Amigo Nerd.net

Amálgama Odontológico: Aspectos Clínicos

Autor:
Instituição: UFMG

AMÁLGAMA ODONTOLÓGICO: aspectos clínicos

 

1- Introdução

O amálgama tem sido o material restaurador odontológico de maior uso nas últimas décadas. A suas principais características são seu baixo custo, grande durabilidade, assim como a facilidade técnica na sua confecção. Por outro lado, a falta de adesão à estrutura dentária, a possibilidade de corrosão e fraturas, assim como a possibilidade de reações de hipersensibilidade aos seus componentes são fatores que podem prejudicar o sucesso de restaurações de amálgama.

O profissional deve atentar para os sinais clínicos que podem contribuir para uma avaliação do sucesso das restaurações ou da necessidade de substituições de restaurações antigas.

Dessa forma, esse trabalho tem o objetivo de revisar os principais aspectos relacionados com a avaliação clínica das restaurações de amálgama. Serão abrangidos pontos como hipersensibilidade, corrosão e galvanismo, reparos e substituições, além das principais características do material e diferentes formas de confecção, definindo os principais fatores que podem levar ao sucesso do tratamento restaurador com amálgama.

 

2- Revisão de Literatura

2.1- Considerações gerais sobre o amálgama: histórico, composição e propriedades

SILVA e SANTOS (1997) afirmam que o amálgama dental tem sido o material restaurador mais utilizado na Odontologia desde o século dezenove, devido às suas propriedades de manipulaçäo, performance clínica favorável, baixo custo e biocompatibilidade com os tecidos bucais.

Segundo MJÖR (1999), o amálgama dental é uma mistura principalmente de liga prata-estanho e mercúrio. Foi o material mais freqüentemente usado nos últimos 150 anos .

De acordo com GIL et al. (1999), o amálgama apresenta um perfil melhor do que as resinas compostas com relação à resistência à abrasão, relacionado, provavelmente, com a falência da matriz polimérica deste último material. Entretanto, o amálgama exibe corrosão.

Segundo HOSHI (2000), a amálgama é um material altamente resistente, insolúvel aos fluidos bucais, de baixo custo e de fácil manipulação, porém a sua desvantagem é a falta de adesão à estrutura dentária, associada à microinfiltração marginal.

LEINFELDER (2000) afirma que os elementos constituintes do amálgama servem como um agente bacteriostático.

De acordo com BARATIERI (2000), entre todos os materiais restauradores o amálgama parece ser o menos sensível à técnica. O amálgama, idealmente, só deve ser empregado em cavidades conservativas, ou seja, que apresentam pequena abertura vestíbulo-lingual e profundidade. Quando a coroa clínica encontra-se parcialmente destruída pode-se utilizar os pinos retidos na dentina como forma de aumentar a resistência e retenção das restaurações e assim ampliar as indicações do amálgama como material restaurador. Neste caso, também podem ser preparados sulcos, fendas e caixas retentivas na estrutura dental remanescente.

 

2.2- Amalgama adesivo ou retido por pinos

Segundo MEZZOMO (1993) as formas indiretas de retenção do amálgama à estrutura dental envolvem o emprego de pinos e/ou adesivos resinosos. As formas diretas envolvem a execução de múltiplas caixas retentivas ou canaletas parciais ou circunferenciais na dentina. Os diferentes tipos de retenção parecem se eqüivaler, porém os sistemas de retenção indireta que empregam os pinos devem, preferencialmente, ser utilizados quando uma forma de retenção/resistência satisfatória não puderem ser estabelecidas através dos sistemas de retenção direta. O uso de amálgamas adesivos tem como vantagens a execução de preparos mais conservadores, menor infiltração marginal, dispensa bases forradoras, reforço da estrutura dental, menor sensibilidade pós-operatória, menor incidência de fraturas marginais e cárie secundária. Entretanto temos como desvantagens o aumento do tempo de execução das restaurações, maior custo, necessidade de adaptação do profissional à nova técnica e longevidade desconhecida.

Segundo BUSATO (1996), o uso de amálgamas adesivos demonstrou melhor retenção, melhor vedamento marginal e a restauração tende a apresentar uma longevidade clínica maior. O princípio de amálgama adesivo é a utilização do potencial de dupla adesão dos materiais intermediários indicados, os quais se ligam por embricamento mecânico e/ou por adesão tanto ao amálgama quanto à estrutura dentária.

