalhar tornam o trabalhador, em sua concepção, de pobre, para forte e rico, uma vez que esses atributos lhe garantem a riqueza moral.

O trabalho, garantindo a dignidade ao pobre por ser o fundamento de sua autonomia moral, legitima a sua reivindicação de respeito e reconhecimento de seus familiares, pois o "dever cumprido" de chefe de família lhe garante o poder da autoridade e da obediência por parte dos demais membros.

Para os trabalhadores "pobres", a ascensão social através do trabalho não se constitui como o centro de suas referências simbólicas. Seus valores morais são construídos em conflito com o que o mundo capitalista lhe oferece como possibilidades, que também fazem parte de seu universo de referências simbólicas.

Ainda para a afirmação de sua virilidade, um homem também precisa ser um pai de família, um provedor, definindo a autoridade masculina e entrelaçando o sentido do trabalho à família.

Se a lógica do provedor é um atributo masculino, o trabalho feminino é, primeiramente, o de ambiente familiar, doméstico, e dá à mulher o sentido necessário para sua identificação com essa atividade. Outros tipos de trabalho realizados por ela são secundários, também porque o trabalhador principal deve ser o homem. Além disso, a mulher ratifica a qualidade do homem enquanto o bom provedor.

O trabalho doméstico significa, juntamente com a maternidade, o substrato fundamental da construção da identidade feminina, definindo um jeito de ser mulher, sempre enredado em intermináveis lides domésticas, no mundo social fortemente recortado pela diferenciação de gênero. Através da realização do trabalho doméstico, a mulher se satisfaz em ver a tarefa (da qual é sua responsabilidade) bem feita, estabelecendo uma valorização imoral relacionada ao espaço da casa, dando-lhe um sentido de dignidade.

O trabalho remunerado para a mulher pobre aparece como um fato histórico inscrito na lógica das obrigações familiares e motivado por ela. Mas o trabalho fora de casa, necessariamente rompe com os preceitos femininos ou constitui um meio de afirmação individual para a mulher, bem como ainda não se constitui uma situação nova que abale os fundamentos patriarcais e a autoridade masculina da família pobre.

O trabalho remunerado, mesmo pouco gratificante e cansativo pode afirmar em algum nível a individualidade da mulher: em garantir um dinheiro próprio (ainda que o rendimento se destine à família) e em retirá-la do confinamento doméstico. Porém, o trabalho doméstico que subordina a mulher às obrigações familiares, concomitantemente às obrigações profissionais, justifica o motivo pelo quais algumas mulheres preferem cuidar somente da família. O trabalho feminino surge também como honra, na medida em que a mulher se faz forte para o trabalho para suprir o que está faltando dentro de casa, na ausência de um trabalhador masculino na família ou quando este se encontra desempregado. É assim também nos casos de mães solteiras ou mulheres que são abandonadas pelos maridos.

Já no que se refere ao desemprego feminino e masculino, para ela sua identidade familiar se sustenta moralmente, enquanto o homem é privado de sua identidade social de trabalhador e provedor, significando uma perda moral que atinge todo o grupo familiar.

O trabalho dos filhos faz parte do compromisso moral entre a família, como um sistema relacional de ajuda e troca. Para os pais o trabalho dos filhos também tem o sentido de dá-los proteção contra os riscos e descaminhos do mundo da rua e das más amizades, suscitando os fantasmas da droga e criminalidade. Nas famílias pobres é presente tanto o trabalho infantil quanto o trabalho adolescente, realizado em horário compatível com o.horário escolar já que a freqüência escolar é valorizada, sobretudo no que se refere ao status: "família com filhos fora da escola é vista como socialmente inferior". O trabalho é realizado na localidade da vizinhança, na qual o espaço da rua muda sua conotação quando é "familiarizado" e os ensina a trabalhar. O trabalho infantil nas famílias pobres corresponde a um padrão cultural de socialização, não se opondo necessariamente à escola, mas devendo complementá-la.

Já o trabalho do jovem tem diferenciações: é mais formalizado, próximo ao dos adultos, significando também a afirmação de sua individualidade e liberdade na tentativa de ter acesso a bens de consumo e padrões de comportamento definido pela aquisição das "marcas" e conferindo status perante o grupo de convivência, de acordo com seu ponto de vista.

Estabelecendo uma articulação entre elementos morais e religiosos aos econômicos, na representação dos trabalhadores pobres, a desigualdade entre ricos e pobres sempre existirá, porém para eles, a disposição para o trabalho os coloca em uma posição de vantagem relativa aos ricos que são vistos como incapazes de fazer o que os pobres fazem, encarando essa disposição para o trabalho como dádiva de Deus. A possível igualdade entre as classes é transferida ao "outro mundo" após a morte, já que todos somos filhos de Deus. Nesse sentido a representação do sobrenatural alia-se às qualidades morais que avaliam as pessoas, dentro de uma escala de valores que revitalizam as desigualdades da ordem social.