De acordo com AL-JAZAIRY e LOUKA (1999), a microinfiltração foi diminuída significativamente em amálgamas adesivos (sistemas Amalgambond Plus e All Bond 2) em comparação àqueles amálgamas, sob os quais existia uma película de verniz cavitário (Copalite).

Segundo BROWNING et al.(2000) restaurações de amálgama adesivo produziram resultados equivalentes ao métodos tradicionais com relação à forma anatômica, adaptação marginal, retenção e presença de cáries secundárias, por um período de 42 meses. Isto pode tornar o uso do amálgama com sistemas adesivos mais confortável para os clínicos.

DAVIS e OVERTON (2000) afirmam que amálgamas adesivos apresentaram resultados semelhantes aos amálgamas extensos retidos mecanicamente com relação ao controle da dor à mastigação em molares fraturados. Com relação à redução da dor ao frio, foi mais eficiente o amálgama adesivo.

 

2.3- Hipersensibilidade

De acordo com LYGRE et al. (1999), o mercúrio pode entrar na saliva como vapor, íons e partículas de amálgama. Após exame de pacientes que relatavam queixas relacionadas a restaurações de amálgama, foi encontrado que a quantidade de mercúrio e prata na saliva é relacionada com a quantidade de amálgama presente na cavidade bucal.

Segundo MJÖR (1999), tem-se alegado que sintomas locais e gerais, como dor de cabeça, dor facial, dor dos dentes, dores na ATM, xerostomia, insônia, cansaço, depressão, cegueira, tumores, alergia e outros podem ser associados com a presença de restaurações de amálgama, devido à corrosão, toxicidade ao mercúrio ou reações alérgicas para com elementos do amálgama.

 

Segundo McGIVERN et al. (2000), reações de hipersensibilidade ao amálgama são incomuns, porém lesões liquenóides envolvendo uma reação de hipersensiblidade mediada por células podem ocorrer. Raramente uma resposta mais aguda e generalizada pode ocorrer envolvendo a mucosa oral e pele.

 

2.4- Sensibilidade pós-operatória e tratamento da cavidade

De acordo com BROWNING (1999), pacientes comumente têm dor nas primeiras 24 horas depois do tratamento restaurador com amálgama. Dentistas poderiam considerar a recomendação do uso de analgésicos pelos pacientes como prevenção de desconforto.

Segundo MJÖR (1999), leve inflamação pulpar pode ser encontrada subjacente a restaurações de amálgama profundas e não forradas, podendo, assim, explicar o desconforto sofrido pelos pacientes após terapia de amálgama. Isto pode ser causado por efeitos térmicos da liga, elementos tóxicos, microinfiltração e bactérias na interface dente/restauração.

Segundo GORDAN et al.(1999), o forramento de preparos cavitários para amálgama com duas camadas de verniz Copalite, adesivo dentinário ou ionômero modificado por resina produziu resultados semelhantes na redução da sensibilidade em dentes previamente acometidos de lesões cariosas.

De acordo com MORAIS et al. (1999), diferentes selamentos das paredes cavitárias podem ser realizados, porém os melhores resultados referentes à redução de microinfiltração foram encontrados com o uso de amálgamas adesivos.

Segundo EICHMILLER et al.(1999), a comparação entre uma restauração de precipitado químico de prata e amálgama mostrou que a primeira é mais efetiva no controle da microinfiltração. Além disso, o uso de verniz cavitário de copal ou poliamido resultou na mais baixa combinação de microinfiltração na dentina e margens de esmalte.

HOSHI (2000) afirma que a associação de adesivos dentinários ou cimentos de ionômero de vidro ao amálgama pode reduzir a microinfiltração marginal, em comparação aos amálgamas associados ao verniz cavitário . A análise de dados do estudo mostrou que nenhum dos materiais foi capaz de eliminar a microinfiltração marginal, porém os valores maiores de microinfiltração foram encontrados quando foi usado só o verniz cavitário Copalite - Cooley & Cooley. Os menores valores foram obtidos com o uso de adesivo dentinário.