O trabalho como um valor moral confere honra ao trabalhador e é resignificado em termos relacionais: para o indivíduo, seu esforço o recompensa e o propicia a ter uma vida melhor: para ele, sua honra não está apenas no exercício da atividade em si, mas no fato dele estar cumprindo o que para ele é uma obrigação dentro de uma relação. Essa relação é entendida e concretizada pela oportunidade de trabalho dada pelos ricos. A representação das famílias pobres é de que os ricos devem prover o trabalho dos pobres para que estes pratiquem sua disposição e mereça o pagamento como recompensa, dentro de uma lógica mediada pela relação que reafirma a obrigação de dar e receber.

Há uma condenação por parte dos pobres, implícita na oposição entre o mendigo (pedinte de esmolas) e o trabalhador, como categorias morais. O pedir se coloca em oposição à honra que vem junto com a obrigação de dar para receber. O mendigo que pede submete-se à humilhação de receber sem dar, legitimando e qualificando a esmola como um ato condenável na ética dos pobres. Para tanto, o desemprego tem também o sentido de uma humilhação, ao privar o trabalhador de sua possibilidade de receber e de dar também.

A privação material e sobre tudo moral conseqüentes do desemprego afeta a cadeia das obrigações e relações estabelecidas entre o trabalhador e seu patrão, pela inexistência justamente, desse vínculo. É então que a obrigação que caracterizam o universo moral atualiza-se, através da esmola, que soa como providência divina, ao trabalho que está faltando. Assim, o universo do trabalho para os pobres se constitui na articulação e no entrelaçamento de duas categorias: a de pobres e trabalhadores, que mostram que a moral do trabalho se fundamenta em duas referências distintas - a da lógica do trabalho sob o capital, que os faz trabalhadores -, e a de uma lógica não-capitalista, mas hierárquicas e tradicionais que os fazem pobres.


CAPÍTULO 5

RELAÇÕES ENTRE IGUAIS

A divisão fundamental das classes sociais que marca a sociedade capitalista envolve poder, prestígio e riqueza, mas é entrecortada por outras fronteiras que relativizam esta divisão. Tais fronteiras ficam claras, por exemplo, quando se refere os grupos étnicos. Há um dinamismo das identidades sociais em função das relações a que os indivíduos estão expostos. As identidades sociais movimentam-se por contrastes.

O capítulo trata da forma como esta lógica de contrates opera na trama da sociabilidade local, para neste contexto, recuperar uma outra dimensão da moral dos pobres e trabalhadores, categorias definidas por oposição a ricos e patrões. A autora pretende mostrar como os moradores pesquisados constroem fronteiras simbólicas, como se diferenciam e se igualam.

Mas cidades geralmente as amizades surgem entre colegas, entre pessoas que freqüentam o mesmo espaço. Mas entre migrantes o solidarismo entre vizinhos é comum. É uma relação baseada na confiança. O compadrio reforça e amplia vínculos. As relações se traduzem em termos de obrigações morais, como numa família. E o vinculo moral pode tornar-se mais importante que os vínculos de sangue.

Em geral, os moradores gostam de bairro onde vivem, onde podem ter casa própria, embora preferissem morar num bairro melhor e mais central. Saem pouco, visitam parentes, convivem com os vizinhos, freqüentam ritos religiosos e redes de lazer locais.

A identificação positiva ou negativa com os vizinhos é parâmetro para a identidade de cada um. O espaço da rua é masculino e nele há uma delimitação que implica hierarquias internas do bairro, diferenciando os moradores, os bairros se dividem. Na rua principal que fica na parte mais elevada estão as melhores casas, legalizadas com escritura. Na parte intermediaria estão à maioria das casas com situação legal a ser resolvida. Embaixo fica a favela que circunda o bairro e é área de invasão.

A distinção tem peso simbólico, não esta na diferença entre as casas. Ser favelado é diferente dos outros moradores, é a condição social inferior. A população da favela tem um líder ou protetor a quem eles temem e obedecem, mas que os protege, se preciso através das armas e da violência. Na favela há ruas precárias, mas com luz elétrica, água encanada e esgoto. Em geral não é considerada moradia provisória, os moradores invadem os terrenos pretendendo legaliza-los. Procuram cuidar da casa, arrumar o melhor possível, para legitimar e justificar a ocupação do solo e ter direito de adquirir a propriedade e realizar o sonho da casa própria. Os poucos que "vendem" a área invadida não são considerados "gente de respeito".

O favelado é confundido com bandido. É na observação dos bares locais que se distingue quem é trabalhador ou bandido. No bairro há as vendas, onde se compra de tudo e é freqüentado por homens, mulheres e crianças. E há os bares, espaços fundamentalmente masculinos, onde se joga e só vende bebidas alcoólicas e tira-gastos. Alguns bares mais sociais, geralmente localizados na "parte de cima" do bairro são freqüentados por bandidos, traficantes, jogadores, maloqueiros e estão "lá em baixo", na favela. Nestes a clientela é vigiada e delimitada por quem comanda o crime.