Segundo BARATIERI (2000) todas as cavidades para amálgama, exceto aquelas que a polpa se encontra exposta, deverão receber uma aplicação de fluoreto de sódio à 2% durante quatro minutos, como primeiro agente de proteção do complexo dentina-polpa. Essa aplicação de flúor reduz, em aproximadamente 60 % o índice de cáries ao redor das restaurações de amálgama.

 

2.5- Corrosão

Segundo BUSATO (1996), a corrosão do amálgama se expressa clinicamente através da textura superficial, fraturas marginais e descoloração das estruturas do dente. A corrosão que ocorre na interface dente / restauração é, de certa forma, benéfica, pois, com o decorrer do tempo, produz o vedamento marginal, impedindo a infiltração marginal e suas conseqüências.

PHILLIPS (1998) afirma que o amálgama dental é constituído por uma série de elementos metálicos, dentre eles o mercúrio. Em contato com o meio oral, esse tipo de material restaurador plástico é passível de corrosão, liberando íons para a saliva.

Segundo MJÖR (1999), a corrosão do amálgama depende do tipo de liga, de sua manipulação durante a trituração e inserção e da higiene oral do paciente. Os efeitos clínicos da corrosão de amálgama são resistência reduzida, degradação marginal, alterações dimensionais, porosidades internas e aspereza superficial aumentadas, descoloração, redução da microinfiltração pelo preenchimento dos espaços vazios na interface dente/restauração pelos produtos da corrosão, e efeitos galvânicos, raramente incluído gosto metálico.

Segundo PODUCH-KOWALCZYK et al.(1999), a suscetibilidade à corrosão de diferentes amostras de amálgama mostrou os seguintes resultados: ARISTALLOY > SYBRALLOY > (DISPERSALLOY, PHASEALLOY, TYTIN). Isto pode clarear diferentemente a possibilidade de corrosão ocorrer em cinco amálgamas odontológicos diferentes.

De acordo com BARATIERI (2000), a corrosão do amálgama é evidenciada, clinicamente, através de sua textura superficial, fraturas marginais e descoloração das estruturas dentais, sendo a fase de cristalização gama2 a que mais sofre com este processo. Os amálgamas de ligas enriquecidas com cobre, por não apresentarem gama2, ou por apresentarem-na menos do que aquelas ligas convencionais, são superiores, portanto, em termos de corrosão. Uma dedução lógica é que o desaparecimento da fase gama2 por corrosão, proporciona o aparecimento de espaços vazios (porosidades) no amálgama, os quais concorrem para o enfraquecimento mecânico da restauração.


2.6- Galvanismo

SUAREZ (1981), afirma que o galvanismo pode ser caracterizado mediante sintomas subjetivos e objetivos. Entre os subjetivos destaca-se o "choque galvânico" ou descarga eletrostática entre duas superfícies de metais diferentes. Isso acontece, por exemplo, quando o paciente morde um pedaço de papel metálico, contra uma restauração de ouro ou amálgama. Entre os sintomas objetivos destacam-se lesões eritematosas, úlceras e língua geográfica/estomatite

MEYER et al. (1993) descreveram uma forma de diagnosticar o galvanismo oral e aliviar seus sintomas. É a colocação de um separador de borracha entre restaurações dissimilares, cobertura das superfícies metálicas com precipitado de nitrato de prata, resina adesiva e verniz. Segundo esses autores, a dor associada com correntes galvânicas pode, geralmente, ser aliviada pela separação física dos dentes.

Segundo PHILLIPS (1998) o melhor método para redução ou eliminação do choque galvânico parece ser a aplicação de um verniz externamente, na superfície da restauração. Contanto que o verniz permaneça, a restauração é isolada da saliva e nenhuma corrente é estabelecida.

Segundo HORASAWA et al.(1999), a interação galvânica entre titânio e amálgamas odontológicos é pequena, enquanto a interação entre titânio e ligas de gálio é mais danosa por causa da inerente baixa resistência à corrosão.

 

2.7- Valamento e descoloração marginal

De acordo com MJÖR (1999) restaurações de amálgama freqüentemente se degradam pela fenômeno de "formação de vala" na interface dente-restauração. Tal formação de vala é resultado de forças mastigatórias agindo sobre as margens da restauração que podem ter ficado enfraquecidas por corrosão. Pequenas áreas de amálgama sofrem fratura e se perdem, deixando uma fenda entre a restauração de amálgama e a margem da cavidade. A presença de fendas na restauração não é indicativo de cárie secundária, pois tais fendas são encontradas com freqüência como resultado de condensação inadequada. A descoloração marginal é um sinal de infiltração.

 

2.8- Escoamento e fraturas

Segundo MJÖR (1999), o escoamento tem o "flow" e "creep" como parâmetros que designam as alterações dimensionais durante cargas. Testes de "creep" substituíram consideravelmente os testes de "flow", por ter sido demonstrado que o valor de "creep" para amálgamas convencionais está diretamente relacionado com a degradação marginal de restaurações feitas com tais ligas. O valor de "creep" de 3% é encontrado na maioria dos padrões, mas ele seria provavelmente melhor estabelecido em 2%. Amálgamas de alto conteúdo de cobre têm sido fabricados para apresentarem baixos valores de "creep" (<1%). A degradação marginal, um defeito de estresse / corrosão observado na superfície oclusal, tem relação direta com o "creep" dos amálgamas convencionais, sendo aquela reduzida com o uso de amálgamas com baixo "creep", ou seja, amálgama não-gama 2. A fratura de área do istmo é considerada um problema associado ao volume inadequado de material, seja devido ao preparo defeituoso da cavidade ou devido à excessiva escultura da restauração. Quanto mais fraco o amálgama e menor seu ângulo de margem, tanto mais provável que ocorram fraturas.

SEGURA e RIGGINS (1999) afirmam que não há diferença estatisticamente significante na resistência à fratura de quatro tipos diferentes de restaurações com reconstrução de cúspides, como amálgama retido por pinos, amálgama adesivo, resina composta com "insert" cerâmico e resina composta com adesivo HEMA. Porém os valores maiores de resistência foram encontrados nesta última técnica restauradora.

Segundo LEINFELDER (2000), quando uma cúspide antagonista é introduzida na superfície de um amálgama oposto, a área de contato gradualmente muda. Por causa da relativa alta taxa de escoamento, o amálgama nesta região começa a mover para longe do topo da cúspide antagonista. A morfologia na região fica semelhante a uma cratera por impacto de meteoro.

De acordo com McDANIEL et al.(2000), as principais causas de fratura de resturações de amálgama com cobertura de cúspides são a fratura dental, presença de cáries e fratura da própria restauração. A fratura dental aumenta grandemente o risco do dente se tornar não mais restaurável.

 

2.9- Acabamento e polimento

Segundo MEZZOMO (1993), é incontestável que restaurações polidas representam um motivo de orgulho e satisfação para quem as executa. O acabamento visa ajustar as margens da restauração, remoção de excessos e/ou degraus e o refinamento da estrutura. Ele poderá ser executado em velocidade convencional ou em alta velocidade, preferencialmente com brocas multilaminadas, com movimentos suaves e sempre no sentido da estrutura dental para o amálgama. O polimento inicial pode ser executado com borrachas ou pastas abrasivas, em velocidade convencional. Para o polimento inicial das superfícies oclusais, empregamos uma pasta de pedra pomes e água com escova de Robinson. O polimento final é conseguido com uma pasta de óxido de zinco e álcool. Após o acabamento e polimento, é fundamental a execução de radiografias interproximais para verificação de possíveis excessos.

SILVA e SANTOS (1997) afirmam que os resultados obtidos com o polimento completo das restaurações de amálgama após 24 horas de sua inserção no dente foram superiores aos resultados referentes às restaurações polidas imediatamente após inserção, condensação, escultura e brunidura.

Segundo PHILLIPS (1998), o processo de polimento conseguindo-se uma superfície homogênea aumenta a resistência das restaurações de amálgama no que se refere ao manchamento e corrosão.

De acordo com MJÖR (1999), o acabamento e polimento de amálgama aumenta o potencial para prolongada vida clínica. A principal vantagem de se fazer o acabamento de restaurações de amálgama é que ele permite o ajuste das margens da restauração.

Segundo CARDOSO et al. (1999), o acabamento e polimento de restaurações de amálgama pode modificar a decisão de substituição de antigas restaurações de amálgama.