O bandido, em geral, respeita o trabalhador e suas famílias e até os protege contra as ameaças "de fora", como despejo ou novas invasões. Mas o código de honra dos bandidos é frágil. Quando estão com a vida ou liberdade ameaçadas rompem com qualquer critério de obrigação moral o que faz com que os moradores vivam com medo dos bandidos, não se metam com eles, não os denunciem. A "honra" do bandido fica comprovada por sua capacidade de defender a área onde atua e seus habitantes. A relação dos bandidos com os demais moradores é marcada pela ambivalência, onde reconhecimento e admiração da comunidade se misturam, com medo e insegurança.

A convivência com os bandidos é importante para a identidade do trabalhador e servem como referencia para suas idéias sobre crime, justiça, desigualdade social e para sua própria definição de bandido. Nem todos que transgridem as regras são condenados. No mundo dos bares são tolerados os bêbados, vagabundos, malandros, irresponsáveis desde que não prejudiquem as famílias. Estes são considerados mal encaminhados, não ruins. Quem sustenta casa e família é bem aceito, mesmo que consiga o dinheiro por meios suspeitos. E é reprovado o trabalhador que não leva seu salário para dentro de casa.

O que define o marginal é a ruptura com o mundo do trabalho e da família. Como trabalhadores e bandidos fazem parte da mesma sociedade, há regras de convivência entre uns e outros. Mendigo é diferente de pobre ou marginal. A casa e a aparência são referenciais básicas da identidade social. Define-se mendigo não só como aquele que não tem casa, mas o que tem casa suja, que é relaxado, desarrumado. E que pede esmolas, recebe de graça sem a dignidade de dar algo em troca.

Os moradores locais também se diferenciam entre si através de outras distinções. Há grande flexibilidade nos costumes e nas normas de convivência e muita tolerância no dia-a-dia. Mas em situações de conflito há regras morais socialmente dominantes: gente de respeito é casada, não "amigado", vínculos de sangue são sagrados; surgem as distinções raciais, etc.

O espaço físico das cidades materializa as hierarquias do mundo social. Na periferia estão os bairros pobres e "dos pobres". É na periferia que se observa e se identifica mais claramente a maneira de viver dos pobres, embora eles estejam em toda parte da cidade.

Ser pobre é condição social que também cria referências positivas para quem e destituído de riqueza, poder e prestigio. São valores positivos do trabalho e a família. Um indivíduo pobre pode "melhorar de vida", mas deve manter os laços de obrigações recíprocas com seus iguais. É diferente de "subir na vida" e romper com seu grupo de origem. Como a pobreza é na atualidade definida por critérios políticos e econômicos é no plano moral que os pobres podem ser "superiores". A riqueza sem generosidade não é moralmente legítima.

Os moradores da periferia vivem perto dos benefícios do mundo urbano/capitalista, mas não têm acesso a eles. Estar na cidade, para os imigrantes, não os retira da condição de pobres, mas faz deles "pobres da cidade". No processo de construção de identidade social dos pobres há identificação pela necessidade de afirmação de um grupo de referência – e diferenciação – pela necessidade de contraste para sua definição positiva. O mecanismo que estrutura tal identidade é a constante oposição, o contraste.


CONCLUSÃO

A constituição de camadas de população dependentes do paternalismo sempre existiu na história social do Brasil, fazendo privilegiar a ordem moral sobre a ordem legal.

A reciprocidade (dar e receber) no universo simbólico dos pobres envolve a vida dos indivíduos em sua totalidade. Na religião Deus é a entidade moral maior que comanda o mundo. Deus é Pai. Dele se espera proteção e a Ele se presta louvor e obediência.

No âmbito social e político, os pobres esperam soluções para seus problemas das "mais fortes", dos donos do poder, dos políticos. Aí também a reciprocidade é fundamental. As relações sociais na sociedade brasileira estão estruturadas de modo a fazer valer este princípio. Os valores "tradicionais" persistem porque a esfera pública falha, não atuando de modo capaz de substituir tais padrões de relações sociais.

A pesquisa, por ter a família como referência simbólica privilegiou a ordem moral, os costumes, o código de honra sobre a lei e os direitos universais de cidadania. Julgou e avaliou o mundo social baseado em critérios pessoais. Concluiu que é a ordem moral que articula o sentido do universo social para os pobres e orienta suas ações e obrigações.

O universo simbólico dos pobres reflete e devolve a imagem da sociedade em que vivem. O povo se reconhece se identifica com discursos cujo fundamento reduza o universo das diferenças sociais - de riqueza, prestígio e poder – na sociedade, ao universo moral, de modo que as questões sociais só se tornem possíveis em termos éticos.


BIBLIOGRAFIA

- SARTI, Cynthia Andersen. A Família como Espelho: Um estudo sobre a moral dos pobres. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 2003.

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