 

2.10- Reparos

SANTOS (1990) afirma que o reparo é um procedimento que se baseia na idéia de manutenção e maior aproveitamento das restaurações antigas. Isso é feito através de preparo cavitário reduzido, às expensas da antiga restauração, sem sacrifício da estrutura dental remanescente. O reparo é indicado para pequenos danos em restaurações mais extensas, restaurações retidas por pinos, MOD complexas com recobrimento de cúspides, etc. Os pequenos defeitos são entendidos como recidiva de cárie incipiente, pequenas fraturas marginais ou do remanescente dentário.

De acordo com ALMEIDA (1991), restauraçöes de amálgama que sofreram reparos mostraram integridade marginal similar aos amálgamas sem reparo. A junçäo amálgama novo / amálgama velho tornou-se visível após 6, 12 ou 24 meses em algumas restauraçöes, com e sem excesso de mercúrio. As restauraçöes reparadas resistiram às forças mastigatórias sem se fraturar, tanto naquelas realizadas no centro e nas margens de restauraçöes classe I oclusal, como em restauraçöes de classe II. Parece ser necessária uma observaçäo mais prolongada para verificar se com o tempo esta linha se transformará em fenda, comprometendo a resistência da restauraçäo. A utilizaçäo da 1ª porçäo do amálgama com excesso de mercúrio sobre a superfície do amálgama cristalizado näo influi na resistência do amálgama reparado. O mercúrio que flui durante a condensaçäo parece ser suficiente para umedecer a superfície do amálgama velho, melhorando a uniäo entre eles.

Segundo JURCIUKONIS et al. (1995), a recuperação de restaurações com amálgama consideradas defeituosas evidencia um tratamento conservador e preventivo de novos preparos cavitários


2.11- Troca de restaurações de amálgama

Segundo SANTOS (1990), o procedimento de reparo está contra-indicado quando há fratura do corpo da restauração, exposição do material de base, diversas falhas numa mesma restauração, áreas de elevada concentração de tensões, além de cáries recidivantes, com evidência de infiltração. Nesses casos é mais recomendável a substituição da restauração antiga.

JURCIUKONIS et al. (1995) afirmam que todos os defeitos que não podem ser reparados sem troca efetiva da restauração devem receber dos profissionais um cuidado especial para que a remoção seja sem danos para a estrutura dental remanescente e que a nova restauração que está sendo confeccionada preencha perfeitamente os requisitos básicos de preparo correto, condensação eficiente, contorno e esculturas adequadas. Os clínicos deveriam ter um critério mais seletivo quando da decisão da re-restauração, para poder distinguir pequenas falhas aceitáveis ou não, adotando uma abordagem mais agressiva na aplicação de medidas preventivas anti-cáries, inclusive as secundárias.

Segundo MJÖR (1999), fatores como a má adaptação marginal, mal formato anatômico, fratura do istmo, fratura do dente e descoloração são razões específicas para a substituição de restaurações. O diagnóstico clínico de cárie secundária ou recorrente é a principal razão para substituição de restaurações de amálgama. Outra razões para substituição de restaurações de amálgama em dentes permanentes incluem fraturas de corpo, fraturas de istmo, degradação marginal ou "valas" oclusais na interface dente / restauração, além de fraturas do dente. A fratura de um dente ou de parte dele, como uma razão para substituição de restauração de amálgama, é primariamente um resultado de propriedades físicas inadequadas dos tecidos duros remanescentes. Esmalte solapado, ou esmalte não suportado pela dentina, fratura-se facilmente.

De acordo com LEINFELDER (2000), a duração média de uma restauração de amálgama com efetividade clínica é de 10 à 12 anos. Restaurações de resina composta, em comparação, têm performance adequada até a metade deste tempo.

 

3- Comentários finais

Amálgama dental é o material restaurador mais utilizado em Odontologia durante muitas décadas. A relativa facilidade na sua execução, não exigindo grandes aparatos ou artifícios técnicos, torna-se um fator motivante do seu uso pelos profissionais. Porém é importante que os clínicos respeitem as suas propriedades para que o resultado obtido seja favorável.

A necessidade de restaurações extensas com amálgama leva à necessidade de escolha da forma de retenção da restauração ao dente. Amálgamas retidos a pinos, sulcos e canaletas, além dos associados a sistemas adesivos, mostraram índices de sucesso semelhantes, porém pode ser verificado que amálgamas adesivos fornecem melhores resultados com relação à redução da infiltração marginal. A existência de lesões locais e sistêmicas possivelmente associados com componentes do amálgama dental, principalmente o mercúrio, levanta a polêmica sobre a indicação do seu uso ou não. A ocorrência de sensibilidade pós-operatória pode ser reduzida pelo emprego de diferentes formas de tratamento cavitário, como vernizes e bases forradoras; os melhores resultados têm sido relacionados com o uso de cimentos de ionômero de vidro e adesivos dentinários como material de forramento.

A corrosão do amálgama dental é um fator que pode prejudicar o sucesso clínico das restaurações, porém deve-se considerar o selamento da interface dente / restauração com os produtos da corrosão como um fator positivo. O fenômeno do galvanismo é um assunto controverso na literatura, porém deve der considerada a ocorrência de correntes galvânicas no meio bucal. O aparecimento de fendas ou valas entre a restauração e o dente deve ser considerado como um fator de alerta para a possibilidade de infiltração e cárie secundária, porém nem sempre tais defeitos indicam a presença de cárie recorrente. O alto índice de escoamento em alguns tipos de ligas para amálgama tende a favorecer o processo de degradação marginal. De forma semelhante, a ocorrência de fraturas na restauração devem ser avaliadas conforme sua extensão, para determinar a necessidade de substituição ou reparo da restauração.

A decisão de substituição de antigas restaurações de amálgama deve ser criteriosa pelo clínico, respeitando possibilidades mais conservativas, associadas a um programa preventivo para os pacientes, visando a conservação de restaurações e prevenção de cáries. A ocorrência de cáries secundárias ou de situações clínicas que favoreçam esta situação, como grandes fraturas e degradação marginal, deve ser considerada como o principal fator para troca de restaurações de amálgama.

Este estudo demonstra que o amálgama odontológico continua sendo uma opção restauradora bastante atrativa para os profissionais em Odontologia, devido às suas propriedades relativamente satisfatórias e boa durabilidade. Além disso, seu baixo custo propicia um maior alcance social. A principal limitação ainda existente para o amálgama é estética, porém seu uso ainda é bastante indicado para dentes posteriores.

 

4- Referências Bibliográficas

1- AL-JAZAIRY, Y. H., LOUKA, A. N. Effect of bonded amalgam . restorations on microleakage. Operative Dentistry, v.24, n.4, p.203- 209, Jul-Aug. 1999.

2- ALMEIDA, J.V. Reparos em restaurações de amálgama "in vivo". São Paulo: Faculdade de Odontologia de Bauru-USP, 1991, 89p. ( Tese, Doutorado em Odontologia)

3- BARATIERI, L. N. et al. Dentística: procedimentos preventivos e restauradores. 2.ed. São Paulo : Santos, 2000. 509 p.

4- BROWNING, W. D. Incidence and severity of postoperative pain following routine . placement of amalgam restorations. Quintessence International, v.30, n.7, . p.484-489, Jul.1999.

5- BROWNING, W. D., JOHNSON, W. W., GREGORY, P. N. Clinical performance of bonded amalgam restorations at 42 months. Journal of American Dental . .. Association, v.131, n.5, . p. 607- 611, May 2000.

6- BUSATO, A. L. S. et al. Dentísica: restaurações em dentes posteriores. São Paulo: Artes Médicas, 1996. p.302.

7- CARDOSO,M. , BARATIERI, L.N., RITTER,A.V. The effect of finishing and polishing on the decision to replace existing amalgam restorations. Quintessence International, v.30, n.6, p.413-418, Jun.1999.

8- DAVIS, R., OVERTON, J.D. Efficacy of bonded and nonbonded amalgam in the treatment . of teeth with incomplete fractures. Journal of American Dental Association, v.131, n.4, p.469-478, Apr.2000.

9- EICHMILLER F.C. et al. Microleakage of a consolidated silver direct filling material. Operative Dentistry, v.24, n.3, p.162-171, May-Jun 1999.

10- GIL, F.J., ESPIAS, A., SANCHEZ, L.A., PLANELL, J.A. Comparison of the abrasive wear resistance between amalgam, hybrid composite material and different dental cements. International Dental Journal, v.49, n.6, p.337-342, Dec.1999.

11- GORDAN, V.V., MJÜR, I.A., MOORHEAD, J.E. Amalgam restorations: postoperative sensitivity as a function of linear treatment and cavity depht. Operative Dentistry, v.24, n.6, p.377-383, Nov-Dec.1999.

12- HORASAWA, N., TAKAHASHI, S. MAREK, M. Galvanic interation between titanium and gallium alloy or dental amalgam. Dental Materials, v.15, n.5, p.318-322, Sep.1999.

13- HOSHI, A.T. Avaliação in vitro da microinfiltração marginal de restaurações de amálgama em cavidades classe II associadas a adesivo dentinário, cimento de ionômero de vidro e verniz cavitário. São Paulo: Faculdade de Odontologia de Bauru - USP, 2000. 138p. ( Tese, Mestrado em Odontologia).

14- JURCIUKONIS, S. et al. Critérios para prevenção da troca das restaurações com amálgama : implicação na manutenção da saúde oral. RGO, v.43, n.5, p.292-294, set.-out. 1995.

15- LEINFELDER, K. F. Do restorations made of amalgam outlast those made of resin - based composite? Journal of American Dental Association, v.131, n.8, p.1186 – 1187, Aug.2000.

16- LYGRE, G.B., HOL,P.J., EIDE,R., ISRENN,R., GJERDET,N.R. Mercury and silver in saliva fron subjects with symptoms self-related to amalgam fillings. Clinical . Oral Investigation, v.3, n.4, p.216-218, Dec.1999.

17- McDANIEL, R.J. , DAVIS, R.D., MURCHISON, D.F., COHEN, R.B. Causes of failure among cuspal-coverage amalgam restorations : a clinical survey. Journal of American Dental Association, v.131, n.2, p.173-177, Feb.2000.

18- McGIVERN, B., PEMBERTON, M., THEAKER, E. D., BUCHANAN, J. A., THORNHILL, M. H. Delayed and immediate hipersensitivity reactions associated with the use of amalgam. British Dental Journal, v.188, n.2, p.73-76, Jan.2000.

19- MEYER, R.D., et al. Intraoral galvanic corrosion: Literature review and case report. Journal of Prosthetic Dentistry, Fort Drum, v.69, n.2, p. 141 - 143, Feb. 1993.

20- MEZZOMO, E. et al. Reabilitação Oral - para o clínico. Rio de Janeiro: Quintessence, 2ª ed, 1994. 561 p

21- MJÖR, I. A., HORSTED-BINDSLEV, P. Dentística Operatória Moderna. São Paulo: Santos, 3ª ed, 1999. 311 p.

22- MORAIS, P. M. et al. Quantitative microleakage evaluation around amalgam restorations with diferent treatments on cavity walls. Operative Dentistry, v.24, n.4, p.217-222, Jul-Aug. 1999.

23- PHILLIPS, R. W. Materiais dentários de Skinner. 10.ed. Rio de Janeiro : Interamericana, 1998. 412 p.

24- PODUCH-KOWALCZYK, M. B., MAREK, M., LAUTENSCHLAGER, E. P. Evaluation of key parameters in a potentiostatic corrosin test for dental amalgam. Dental Materials, v.15, n.6, p.397-402, Nov.1999.

25- SANTOS, J. F. F. Restaurações de Amálgama. 1ª ed . São Paulo: Santos, 1990. 95 p.

26- SEGURA, A., RIGGINS, R. Fracture resistance of four different restorations for cuspal replacement. J ournal of Oral Rehabilitation, v.26, n.12, p.928-931, Dec.1999.

27- SILVA, P.C.G. , SANTOS, A. Polimento imediato e mediato do amálgama: avaliação clínica e laboratorial. RGO, v.45, n.4, p.197-200, jul-ago. 1997.

28- SUÁREZ, C. L. Vernizes e forradores cavitários. In: O’Brien, J. W., RYGE, G. Materiais dentários. Rio de Janeiro : Interamericana, 1981. Cap.11, p.124-130.

29- ZANATA, R. L. Aspectos clínicos das restaurações de amálgama. São Paulo: Faculdade de Odontologia de Bauru - USP, 1993. 65p. ( Monografia, Mestrado em Odontologia, Dentística ).

Comentários


Páginas relacionadas